PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
APOSTILA – 1º TRIMESTRE – 1º ANO
O estudo da natureza na Antiguidade e na Idade Média
Neste capítulo, você conhecerá a trajetória percorrida por vários pensadores para compreender o significado filosófico de natureza. Começará pelos que viveram na Grécia antiga e estudará, em seguida, as ideias dos filósofos medievais. Na Antiguidade, os pensadores gregos conhecidos como pré-socráticos investigavam a natureza buscando o princípio de todas as coisas. Aristóteles, já no período socrático, preocupou-se com o tema, considerando problemas da física e da astronomia. Séculos mais tarde, na Idade Média, seu pensamento foi retomado, e seus intérpretes estavam entre os filósofos cristãos e islâmicos.
O estudo da natureza na Grécia antiga
No século VI a.C., a natureza foi o centro das investigações dos primeiros filósofos gregos, também chamados de naturalistas. O principal questionamento desses pensadores era sobre o movimento.
Para os gregos, o conceito de movimento tinha um sentido amplo: podia significar mudança de lugar, aumento, diminuição, enfim, qualquer alteração substancial quando alguma coisa era gerada ou se deteriorava. Então, alguns se perguntavam: “Por que, apesar de toda mudança, há algo na realidade que sempre permanece igual?”. Assim, na multiplicidade das coisas, eles buscavam a identidade, ou seja, um princípio original e racional (em grego, arkhé). Nesse contexto, o termo princípio pode ser entendido como “origem” ou “fundamento”.
Note como a filosofia nasceu de um problema, de uma indagação nova, com base na qual os pensadores procuraram ultrapassar o já sabido. Por isso, ela promoveu uma ruptura com o mito, narrativa cujo conteúdo não se questionava, ao passo que a filosofia problematiza e convida à discussão, pois rejeita explicações fundamentadas no sobrenatural. Por outro lado, busca a coerência interna e a definição rigorosa de conceitos, organizando-os em um pensamento abstrato.
Para estudar a natureza na Grécia antiga, é imprescindível tratar também do pensamento de Aristóteles, que viveu no período clássico da filosofia, posterior ao dos primeiros filósofos.
Imagens em contexto
Arikba, a mulher de Makunaimî,
pintura de Jaider Esbell, 2020.
O artista indígena Jaider Esbell, da etnia Macuxi, teve uma produção destacada pela conexão com os valores de seu povo. Na tela Arikba, por exemplo, a manifestação de força e multiplicidade da natureza e a representação humana imersa nessa multiplicidade denotam uma perspectiva que integra o ser humano ao meio ambiente.
No mapa, são indicados os locais onde nasceram ou se estabeleceram os filósofos da Grécia antiga mencionados neste capítulo.
Fonte: ABRÃO, Bernadete Siqueira et al. História da Filosofia: da Antiguidade aos pensadores do século XXI. São Paulo: Moderna, 2008. p. 17.
Pré-socráticos
A filosofia grega antiga corresponde a um longo período, que começou por volta do século VI a.C. e se estendeu até o século II d.C. Os primeiros filósofos foram chamados de pré-socráticos por conta de uma classificação posterior da filosofia antiga, que destacou a figura de Sócrates, representante do pensamento clássico, o qual antecedeu e influenciou dois grandes filósofos: Platão e Aristóteles.
Perdeu-se grande parte das obras dos primeiros filósofos, restando apenas fragmentos e comentários feitos por pensadores posteriores, ou seja, pela doxografia. O foco de suas reflexões era a natureza, por isso são conhecidos como naturalistas, ou filósofos da physis (termo grego para “mundo físico”, “natureza”). Sabemos também que geralmente escreviam em prosa, abandonando a forma poética característica das epopeias, dos relatos míticos.
Quais foram as novidades apresentadas pelos primeiros filósofos? Até então, as explicações sobre a origem e a ordem do mundo tinham como base narrativas transmitidas
pelos poemas atribuídos a Homero e a Hesíodo, que constituíam cosmogonias (mitos criados para explicar a origem do universo). Nesse novo momento, em vez de explicar a ordem cósmica pela interferência divina, os primeiros filósofos buscavam respostas por meio da razão. Portanto, as respostas às questões tornaram-se cosmológicas – palavra que deriva do termo grego lógos, “razão”, denotando o predomínio da explicação argumentativa.
Dissemos que os pré-socráticos buscavam o princípio de todas as coisas, mas que, por pensarem de modo autônomo, divergiam entre si a respeito do que seria tal princípio. Os mais antigos filósofos viveram na Jônia e, posteriormente, na Magna Grécia. Costuma-se classificá-los como monistas ou pluralistas, conforme o número de elementos constitutivos das coisas definido por eles.
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1. Consulte o mapa e identifique onde nasceram os filósofos Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Pitágoras, Heráclito e Parmênides.
2. Esses filósofos fazem parte de que período da filosofia grega antiga?
3. Em que as investigações deles coincidiam e em que divergiam?
CONCEITOS
Doxografia: do grego dóxa, “opinião”, e gráphein, “escrever”; compilação de doutrinas, princípios e ideias de pensadores.
Doxógrafos são aqueles que coletam, compilam e comentam textos filosóficos gregos.
Filósofos monistas
Os primeiros filósofos pré-socráticos, como Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Pitágoras, Heráclito e Parmênides, que viveram entre os séculos VI a.C. e V a.C., ficaram conhecidos como monistas, porque identificaram apenas um elemento constitutivo de todas as coisas.
Tales: o princípio é a água
Tales de Mileto é considerado o primeiro filósofo e um dos “sete sábios da Grécia”. Foi também o matemático responsável por transformar em conhecimento científico o saber empírico da geometria prática dos egípcios, além de ter calculado a altura de uma pirâmide comparando a sombra dela com a sombra de uma estaca de madeira. Como astrônomo, teria previsto um eclipse solar.
Talvez por ter conhecido as cheias do Rio Nilo, intuiu que a água devia ser o princípio de tudo, por estar ligada à vida e à germinação, mas também à decomposição e à putrefação. Por considerar a água um “deus inteligente”, concluiu que “todas as coisas estão cheias de deuses”. Como não restou nada do que escreveu, nem todos os relatos a respeito dele são confiáveis.
Anaximandro: o princípio é o Indeterminado
As ideias de Anaximandro representaram um avanço em relação às de seu contemporâneo Tales, por não se relacionarem a um princípio material como a água, mas ao ápeiron (termo grego que significa “indeterminado”, “ilimitado”), o qual teria dado origem a todos os seres materiais. Desse modo, Anaximandro concluiu que esse princípio indeterminado não poderia ser conhecido pelos sentidos, mas pelo pensamento. Para explicar a mudança, ele
recorreu à luta dos contrários.
A respeito disso, comentou a professora Marilena Chaui:
Como surge o mundo? Por um movimento circular turbilhonante que irrompe em diversos pontos do ápeiron. Nesse movimento, separam-se do ilimitado-indeterminado as duas primeiras determinações ou qualidades: o quente e o frio, dando origem ao fogo e ao ar; em seguida, separam-se o seco e o úmido, dando origem à terra e à água. Essas determinações combinam-se ao lutar entre si e os seres vão sendo formados como resultado dessa luta, quando um dos contrários domina os outros. O devir é esse movimento ininterrupto da luta entre os contrários e terminará quando forem todos reabsorvidos no ápeiron.
CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 52. v. 1.
Anaxímenes: o princípio é o ar
De acordo com Anaxímenes, o princípio é o ar, o qual, por meio da rarefação e da condensação, faz nascer e transforma todas as coisas. Para o filósofo, o ar é mais do que o aspecto físico de um elemento. O termo grego para designá-lo é pneuma, que também significa “respiração”, “sopro de vida”, “espírito”. Segundo um fragmento atribuído ao filósofo, “Como nossa alma, que é ar, nos governa e sustém, assim também o sopro e o ar abraçam todo o cosmo”.
CONCEITO
Devir: conceito filosófico que indica o fluxo contínuo que transforma a realidade.
Composição produzida pela Nasa mostrando as constelações Ursa Maior (na parte inferior da imagem) e Ursa Menor (na parte superior da imagem). Esta última foi incorporada à cultura grega como apoio à navegação graças aos estudos de Tales.
Pitágoras: o número é harmonia
Para Pitágoras, filósofo que se estabeleceu na Magna Grécia e foi contemporâneo de Anaxímenes, o número, entendido como harmonia e proporção, seria o princípio de tudo. Portanto, o número representaria uma estrutura racional. Quase nada se sabe sobre Pitágoras e suas obras, mas há documentos sobre a Escola Pitagórica, a qual, além de estudos de matemática e música, mantinha uma doutrina de cunho filosófico-religioso restrita a adeptos.
