PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
APOSTILA – 1º ANO - 2º TRIMESTRE
INDIVIDUO, SOCIEDADE E CULTURA (PÁGINA: 40)
Os seres humanos são capazes de desenvolver culturas em um processo no qual valores sociais e padrões de comportamento são criados e compartilhados continuamente. Em razão dessa característica, suas formas de organização social são diferentes das dos demais seres vivos. Além disso, as relações entre grupos humanos são marcadas por conflitos e contradições.
Neste capítulo, você estudará a contribuição da sociedade e da cultura para a formação dos indivíduos por meio do processo de socialização. Além disso, obterá informações sobre a dinâmica contínua das culturas e das sociedades, resultado das múltiplas interferências de ações individuais e coletivas, bem como de ideologias criadas e propagadas por diferentes atores sociais.
AÇÃO INDIVIDUAL E ESTRUTURA SOCIAL (PÁGINA: 40)
Como explicar os padrões de comportamento adotados por integrantes de uma sociedade? Na vida coletiva, os indivíduos se ajustam aos comportamentos e aos valores instituídos em cada cultura, de acordo com o momento histórico.
Uma evidência da força que os padrões sociais impõem aos indivíduos se manifesta quando alguém se comporta de forma diferente da estabelecida com base em certos padrões. Quando uma norma é desobedecida, a sociedade aciona diferentes meios de coerção, que podem ir de uma simples repreensão até a privação total da liberdade. Nas ciências sociais, chamamos de coerção a força exercida pelas normas sociais sobre os indivíduos. Isso ocorre, por exemplo, na imposição de valores dominantes em uma sociedade ou na afirmação de uma norma jurídica. Nos dois casos, existe uma medida punitiva associada à transgressão de uma norma.
A escola, por exemplo, é uma instituição na qual é possível notar a presença de determinados padrões sociais. Para frequentar as instituições escolares, em geral, os estudantes precisam usar um tipo específico de vestimenta, o uniforme. Se um deles não segue esse padrão, é comum que sofra algum tipo de coerção:pode ser repreendido verbalmente por docentes ou gestores, receber uma advertência ou sofrer outra sanção disciplinar.
A relação entre o indivíduo e a sociedade é um tema fundamental nas ciências sociais e está presente na maioria de seus estudos. Compreender essa relação é essencial para entender as ações de pessoas e grupos e refletir sobre os elementos – individuais e coletivos – que influenciam a organização da vida e a definição dos padrões sociais.
Crianças em escola em Cwebeni, África do Sul. Fotografia de 2024. As escolas são espaços em que crianças, adolescentes, jovens e adultos incorporam padrões sociais.
PADRÕES SOCIAIS E INSTITUIÇÕES (PÁGINA 41)
Chamamos de padrões sociais os modelos de ação e conduta que a sociedade espera que seus membros sigam. A sequência esperada de um relacionamento conjugal – em que um casal namora, noiva, casa e tem filhos – é um exemplo de padrão das sociedades ocidentais.
Ao conjunto relativamente estável de padrões coletivos que servem de modelo para a construção de comportamentos e ações dos indivíduos damos o nome de instituição social. O casamento – como forma socialmente reconhecida de relacionamento entre indivíduos que supre necessidades sociais (de reprodução e construção de um ambiente de socialização primária) e apresenta caráter normativo (impondo regras como sustento, guarda e educação dos filhos, mútua assistência
e fidelidade recíproca) – é um exemplo de instituição social.
Um exemplo de padrão social são os padrões de beleza. Na sociedade ocidental contemporânea, há um enaltecimento da magreza como ideal de beleza. Pessoas cujo corpo não se enquadra nesse padrão enfrentam diversos tipos de coerção para perder peso e apresentar conformidade com essa norma de aparência física. Essa pressão social pode vir de amigos, familiares e até de profissionais da área da saúde. A mídia também pode exercer coerção sobre os indivíduos: ao veicular representações de corpos, o cinema, a televisão, as revistas e as redes sociais promovem e reforçam padrões. As imagens veiculadas podem gerar sentimentos de inadequação naqueles que não se veem representados, influenciando as escolhas e os comportamentos dos indivíduos em relação à sua aparência física.
Podemos considerar que os padrões sociais atuam no comportamento humano do mesmo modo que os padrões gramaticais são empregados para organizar a fala e a escrita. Quando conversamos, por exemplo, não refletimos sobre as regras gramaticais que utilizamos para podermos ser compreendidos. O mesmo acontece com as regras sociais, vivenciadas no dia a dia. Ao conjunto de regras que regulam a vida das pessoas, independentemente da consciência que os indivíduos têm delas, damos o nome de estrutura social.
A seguir, você estudará o modo como diferentes perspectivas de análise da sociedade foram construídas e os principais conceitos produzidos por elas.
Ilustração de Filipe Rocha, 2016. Os padrões estéticos se transformam ao longo dos séculos. Características consideradas belas em determinadas sociedades podem estar fora do padrão imposto em outro contexto histórico ou social.
ATIVIDADES (PÁGINA 41)
1. Elabore hipóteses sobre os pensamentos e sentimentos da espectadora representada diante de cada imagem.
2. Compare a imagem da campanha de refrigerante dietético com a de outros anúncios publicitários que apresentam corpos femininos. Em seguida, reflita sobre a influência dos padrões de beleza na definição do que entendemos por masculino e feminino.
SUGESTÃO DE LEITURA
Fome: uma autobiografia do (meu) corpo
Roxane Gay. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2017.
Nesse livro autobiográfico, a escritora, professora e apresentadora Roxane Gay narra algumas de suas experiências de vida, relatando situações de discriminação que enfrenta como uma mulher negra e gorda. Ao longo das narrativas, a autora reflete sobre como suas relações familiares e amorosas são atravessadas pela sua relação com o corpo, tecendo, com isso, análises sobre cultura, gênero, raça e padrões de beleza.
A RELAÇÃO ENTRE INDIVÍDUO E SOCIEDADE: PERSPECTIVAS SOCIOLÓGICAS (PÁGINA: 42)
Como os indivíduos podem conviver em sociedade de modo organizado? Eles são capazes de se rebelar contra as regras sociais e de transformá-las? Por meio da discussão sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade, foram produzidas três matrizes clássicas de resposta a essas questões, que podem ser simplificadas e compreendidas conforme as proposições a seguir.
• A sociedade molda os indivíduos em razão da coercitividade dos fatos sociais.
• A sociedade é compreendida como resultado da ação social dos indivíduos.
• A sociedade e os indivíduos são expressões das contradições de classe.
Cada uma dessas respostas vincula-se a diferentes correntes teóricas que, no século XIX, definiram princípios gerais da sociologia. Esses princípios deram origem a outras abordagens e teorias, que se desenvolveram no século XX. A existência de diferentes abordagens nos mostra que várias teorias podem ser utilizadas para explicar, de modo distinto, as complexas e múltiplas relações existentes entre os indivíduos e a sociedade em que estão inseridos.
É importante destacar que essa simplificação não representa um esquema evolutivo do pensamento dos autores apresentados. Antes, expõe uma maneira de compreender como é possível construir teorias que expliquem de que forma a sociedade age nos indivíduos e como os indivíduos compreendem sua ação em relação aos demais membros de uma sociedade.
A procura pelo agente principal dos fenômenos sociais – a sociedade ou o indivíduo – faz parte do movimento da sociologia em busca de seu objeto de estudo. Toda ciência se ocupa de realidades específicas e, portanto, necessita de um objeto para ser descrito e analisado. Nas ciências naturais, por
exemplo, a física tem por objeto a matéria e os fenômenos relativos a ela no tempo e no espaço, enquanto a biologia é a ciência com base na qual se estudam os organismos vivos.
O objeto de estudo da sociologia foi inicialmente estabelecido e sistematizado pelo sociólogo francês Émile Durkheim, no século XIX. Ele reconheceu na sociedade um conjunto de fenômenos que poderiam ser compreendidos separadamente da consciência dos indivíduos nos quais se manifestavam e por meio dos quais eram representados. Durkheim chamou esses fenômenos de fatos sociais.
IMAGEM EM CONTEXTO (PÁGINA 42)
Os megaeventos – como os shows realizados por artistas como Taylor Swift, BTS e Beyoncé – são fenômenos culturais complexos, cuja análise sociológica possibilita compreender importantes aspectos da sociedade ocidental contemporânea. Realizados em grandes estádios, atraindo milhares de fãs por espetáculo e movimentando um mercado de consumo de produtos (como roupas e acessórios), os megaeventos são produzidos para criar uma atmosfera imersiva que permita aos participantes desenvolver um senso de pertencimento.
A participação de jovens em eventos desse caráter pode ser interpretada como uma forma de construção e expressão de identidade, evidenciando a influência social no comportamento individual. Além disso, a organização de eventos desse porte depende da compreensão de padrões sociais de comportamento que garantam eficiência em venda de ingressos, gestão de recursos, segurança e controle de multidões.
