PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
CULTURA, LINGUAGEM E ARTE
Costuma-se definir a cultura como um conjunto de tradições e costumes, mas seu significado é mais abrangente, uma vez que compreende a produção de todos os objetos e pensamentos por meio dos quais o ser humano se relaciona com a natureza e com os demais indivíduos, incluindo a linguagem simbólica.
Neste capítulo, vamos abordar o conceito de cultura e problematizá-lo considerando temas como o feminismo, a diversidade e a arte.
O CONCEITO DE CULTURA
O conceito de cultura comportou numerosas interpretações ao longo do tempo. Aqui, vamos considerar um sentido amplo (antropológico) e um restrito desse termo. No sentido antropológico, somos todos seres culturais, produtores de obras materiais e de pensamento. No sentido restrito, o conceito diz respeito especificamente à produção das artes, das letras e de outras manifestações intelectuais.
Vale ressaltar que o termo antropologia origina-se da fusão das palavras gregas anthropos (“homem”) e lógos (“teoria”, “ciência”), e esse conceito refere-se tanto à ciência como à filosofia. A ciência da antropologia trata do estudo de diferentes culturas sob os mais diversos aspectos, como tipos físicos e biológicos, organizações sociais e políticas, o comportamento humano em sociedade, além de investigar culturas de diferentes épocas e locais. A antropologia filosófica, por sua vez, aborda temáticas como a possibilidade da definição de ser humano, as características que o distinguem de outras espécies e a maneira como ocorre o processo de tornar-se um ser cultural em suas variadas expressões. Algumas dessas temáticas serão abordadas neste capítulo.
A cultura exprime, de maneira ampla, as formas pelas quais se estabelecem relações de indivíduos e grupos uns com os outros e com a natureza; por exemplo, o modo como as pessoas constroem abrigos para se proteger das intempéries, inventam utensílios e instrumentos, organizam leis e instituições, definem o modo de se alimentar, casar-se e ter filhos, criam – e transformam – a língua, a moral, a política e a arte, concebem o sagrado ou se comportam diante da morte.
CONCEITO
Sagrado: relativo à divindade; originariamente, refere-se ao “local onde a divindade se manifesta”.
IMAGENS EM CONTEXTO
O conceito de cultura abarca, em sentido amplo, fenômenos como a construção da linguagem e, em sentido restrito, danças, festas e manifestações populares.
Apresentação do grupo Maracatu Baque Alagoano no Memorial Quilombo dos Palmares, em União dos Palmares, no estado de Alagoas. Fotografia de 2022.
QUEM É VOCÊ?
O existir humano não é apenas natural. É certo que recebemos uma herança genética e, nesse aspecto, temos características inatas (que estão presentes em nós desde que nascemos). Por essa razão, não há como negar as semelhanças físicas e de temperamento entre membros da mesma família biológica. A esse substrato biológico herdado, e não escolhido, sobrepõe-se a cultura como construção de outra realidade que contribui para a formação de nossa identidade como seres culturais.
Por mais que nos consideremos indivíduos isolados ou plenamente autônomos, nossa existência depende da de outras pessoas, uma vez que nossa vida se entrelaça com a delas, com quem convivemos, e nos orientamos conforme os valores estabelecidos por quem nos antecedeu.
A autodescoberta não ocorre à parte, portanto, da descoberta do outro como “outro eu”: esse é o movimento pelo qual cada um de nós toma consciência de si e do mundo ao perceber que é separado dos outros, embora aconteça por meio deles. Quando pensamos no conjunto de nossas necessidades, considerando até as mais básicas, como a alimentação, descobrimos que elas não se expressam de modo estritamente biológico, mas por meio de condutas culturais herdadas da comunidade – ou reinventadas pela imaginação humana de acordo com as variações do contexto vivido. Sobre esse assunto, concluiu o filósofo contemporâneo.
Maurice Merleau-Ponty:
É impossível sobrepor, no homem, uma primeira camada de comportamentos que chamaríamos de “naturais” e um mundo cultural ou espiritual fabricado. No homem, tudo é natural e tudo é fabricado, como se quiser, no sentido em que não há uma só palavra, uma só conduta que não deva algo ao ser simplesmente biológico – e que ao mesmo tempo não se furte à simplicidade da vida animal.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 257.
SESSÃO CINEMA
O enigma de Kaspar Hauser
Direção: Werner Herzog. Alemanha, 1974. 109 minutos.