Herdeira do orfismo, essa escola representou uma sensível mudança na religiosidade grega, até então centrada na tradição homérica e no culto aos deuses do Olimpo. A diferença ocorreu na passagem para um culto voltado para a interioridade, que admitia a imortalidade das almas, a transmigração destas e sua superioridade em relação aos corpos, o que exigia um conjunto de práticas de austeridade, autocontrole e purificação. Desse modo, a Escola Pitagórica não tratou apenas dos aspectos físicos dos princípios do cosmo, mas construiu uma filosofia para orientar determinado modo de vida.
CONCEITO
Orfismo: religião fundamentada nos mistérios relacionados ao poeta Orfeu – que, de acordo com a mitologia grega, desceu ao mundo dos mortos – e no culto a Dioniso – um dos mais importantes deuses gregos.
Heráclito e Parmênides
Vários dos pré-socráticos citados, como Tales e Pitágoras, foram fundamentais para a história da filosofia e ainda despertam o interesse de estudiosos e leigos. No entanto, optamos por destacar Heráclito e Parmênides em razão da influência que exerceram nos pensadores posteriores, principalmente em Platão e Aristóteles. Essa importância decorre da maneira rigorosa com a qual eles propuseram e discutiram algumas questões, como a que envolve o movimento ou a imobilidade e a que se relaciona à multiplicidade ou à unidade do ser.
Heráclito: tudo flui
Heráclito procurou compreender a multiplicidade do real. Diferentemente de seus contemporâneos – como Parmênides –, ele não rejeitava as contradições e queria apreender a realidade em sua mudança, em seu devir. Todas as coisas mudam sem cessar, e o que temos diante de nós em dado momento é diferente do que foi há pouco e do que será depois.
Para Heráclito, o ser é o múltiplo, não apenas no sentido de que há uma multiplicidade de coisas, mas por ser constituído de oposições. O que mantém o fluxo do movimento não é o simples aparecer de novos seres, mas a luta dos contrários, pois, como afirma em um de seus conhecidos fragmentos, “A guerra é pai de todos, rei de todos”. É da luta que nasce a harmonia, como síntese dos contrários.
Para ele, o dinamismo de todas as coisas pode ser explicado pelo fogo primordial, expressão visível da instabilidade e símbolo da eterna agitação do devir, identificado como um fogo eterno e vivo que ora se acende, ora se apaga.
Imagens em Contexto
Rio Formoso em Chapadão do Céu, no estado de Goiás. Fotografia de 2022.
Segundo Heráclito, nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, pois suas águas estão em constante fluxo e nós, em contínua mudança.
Parmênides: a imobilidade do ser
Busto de Parmênides datado do século I d.C. A escultura foi descoberta na década de 1960 em Velia, no sul da Itália, região da antiga Eleia.
Parmênides atuou na cidade de Eleia; por isso, ficou conhecido como filósofo eleata. Porém, de acordo com alguns estudiosos, foi Xenófanes, contemporâneo de Parmênides, o fundador da Escola Eleática, caracterizada pela teoria da imobilidade do ser.
Além de suas críticas à religião pública e às convenções, Xenófanes era reconhecido pelo ceticismo, posição filosófica que coloca em questão a possibilidade do conhecimento. De passagem por Eleia, teria dado impulso ao pensamento de Parmênides. Sua importância decorre da guinada em busca do princípio de todas as coisas: para ele, as coisas são entes – elas são.
O filósofo espanhol Julián Marías explicou esse pensamento da seguinte forma:
As coisas [...] mostram aos sentidos múltiplos atributos ou propriedades. São coloridas, quentes ou frias, duras ou moles, grandes ou pequenas, animais, árvores, rochas, estrelas, fogo, barcos feitos pelo homem. Mas consideradas com outro órgão, com o pensamento (noûs), apresentam uma propriedade sumamente importante e comum a todas: antes de ser brancas ou vermelhas, ou quentes, são. São, simplesmente. Aparece o ser como uma propriedade essencial das coisas, [...] que só se manifesta para o noûs.
MARÍAS, Julián. História da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 26.
Com esse pressuposto, Parmênides criticou a filosofia de Heráclito, pois concluiu ser absurdo e impensável afirmar que uma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo. Conforme Parmênides, o ser é único, imutável, infinito e imóvel. À contradição, ele opôs o princípio segundo o qual “o ser é” e o “não ser não é”.
Não há como negar, entretanto, a existência do movimento no mundo. Segundo Parmênides, porém, o movimento existe apenas no mundo sensível, e a percepção pelos sentidos é ilusória, porque se apoia na opinião (em grego, dóxa) e, por isso, não é confiável. De acordo com ele, só o mundo inteligível é o caminho da verdade (em grego, alétheia).
Uma das consequências da teoria de Parmênides foi a concepção da ideia de identidade entre o ser e o pensar: ao pensarmos, pensamos em algo que é, e não conseguimos pensar em algo que não é. Desse modo, os eleatas abriram caminho para a ontologia (do grego óntos, “ser”, e lógos, “saber” – “o estudo do ser”), área da filosofia que se tornou objeto de estudo dos filósofos do período clássico.
Quadrinhos dos anos 10, tirinha de André Dahmer, 2016.
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1. Qual é o humor produzido pela tirinha de André Dahmer ao contrapor o primeiro e o terceiro quadrinhos?
2. Interprete a noção de opinião apresentada pela tirinha com base nas noções de dóxa e alétheia do filósofo Parmênides.
Filósofos pluralistas
Para os pré-socráticos pluralistas, o princípio não é único, como afirmavam os monistas, mas múltiplo. Os representantes mais significativos dessa tendência foram Empédocles, Anaxágoras, Leucipo e Demócrito. Todos eles viveram no século V a.C.
Empédocles: os quatro elementos
Terra, água, ar e fogo constituem os quatro elementos da teoria de Empédocles. De acordo com o filósofo, tudo o que existe deriva da mistura desses quatro elementos, que ele chama de “raízes” (rizómata), movidos pela força interna do amor e do ódio: enquanto o amor une, o ódio separa, num ciclo eterno de repetição.
Empédocles discorda, portanto, de Parmênides, para quem o ser é imóvel, e também critica a crença de conhecer algo apenas pelo pensamento, desprezando os sentidos. A teoria dos quatro elementos perdurou por muito tempo, até que, no século XVIII, Antoine Lavoisier (fundador da química moderna) mostrou que a água é formada por oxigênio e hidrogênio e que, portanto, trata-se de uma substância composta, e não de um elemento.
Anaxágoras: as sementes e o noûs
Anaxágoras foi mestre de Péricles, um dos mais notáveis políticos atenienses. Sustentava que o princípio de todas as coisas não é único, nem quádruplo, como dizia Empédocles, mas que elas são formadas por minúsculas partículas – as “sementes” (homeomerias ou spérmata) –, que foram ordenadas por um princípio inteligente, uma inteligência cósmica (noûs, em grego).
Por motivos controversos, talvez por ter sido o primeiro a defender a ideia da existência de um espírito superior que teria ordenado o cosmo e por se recusar a cultuar os deuses gregos, Anaxágoras foi preso e expulso de Atenas, sendo obrigado a abandonar a escola que fundou nessa cidade.
Como a teoria de Anaxágoras acrescentou às demais a concepção de um espírito ordenador, alguns teóricos contemporâneos identificam nela as origens do monoteísmo grego.
Aristóteles afirmou em Metafísica (livro I, capítulo III) que, entre todos os pré-socráticos, Anaxágoras se destacou por apresentar a concepção de uma inteligência ordenadora, em comparação aos que anteriormente “afirmaram coisas vãs”.
Imagens em contexto
Péricles e Anaxágoras, pintura de Nicolas Guy Brenet, século XVIII.
Na tela Péricles e Anaxágoras, Péricles aparece em pé, vestindo trajes militares e levantando o braço esquerdo, enquanto Anaxágoras está reclinado se descobrindo com a mão esquerda e, com a outra, aponta para uma lâmpada. Interpreta-se que Péricles, fazendo gestos que denotam seu poder político, tenta dissuadir o filósofo da decisão resignada de morrer após ter sido condenado.
Leucipo e Demócrito: os Átomos
Leucipo, fundador da Escola de Abdera, e Demócrito, seu principal seguidor, representam a corrente dos atomistas, para os quais o elemento primordial seria constituído por átomos – partículas indivisíveis, não
criadas, indestrutíveis e imutáveis.