Show de Taylor Swift em um estádio na capital do estado de São Paulo. Fotografia de 2023. Eventos de grande porte são exemplos de atividades que dependem da previsibilidade dos Comportamentos sociais e, por isso, nos permitem refletir sobre a relação entre indivíduo e sociedade.
ÉMILE DURKHEIM E O FATO SOCIAL (PÁGINA 43)
Os fatos sociais são formas de pensar, sentir e agir cuja manifestação coletiva constitui aquilo que entendemos como sociedade. Eles apresentam três características principais:
• são externos aos indivíduos – antecedem os indivíduos e existem independentemente de sua vontade ou reflexão;
• são coercitivos – impõem penalidades àqueles que não cumprem suas normas;
• são gerais – devem ser reproduzidos por todos os integrantes da sociedade.
Para melhor entender esse conceito, podemos analisar as regras de convivência em uma biblioteca: todas as pessoas presentes no local são obrigadas a fazer silêncio e incitadas a não perturbar a concentração dos demais, mesmo que tenham necessidade de falar com outros (por isso, trata-se
de um fato social exterior). Caso não obedeçam às regras explícitas ou implícitas, podem ser chamadas à atenção pelos próprios colegas ou mesmo convidadas a se retirar (daí ser considerado, coercitivo). Essas regras se aplicam a todos que frequentam o lugar (por isso, seu caráter geral).
É possível reconhecer muitos fatos sociais em nosso cotidiano. A maneira como agimos nos diferentes ambientes (em casa, na escola ou na rua), o modo como falamos (o idioma, o sotaque e as gírias que usamos) e a forma como nos vestimos (as roupas, a combinação de cores e os acessórios que escolhemos) podem ser investigados à luz do método sociológico proposto por Durkheim. Esses fatores, ainda que pareçam ou sejam sentidos como escolhas individuais, são estabelecidos socialmente.
De acordo com Durkheim, a força exterior que se impõe a todos os indivíduos e possibilita descrevê-los mediante generalizações observadas em suas características externas (os jovens, as mulheres, os professores, os militares etc.) é o objeto da sociologia. Nesse sentido, ele entende que a sociedade é anterior aos indivíduos, uma vez que os comportamentos gerais e as dinâmicas sociais existem antes deles e os moldam, criando padrões coletivos de comportamento.
Durkheim, as relações sociais podem ser compreendidas com base na ideia de que o todo (a sociedade) é mais complexo que a simples soma de suas partes (os indivíduos). É possível entender essa proposição tomando como exemplo um carro: desconectadas, todas as peças do automóvel não são um carro. Contudo, montadas e encaixadas corretamente, constituem o veículo, com seu funcionamento e uso específicos. Do mesmo modo, os indivíduos precisam estar integrados para que se estruture o todo, a sociedade.
Para o autor, a integração da sociedade como um todo pode ser compreendida por meio da ideia de consciência coletiva, isto é, as formas de pensar e agir que constituem o corpo de sentimentos e crenças comuns à maioria de seus membros.
IMAGENS EM CONTEXTO (PÁGINA 43)
A foto mostra, ao centro, a estudante Sumaya Abdel Rahman Mahmoud Mohamad, de 14 anos, na aula de um programa de tecnologia educacional, desenvolvido pela instituição beneficente War Child (em português, Criança da Guerra), chamado Can't Wait to Learn (em português, Mal posso esperar para aprender). A família de Sumaya saiu do Sudão fugindo dos conflitos armados que ocorrem no país desde 2003. Em estado de incerteza quanto ao futuro, outras tantas famílias sudanesas permanecem no campo de refugiados de Djabel, no leste do Chade, país africano que faz fronteira com o Sudão.
Estudantes durante a aula em uma escola no campo de refugiados de Djabel, no Chade. Fotografia de 2023. A maneira como agimos em diferentes ambientes pode ser analisada como um fato social. O ato de erguer uma das mãos para pedir a palavra em sala de aula não ocorre em outros ambientes de sociabilidade, como uma roda de amigos ou um jantar familiar.
MAX WEBER E A AÇÃO SOCIAL (PÁGINA 44)
Outra posição teórica e metodológica, proposta por Max Weber, entende que a ação dos indivíduos e suas intenções em relação a outras pessoas são o ponto de partida da análise sociológica. Na concepção de Weber, a sociedade só pode ser compreendida a partir das relações entre as pessoas, que, como indivíduos racionais, tomam suas decisões conforme sua história e sua cultura. Para o autor, como é possível observar esses indivíduos ou a ação consciente deles, o sentido da ação social é o objeto de estudo da sociologia.
Na origem das ações de um cidadão que obedece à ordem de um policial, de um pai que age em defesa de um filho ou de um fiel que jejua por orientação religiosa, há princípios racionais, afetivos e tradicionais.
As normas sociais, de acordo com Weber, existem por causa do sentido atribuído a elas pelos indivíduos. A sociedade é moldada pelo conjunto de decisões de muitos indivíduos, que
reconhecem essas regras, atribuem-lhes sentido e manifestam as razões para obedecer a elas de forma consciente.
No entanto, nem todas as ações dos indivíduos são ações sociais. A ação social é diferente de um simples comportamento coletivo porque carrega um sentido a ela atribuído pelo indivíduo (sujeito da ação). Assim, pode ser definida como toda ação realizada pelos indivíduos levando em consideração a expectativa de outra ação praticada pelos demais.
O que isso quer dizer? Considere uma rua repleta de pedestres, em que todos abrem seus guarda-chuvas ao começar a chover. Essa decisão não é uma ação social; ao abrir seu guarda--chuva, o indivíduo não leva em consideração a decisão dos outros (por mais que a ação pareça coletiva e coordenada para quem a observa, por exemplo, do alto de um prédio). Da mesma maneira, a colisão entre dois ciclistas não é um acontecimento diferente de um fenômeno natural e não pode ser considerada uma ação social. No entanto, são tidas como ações sociais as tentativas dos ciclistas de desviar um do outro a fim de evitar uma colisão, assim como as de estabelecer uma conversa amigável ou seu esforço para prestar socorro a um ferido após a colisão, uma vez que a ação de um indivíduo só tem sentido se estiver relacionada à conduta
de outros.
A atriz Anne Hathaway escondendo-se atrás de um guarda-chuva para não ser fotografada durante um passeio com o marido em Nova York, Estados Unidos. Fotografia de 2015.
ATIVIDADES (PÁGINA 44)
1. Analise a fotografia e a legenda. Na situação apresentada, abrir o guarda-chuva constitui uma ação social? Por quê?
2. Liste três ações que você realizou hoje. Descreva cada uma delas e, em seguida, argumente quais delas podem ser interpretadas como ações sociais.
TIPOLOGIA DA AÇÃO SOCIAL (PÁGINA 45)
Por meio da observação da realidade para a construção de uma teoria da ação social, Weber identificou quatro tipos fundamentais de ação: tradicional, afetiva, racional orientada a valores e racional orientada a fins.
• A ação tradicional é motivada por hábitos enraizados ou costumes. Ao perguntar a uma pessoa por que ela realiza determinada ação (como cumprimentar alguém com um aperto de mãos), ela responde que faz isso porque sempre o fez e porque seus pais e antepassados também sempre o fizeram.
• A ação afetiva é determinada por sentimentos ou estados emocionais. Como exemplo, podemos imaginar um indivíduo que dá uma gargalhada ao ouvir algo que considera engraçado. Tal ato consiste em uma reação momentânea a uma situação inesperada.
• A ação racional orientada a valores é determinada pela crença consciente em um valor importante para o indivíduo, sem considerar as consequências das ações em favor desse valor. Isso pode ocorrer, por exemplo, com um ativista que participa de uma manifestação em defesa de suas convicções, mesmo correndo
o risco de sofrer represálias, como a repressão policial. Apesar de poder produzir efeitos contrários aos objetivos, a ação é elaborada de maneira racional: o ator social considera suas consequências positivas e negativas, mas a orienta conforme seus valores, independentemente dos resultados negativos que
possa vir a provocar.
• A ação racional orientada a fins é aquela determinada pelo cálculo racional com base no qual se estabelecem fins objetivos e se organizam os meios necessários para alcançá-los. Pode-se citar como exemplo a estratégia de um jovem para ser aprovado nos exames de ingresso no Ensino Superior. O estudante define as ações necessárias, organiza-as racionalmente, pesando os prós e contras para sua realização, e opta pela estratégia de ação mais eficiente para atingir a meta planejada.
Nessa concepção, o entendimento da relação entre indivíduo e sociedade tem como foco a intenção do indivíduo ao realizar uma ação (ação social) em relação a outros integrantes da sociedade com os quais interage. A sociedade, portanto, não existe como um fim em si mesmo ou como uma estrutura que se organiza independentemente da consciência subjetiva de seus agentes, mas como expressão histórica dos valores e da racionalidade dos indivíduos que a constituem.