O filme baseia-se em um fato verídico ocorrido em 1828, na cidade alemã de Nuremberg. Na praça da cidade, surgiu um jovem que tinha vivido afastado da convivência humana, provavelmente desde a infância. O jovem não sabia sequer falar e portava apenas uma carta explicando sua história. O enredo nos leva a pensar em todo o aparato cultural que assimilamos simplesmente ao nos socializarmos com outras pessoas e do qual muitas vezes não nos damos conta.
Mãe segura filho recém-nascido. Fotografia de 2022. Quando nascemos, somos integrados a um mundo cultural que nos precede, o que mostra o entrelaçamento de nossa existência com a de outras pessoas.
O COMPORTAMENTO ANIMAL
Diferentemente das práticas humanas, a atividade dos animais de outras espécies é determinada por condições biológicas que lhes permitem adaptar-se ao meio em que vivem de acordo com sua natureza. Por exemplo, passarinhos filhotes, quando se tornam capazes de voar, fazem isso sem muita hesitação; gatinhos, quando nascem, não esboçam reação alguma diante de um rato, mas após o segundo mês de vida apresentam condutas típicas da espécie, como perseguição, captura, brincadeira com a presa, ronco, predação etc. Por essa razão, o comportamento de cada espécie animal segue um padrão, descontando-se as variações comprovadas pela teoria da evolução, elaborada pelo cientista Charles Darwin, no século XIX.
Sabe-se que animais de níveis mais altos na escala zoológica, como macacos e cães, são menos dependentes que os demais de reflexos e instintos e, portanto, capazes de emitir respostas criativas e improvisadas. Trata-se, porém, de um tipo de inteligência concreta, prática, voltada para soluções imediatas. A atividade de um chimpanzé ao usar uma vara para alcançar uma banana, por exemplo, não se compara à técnica humana, mesmo que a experiência seja repetida e repassada para os outros animais do grupo. Isso acontece porque o ser humano é, por excelência, consciente da finalidade de determinada ação, ou seja, concebe-a antes como pensamento, como possibilidade, e sua execução resulta da escolha – ou invenção – de meios necessários para atingir os fins propostos.
As diferenças entre os humanos e os outros animais não são apenas de grau, uma vez que somos capazes de transformar a natureza em cultura. Nesse processo, a linguagem simbólica produz a cultura e é constituída por ela.
EXPLORE – RESPONDA NO CADERNO
1. Com a ajuda do(a) professor(a) de biologia, explique como a evolução biológica concebe a particularidade da história humana em relação à existência das demais espécies.
2. Explique a diferença entre a humanidade e a animalidade com base nos conceitos de natureza e
cultura.
3. Pode-se afirmar que a diversidade étnica e cultural humana é um dos indícios de que as condutas humanas escapam das determinações biológicas? Justifique sua resposta.
A LINGUAGEM
A linguagem é um sistema de signos. Segundo a semiótica – ciência que estuda os sistemas simbólicos (entre eles, a linguagem) –, o signo é qualquer coisa que está no lugar de outra e a representa. Em uma gradação do mais concreto para o mais abstrato, os signos podem ser de três tipos: ícones, índices ou símbolos.
• Ícones são signos que guardam uma relação de semelhança com a coisa representada, como fotos, desenhos e esculturas. Costumamos, por exemplo, identificar portas de banheiros com representações icônicas para distinguir o masculino do feminino.
• Índices mantêm uma relação de contiguidade (proximidade) com a coisa representada, funcionando como indícios de algo, uma forma de indicar aquilo que representam: se há fumaça, deve haver fogo; se as nuvens estão escuras, pode
ser que chova.
• Símbolos são muito mais complexos do que ícones e índices por não se restringirem a aspectos de semelhança e contiguidade. Definidos por convenções arbitrárias, variam na medida em que resultam da criatividade humana, e seus significados precisam ser interpretados, embora alguns deles sejam mantidos por tradição.
Placa de trânsito em Ribeirão Preto, no estado de São Paulo. Fotografia de 2023. Em uma placa como essa, o desenho de uma colher e um garfo cruzados é um ícone que indica a proximidade de algum restaurante.
Dunas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, em Barreirinhas, no estado do Maranhão. Fotografia de 2023. Pegadas na areia são índices de que alguém acabou de passar pelo local.