De acordo com eles, os átomos são dotados naturalmente de movimento e, desse modo, as coisas são geradas e se corrompem em uma alternância sem fim, dependendo das diferentes maneiras de se agregarem. Conforme esses filósofos, a explicação de tudo depende, portanto, dos átomos, do vazio e do movimento. Não existe uma causa inteligente que organize o mundo, que resulte do encontro mecânico, “ao sabor do acaso”.
Leucipo limitou-se a tratar dos problemas cosmológicos, enquanto Demócrito se envolveu também com questões éticas, temática que adquiriu grande importância durante o período socrático, e por isso muitos estudiosos o consideram um filósofo de transição.
Demócrito entre os abderitanos, pintura de François-André Vincent, cerca de 1790. Demócrito é representado meditando, na parte esquerda da tela.
A cosmologia aristotélica
No período socrático ou clássico (séculos V e IV a.C.), o centro cultural grego deslocou-se das colônias da Jônia e da Magna Grécia para a cidade de Atenas, onde atuaram, além dos sofistas, Sócrates e seu discípulo Platão, que, por sua vez, foi mestre de Aristóteles. Esses filósofos continuaram os questionamentos sobre a natureza das coisas, ampliando os estudos de física e astronomia, e também estenderam suas indagações a outras áreas, como a moral e a política.
Agora, você vai conhecer um pouco do pensamento de Aristóteles, que nasceu em Estagira, na Macedônia, sendo, por isso, chamado de estagirita. Em Atenas, ele frequentou a Academia de Platão desde os 17 anos. Em 335 a.C., fundou sua própria escola, o Liceu, na mesma cidade. No século IV a.C., a reflexão filosófica já se encontrava amadurecida e sistematizada, em suas diversas áreas, com a contribuição de Aristóteles.
O estagirita criticou os filósofos que o antecederam – entre eles, Heráclito e Parmênides. Heráclito afirmava que tudo estaria em constante movimento. Aristóteles contestou essa ideia ao argumentar que em toda transformação há algo que muda e algo que permanece. Além disso, formulou o princípio lógico da não contradição, segundo o qual duas afirmações contraditórias não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Por exemplo: as afirmações “A é B” e “A não é B” são mutuamente excludentes. Assim, contrariando Heráclito, defendeu a ideia de que um ser não pode ser e não ser ao mesmo tempo. Do mesmo modo, criticou Parmênides, por ter afirmado que o ser é imóvel, reduzindo o movimento ao mundo sensível.
Aristóteles valorizou a observação, habilidade que desenvolveu ao estudar zoologia, e aperfeiçoou a lógica, instrumento intelectual para garantir rigor na argumentação. Além disso, construiu as bases da metafísica, campo da filosofia que trata do ser absoluto e dos primeiros princípios. Você estudará a seguir as concepções desse filósofo sobre a física e a astronomia.
CONCEITO
Sofistas: do grego sophistés, que significa “sábio”, “professor de sabedoria”. Posteriormente, o termo adquiriu sentido pejorativo ao denominar aqueles que usam suas habilidades argumentativas para enganar.
Teoria do lugar natural
Ao tratar de metafísica, Aristóteles recorreu à teoria dos quatro elementos de Empédocles (terra, água, ar e fogo) para demonstrar que os corpos estariam em constante movimento retilíneo em direção ao centro da Terra ou em sentido contrário.
Para isso, ele explicou que o movimento seria a transição do corpo em busca do estado de repouso em seu lugar natural. Esse lugar seria determinado pela essência de cada objeto: o lugar natural da água seria sobre a terra; o do ar, sobre a água; e o das chamas, acima do ar.
Aristóteles distinguiu características intrínsecas aos corpos pesados e aos corpos leves:
• corpos pesados (graves), como terra e água, tenderiam para baixo, pois esse seria seu lugar natural;
• corpos leves, como ar e fogo, tenderiam para cima.
Com base nessa teoria, o filósofo explicou a queda dos corpos. Segundo ele, um corpo cai porque sua essência é tender para baixo e seu movimento só é interrompido se algo impedir seu deslocamento. Enquanto o movimento natural é o da pedra que cai e o do fogo que sobe, o movimento violento (ou forçado) é o da pedra lançada para cima e o da flecha arremessada pelo arco, movimentos que dependem, durante sua duração, de algo que gere a ação, já que, suprimido o que produziu o movimento, este cessará.
Para os gregos, não haveria necessidade de explicar o repouso, pois a própria natureza do corpo o justificaria. O que precisaria ser explicado seria o movimento violento, porque, nesse caso, a ordem natural – de tudo tender ao repouso – seria alterada pela aplicação de uma força exterior.
Ilustração em corte da anatomia do caribu de solo estéril, criada para revista científica em 2018. Aristóteles
estudou a anatomia de mais de quinhentas espécies. Empregando o método de dissecação, descreveu os órgãos internos dos vertebrados investigados
Ilustração em corte da anatomia da tartaruga-gigante de Galápagos, criada para revista científica em 2018. Na zoologia, Aristóteles é considerado o “pai” da anatomia comparada, que estuda as diferenças anatômicas dos animais ao contrastá-las.
Sugestão
Podcast do PPGLM – Filosofia de Aristóteles (episódio 58) Produção: PPGLM/UFRJ. Brasil, 2022. 85 minutos. O podcast traz uma entrevista com o professor de filosofia Marco Zingano, que explica a questão do ser tal como ela foi abordada por Aristóteles. Para Aristóteles, haveria substâncias no mundo com propriedades inerentes, como a cor, o tamanho etc. Seu projeto consistia em repensar o problema do ser sob a forma de uma doutrina geral da substância.
Astronomia aristotélica
A observação do movimento dos astros é muito antiga. Povos como os babilônios já manifestavam interesse pelo assunto 2 ou 3 mil anos antes de Cristo, mas foram os gregos que, pela primeira vez, explicaram racionalmente o movimento dos astros e procuraram entender a natureza do cosmo.
Apesar de se enfatizar a razão, persistia ainda certa mística nas explicações, porque, ao associar a perfeição ao repouso, a cosmologia grega desenvolveu uma concepção estática do mundo. Diferentemente da física, na qual prevalecia a noção de movimento como imperfeição, essas explicações baseavam-se na ideia de que os corpos celestes seriam perfeitos e imóveis.
Os gregos definiam o círculo como forma perfeita, pois o movimento circular não tem início nem fim, volta sobre si mesmo e continua sempre, configurando um movimento sem mudança, diferente do movimento retilíneo dos corpos terrestres, considerados imperfeitos. Além disso, eles acreditavam que o universo era finito, limitado pela esfera do céu. Para eles, fora dessa esfera, não haveria lugar nem vácuo nem tempo.
Para Aristóteles, todo ser em movimento precisaria de uma força que o pusesse em ação, com exceção de Deus, que não se moveria, por ser eterno e separado do mundo. Como Primeiro Motor Imóvel, Deus determinaria o movimento da última esfera externa, a das estrelas fixas, transmitido por atrito às esferas contíguas, até a Lua, na última esfera interna. No centro estaria a Terra, imóvel.
Modelo geocêntrico e hierarquização do cosmo
Nas teorias astronômicas da Antiguidade e da Idade Média, prevaleceu o geocentrismo, modelo que concebe a Terra (em grego, gé; daí o prefixo geo-) como imóvel no centro do universo, tradição que teve início com Eudoxo, no século IV a.C., um dos discípulos de Platão. Tal teoria foi confirmada por Aristóteles e, mais tarde, por Cláudio Ptolomeu, já no século II d.C.
Outra característica importante na cosmologia aristotélica é a hierarquização do cosmo. Nela, a natureza do céu, por exemplo, é superior à da Terra. De acordo com essa perspectiva, o universo está dividido em mundo supralunar e mundo sublunar.
• Mundo supralunar. Constituído pelos céus, que incluem, nesta ordem, Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno e, finalmente, a esfera das estrelas fixas. Os corpos celestes são constituídos pelo éter (que não corresponde à substância química conhecida hoje), cuja natureza é cristalina, inalterável, imperecível, transparente e imponderável; por isso, é também chamado de “quinta-essência”, em contraposição aos quatro elementos. Os corpos celestes são incorruptíveis, perfeitos e não se transformam. O movimento das esferas é circular e, portanto, perfeito.
• Mundo sublunar. Corresponde à região da Terra. Embora imóvel, é o local dos corpos em constante mudança e, portanto, perecíveis, corruptíveis e sujeitos a movimentos imperfeitos, como o retilíneo para baixo e para cima. Os elementos constitutivos desse mundo são terra, água, ar e fogo.
Ilustração artística para fins didáticos representando o modelo geocêntrico de Aristóteles.
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1. De acordo com a ilustração que representa o modelo geocêntrico de Aristóteles, como o universo pode ser descrito?