Cartaz de combate à violência contra a mulher veiculado pela prefeitura de Jacareí. Nas etiquetas dos uniformes dos alunos está destacado o serviço de utilidade pública para o enfrentamento à violência contra a mulher. Cartaz de 2024.
ATIVIDADES (PÁGINA 45)
1. Identifique as principais informações da campanha divulgada no cartaz.
2. Utilizando a tipologia da ação social de Weber, analise o slogan do cartaz. O apelo da campanha pretende despertar que tipo de ação social no público-alvo?
KARL MARX E AS CLASSES SOCIAIS (PÁGINA 46)
Karl Marx e Friedrich Engels definiram as bases para a compreensão do objeto da sociologia tendo em mente os aspectos materiais e históricos que ligam os indivíduos à sociedade. Segundo essa perspectiva, os seres humanos devem ser analisados com base no que produzem materialmente, e a sociedade, compreendida como resultado da ação recíproca dos indivíduos. Dessa perspectiva, “os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita”.
Por isso, não é possível afirmar que os indivíduos têm primazia sobre a sociedade ou o contrário, pois sua ação na vida social, assim como a estrutura na qual estão inseridos, é resultado de determinada situação histórico-social. Do mesmo modo que o nômade não poderia optar por uma residência fixa, o trabalhador moderno não é livre para escolher suas condições de trabalho (a quantidade de horas que deve trabalhar ou o valor do seu salário), uma vez que ambas as situações dependem das condições materiais de determinado momento histórico.
Para Marx, a base material condiciona o desenvolvimento da vida social, política e cultural. Portanto, a posição social dos indivíduos é definida por sua relação com os meios de produção (terras, fábricas, máquinas etc.). O fato de serem proprietários desses meios ou meros trabalhadores é o elemento que determina a divisão da sociedade em grupos com interesses antagônicos: as classes sociais. Desse modo, ele afirma que as leis de uma sociedade quase sempre representam as ideias e os interesses da classe dominante, que assim mantém sua condição de poder.
Segundo Marx, pode-se definir classe social (unidade
de análise sociológica) como a posição que um grupo de indivíduos ocupa no processo produtivo. Na sociedade capitalista que Marx analisou, burguesia e proletariado eram as classes que protagonizavam o conflito em meio a uma profunda desigualdade: de um lado, os proprietários dos meios de produção e, de outro, os produtores. Dessa perspectiva, a propriedade privada dos meios de produção seria a causa maior da dominação de uma classe sobre a outra ao longo da história. Se o operário não dispõe de nada além da própria força de trabalho, está submetido ao poder do patrão, que define a quantidade de horas e a forma como ele vai executar o serviço, assim como o valor de seu salário, de acordo com as leis existentes e a capacidade de negociação dos trabalhadores organizados.
De acordo com o autor, não é possível analisar o indivíduo sem considerar seu pertencimento a uma classe social e as diferenças de poder e dominação definidas com base em sua posição nas relações de produção. Do mesmo modo, só se pode conceber a sociedade como resultado de um processo histórico marcado por contradições.
Marx foi um crítico contundente do capitalismo, sobretudo no que tange à exploração dos trabalhadores nesse modo de produção. O pensador alemão ansiava por uma sociedade sem classes, em que a propriedade dos meios de produção fosse coletiva, e não privilégio de um pequeno grupo. Para que isso se tornasse realidade, seria necessário que os trabalhadores tomassem consciência de sua situação e se organizassem para superar o conflito que os mantinha em situação de opressão.
Trabalhadores em greve nas docas de Londres, Reino Unido. Fotografia de 1889. Na teoria marxista, a greve desponta como uma expressão da contradição entre os interesses do proletariado e os da burguesia.
ANTHONY GIDDENS E A NOÇÃO DE REFLEXIVIDADE (PÁGINA 47)
Em uma releitura das teorias sociológicas clássicas, o sociólogo britânico Anthony Giddens defende a ideia de que os agentes são influenciados pelas estruturas em seu cotidiano ao mesmo tempo que as recriam mediante um processo de reflexão sobre a própria prática. Os indivíduos, por exemplo, ao cumprir as leis, refletem sobre sua aplicabilidade na realidade social, adaptando-as continuamente às necessidades individuais e coletivas da sociedade em que vivem, o que pode
alterar as leis que deram origem a essa reflexão. A esse processo de interpretar as estruturas sociais e ao mesmo tempo ser influenciado por elas, Giddens dá o nome de reflexividade.
Para o autor, estamos experimentando um momento de radicalização da reflexividade, isto é, as ações, os valores e as instituições são submetidos a interpretações e mudanças mais rápidas do que em períodos anteriores. Como as práticas sociais estão em constante transformação, torna-se mais complexo antecipar as consequências dessas mudanças, o que faz da modernidade tardia uma época de incertezas. Tais incertezas se materializam em situações de risco às quais estão submetidos
os sujeitos nas sociedades contemporâneas, como uma pandemia ou um grande atentado terrorista. A radicalização também resulta em mais reflexividade, uma vez que os indivíduos, diante de situações e informações cada vez mais diversas do cotidiano, reexaminam constantemente suas práticas sociais, o que lhes pode conferir alguma autonomia.
PIERRE BOURDIEU E O HABITUS (PÁGINA 47)
O sociólogo francês Pierre Bourdieu elaborou uma teoria que rompe com a dicotomia entre indivíduo e sociedade. Destacando a capacidade de a estrutura social ser incorporada pelos agentes por meio de disposições que orientam o pensar, o sentir e o agir, Bourdieu propôs um conceito central em sua obra: o de habitus.
Habitus é um sistema de disposições incorporadas que organizam as formas como os indivíduos percebem o mundo social ao redor e reagem a ele. Pode-se traduzir tal conceito como um conjunto de gostos ou um estilo de vida que condiciona a ação do indivíduo, o qual tende a agir de acordo com o que se espera de sua posição social. Trata-se, portanto, de uma forma de distinguir indivíduos pertencentes a diferentes grupos sociais. Por exemplo, o tipo de comida e o modo como se come, os gostos musicais e o lazer comuns entre indivíduos da classe trabalhadora costumam diferir daqueles compartilhados por ricos empresários.
Na compreensão de Bourdieu, é por meio do habitus que se evidencia a relação dialética – isto é, a interação dinâmica, conflitiva e contraditória que pode levar a mudanças – entre indivíduo e sociedade.
Pierre Bourdieu também foi um crítico das desigualdades, denunciando os mecanismos de dominação nelas existentes. Uma das questões norteadoras de seus estudos é o modo de reprodução das relações de dominação. Ele concluiu que a posição ocupada pelo indivíduo na hierarquia social depende do acesso a uma composição de capitais:
• capital econômico – renda ou salário, por exemplo;
• capital simbólico – prestígio ou reconhecimento;
• capital cultural – acesso ao conhecimento e à educação formal;
• capital social – relações que podem se converter em oportunidades.
IMAGEM EM CONTEXTO (PÁGINA 47)
Os hábitos alimentares, os gostos culinários e os conhecimentos gastronômicos são formas de capital cultural que operam socialmente como mecanismos de distinção social.
Prato feito composto de bife de fígado acebolado, arroz, feijão, purê de batata e farofa.
Prato de foie gras, fígado hipertrofiado de ganso, com maçã caramelizada.
HELEIETH SAFFIOTI E A MULHER NA SOCIEDADE DE CLASSES (PÁGINA 48)
A socióloga brasileira Heleieth Saffioti, ao analisar os problemas relacionados às desigualdades e à violência de gênero, evidenciou a importância de considerar, em conjunto, as diferentes contradições da sociedade brasileira no que diz respeito às identidades básicas de gênero, raça/etnia e classe social. De acordo com ela e outras importantes estudiosas desse assunto, como Lélia Gonzalez, a vida social das pessoas está inserida em uma trama complexa de relações de poder. Em razão disso, Saffioti ressalta a importância de considerar o lugar ocupado pelas mulheres negras trabalhadoras na estrutura social brasileira. Ainda que seu corpo seja marcado e sua voz seja silenciada pela violência de gênero nas relações cotidianas,
essas mulheres, de acordo com Saffioti, são capazes de mover estruturas por meio da contestação das diferentes formas de hierarquização que as têm colocado na base da pirâmide social.
CHARLES WRIGHT MILLS E A IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA (PÁGINA 48)
A sociologia nos ensina que nossas experiências pessoais não estão isoladas; elas fazem parte de experiências coletivas. O sociólogo Charles Wright Mills criou um conceito importante chamado imaginação sociológica. Esse conceito nos ajuda a entender como questões que parecem individuais na verdade fazem parte de problemas coletivos.
Um exemplo claro disso é o assassinato de George Floyd, um homem negro que foi morto por um policial branco em maio de 2020, nos Estados Unidos. Esse caso gerou uma série de manifestações antirracistas em todo o mundo, mesmo em meio à pandemia de covid-19. Isso se relaciona com o conceito de imaginação sociológica pelo fato de as pessoas perceberem que a história de George Floyd estava conectada a um problema maior: o racismo estrutural. Esse tipo de racismo afeta as relações sociais, criando desigualdades e hierarquias entre as pessoas.