A LINGUAGEM DOS ANIMAIS
Com o objetivo de compreender a maneira como a linguagem dos animais se distingue da humana, vamos considerar os seguintes exemplos: por meio de volteios parecidos com os de uma dança, as abelhas se comunicam com outras para transmitir informações sobre o local onde encontraram pólen; os golfinhos não só emitem sons instintivos para se comunicar, como também revelam alto grau de compreensão da linguagem humana; experiências com chimpanzés realizadas por psicólogos demonstraram que eles aprendem a reconhecer ícones e índices, e alguns constroem “frases” com esses signos.
Esses casos indicam que a linguagem animal também se caracteriza por um sistema de signos: a dança das abelhas, os sons dos golfinhos e os sinais aprendidos pelos chimpanzés. Nos dois primeiros, as ações são instintivas, programadas biologicamente – embora a ação dos golfinhos desperte nossa atenção pela semelhança com a de humanos –, ao passo que, no caso dos chimpanzés, existem várias experiências que demonstram êxito em sua aprendizagem. De modo semelhante, adestramos um cachorro com a repetição de frases que funcionam como índices e ícones por indicarem alguma coisa específica, seja a ordem de dar uma pata, seja um convite para passear.
Parece, então, que os animais não adentram no mundo simbólico, exclusivo da condição humana.
SESSÃO CINEMA
Hiperconectado – Domesticação de cães
Produção: TV Cultura. Brasil, 2023. 25 minutos.
Nesse episódio do programa Hiperconectado, o biólogo Atila Iamarino explica o processo de domesticação de cães. Umas das principais habilidades desenvolvidas pelos cães nesse processo é a da comunicação visual.
A LINGUAGEM SIMBÓLICA
Consideremos um objeto denominado cadeira em português, chair em inglês e, em alemão, sthul. A diferença de termos para indicar a mesma coisa decorre de estrita convenção social cuja origem se perde no tempo, lembrando que também existem línguas escritas em alfabetos distintos do latino, como o grego e o russo. Outros vocábulos mantêm a origem comum em diversas línguas; por exemplo, a palavra latina crux, crucis, tornou-se cruz em português, croix em francês e cross em inglês. A língua tem rigor em sua gramática, mas se transforma com o tempo e pode até tornar-se “língua morta”, ou seja, deixar de ser utilizada, como aconteceu com o latim.
Para salientar quão flexível é a escrita simbólica, tomemos novamente a palavra cruz, cujo sentido não é único e inequívoco. Desde a Antiguidade, o termo partilha numerosos significados: símbolo de orientação, indicando pontos cardeais; objeto, feito com troncos transversais, usado para executar condenados à morte; por influência do cristianismo, ícone associado à morte de Cristo; insígnia dos nazistas, que se apropriaram da cruz gamada, a suástica. Assim explicou o filósofo contemporâneo Ernst Cassirer:
Um símbolo não é apenas universal, porém extremamente variável. Posso expressar o mesmo significado em vários idiomas; e, até dentro dos limites de uma única língua, o mesmo pensamento ou ideia pode ser expresso em termos muito diferentes. Um sinal está relacionado com a coisa a que se refere, de forma fixa e única. Qualquer sinal concreto e individual se refere a certa coisa individual.
[...] Um símbolo humano genuíno não se caracteriza pela uniformidade, mas pela versatilidade. Não é rígido nem inflexível, é móvel.
CASSIRER, Ernst. Antropologia filosófica. São Paulo: Mestre Jou, 1972. p. 67.
Diferentemente da linguagem animal, restrita às situações concretas, a linguagem humana é empregada para intervir como expressão abstrata capaz de distanciar o indivíduo da experiência vivida, tornando-o apto a reorganizá-la e a emprestar-lhe um novo sentido. Pela palavra, as pessoas se situam no tempo, lembram o passado e antecipam o futuro pelo pensamento, ao passo que os animais vivem sempre no presente.
Ao distanciar-se da realidade imediata por meio da linguagem, o ser humano pode retornar ao mundo para transformá-lo. É por meio da linguagem, como um instrumento fundante, que recebemos e transmitimos os saberes e os ofícios, criamos o mito, a religião, a ciência e a arte, estabelecemos regras e constituímos sociedades.
Saudade, pintura de José Ferraz de Almeida Júnior, 1899. Nessa tela, a mulher representada se comove durante a leitura de uma carta. A linguagem humana é expressão abstrata, capaz de transmitir sentimentos como a saudade.
CONCEITOS
Mito: do grego mythos, “palavra”, “o que se diz”, “narrativa”.
Religião: de origem incerta, para alguns, o termo deriva do latim religare, que significa “religar”, “unir de novo”; para outros, provém de relegere, “recolher” ou “reler” (“ler com recolhimento”).