2. No modelo geocêntrico aristotélico, em que posição estão a Terra e a esfera do Sol? Elas estão estáticas ou em movimento?
3. Na astronomia de Aristóteles, o que determina o movimento das esferas?
Considerações sobre a ciência aristotélica
Existem, no entanto, limitações na ciência aristotélica. Por um lado, em suas observações biológicas, Aristóteles alcançou resultados pertinentes por valorizar a indução. Por outro lado, em outras áreas de investigação, não recorreu à experimentação – procedimento para testar e provar teorias. Essa recusa da experimentação pode ser explicada pela resistência em utilizar técnicas manuais e pela valorização do saber puramente teórico por parte dos gregos.
A física aristotélica era qualitativa por ser construída sobre princípios que definiam as coisas, e dessas definições eram deduzidas as consequências. Apesar disso, os gregos não explicavam a física por meio da matemática. A única exceção foi Arquimedes, considerado o introdutor do método experimental rigoroso.
Ao procurar as causas, a ciência antiga desembocou na discussão sobre a essência dos corpos; por isso, é considerada filosófica, apoiada em princípios metafísicos e centrada na argumentação. Tal característica persistiria até a Revolução Científica, no século XVII.
CONCEITOS
Indução: procedimento utilizado para, com base em constatações particulares, chegar a proposições gerais.
Deduzidas: que resultam de dedução, análise lógica utilizada para construir argumentos com premissas – proposições que antecedem e conduzem a uma conclusão.
A ordem teleológica da natureza
Aristóteles define a ciência como conhecimento verdadeiro ou conhecimento pelas causas, por meio do qual é possível superar os enganos da opinião e compreender a natureza da mudança, do movimento. Ele explica o movimento (devir) pelo princípio da causalidade; desse modo, tudo o que se move é necessariamente movido por outro.
Para o filósofo, existem quatro causas: material, eficiente, formal e final. A causa material de uma escultura, por exemplo, é aquilo de que ela é feita (o mármore); a causa eficiente é o que dá impulso ao movimento (o escultor que a modela); a causa formal é aquilo que a escultura tende a ser (a forma que adquire); e a causa final é o propósito para o qual a escultura é feita (demonstrar a beleza, a devoção religiosa etc.).
Apesar de as quatro causas serem importantes, a causa final é preponderante nos tratados da física aristotélica, em decorrência da concepção metafísica que a fundamenta. A ordem da natureza é teleológica, ou seja, todos os seres têm um fim, um desígnio. Por exemplo, os seres vivos tendem a atingir a forma que lhes é própria e o fim a que se destinam, do mesmo modo que a semente tem em potência a árvore que vai se tornar, e as raízes adentram o solo com o fim de nutrir a planta.
Assim explica o professor Marco Zingano:
A teleologia, ou explicação por fins, é particularmente visível na biologia aristotélica. Pertence aos patos essencialmente a função de nadar. Por que eles têm os pés membranosos? Porque têm como fim nadar. O fim explica o meio. Em uma passagem premonitória, que se encontra no tratado Das partes dos animais,
Aristóteles critica Anaxágoras (c. 498-428 a.C.), pois este afirmava que o homem era o animal mais inteligente porque tinha mãos. A explicação é inversa, retruca Aristóteles: nós temos mãos porque somos os mais inteligentes. É porque somos racionais que a natureza nos deu as mãos. O fim é dado antes e determina o meio. [...] No entanto, Anaxágoras estava certo; Aristóteles, errado.
ZINGANO, Marco. Platão e Aristóteles: o fascínio da filosofia. São Paulo: Odysseus, 2002. p. 96. (Coleção Imortais da ciência).
A concepção teleológica permaneceu aceita até o século XIX, quando foi descartada em razão das descobertas da teoria evolucionista de Charles Darwin, fundamentada nas variações das espécies por meio do acaso e da seleção natural. De acordo com a noção de seleção natural proposta por Darwin, em uma mesma espécie, indivíduos com características hereditárias mais favoráveis à adaptação ao ambiente tornam-se mais comuns em gerações sucessivas da população.
O estudo da natureza na Idade Média
A Grécia foi conquistada pelos macedônios em 338 a.C. Teve início, então, o período helenista (palavra derivada de heleno, nome pelo qual os gregos eram identificados), em que a cultura grega foi levada para pontos distantes, ao mesmo tempo que recebia influências orientais no Ocidente.
Nesse período, no norte do Egito, em Alexandria, foi fundado um avançado centro de estudos constituído por escolas de diversas ciências, com destaque para matemática, mecânica e astronomia. As principais referências nessas áreas foram os gregos Euclides, Arquimedes e Ptolomeu, em diferentes momentos, até o século III d.C.
Com a queda do Império Romano do Ocidente em 476 – acontecimento que convencionalmente demarca o início da Idade Média –, a cultura greco-romana foi preservada nos mosteiros por monges cristãos. Foi, porém, adaptada a critérios religiosos, pois a fé católica se impôs como elemento agregador nos numerosos reinos formados após sucessivas invasões de povos não romanos.
Destacou-se a influência de Aristóteles, que, convém lembrar, reforçou a concepção qualitativa da física, não alcançando o nível da experimentação, a qual consiste em testar e provar hipóteses. Em caminho similar, a ciência medieval, por valorizar o conhecimento teórico em detrimento das atividades práticas, continuou voltada para a discussão racional e permaneceu desligada da técnica e da pesquisa empírica, apesar de raras exceções, pouco aproveitando a herança helenista de Alexandria. Além disso, vale destacar que a astronomia geocêntrica defendida por Aristóteles permaneceu como a última palavra durante toda a Idade Média.
Houve, assim, pouca disposição para incorporar a experimentação e a matemática nas ciências da natureza, mesmo porque os recursos disponíveis ainda eram incipientes para que se procedesse à matematização do mundo físico.
Os instrumentos disponíveis eram rudimentares. Não havia sido inventado qualquer aparato para determinar a temperatura ou ampliar a visibilidade, e os dispositivos utilizados para medir o tempo não eram rigorosos, restringindo--se a ampulhetas, clepsidras (relógios de água) e relógios de Sol.
Página de manuscrito medieval da obra Física, de Aristóteles. A página destaca o texto em latim no centro com o texto em grego nas margens. O selo no topo da página indica que o exemplar pertence à Biblioteca Apostólica Vaticana.
SUGESTÃO
FILME: ALEXANDRIA
Direção: Alejandro Amenábar. Espanha, 2009. 126 minutos. Alexandria conta a história da filósofa Hipátia, que lecionou filosofia, matemática e astronomia em Alexandria, entre os séculos IV e V. O filme destaca o importante papel ocupado por uma mulher em um ambiente fortemente marcado pela presença masculina.
Exceção à tradição medieval: a Escola de Oxford
As questões religiosas afastavam filósofos de indagações sobre a natureza, mas algumas posições divergentes indicam pontos de ruptura que prepararam, de certo modo, a crise do modelo científico da tradição greco-medieval. Essas divergências podem ser compreendidas pela revitalização dos centros urbanos e pela expansão do comércio: a economia capitalista emergente iria necessitar de outro saber, mais prático e menos contemplativo.
De importância notável foram as universidades, que começaram a despontar no século XII, como a de Paris, na França, e a de Oxford, na Inglaterra.
A Escola de Oxford era constituída por frades franciscanos que eram acadêmicos da Universidade de Oxford; entre eles, Robert Grosseteste, Roger Bacon e, mais tarde, Guilherme de Ockham, os quais representaram a renovação da filosofia e das ciências medievais.
Grosseteste: a mentalidade científica
De acordo com alguns autores, a reintrodução das obras de Aristóteles – traduzidas pelos árabes – e de muitas outras no Ocidente deveu-se a Robert Grosseteste e a seus seguidores.
Grosseteste viveu na Inglaterra e estimulou a mentalidade científica experimental na primeira metade do século XIII. Como professor em diversas universidades, ensinou matemática e ciência natural e escreveu textos sobre astronomia, som e óptica, campo em que desenvolveu uma teoria original sobre a luz. É interessante observar a questão do intercâmbio com cientistas árabes, como ocorreu ao consultar trabalhos do iraquiano Al-Haytham, que vivera no século XI, para discutir detalhes do comportamento de raios luminosos. Ele também estimulou a pesquisa, classificou as ciências e esboçou os passos do procedimento científico, como observação, levantamento de hipóteses e sua confirmação. Analise uma breve descrição de Grosseteste sobre lentes de aumento e de diminuição:
Essa parte da óptica, quando bem entendida, nos mostra como podemos fazer com que coisas situadas
a grandes distâncias pareçam estar muito perto e coisas grandes e próximas pareçam muito pequenas, e como podemos fazer pequenas coisas colocadas a distância parecerem tão grandes quanto quisermos, de tal forma que nos é possível ler as menores letras a uma distância incrível, ou contar areia, grãos ou sementes ou qualquer espécie de objetos diminutos.