IMAGEM EM CONTEXTO (PÁGINA 48)
“Vidas negras importam” é a tradução em português de “Black lives matter”, frase que deu nome ao movimento ativista internacional dedicado a combater o racismo e a violência policial. O movimento tornou-se popular em 2014, após a morte de Eric Garner, que, assim como George Floyd, foi asfixiado por um policial estadunidense. Em ambas as situações, o aviso “I can‘t breathe”, que significa em português “Não consigo respirar”, foi dado pelas vítimas. O movimento Black Lives Matter teve repercussões significativas no Brasil, dando visibilidade à discriminação racial e ao genocídio da juventude negra.
Protesto na cidade de Londres, no Reino Unido. Fotografia de 2020. Reivindicando paz e justiça, em reação à morte de George Floyd, os manifestantes se dirigiram à embaixada dos Estados Unidos empunhando cartazes com inscrições como “Vidas negras importam”.
O PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO (PÁGINA 49)
Socialização é um processo de assimilação de códigos e padrões culturais de um grupo social pelos diferentes indivíduos que o constituem, ou seja, é por meio dela que nos transformamos em seres sociais. Sem cultura, os indivíduos não seriam humanizados e não desenvolveriam a linguagem, instituição básica para o desenvolvimento da comunicação e da autoexpressão. Esse processo se inicia no nascimento e continua por toda a vida, por meio do contato permanente entre as pessoas.
Desde os primeiros contatos com o núcleo familiar, passando pela formação de relações afetivas, profissionais ou de amizade, os indivíduos são condicionados a estabelecer laços uns com os outros. Eles constroem sua identidade e sua personalidade com base nesse processo ininterrupto, sempre influenciados pelos diferentes elementos presentes na vida social.
Para os sociólogos Peter Berger e Thomas Luckmann, a socialização é importante por permitir a interiorização de padrões e instituições externas ao indivíduo. A criança, por exemplo, vai sendo ensinada a interiorizar papéis sociais e, nesse processo, vai formando sua identidade. Em outras palavras, o modo como uma pessoa age, pensa e sonha está relacionado à maneira como são construídas as relações que ela estabelece com os demais indivíduos e grupos sociais.
MECANISMOS E AGENTES DE SOCIALIZAÇÃO (PÁGINA 49)
Nossa relação com a sociedade é mediada pelos mecanismos de socialização, que são as formas pelas quais adquirimos os códigos e maneiras de ser de nossa cultura. Isso ocorre por processos como aprendizagem, imitação e identificação, conforme as referências que nos são apresentadas.
Além desses mecanismos, que dizem respeito ao modo como ocorre a assimilação de tendências e padrões de comportamento e pensamento, é importante destacar os agentes de socialização: grupos de pessoas ou instituições que atuam diretamente na definição desses padrões, como a família, a escola, os grupos religiosos, os colegas de trabalho, os amigos e os meios de comunicação de massa. Por meio desses agentes, somos expostos a ideias, valores e representações que nos formam. Assim, o tempo, a intensidade e a qualidade das interações que mantemos com esses agentes influenciam a formação de nossa personalidade, de nossos gostos e de nossas crenças.
IMAGEM EM CONTEXTO (PÁGINA 49)
Jogos coletivos são um exemplo da influência dos padrões de comportamento e interação na organização dos diferentes grupos sociais por meio da incorporação de regras, práticas e ideias pelos indivíduos, além de serem uma forma de interação social e de socialização.
Partida de rõkrã realizada nos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, em Palmas, Tocantins. Fotografia de 2015. O rõkrã é um jogo coletivo semelhante ao hóquei tradicionalmente praticado por indígenas da etnia Kayapó.
GRAFIA DOS NOMES DOS POVOS INDÍGENAS BRASILEIROS (PÁGINA 49)
Nos livros desta coleção, os nomes dos povos indígenas que vivem no Brasil foram grafados de acordo com a Convenção para a Grafia dos Nomes Tribais, aprovada em 1953 na Primeira Reunião Brasileira de Antropologia:
• com inicial maiúscula, quando usados como substantivo, e opcional, quando usados como adjetivo.
• sem flexão de número ou de gênero.
Não estendemos esse padrão aos demais povos indígenas americanos e povos africanos.
SOCIALIZAÇÃO PRIMÁRIA E SOCIALIZAÇÃO SECUNDÁRIA (PÁGINA 50)
O processo contínuo de aprendizado social subdivide-se em duas etapas: a da socialização primária e a da socialização secundária.
• A socialização primária tem início com o nascimento de uma criança e relaciona-se a seu convívio social rotineiro mais próximo com o núcleo familiar.
Ocorre por meio de contatos caracterizados por alto grau de afetividade, que constituem relações diretas e de forte proximidade.
• A socialização secundária é iniciada ao final da infância e continuada ao longo da vida. Por meio dela, os indivíduos estabelecem contato com diferentes realidades sociais em espaços como instituições educacionais e esportivas, locais de trabalho, grupos de amigos e associações profissionais.
No século XXI, o avanço das tecnologias da informação e o crescimento das redes sociais aumentaram a diversidade de influências na nossa vida. As redes sociais, em especial, se tornaram ferramentas importantes para moldar comportamentos e formar opiniões. Além dos meios de comunicação, essas tecnologias têm um grande impacto na forma como crianças e jovens desenvolvem seus valores, interagem com outras pessoas e se comportam no dia a dia.
AS DIVERSAS POSSIBILIDADES DE SOCIALIZAÇÃO (PÁGINA 50)
Em uma sociedade marcada pela diversidade, há diferentes caminhos para a socialização dos indivíduos, pois a formação de cada pessoa está diretamente relacionada às experiências da vida cotidiana. Nesse sentido, os processos de
socialização têm tanto aspectos em comum, que refletem as regras e os costumes mais amplos da sociedade, quanto aspectos que estão ligados à realidade de cada grupo social, com seus próprios valores e normas.
A formação da sociedade brasileira, por exemplo, começou com a dominação portuguesa, entre os séculos XVI e XIX, e a língua oficial do país é herança dessa relação. A língua portuguesa, portanto, é um elemento comum da socialização primária e secundária da maioria da população brasileira. Entretanto, ela insere ou exclui palavras e modos de falar que são específicos das experiências dos diversos grupos sociais que compõem a sociedade e das relações que eles estabelecem uns com os outros nas diferentes regiões do país. Assim, quando chegamos a um lugar do país diferente daquele onde nos socializamos, encontramos dificuldade em entender o significado de algumas palavras utilizadas no dia a dia.
Tirinha do personagem Armandinho, de Alexandre Beck, 2019.
ATIVIDADES (PÁGINA 50)
1. Qual é o tema abordado na tirinha?
2. Identifique na tirinha qual é o elemento de socialização comum às três personagens e qual é o elemento específico do grupo social de cada uma.
REGRAS E VALORES (PÁGINA 51)
Cada grupo social estabelece com outros grupos relações fundamentais para a sobrevivência coletiva. As regras e os valores relacionados às demandas dessa interação são transmitidos de geração a geração por meio de diversos processos que remetem às tradições culturais, religiosas e econômicas desses grupos. Assim, os processos de formação de integrantes de povos indígenas, quilombolas e moradores das periferias, das áreas rurais e das áreas urbanas de um município, por exemplo, apresentam semelhanças e diferenças.
Entre os moradores da comunidade quilombola de Inhanhum, em Pernambuco, por exemplo, os mais jovens aprendem a tocar instrumentos e a participar do reisado de Inhanhum. Dessa forma, são integrados aos valores de seus antepassados.
Outro exemplo pode ser observado nas periferias dos grandes centros urbanos do Sudeste. Em alguns desses locais, as escolas de samba são espaços de socialização onde se misturam tradições das culturas afro-brasileiras com elementos da cultura europeia.
É importante entender que, nos processos de socialização, deve-se ter como objetivo preparar os indivíduos para conviver com as diferenças e combater as hierarquizações em que determinadas práticas e alguns saberes são considerados menos importantes que outros. Essas hierarquizações contribuem para ampliar as desigualdades sociais, que se manifestam no modo como são considerados os
processos de transmissão das tradições e dos valores. Assim, quem tem uma concepção equivocada de sociedade tende a considerar que as normas e os valores da elite econômica e política devem se sobrepor aos dos demais grupos. Isso influencia diretamente o modo como atuam muitas instituições sociais.
Apresentação do grupo Reisado Mirim, da Comunidade Quilombola de Inhanhum, em Santa Maria da Boa Vista, Pernambuco. Fotografia de 2023.
SUGESTÃO (PÁGINA 51)
Bordados
Marjane Satrapi. São Paulo: Quadrinhos na Cia., 2010.