GROSSETESTE, Robert. Sobre o arco-íris ou sobre refração e reflexo. In: RONAN, Colin. História ilustrada da ciência da Universidade de Cambridge: Oriente, Roma e Idade Média. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. p. 140. v. 2.
EXPLORE – RESPONDA NO CADERNO.
1. Na citação de Grosseteste, as lentes de aumento auxiliam em que situações concretas?
2. Explique como essa citação está de acordo com a mentalidade científica.
Universidade de Oxford, Reino Unido. Fotografia de 2022. Essa universidade, fundada entre o fim do século XI e o início do século XII, foi berço da chamada Escola de Oxford.
Bacon: a importância da experimentação
Roger Bacon, principal discípulo de Grosseteste em Oxford, lecionou para frades franciscanos e foi seguidor entusiasmado do mestre. Aplicou o método matemático à ciência da natureza e realizou diversas tentativas para torná-la experimental, sobretudo no campo da óptica.
Bacon foi crítico severo daqueles que colocavam obstáculos às experiências que começavam a ser realizadas, acusando-os de autoridade fraca, apoiada em hábitos antigos, de falta de instrução e de encobrirem a ignorância ao aparecerem como sábios. Nessas ocasiões, explicitou que, além da experiência mística, que é interior, existe a experiência realizada com o auxílio de instrumentos e voltada à busca de precisão, que depende do uso da matemática.
Esse reconhecimento da experimentação não se concretizou de fato na época de Bacon, pois apenas faria sentido no século XVII, quando ocorreu a Revolução Científica. Do mesmo modo, é pouco provável que suas experiências com lentes o tivessem levado a criar o telescópio, em razão da inadequação das lentes disponíveis naquele período.
Bacon travou diversos conflitos com o frei Boaventura, superior de sua ordem, em virtude de suas pesquisas em alquimia e astrologia, tidas como “novidades perigosas”. Temia-se também a influência grega sobre suas teorias, porque, além de a cultura da Grécia antiga ser considerada pagã, o pensamento de Aristóteles e a adequação dele à fé realizada por Tomás de Aquino ainda não haviam sido divulgados. Com crescente impopularidade entre os frades, Bacon acabou preso por alguns anos.
Apesar de argumentar que “ver com seus próprios olhos” não seria incompatível com a fé, não conseguiu demover os medievais da desconfiança gerada por qualquer tipo de experimentação.
SUGESTÃO
FILME: O nome da rosa
Umberto Eco. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.
O enredo desse romance, ambientado em um mosteiro italiano em 1327, narra as investigações conduzidas pelo frade Guilherme de Baskerville e pelo noviço Adso de Melk. Para efetuar essas investigações, ambos utilizam princípios racionais e evidências retiradas da experiência.
Fotograma do filme O nome da rosa, dirigido por Jean –Jacques Annaud, 1986.
O filme de Jean-Jacques Annaud é uma adaptação do romance homônimo de Umberto Eco, em que o personagem Guilherme de Baskerville (na imagem, com a vestimenta cinza) é inspirado no filósofo Guilherme de Ockham.
Ockham: a separação entre fé e razão
Quanto a Guilherme de Ockham, os aspectos principais de seu pensamento consistiam na valorização da experiência e do conhecimento dos seres individuais, na recusa de abstrações metafísicas e na defesa da separação entre fé e razão.
Segundo o filósofo:
Os artigos de fé não são princípios de demonstração nem conclusões, e nem mesmo prováveis, já que parecem falsos para todos, ou para a maioria ou para os sábios, entendendo por sábios os que se entregam à razão natural, já que só de tal modo se entende o sábio na ciência e na filosofia.
OCKHAM, Guilherme de. In:REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: patrística e escolástica. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2005. p. 299. v. 2.
Separar o plano da razão e o da fé não significava desprezar a existência de Deus, mas recusar a pretensão da razão de demonstrar verdades que só devem ser acessíveis pela fé. Ockham opunha-se tanto às abstrações metafísicas de Aristóteles quanto às adequações cristãs levadas a cabo por Tomás de Aquino.
Ao recusar abstrações metafísicas, por serem dispensáveis, o filósofo tornou-se conhecido pela expressão “navalha de Ockham” ou “princípio da economia”. De acordo com esse princípio, devem ser eliminados, em virtude de sua inutilidade, pressupostos ou postulados admitidos sem necessidade. Ao repelir abstrações inúteis, o pensamento de Ockham estava de acordo com a nova visão de ciência, primando pela experiência.
Do ponto de vista político, Guilherme de Ockham era contra a interferência da Igreja em assuntos seculares e defendia a autonomia do poder civil em relação ao poder religioso. Acusado de heresia, Ockham refugiou-se no palácio do imperador Ludovico da Baviera, que, segundo consta, teria dito a ele: “Tu defendes minha espada, eu defendo tua pena [de escrever]”, em que a espada representa o poder secular e a pena, a liberdade de expressão.
Alquimistas: o prelúdio da química
A alquimia surgiu de especulações de artesãos metalúrgicos. Sua origem remonta tanto à China quanto ao Egito. Na Escola de Alexandria, ela teria surgido por volta do século III. No entanto, a denominação de alquimia e alambique – um de seus instrumentos – tem origem árabe, até porque eles foram seus grandes divulgadores, como será explicado no próximo tópico.
Apesar da intolerância religiosa contra essa prática, ela se tornou muito conhecida no Ocidente cristão no século XIII. A alquimia foi responsável pelo desenvolvimento de noções sobre ácidos e seus derivados, pela descoberta de novas substâncias químicas, pelo processo para a extração de mercúrio e pelas fórmulas para preparar vidro e esmalte, procedimentos que mais tarde fariam parte da química.
Contudo, o saber oficial sempre desdenhou essa atividade, por estar vinculada às práticas manuais, além de seus aspectos misteriosos. As técnicas descobertas eram guardadas em segredo, e os documentos, de difícil leitura, envoltos em aura mística. Muitas vezes as explicações teóricas antropomórficas conferiam às substâncias inorgânicas características de seres humanos, como se fossem compostos de corpo e alma.
Os alquimistas acreditavam na transmutação, isto é, na transferência do espírito de um metal nobre para a matéria de metais comuns. Surgiu daí a busca da “pedra filosofal”, que permitiria transformar qualquer substância em ouro. A procura do “elixir da longa vida” foi outro projeto da alquimia medieval. Para a Igreja, essas práticas tinham um caráter herético e foram proibidas pelo papa João XXII, em 1317. A Inquisição perseguia os infratores com rigor e muitas vezes os condenava à fogueira sob acusação de bruxaria.
Mesmo com os aspectos místicos e as proibições da Igreja, não se pode negar a importância da alquimia na descoberta de substâncias químicas e no desenvolvimento de técnicas de laboratório que exigiam instrumentos experimentais úteis, como a bomba de água e o aperfeiçoamento de métodos de destilação.
Ciência inútil ou o alquimista, pintura de Remedios Varo, 1958. Nessa tela surrealista, o piso do laboratório se transforma em vestimenta, em referência ao trabalho dos alquimistas medievais, que acreditavam na transmutação da matéria.
TRABALHO COM FONTES
A importância da experiência para Guilherme de Ockham
Os textos a seguir se referem a aspectos da teoria do conhecimento de Guilherme de Ockham. No primeiro, extraído do romance O nome da rosa, de Umberto Eco, lemos algumas falas do protagonista, um frade franciscano chamado Guilherme de Baskerville, com seu pupilo Adso de Melk (o narrador) sobre um tipo de observação semelhante àquela que se tornou relevante para a noção de ciência experimental. No segundo texto, a professora italiana Paola Müller explica a importância da experiência direta para a construção do conhecimento, segundo a teoria de Ockham.
TEXTO-1
“Diante de alguns fatos inexplicáveis, deves tentar imaginar muitas leis gerais, em que não vês ainda a conexão com os fatos de que estás te ocupando: e de repente, na conexão imprevista de um resultado, um caso e uma lei, esboça-se um raciocínio que te parece mais convincente do que os outros. Experimentas aplicá-lo em todos os casos similares, usá-lo para daí obter previsões, e descobres que adivinhaste. Mas até o fim não ficarás nunca sabendo quais predicados introduzir no teu raciocínio e quais deixar de fora. E assim faço eu agora. Alinho muitos elementos desconexos e imagino as hipóteses. Mas preciso imaginar muitas delas, e numerosas delas são tão absurdas que me envergonharia de contá-las. Vê, no caso do cavalo Brunello, quando vi as pegadas, eu imaginei muitas hipóteses complementares e contraditórias: podia ser um cavalo em fuga, podia ser que montado naquele belo cavalo o abade tivesse descido pelo declive, podia ser que um cavalo Brunello tivesse deixado os sinais sobre a neve e um outro, cavalo Favello, no dia anterior, as crinas na moita, e que os ramos tivessem sido partidos por homens. Eu não sabia qual era a hipótese correta até que vi o despenseiro e os servos que procuravam ansiosamente. Então compreendi que a hipótese de Brunello era a única boa, e tentei provar se era verdadeira, apostrofando os monges como fiz. Venci, mas também poderia ter perdido. Os outros consideraram-me sábio porque venci, mas não conheciam os muitos casos em que fui tolo porque perdi, e não sabiam que poucos segundos antes de vencer, eu não estava certo de não ter perdido.
Agora, nos casos da abadia, tenho muitas belas hipóteses, mas não há nenhum ato evidente que me permita dizer qual seja a melhor. E então, para não parecer tolo mais tarde, renuncio a ser astuto agora. Deixa-me pensar mais, até amanhã, pelo menos.”
Entendi naquele momento qual era o modo de raciocinar do meu mestre, e pareceu-me demasiado diferente daquele do filósofo que raciocina sobre os princípios primeiros, tanto que o seu intelecto assume quase os modos do intelecto divino. Compreendi que, quando não tinha uma resposta, Guilherme se propunha muitas delas e muito diferentes entre si. Fiquei perplexo.
“Mas então”, ousei comentar, “estais ainda longe da solução...”
“Estou pertíssimo”, disse Guilherme, “mas não sei de qual.”
“Então não tendes uma única resposta para vossas perguntas?”
“Adso, se a tivesse ensinaria teologia em Paris.”
“Em Paris eles têm sempre a resposta verdadeira?”
“Nunca”, disse Guilherme, “mas são muito seguros de seus erros.”
“E vós”, disse eu com impertinência infantil, “nunca cometeis erros?”
“Frequentemente”, respondeu. “Mas ao invés de conceber um único erro, imagino muitos,
assim não me torno escravo de nenhum.”
ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. p. 350-351.
CONCEITOS
Predicados: no contexto, refere-se a elementos que podem fortalecer ou enfraquecer o raciocínio e que devem ser ou considerados ou deixados de lado.
Apostrofando: interpelando, dirigindo a palavra a alguém com o intuito de obter alguma explicação.
TEXTO-2
A rigorosa defesa da singularidade do real, do indivíduo como única realidade concreta, a tendência a fundamentar a validade do conhecimento sobre a experiência direta, a formulação e aplicação do princípio de economia, e ainda a separação entre o âmbito da experiência religiosa e o âmbito do saber racional, isto é, entre a fé e a razão, levaram Ockham a afirmar a autonomia e a independência do poder civil ante o espiritual e a exigir uma profunda transformação dentro da Igreja. [...]
Partindo do Comentário às sentenças, a primeira e fundamental obra de Ockham, podem ser encontradas as suas principais doutrinas filosóficas e teológicas. A primeira questão do “Prólogo” – “se a inteligência do homem, ainda não admitido à visão beatífica, pode ter um conhecimento evidente da verdade teológica” – permite enfrentar o problema do conhecimento.
O conhecimento humano, que tem origem no contato, direto ou indireto, com um dado da experiência, pode ser intuitivo ou abstrativo. O conhecimento intuitivo, segundo Ockham, indica o ato da intuição intelectiva, graças ao qual o intelecto se põe em contato com a realidade, referindo-se imediatamente à existência de um ser concreto. Tal conhecimento permite formular juízos de existência relativamente aos objetos conhecidos; é a apreensão imediata de um existente concreto e singular. Por exemplo, eu apanho intuitivamente um livro da escrivaninha e posso afirmar: “O livro existe”. Isso implica que o conhecimento intuitivo precede qualquer outra forma de conhecimento e constitui inclusive a sua fonte. De fato, [...] não é possível ter ulteriores conhecimentos com respeito a um objeto, se antes não se teve conhecimento dele. O conhecimento intuitivo, que se refere tanto à realidade extramental quanto aos atos psíquicos, pode ser perfeito, quando tem por objeto uma realidade atual e presente, ou imperfeito, quando examina uma proposição ou objeto em relação ao passado, não implicando, pois, a presença atual do objeto conhecido. Além disso, o conhecimento pode ser sensível ou intelectual: o intelecto pode conhecer intuitivamente, sejam as realidades singulares que são objeto do conhecimento sensível – visto que, se não as conhecesse, não poderia formular nenhum juízo determinado –; sejam os próprios atos e todos os movimentos imediatos do espírito, como o prazer e a dor. [...]
Qual é, porém, o objeto primeiro do intelecto? Ockham afirma que o primum cognitum pode ser entendido de três maneiras: relativamente à prioridade de origem, com respeito à prioridade da adequação e em relação à prioridade de perfeição.
O objeto primeiro do intelecto quanto à origem é o singular, que é primariamente captado através da intuição. O conhecimento intuitivo, que precede qualquer outro conhecimento, inicia com uma intuição do particular. [...]
O objeto primeiro com respeito à adequação, isto é, à capacidade de um conceito de ser comum ao conjunto dos inteligíveis, é o ente, como conceito unívoco generalíssimo. A noção de ente permite ao intelecto entrar em contato com os demais objetos conhecíveis, sem que isso implique o necessário conhecimento de cada inteligível por parte do intelecto. [...]
O objeto primeiro do intelecto quanto à perfeição é Deus. [...]
MÜLLER, Paola. Introdução. In: OCKHAM, Guilherme de.
Lógica dos termos. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999. p. 17-19. (Coleção Pensamento franciscano).
ATIVIDADES - RESPONDA NO CADERNO.
1. Na obra ficcional do escritor Umberto Eco, qual seria a orientação de Guilherme de Baskerville no que diz respeito à ciência, tendo em vista o que estudamos no capítulo? Aponte semelhanças entre o pensamento do personagem e as teorias do filósofo Guilherme de Ockham expressas no segundo texto.
2. Guilherme de Baskerville responde a seu discípulo Adso de Melk que, se tivesse certezas, lecionaria teologia em Paris. Trata-se de uma ironia do franciscano. Explique por quê.
3. Como a noção de experiência aparece no texto de Paola Müller sobre o conceito de conhecimento intuitivo? Explique.
4. Em sua opinião, os modos de pensar de Guilherme de Baskerville e de Guilherme de Ockham estão mais próximos do que hoje se entende por ciência?
Argumente para justificar sua resposta.
As contribuições árabes e islâmicas
Os árabes exerceram longa e fecunda influência na Europa, e seu legado cultural, que teve início com a conquista de vastos territórios europeus a partir do século VIII, até hoje pode ser constatado. No entanto, vale a pena examinar como, anteriormente, os europeus que estiveram no Oriente conseguiram disseminar a cultura grega.
A difusão da cultura grega no Oriente ocorreu em virtude da expansão do Império de Alexandre Magno no século IV a.C., pelo fato de seus exércitos terem chegado até a Índia. Após a morte precoce de Alexandre, seus sucessores criaram reinos no Egito, na Síria e na Pérsia, que constituíram polos de difusão da língua e da cultura gregas.
Posteriormente, já no período do fortalecimento do cristianismo na Europa, a perseguição aos hereges – por discordarem da ortodoxia cristã – fez com que muitos deles se refugiassem na Síria e na Mesopotâmia, o que ocorreu cerca de mil anos depois do reinado de Alexandre. Alguns criaram núcleos de estudo de filosofia e ciência gregas, bem como difundiram a língua grega, o que foi importante para muitos intelectuais árabes.
Até aqui abordamos a presença europeia no mundo árabe; passemos, agora, a tratar da influência árabe na Europa – para tanto, é importante mencionar o islamismo e sua cultura.
CONCEITO
Árabes: no contexto, o termo pode se referir tanto aos povos que habitaram a Península Arábica quanto à cultura muçulmana constituída em torno da língua árabe.
Islâmicos na Europa
A religião islâmica foi fundada no século VII, na Península Arábica, pelo profeta Maomé. Os califas, seus seguidores, expandiram o islamismo por diversas regiões do Oriente Médio e, depois, em todo o Norte da África, para então alcançar Portugal e Espanha, na Península Ibérica, no início do século VIII.