Bordados é uma história em quadrinhos cujo enredo se desdobra em Teerã, capital do Irã. Nela, grupo de mulheres toma chá após o almoço enquanto conversa sobre diferentes aspectos da vida. Durante a conversa, amigas e familiares de diferentes gerações relatam situações pessoais que atravessam regras e valores da cultura iraniana –como a virgindade, o casamento e a honra familiar. Por meio de conversas e narrativas pessoais descontraídas, a obra exemplifica como normas e valores culturais são transmitidos, internalizados e desafiados.
ESCOLA: FORMAÇÃO, REPRODUÇÃO E TRANSFORMAÇÃO (PÁGINA 52)
A escola adquiriu lugar central na formação dos indivíduos nas sociedades contemporâneas. Uma das finalidades da escola é transmitir informações, padrões de comportamento e valores relacionados à sociedade na qual os jovens, que são seu principal público, estão sendo inseridos. Considerando essa finalidade da escola, podemos refletir sobre algumas questões: de onde vêm os valores que você e os demais estudantes recebem na escola? As práticas, saberes e tradições de todos os grupos sociais são igualmente valorizados pelas instituições escolares?
Pierre Bourdieu afirmou que as instituições escolares podem reproduzir e reforçar as desigualdades sociais caso adotem um modelo de ensino que não contemple as distinções e as trajetórias dos grupos sociais dos quais os estudantes fazem parte. Em outras palavras, ao tratar todos os estudantes como indivíduos iguais, a escola reforça as diferenças econômicas, culturais e políticas, entre outras, que foram produzidas fora dela.
Para compreender melhor esse argumento, pensemos em um estudante que mora na periferia de um grande centro urbano, que tem o hábito de frequentar os museus da cidade e participou, entre outros eventos, de uma mostra sobre arte indígena. Agora, consideremos um estudante que mora em um município do interior do estado, onde a principal atividade econômica é a agricultura, e que, apesar de interessado, nunca teve a oportunidade de ver presencialmente uma obra de arte ou uma exposição sobre culturas indígenas. Na escola, ao estudarem o tema, eles terão conhecimentos prévios diferentes sobre o assunto. Dessa maneira, o primeiro estudante pode compreender melhor o conteúdo que o segundo. Do mesmo modo, se o assunto discutido na escola for o trabalho prático com a agricultura, o segundo estudante poderá ter mais saberes prévios que o primeiro e compreender melhor o conteúdo. Bourdieu chama o conjunto de conhecimentos, habilidades, comportamentos e referências culturais que uma pessoa adquire ao longo da vida de capital cultural.
Segundo o sociólogo, portanto, o capital cultural é o conjunto de recursos culturais – como conhecimentos, experiências, habilidades e disposições – obtidos por meio do acesso a determinados hábitos e saberes que são valorizados pela sociedade e pela escola. Estudantes que, em razão de sua origem social e trajetória, tiveram contato prévio com esses recursos terão vantagens em relação aos demais, o que demonstra que o acesso desigual ao capital cultural durante a socialização faz diferença no êxito escolar. Quando não se leva essa situação em consideração, promovem-se a manutenção e a reprodução das desigualdades sociais entre os estudantes.
Família visita a exposição Novos ares: Pontal reinventado no Museu do Pontal, na Barra da Tijuca, bairro da capital do estado do Rio de Janeiro. Fotografia de 2023. A visita a museus é uma das formas de construir capital cultural.
PEDAGOCIA DECOLONIAL (PÁGINA 53)
O conhecimento escolar tem como orientação os padrões dominantes, ou seja, as práticas, os valores e os hábitos considerados mais importantes por aqueles que controlam política, econômica e culturalmente a sociedade, gerando a reprodução desses valores e a manutenção da hegemonia de determinados grupos em relação a outros.
Ao observar as escolas brasileiras e os conhecimentos produzidos e discutidos por meio dos conteúdos dos componentes curriculares, pode-se verificar que, frequentemente, são priorizados os valores e as práticas oriundos da Europa e é dada menor atenção às tradições indígenas, africanas, quilombolas e das camadas populares urbanas e rurais.
Uma tentativa de mudar esse padrão foi feita com a promulgação da Lei no 10.639, de 2003, que tornou obrigatória a presença de conhecimentos relacionados à história e à cultura afro-brasileiras nas grades curriculares da Educação Básica. A Lei no 11.645, de 2008, ampliou esse alcance ao incluir a história e a cultura indígenas nos currículos.
Com o aumento dos estudos sobre os conhecimentos,
os saberes e as práticas das populações negra e indígena, desenvolve-se também a pedagogia decolonial, isto é, o conjunto de ações pedagógicas implementado para romper com as formas hegemônicas de pensamento, desafiando e derrubando as estruturas sociais, culturais e políticas baseadas no conhecimento eurocêntrico e na inferiorização de alguns grupos humanos.
Essa pedagogia é aplicada para contestar padrões de
dominação e exploração, valorizando a autonomia e a diversidade, operando além dos sistemas educacionais, em diálogo com experiências críticas e políticas da vida cotidiana e em conjunto com movimentos sociais e culturais. Portanto, com a pedagogia decolonial, busca-se, segundo a pedagoga da decolonialidade Catherine Walsh, valorizar maneiras de compreender o mundo e viver nele que não estejam vinculadas ao padrão eurocêntrico, contribuindo para questionar as diferentes formas de desigualdade presentes nas sociedades contemporâneas.
IMAGENS EM CONTEXTO (PÁGINA 53)
As reuniões da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência são encontros, realizados anualmente em universidades brasileiras desde 1949, que reúnem gestores públicos e pesquisadores representantes de sociedades científicas com o objetivo de difundir os avanços da ciência em diversas áreas do conhecimento.
Na reunião de 1981, ao notar que a questão racial não estava sendo debatida em nenhuma mesa e em nenhum grupo
de trabalho, integrantes do Movimento Negro Unificado decidiram pautar a temática nas mesas e nos grupos de que participavam e organizar uma manifestação. Entre as faixas do ato, duas destacavam a importância da descolonização do currículo escolar: “Pela revisão da história do Brasil” e “Pelo ensino da história e cultura negra”. A mobilização do movimento negro foi fundamental para a formulação e a implementação da Lei no 10.639/2003.
Manifestação do Movimento Negro Unificado em reunião anual da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência, em Salvador, na Bahia. Fotografia de 1981.
INTERAÇÃO SOCIAL E DIVERSIDADE (PÁGINA 54)
São elementos centrais para a construção social dos sujeitos a interação e as relações que eles estabelecem com outros indivíduos e grupos sociais. Por interação social, entende-se o conjunto das influências recíprocas desenvolvidas entre os indivíduos e entre estes e os grupos sociais. Todo processo de socialização ocorre em um contexto de interação social.
As formas de interação repetem-se, embora seu conteúdo possa variar. Os diferentes modos de interação social, como a cooperação, a competição e o conflito, são padrões estáveis, podendo manifestar-se no trabalho doméstico e nas atividades escolares (cooperação), nos esportes e nos concursos (competição) ou até mesmo nas relações, quando tensas, entre patrões e empregados ou fazendeiros e trabalhadores rurais sem-terra (conflito).
Uma das tarefas da socialização é a percepção, por parte dos indivíduos e grupos, da necessidade de adotar condutas reconhecidas socialmente durante o processo de interação social. Quando comparecemos a uma festa de aniversário, independentemente do relacionamento que tenhamos com o aniversariante, estamos conscientes de que determinadas condutas devem ser empregadas naquele momento. Do mesmo modo, em cada ambiente ou situação social, adotamos comportamentos que supomos ser os esperados, os quais variam quando estamos em casa, em uma
cerimônia de formatura ou em um velório.
STATUS E PAPÉIS SOCIAIS EM UMA SOCIEDADE EM TRANSFORMAÇÃO (PÁGINA 54)
Na sociedade e nos diversos processos de interação, indivíduos e grupos ocupam posições sociais vinculadas a diferentes graus de prestígio, poder, direitos e deveres. Na sociologia, essa condição é denominada status. Todos os membros de uma sociedade ou de um grupo social têm uma ou mais posições de status. Na hierarquia de uma escola, por exemplo, direção, coordenação e corpo docente ocupam lugares distintos; portanto, apresentam status diferentes.
A cada status é atribuída uma maneira específica de agir e de se relacionar na vida social. O mesmo status pode envolver diferentes papéis sociais, que são os comportamentos socialmente esperados de indivíduos e de grupos em determinada posição. Um estudante, por exemplo, desempenha diferentes papéis sociais como integrante de uma turma, colega, representante no grêmio escolar e usuário da biblioteca. Seu status de estudante é mantido, mas com diferentes obrigações e atribuições, conforme os atores sociais com os quais interage e o contexto em que está inserido. As posições de status e os papéis sociais não são imutáveis. Ao longo da história, o lugar ocupado pelos indivíduos e os papéis que exercem se modificam.
Mulher trabalhando com soldagem, em Norderstedt, próximo a Hamburgo, na Alemanha. Fotografia de 2020. A percepção sobre atividades consideradas exclusivas de homens ou de mulheres tem mudado muito. Profissões vinculadas à indústria eram tidas como mais adequadas aos homens, mas esses papéis sociais têm se transformado.