Naquele período, a Espanha era um reino dominado pelos visigodos, grupo de origem germânica que se encontrava enfraquecido internamente e não contava com o apreço da população nativa, circunstância que favoreceu a conquista islâmica do novo território. Do Norte da África, os muçulmanos entraram pelo Estreito de Gibraltar e foram conquistando o território com relativa rapidez, até se estabelecerem em Córdoba, escolhida em 756 como capital do Império hispano-muçulmano de Al-Andaluz – hoje, Andaluzia.
Assim explica o professor José Silveira da Costa:
O saneamento financeiro e a integração sociocultural de cristãos, árabes e judeus promoveram um desenvolvimento extraordinário tanto da economia quanto da cultura. O dirham cordobês tornou-se a moeda mais forte da Europa medieval, e a indústria artesanal e de construção foi totalmente dominada pelos árabes de Al-Andaluz. Tal fato é comprovado pelos vocábulos de origem árabe ainda hoje presentes no português e no espanhol designando ofícios e partes das habitações como, por exemplo, alfaiate, almoxarife, alcova, saguão etc.
COSTA, José Silveira da. Averróis: o aristotelismo radical. São Paulo: Moderna, 1994. p. 8. (Coleção Logos).
Vale dizer que o saneamento financeiro e a integração sociocultural entre cristãos, árabes e judeus ocorreram em razão da reforma monetária e da política de tolerância religiosa no convívio das três religiões: cristianismo, islamismo e judaísmo.
A chamada reconquista cristã se deu no período entre o século XI e o século XV, na medida em que os reis cristãos do norte da Península Ibérica pressionaram pouco a pouco os islâmicos até expulsá-los de seu último reduto, o Reino de Granada, em 1492.
Teto do Salão dos Embaixadores, com adornos arabescos, no Real Alcázar de Sevilha, Espanha. Fotografia de 2023. O legado cultural islâmico está representado na arquitetura de alguns edifícios na Península Ibérica.
Ciência islâmica
Antes de os árabes se instalarem na Europa, ocorreu em Bagdá, na Mesopotâmia, um renascimento cultural no século VIII, intensificado no século seguinte com a criação da Casa da Sabedoria, centro de estudos que agregou um corpo de sábios e tradutores de obras científicas vindas da China e da Índia.
Esses literatos árabes também entraram em contato com os já referidos núcleos de cultura de origem grega e cristã instalados no Oriente, sobretudo na Pérsia, e que mantinham a herança de Alexandria e da Grécia clássica. Os árabes traduziram ainda Platão, Aristóteles e Plotino, criaram observatórios astronômicos, além de intensificarem os estudos de óptica, geografia, geologia, agronomia, matemática e meteorologia.
Na astronomia, aperfeiçoaram métodos trigonométricos para o cálculo das órbitas dos planetas, chegando a desenvolver o conceito de seno.
Eles introduziram no Ocidente os algarismos arábicos – adaptados dos algarismos hindus – e criaram a álgebra. Na medicina, divulgaram obras de Hipócrates e de Galeno, realizando um trabalho original de organização desses conhecimentos. Na alquimia, aceleraram a passagem do ocultismo para o estudo racional de minerais e metais por meio da sistematização de fatos observados durante várias gerações e de trabalhos de observação e experiência.
Entre os islâmicos que se dedicaram à alquimia, um dos maiores estudiosos foi Jabir Ibn Hayyan, nascido no século VIII na Pérsia, atual Irã, leitor de obras do período alexandrino, com elementos místicos do pitagorismo e alegorias persas. Esse amálgama de crenças sofreu críticas de alguns, que preferiam apenas admirar os resultados práticos dessas pesquisas, indicativas do que seria posteriormente a química.
Detalhe do manuscrito Os dez tratados sobre o olho, de Hunayn ibn Ishaq, século XIII. Além da astronomia e da álgebra, os estudiosos islâmicos se destacaram na medicina. Esse manuscrito, por exemplo, é considerado uma das obras inaugurais da oftalmologia.
SUGESTÃO
DOCUMENTÁRIO: A ciência e o islã
Produção: BBC. Reino Unido, 2022. 179 minutos.
No documentário em três episódios, o físico Jim Al-Khalili, nascido em Bagdá, no Iraque, explica o desenvolvimento do conhecimento científico ocorrido no mundo islâmico entre os séculos VIII e XIV.
Filosofia islâmica
Além da influência na ciência, sábios islâmicos traduziram os clássicos da filosofia grega e tornaram-se responsáveis por despertar o interesse por Aristóteles, cuja filosofia foi incorporada ao pensamento cristão, sobretudo pelo monge Tomás de Aquino, no século XIII. Aceito pela Igreja Católica, o novo aristotelismo, resguardado de interpretações contra a fé cristã, manteve-se até o período em que sofreu críticas severas de Galileu Galilei e de outros cientistas do século XVII.
Pertencente à Casa da Sabedoria, o chamado “primeiro filósofo islâmico”, Abu Yusuf Al-Kindi, debruçou-se no século XIX sobre a filosofia grega, além de se ocupar com investigações científicas.
Enquanto os cristãos medievais dispunham da obra de Platão e tinham pouco acesso à de Aristóteles, os pensadores islâmicos já haviam traduzido a maioria dos textos deste, o que permitiu que fossem interpretados por diversos comentadores.
O interesse por Aristóteles manteve-se no século XI com o persa Ibn Sina (Avicena), cujas obras, que tratavam de lógica, ciências naturais, matemática, medicina, metafísica e teologia, foram recebidas com entusiasmo pelos filósofos cristãos. Nesse sentido, os pensadores islâmicos, durante a Idade Média, levaram à Europa uma cultura mais refinada do que a vigente nesse continente, como explica o professor Danilo Marcondes:
Naquele momento seu conhecimento da filosofia e da ciência gregas, traduzidas para o siríaco e o árabe, era muito superior ao do mundo cristão latino da Europa Ocidental, que permanecia ainda fragmentado desde as invasões bárbaras. [...] ao se estabelecerem na Europa Ocidental, os árabes possuíam e desenvolveram uma cultura indiscutivelmente superior à que lá encontraram. Não só superior, mas em grande parte herdeira da mesma tradição grega, ou helenística, de que se considerava herdeiro o mundo cristão ocidental. Na verdade, o grande desenvolvimento da filosofia escolástica a partir do século XIII é devido à influência do pensamento árabe.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. p. 12
EXPLORE – RESPONDA NO CARDERNO
1. Como Danilo Marcondes compara o conhecimento dos cristãos medievais da Europa Ocidental ao conhecimento dos árabes?
2. A que o autor atribui o desenvolvimento da filosofia escolástica?
CONCEITO
Escolástica: filosofia cristã medieval em que persistia a aliança entre fé e razão, sendo a filosofia “serva” da teologia.
Um dos maiores expoentes da escolástica é Tomás de Aquino.
Ilustração indicando o tratamento da varíola para o livro O cânone da medicina, de Avicena, século XVIII.
Averroísmo latino
No século XII, o foco cultural deslocou-se do Oriente para o mundo muçulmano ocidental, no Marrocos e na Espanha, onde despontou a figura de Abu Al-Walid Muhammad Ibn Ruchd, ou Averróis, como ficou conhecido na língua latina. Nasceu em Córdoba, mas também viveu em Sevilha e Marrocos. Em Córdoba, recebeu educação religiosa tradicional do Alcorão, seguida pela formação jurídica e médica. Ao frequentar a corte de Abu Yaqub, conhecedor de Platão e Aristóteles – já traduzidos para o árabe –, Averróis foi incumbido pelo sultão de tornar aqueles textos mais compreensíveis. Esse desafio o transformou no principal comentador de Aristóteles na época, permitindo aos teólogos do Ocidente cristão entrarem em contato com mais obras do filósofo grego, entre elas, o Organon, que tratava de lógica.
Averróis admitia a eternidade do mundo – diferentemente da crença cristã na criação divina – e negava a imortalidade da alma. Além disso, sua confiança na razão era total e ilimitada, o que contrariava a concepção vigente de subordinação da razão às verdades da fé. De acordo com sua “doutrina da dupla verdade”, a verdade filosófica não precisa coincidir com a verdade teológica:
[...] para Averróis, o filósofo, enquanto tal, não deve subordinar sua atividade científica aos dados da fé, pois só a razão e a experiência podem interferir para fundamentar as conclusões da filosofia. Por mais sublime, sincera e autêntica que seja a fé subjetiva do filósofo, este, em se tratando de fazer ciência, deve prescindir dela.
COSTA, José Silveira da. Averróis: o aristotelismo radical. São Paulo: Moderna, 1994. p. 55. (Coleção Logos).
Quando a Guerra Santa contra os cristãos foi intensificada, Averróis, que não havia demonstrado entusiasmo pela empreitada, foi condenado por impiedade religiosa, o que deu início a uma fase de perseguição e exílio, que atingiu a ele e a outros sábios. Os novos tempos indicavam uma mudança de orientação em que se restringiu a liberdade de pensamento, até então em vigor entre os islâmicos.
No século XIII, o chamado averroísmo latino conquistou adeptos liderados por Siger de Brabant. No entanto, os seguidores dessa orientação foram duramente criticados pelos cristãos, por causa de divergências de interpretação, sobretudo do ponto de vista religioso, por defenderem uma filosofia voltada para o pensamento laico e uma sociedade separada da Igreja, como também passaram a admitir filósofos como Guilherme de Ockham. O próprio Siger de Brabant foi condenado como herege pela Inquisição.
Assim, apesar de o averroísmo ter sido recusado pela Igreja e ter seus seguidores perseguidos, sua contribuição foi decisiva para o pensamento de filósofos cristãos, como Tomás de Aquino.
A cultura islâmica exerceu indiscutível influência no desenvolvimento da ciência e da filosofia, inclusive no Ocidente, entre os séculos VIII e XII. Depois disso, a tensão que sempre existira entre pensamento racional e fé religiosa acabou pendendo para esta última, o que prejudicaria a pesquisa científica independente, retraindo a valiosa contribuição árabe.
IMAGENS EM CONTEXTO
Tomás de Aquino confundindo Averróis, pintura de Giovanni di Paolo, cerca de 1450.
A pintura Tomás de Aquino confundindo Averróis apresenta, no topo, o filósofo Tomás de Aquino, cercado de filósofos cristãos. Fiel aos valores medievais da tradição cristã, o pintor italiano representa, na parte inferior da pintura, Averróis deitado e de olhos fechados, o que sugere a elevação dos pensamentos de Aquino em relação aos do filósofo islâmico.
Embora Averróis tenha exercido influência sobre as reflexões de Aquino, o monge dominicano se resguardou das interpretações contra a fé cristã, mantendo a crença nas revelações, ainda que seu pensamento tivesse exigências racionais.
ATIVIDADES
1. Em sua opinião, traçando um paralelo hipotético com o conceito atual de preservação ambiental, a perspectiva dos filósofos pré-socráticos sobre a physis tende a considerar a natureza como algo a ser explorado no sentido econômico ou como algo a ser desvendado e preservado? Explique sua resposta.
2. Heráclito defendia que tudo está em constante movimento, ao passo que Parmênides alegava o oposto, isto é, a imobilidade do ser. Posicione a filosofia aristotélica nesse debate.
3. Leia o trecho a seguir e identifique características que marcam a diferença entre o mito e a filosofia. Em todas as literaturas, a prosa é posterior ao verso, como a reflexão o é à imaginação. A literatura grega não faz exceção à regra, antes a acentua, pois o desnível cronológico entre ambas deve importar uns três séculos. [...] No entanto, [...] há ainda filósofos que exprimem em verso [...], [como] Parmênides e Empédocles [...].
PEREIRA, Maria Helena Rocha. Estudos de história da cultura clássica. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1970. p. 199-200. v. 1.
4. Leia a citação a seguir e responda às questões.
Sem dúvida, o poeta, o adivinho, o sábio, as seitas de mistérios e de iniciação mágico-religiosa não desaparecem subitamente, mesmo porque a pólis não nasce subitamente. Tanto assim que os primeiros filósofos – como Tales de Mileto, Heráclito de Éfeso, Pitágoras de Samos e mesmo um clássico, como Platão – ainda aparecem ligados a grupos e seitas de mistérios religiosos, ao mesmo tempo em que estão envolvidos nas discussões e decisões políticas de suas cidades.
CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 37. v. 1.
a. Qual é a relação da filosofia com o mundo mítico-religioso?
b. Em que outras discussões os filósofos se envolvem? Explique.
5. Com base na citação a seguir e no conteúdo do capítulo, responda: é correta a ideia de que o conhecimento não se desenvolveu durante a Idade Média? Justifique sua resposta.
Para alguns historiadores, a alta Idade Média confunde-se com a chamada “idade das trevas” – the Dark Ages. É tendencioso. É injusto. Somos forçados, no entanto, a reconhecer que, durante todos aqueles anos, os livros são raros e a cultura erudita pouco difundida.
LIBERA, Alain de. Pensar na Idade Média. São Paulo: Editora 34, 1999. p. 97. (Coleção Trans).
6. Leia a tirinha e, em seguida, responda às questões.
Prickly City, tirinha de Scott Stantis, 2007.
a. Explique em que se baseia o humor da tirinha.
b. Qual é a relação entre fé e razão estabelecida nesse contexto?
c. O pensamento de Averróis a respeito da fé e da razão se identifica com a ideia expressa na tirinha? Justifique sua resposta.
7. Com base nas citações a seguir e nas discussões desenvolvidas ao longo do capítulo, redija um texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa, problematizando o tema “O desconhecimento da influência islâmica no saber ocidental”. Na elaboração, selecione informações e argumentos e organize-os de maneira coesa a fim de sustentar seu ponto de vista.
TEXTO-1
Aos olhos de um medievalista, a escola leiga [...] deve a partir de agora assegurar um novo serviço: fazer conhecer a história da teologia e da filosofia na terra do islã. Um jovem magrebino – como todo adolescente, seja qual for seu credo ou sua ausência de credo – tem o direito de [...] descobrir o que foram Bagdá e a Andaluzia, [...] o direito de ouvir duas palavras acerca de Avicena ou Averróis [...].
É lamentável que um colegial árabe da França não saiba que, no final do século XI, o autor da Carta de adeus e do Regime do solitário, Ibn Bajja, pregava uma separação – separação do filósofo e da sociedade, separação da filosofia e da religião –, e que, por esta simples razão [...] seus contemporâneos o consideraram “uma calamidade”, reprovando-lhe, entre outras coisas, “furtar-se a tudo o que está prescrito na Lei divina [...], estudar apenas as matemáticas, meditar apenas sobre os corpos celestes [...] e desprezar a Deus”.
LIBERA, Alain de. Pensar na Idade Média. São Paulo: Editora 34, 1999. p. 103-104. (Coleção Trans).
TEXTO-2
Ao longo de 150 anos, os árabes traduziram todos os livros gregos disponíveis de ciência e filosofia. O árabe substituiu o grego como língua universal da pesquisa científica. A educação superior ficou cada vez mais organizada no início do século IX e a maioria das cidades muçulmanas tinha algum tipo de universidade. Uma dessas instituições, o complexo da mesquita Al-Azhar, no Cairo, foi sede de instrução ininterrupta por mais de mil anos. [...] essa atividade intelectual da época gerou séculos de pesquisas organizadas e ininterruptas, além de avanços constantes em matemática, filosofia, astronomia, medicina, óptica e outras áreas, criando um notável conjunto de obras que pode ser chamado certamente de ciência árabe.
LYONS, Jonathan. A casa da sabedoria: como a valorização do conhecimento pelos árabes transformou a civilização ocidental. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 90-91.
ENEM E VESTIBULARES
8. (Enem-MEC)
Fragmento B91: Não se pode banhar duas vezes no mesmo rio, nem substância mortal alcançar duas vezes a mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança, dispersa e de novo reúne.
HERÁCLITO. Fragmentos (Sobre a natureza). São Paulo: Abril Cultural, 1996. (Adaptado).
Fragmento B8: São muitos os sinais de que o ser é ingênito e indestrutível, pois é compacto, inabalável e sem fim; não foi nem será, pois é agora um todo homogêneo, uno, contínuo. Como poderia o que é perecer? Como poderia gerar-se?
PARMÊNIDES. Da natureza. São Paulo: Loyola, 2002. (Adaptado).
Os fragmentos do pensamento pré-socrático expõem uma oposição que se insere no campo das
a. investigações do pensamento sistemático.
b. preocupações do período mitológico.
c. discussões de base ontológica.
d. habilidades da retórica sofística.
e. verdades do mundo sensível.
9. (Enem-MEC)
A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um.
NIETZSCHE, Friedrich. Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os pensadores).
O que, de acordo com Nietzsche, caracteriza o surgimento da filosofia entre os gregos?
a. O impulso para transformar, mediante justificativas, os elementos sensíveis em verdades racionais.
b. O desejo de explicar, usando metáforas, a origem dos seres e das coisas.
c. A necessidade de buscar, de forma racional, a causa primeira das coisas existentes.
d. A ambição de expor, de maneira metódica, as diferenças entre as coisas.
e. A tentativa de justificar, a partir de elementos empíricos, o que existe no real.