SUGESTÃO (PÁGINA 54)
Maria vai com as outras – Episódio 6: Lugar de homem
Produção: Rádio Novelo. Brasil, 2018. 43 minutos.
Nesse episódio, a apresentadora conversa com duas mulheres que atuam em profissões historicamente masculinas: Adinaildes Gomes, dona de uma empresa de construção civil e motorista de aplicativo, e Karla de Souza, vigilante patrimonial.
DIFERENTES SIGNIFICADOS DE CULTURA (PÁGINA 55)
O termo cultura tem diversos significados e usos. É por meio da cultura que buscamos soluções para nossos problemas cotidianos, interpretamos a realidade e interagimos uns com os outros. A maneira pela qual estruturamos a economia, as formas de organização política, as normas e os valores que orientam nossas ações são elementos presentes na cultura. Ao mesmo tempo que orienta nossos saberes e práticas, a cultura é também resultado de nossas ações sociais; por isso, está em constante transformação.
A construção da cultura não ocorre de maneira harmônica e igualitária, pois é marcada por conflitos e relações desiguais entre os diversos grupos humanos. Ao exaltar a diversidade cultural brasileira, por exemplo, não podemos nos esquecer de que boa parte da cultura popular é objeto de preconceito. Os processos históricos que geraram essas expressões culturais foram marcados por conflitos em que indígenas, negros, mulheres, nordestinos, quilombolas, integrantes de comunidades ribeirinhas e outras minorias sociais foram considerados cidadãos “menos evoluídos”, e suas contribuições para a formação da cultura foram interpretadas como inferiores. A história mostra, no entanto, que, diante de interesses políticos e comerciais, os grupos dominantes incorporam saberes, costumes e práticas das minorias sociais
ao padrão cultural estabelecido.
IMAGEM EM CONTEXTO (PÁGINA 55)
A Praça da Colmeia é considerada o berço do hip-hop na capital paulista, sendo referência entre rappers, dançarinos e grafiteiros desde os anos 1980. O hip-hop é um gênero musical popular criado por afro-americanos em um bairro de Nova York, nos Estados Unidos, na década de 1970, tornando-se popular no Brasil na década de 1990. Uma de suas características principais são as letras em forma de narrativa sobre vivências na periferia das cidades. Esse movimento dá voz, assim, às juventudes pobre e negra das periferias urbanas.
Evento para celebrar os cinquenta anos da cultura hip-hop e os quarenta anos de sua presença no Brasil na Praça da Colmeia, no pátio da estação de metrô São Bento, no centro da capital do estado de São Paulo. Fotografia de 2023.
SUGESTÃO (PÁGINA 55)
Que mal eu fiz a Deus?
Direção: Philippe de Chauveron. França, 2014. 97 minutos.
Um casal católico não fica satisfeito quando três de suas filhas se casam com homens de diferentes nacionalidades e religiões. Porém, assim que a filha mais jovem anuncia seu casamento com um católico, os pais se sentem redimidos, mas descobrem que nem tudo é do jeito que gostariam. Em ritmo de comédia, envolvendo crenças religiosas, pertencimentos étnicos e variações culturais, o filme propicia o debate sobre tolerância e diversidade.
CULTURA COMO JUÍZO DE VALOR E COMO PRODUÇÃO SOCIAL (PÁGINA 55)
Para entender os diferentes significados do termo cultura, devemos atentar para algumas formas de sua utilização. Uma delas é empregada para associar cultura a educação. Ao afirmar que “uma pessoa tem muita cultura”, usa-se o termo no sentido de educação formal ou acadêmica. Nesse aspecto, a cultura produz uma hierarquização dos indivíduos e grupos. Essa, porém, é uma visão típica do senso comum e deve ser problematizada.
CULTURA E PODER (PÁGINA 56)
Cada grupo ou coletividade constrói sua visão de mundo com base em contextos históricos e práticas sociais específicos. Nesse processo, interpretações e ações são difundidas socialmente para que se tornem o padrão a ser seguido. Quando isso ocorre, estamos diante do que chamamos ideologia.
Para perceber como ocorre esse processo de construção de um padrão dominante a ser seguido, pense em sua realidade de estudante. Os conhecimentos, as normas, os valores e as ações pedagógicas com que você interage no espaço escolar são produzidos em contextos históricos específicos e por grupos que têm interesse em sua formação.
A escola tradicional é, portanto, um veículo para a difusão da ideologia dominante; por isso, há uma desvalorização da cultura popular, baseada em outras formas de pensar e de agir. Assim, vários saberes e práticas que não pertencem ou não interessam à classe dominante são historicamente desconsiderados por essa instituição.
Cultura e ideologia são conceitos utilizados para explicar a relação entre pensamento e ação. Diferentes contextos modelam nossas escolhas pessoais. Na atualidade,
por exemplo, a expansão das novas tecnologias da informação e da comunicação é um elemento que interfere em nossas opções de vida. Produzidas com base em uma dinâmica que envolve diversos interesses econômicos, sociais e políticos, essas tecnologias provocam transformações no modo como os diferentes atores sociais agem e se percebem no mundo. Em contrapartida, a maneira como indivíduos e coletividades se apropriam dessas tecnologias pode alterar o sentido e a utilização originais planejados por aqueles que incentivaram sua difusão.
Perceber os múltiplos significados e usos do termo cultura é um dos modos de constatar sua importância. Palavra de origem latina, cultura deriva de colere, que significa “cuidar, cultivar”, e pode também adquirir sentidos ligados à saúde fisiológica (cuidar do corpo), à religião (cultuar uma divindade) ou, ainda, à produção de alimentos (agricultura). O uso do termo é, portanto, dinâmico e adquire sentidos diversos de acordo com o contexto social e histórico.
O violeiro, pintura de José Ferraz de Almeida Júnior, 1899. A obra representa um aspecto da cultura rural, principalmente do interior do estado de São Paulo. A hierarquização entre as culturas urbana e rural é um exemplo do uso discriminatório do termo cultura.
ATIVIDADES (PÁGINA 56)
1. Descreva os seguintes elementos da imagem: personagens, objetos, formas, cores e temática.
2. Ao analisar a forma como Almeida Júnior retrata a paisagem e as personagens, você considera que o artista tipifica a cultura sertaneja como inferior, a valoriza ou desvaloriza? Por quê?
DIFERENTES FORMAS DE CULTURA (PÁGINA 57)
Nas ciências sociais, a cultura é considerada o conjunto de práticas e valores de um grupo social, em suas dimensões material e imaterial, constituindo um patrimônio a ser preservado e transmitido. Isso não significa a impossibilidade de relacionar a produção cultural com os grupos que a geraram. Pode-se afirmar que a cultura assume diversas faces, que, em grande medida, representam os grupos, os sujeitos e os contextos nos quais se formaram, não havendo atribuição de superioridade de uma expressão cultural sobre outra.
A cultura material, por exemplo, abrange os bens tangíveis produzidos pelas sociedades, como construções, alimentos, móveis e aparelhos eletrônicos. Já a cultura imaterial é composta de práticas, expressões, valores, conhecimentos e saberes produzidos pelos membros de uma comunidade ao longo do tempo.
Interior da Basílica do Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador, Bahia. Fotografia de 2023. Uma igreja é um exemplo de cultura material.
Apresentação de grupo de maracatu de baque solto, também conhecido como maracatu rural, em Nazaré da Mata, Pernambuco. Fotografia de 2024. O maracatu constitui uma manifestação de cultura imaterial.
CULTURA ERUDITA E CULTURA POPULAR (PÁGINA 57)
Constituem a cultura erudita as práticas, os costumes e os saberes produzidos para a elite ou por ela, que procura se distinguir das outras classes. A cultura erudita está presente em espaços institucionalizados que elegem a produção da elite como referência para o que seria a “alta cultura”. É o caso das “belas-artes”, da literatura e da música clássica, por exemplo.
Por cultura popular, entende-se o conjunto das práticas, dos costumes e dos saberes que têm origem nas experiências cotidianas das classes dominadas ou populares. As manifestações da cultura popular, por fugirem às regras e aos padrões dominantes, tendem a ocupar espaços alternativos. É o caso da produção dos artistas de rua.
TRABALHO COM FONTES (PÁGINA 58)
PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL (PÁGINA 58)
As políticas públicas de apoio e promoção da cultura no Brasil têm como marco institucional relevante a criação, em 1937, do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan).
Nas primeiras décadas de existência dessa instituição, as políticas de patrimônio estiveram voltadas, sobretudo, à preservação de sítios e objetos históricos do passado colonial, o que levou à exaltação de uma memória branca e católica como constitutiva do patrimônio do país. O cenário começou a se modificar nos anos 2000, quando a instituição passou a registrar bens de natureza imaterial, integrando atores sociais ligados a minorias étnicas, como indígenas e quilombolas, e valorizando saberes e práticas da cultura popular, como o ofício das paneleiras de Goiabeiras, próprio de Vitória, no Espírito Santo, o modo de fazer viola de cocho, característico do Centro-Oeste brasileiro, a Feira de Caruaru, em Pernambuco, o modo artesanal de fazer queijo de Minas Gerais, entre outros.
No processo de patrimonialização de bens culturais imateriais, dois documentos são importantes: o Livro de Registro das Formas de Expressão (uma espécie de certidão por meio da qual se reconhece oficialmente o bem como patrimônio nacional) e o Plano de Salvaguarda (um projeto que reúne ações para proteger, promover e transmitir o bem patrimonializado, garantindo sua continuidade).
Analise, a seguir, um trecho de cada um desses documentos referente ao samba de roda do Recôncavo Baiano, reconhecido pelo Iphan como bem cultural imaterial em outubro de 2004.
TEXTO 1
LIVRO DE REGISTRO DAS FORMAS DE EXPRESSÃO (PÁGINA 58)
O Samba de Roda baiano é uma expressão musical, coreográfica, poética e festiva das mais importantes e significativas da cultura brasileira. Presente em todo o estado da Bahia, ele é especialmente forte e mais conhecido na região do Recôncavo, a faixa de terra em torno da Baía de Todos-os-Santos. Seus primeiros registros, já com esse nome e com muitas das características que ainda hoje o identificam, datam dos anos 1860.
O Samba de Roda traz como suporte determinante tradições culturais transmitidas por africanos escravizados e seus descendentes. Tais tradições incluem, entre outros, o culto aos orixás e caboclos, o jogo da capoeira e a chamada comida de azeite. A herança negro-africana no Samba de Roda se mesclou de maneira singular a traços culturais trazidos pelos portugueses – como certos instrumentos musicais, viola e pandeiro principalmente – e à própria língua portuguesa nos elementos de suas formas poéticas. O Samba de Roda pode ser
realizado em associação com o calendário festivo – caso das festas da Boa Morte, em Cachoeira, em agosto, de São Cosme e Damião, em setembro, e de sambas ao final de rituais para caboclos em terreiros de candomblé. Mas ele pode também ser
realizado em qualquer momento, como uma diversão coletiva, pelo prazer de sambar. Essa expressão musical possui inúmeras variantes, que podem ser divididas em dois tipos principais: o samba chula, [...], e o samba corrido. [...] A viola típica da região
de Santo Amaro é chamada de machete e tem dimensões reduzidas, sendo pouco mais que um cavaquinho. Na coreografia, o gesto mais típico é o chamado miudinho, feito sobretudo da cintura para baixo. Consiste num quase imperceptível deslizar para frente e para trás dos pés colados ao chão, com a movimentação correspondente dos quadris,
num ritmo assimilável, ao compasso dito 6/8.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Ministério da Cultura. Certidão de 5 de outubro de 2004. Confere o título de patrimônio cultural do Brasil ao samba de roda do Recôncavo Baiano. Lex: Livro de Registro das Formas de Expressão. Brasília, DF: Iphan, 2004. v. 1, p. 3.
TEXTO 2
PLANO DE SALVAGUARDA (PÁGINA 59)
Objetivos a curto prazo:
• Salvaguardar o saber tradicional dos praticantes mais idosos do samba de roda, e contribuir para sua transmissão às gerações mais novas.
• Revitalizar no Recôncavo a feitura artesanal de violas de samba e em especial de machetes.
[...]
• Contribuir para o processo de auto-organização dos sambadores do Recôncavo.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Objetivos do Plano Integrado de Salvaguarda e Valorização do Samba de Roda. In: INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Dossiê Samba de Roda do Recôncavo Baiano. Brasília, DF: Iphan, 2006. p. 85.
IMAGEM EM CONTEXTO (PÁGINA 59)
O Recôncavo Baiano é uma região formada por 19 municípios próximos à Baía de Todos-os-Santos, no estado da Bahia. Os municípios que a compõem são: Muritiba, Cruz das Almas, Cabeceiras do Paraguaçu, Castro Alves, Sapeaçu, São Felipe, Conceição de Almeida, Varzedo, Santo Antônio de Jesus, Dom Macedo Costa, Muniz Ferreira, Governador Mangabeira,
São Félix, Cachoeira, Maragogipe, Santo Amaro, Saubara, Salinas da Margarida e Nazaré.
Fonte: SUPERINTENDÊNCIA DE ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA BAHIA. Perfil dos territórios de identidade. Salvador: SEI, 2016. p. 114.
ATIVIDADES (PÁGINA 59)
1. Quais informações sobre o patrimônio cultural imaterial é possível extrair da análise do trecho do Livro de Registro das Formas de Expressão?
2. Explique como a manifestação cultural em questão apresenta influências de diferentes tradições culturais.
3. Como os objetivos a curto prazo listados no trecho do Plano de Salvaguarda podem contribuir para a preservação e a transmissão desse bem imaterial?
Mulheres dançando samba de roda do Recôncavo Baiano, em Santo Amaro, na Bahia. Fotografia de 2016.
A CONSTITUIÇÃO DA ANTROPOLOGIA (PÁGINA 60)
A discussão antropológica ocidental sobre cultura, de uma perspectiva científica, iniciou-se no século XVI. Nesse período, as grandes viagens marítimas possibilitaram aos europeus conhecer outras partes do mundo e, assim, entrar em contato com diferentes grupos humanos, o que suscitou debates sobre os hábitos, os costumes e a produção desses grupos.
Com a formação dos impérios coloniais europeus, estabeleceu-se um processo de intercâmbio cultural e de dominação em diferentes regiões do planeta cujos efeitos estão presentes até os dias atuais. A reflexão sobre os padrões culturais diante da inesgotável diversidade humana tornou-se mais complexa e ganhou uma abordagem científica. Tal abordagem foi aplicada na tentativa de desvendar os mistérios da organização social humana.
A antropologia, criada no século XIX, é a ciência social voltada ao estudo das culturas em todo o mundo. Inicialmente, o objeto de interesse dos antropólogos eram as sociedades não industriais, mas depois incorporou-se a análise das sociedades industriais.
NATUREZA E CULTURA NA ANTROPOLOGIA (PÁGINA 60)
Nos primeiros estudos sobre as diferenças culturais, buscaram-se respostas em elementos geográficos e biológicos, de modo que os argumentos explicativos tinham por base características relacionadas à natureza de um povo ou região. Daí se origina a expressão determinismo biológico, de acordo com o qual as práticas culturais de diferentes sociedades seriam explicadas com base nas características biológicas da população. Essa visão de mundo foi usada para explicar e justificar a dominação das populações negras e indígenas pelos europeus, que se consideravam superiores. O determinismo geográfico, por sua vez, era utilizado para explicar as diferenças culturais com base nas características naturais das regiões, como o clima e o relevo, a fim de valorizar as nações do norte do globo em detrimento dos povos do sul. Ambas as perspectivas foram superadas pela antropologia, mas ainda estão presentes no senso comum, reforçando preconceitos e estereótipos; por isso, devem ser questionadas e desconstruídas.
Inspirado nas teorias do naturalista Charles Darwin, também teve muita repercussão o chamado darwinismo social, que estendia explicações do mundo animal à análise da organização das sociedades humanas. Com base nessa ideia, foram elaborados modelos classificatórios hierarquizantes, que categorizavam as sociedades em “atrasadas” ou “avançadas”, o que não é mais admitido na antropologia.
IMAGEM EM CONTEXTO (PÁGINA 60)
Na manifestação ocorrida em Itatiaia, em 12 de abril
de 2023, os ativistas e líderes indígenas, posicionados próximo a um balão inflável com a forma de uma máquina escavadeira, denunciavam os prejuízos causados pelas máquinas escavadeiras usadas nas terras indígenas Kayapó, Munduruku e Yanomami. As práticas derivadas do etnocentrismo colocam
em risco diferentes grupos sociais em todo o mundo.
Ativistas e líderes indígenas em manifestação contra a mineração ilegal em Itatiaia, no Rio de Janeiro. Fotografia de 2023.
SUGESTÃO (PÁGINA 60)
Ideias para adiar o fim do mundo
Ailton Krenak. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Nesse livro, Ailton Krenak afirma que somente o reconhecimento da diversidade e a recusa da ideia do ser humano como superior aos demais seres podem ressignificar nossa existência e frear a destruição socioambiental de nossa era.
ETNOCENTRISMO (PÁGINA 61)
A rejeição a práticas culturais estranhas à cultura do observador constitui uma tendência universal que vem sendo problematizada pela antropologia. Essa forma de pensar e agir é denominada etnocêntrica e, no limite, pode ter desdobramentos bastante graves, como a imposição de valores e a dominação cultural, com diferentes graus de violência.
O etnocentrismo caracteriza a visão de mundo de quem considera sua cultura e seu grupo étnico mais importantes que os demais. Dessa perspectiva, com base em critérios de sua cultura, o observador julga que as práticas e os valores culturais de outros povos ou grupos sociais são atrasados ou sem sentido.
Ao longo da história, os contatos entre povos com diferentes práticas culturais despertaram estranheza, desconfiança e até mesmo rejeição. Situações como essas podem ser observadas até hoje. Atitudes racistas e discriminatórias – fundadas na xenofobia (aversão ao estrangeiro) e derivadas de uma visão etnocêntrica – continuam a ocorrer, apesar de serem combatidas por grupos organizados da sociedade civil e pelo sistema judiciário, quando tipificadas no Código Penal.
O olhar etnocêntrico sobre o mundo produz duas atitudes que desqualificam a diversidade: o preconceito e a discriminação. O preconceito está presente, por exemplo, na avaliação por grupos ou indivíduos das práticas culturais de outros com base em valores e opiniões preestabelecidos. Esse tipo de pensamento pode se efetivar por meio de atitudes discriminatórias, ou seja, da depreciação de práticas, valores e costumes de outras culturas.
ANTROPOLOGIA EVOLUCIONISTA (PÁGINA 61)
A primeira teoria social sobre o tema da cultura foi desenvolvida no Reino Unido, no século XIX, com base, sobretudo, nos estudos do antropólogo evolucionista Edward Burnett Tylor. Em seu livro Cultura primitiva, publicado em 1871, Tylor define cultura como “o todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”.
Apesar de sua importância na história da antropologia, a escola evolucionista é responsável pela construção da concepção equivocada de que as sociedades têm início em um estado primitivo e tornam-se civilizadas com o passar do tempo. Essa tese contribuiu para justificar o processo de colonização da África e da Ásia no século XIX, pois fundamentou a ideia de que os europeus levariam a civilização aos povos de outros continentes.
Com base em uma visão eurocêntrica de que a cultura europeia seria o modelo por meio do qual as demais culturas deveriam ser julgadas, essa forma de pensar ainda exerce influência em nossa sociedade. Isso pode ser percebido, por exemplo, quando são adotados padrões de comportamento típicos do Ocidente – principalmente da Europa Ocidental e dos Estados Unidos – para analisar formas de organização social e práticas culturais de outras regiões do globo.
Praticantes do candomblé durante cerimônia religiosa no terreiro Ilê Axé Alá Obatalandê, em Lauro de Freitas, Bahia. Fotografia de 2019. O olhar etnocêntrico se manifesta na discriminação a grupos e culturas, como os adeptos e praticantes de religiões afro-brasileiras.
DIVERSIDADE E RELATIVISMO CULTURAL (PÁGINA 62)
De maneira oposta ao evolucionismo, o relativismo cultural é uma forma de pensar cada manifestação cultural como legítima. Com base nessa perspectiva, compreende-se que toda cultura deve ser entendida de acordo com seus termos, saberes e critérios. Dessa forma, para contrapor-se ao evolucionismo, que dominava o pensamento social e político, foram desenvolvidos, a partir de fins do século XIX, outros métodos de pesquisa e de análise da cultura. O resultado desse esforço intelectual está presente em diferentes teorias sociais, que têm em comum o reconhecimento e a valorização da diversidade cultural.
A ideia partilhada entre as escolas contrárias aos postulados da antropologia evolucionista é a de que as sociedades não são o resultado de um desenvolvimento unilinear e ascendente das culturas. Para essas escolas, a diversidade cultural é a regra da vida humana e se manifesta por meio de empréstimos e de imitação cultural (difusionismo) e das trajetórias independentes e não hierárquicas dos grupos
humanos (culturalismo). Há também as correntes antropológicas que afirmam que as expressões culturais e as formas de organização social devem ser compreendidas com base nas funções de cada elemento cultural na integração e na estabilidade da sociedade (funcionalismo). Para outras vertentes, a cultura deve ser entendida como a estrutura do conjunto de sistemas simbólicos (arte, religião e educação) que atuam de modo integrado (estruturalismo) ou como uma “complexa teia de significados” compartilhados elaborada pelos seres humanos e variável de acordo com o grupo social (interpretativismo). A diversidade cultural é considerada positiva pelos defensores do relativismo cultural, que a compreendem como portadora dos direitos de expressão e de existência.
IMAGEM EM CONTEXTO (PÁGINA 62)
Na Índia, as vacas são consideradas animais sagrados e associadas à espiritualidade e à abundância. Por isso, esses animais podem circular livremente pelas ruas e costumam ser bem tratados e reverenciados.
Sacerdote hindu indiano oferece orações a uma vaca no Lago Sagrado de Pushkar, no Rajastão, na Índia. Fotografia de 2020. Um dos modos de reconhecer a diversidade cultural é observar a relação das culturas humanas com os animais. Cada forma de relação só pode ser compreendida em sua lógica.
SUGESTÃO DE LEITURA (PÁGINA 62)
Nós: uma antologia de literatura indígena
Organização de Mauricio Negro. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2019.
Os mitos, narrativas ancestrais, movem as sociedades indígenas e explicam muito de sua cultura e de sua interpretação sobre as origens do mundo e dos seres. Essa obra reúne dez desses mitos, narrados por escritores indígenas de diferentes etnias que lutam para que elas sejam aceitas e respeitadas por suas raízes ancestrais e por compor a diversidade cultural do Brasil.
IDEOLOGIA E COMPORTAMENTO SOCIAL (PÁGINA 63)
Na vida social, quando nos deparamos com um problema, tentamos encontrar soluções para ele. Essas soluções não são neutras: todos os indivíduos e grupos sociais têm interesses atrelados às ideias que constroem ou que lhes são apresentadas no processo de interação social. O conjunto de ideias e valores que orientam o comportamento humano compõe a ideologia. A ideologia, assim como a cultura, pode ser entendida também como um mecanismo de controle social.
O controle social compreende os mecanismos que delimitam as ações e as interações sociais seguindo parâmetros previsíveis, incorporados pelos indivíduos por meio da socialização. Ele pode ser analisado por duas perspectivas básicas:
• a funcionalista, por meio da qual se consideram as regras e normas importantes para manter a coesão e a harmonia social;
• a da sociologia do conflito, com base na qual se entende que as relações sociais são marcadas pela contradição de interesses, da qual derivam conflitos que movimentam as sociedades ao longo da história.
Da perspectiva da sociologia do conflito, o controle social está relacionado à ideologia e ocorre pela ação de diferentes instituições sociais em defesa dos interesses de grupos específicos que detêm o poder econômico, cultural e político.
Mediante processos de socialização, os valores e os padrões de um grupo ou classe social que detém o poder são impostos à sociedade como se fossem valores coletivos a serem aceitos como normas. Assim, pessoas ou grupos que se sentem prejudicados podem se organizar de diversas formas para exigir mudanças: greves, campanhas nas redes sociais, manifestações de rua, ocupações de prédios públicos, acampamentos diante
de órgãos de governo, entre outras. Essas ações configuram formas de resistência ou contra-hegemonia.
O CONCEITO DE IDEOLOGIA COMO FALSA CONSCIÊNCIA (PÁGINA 63)
Com base em um debate estabelecido com outros pensadores sobre o desenvolvimento da consciência, Karl Marx e Friedrich Engels desenvolveram o conceito de ideologia como falsa consciência. Ao propor essa definição, os teóricos buscaram se contrapor à visão dominante em seu tempo de que o desenvolvimento da razão humana por si só modificaria o mundo, ou seja, as ideias seriam o fundamento da realidade. De acordo com Marx e Engels, a sociedade é compreendida em duas esferas, que se relacionam mutuamente como um todo estruturado:
• infraestrutura – esfera de produção dos bens que satisfazem às necessidades humanas, relacionando-se às condições materiais de existência;
• superestrutura – esfera das ideias, leis, religiões, moral e organizações políticas existentes em uma sociedade e sintetizadas na figura do Estado.
De acordo com esses pensadores, afirmar que as ideias (contidas na superestrutura) são autônomas (desvinculadas da infraestrutura) consiste em estabelecer uma representação falsa das relações sociais. Isso porque nessa interpretação não se considera o fato de que as relações materiais de produção fundamentam o modo pelo qual cada pessoa interpreta o mundo. Por isso, a ideologia é vista por Marx como uma falsa consciência da realidade.
Na visão de Karl Marx e Friedrich Engels, infraestrutura e superestrutura são duas esferas da sociedade que se relacionam e se complementam.
Fonte: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007. p. 47.
AS BASES IDEOLÓGICAS DOS DISCURSOS (PÁGINA 64)
Com base na perspectiva proposta por Karl Marx e Friedrich Engels, podemos entender a proliferação de determinados discursos em forma de manifestação ideológica. O discurso meritocrático, por exemplo, apresenta forte viés ideológico, pois é fundamentado em argumentos que encobrem as desigualdades e dificultam a superação de problemas como a pobreza e o desemprego.
Quando um trabalhador em condição de desvantagem de oportunidades de educação, saúde e moradia defende o mérito como resultado do esforço individual, dissemina um discurso que atende aos interesses da classe dominante. Isso ocorre porque tal discurso oculta as causas materiais que contribuem para o sucesso profissional de um indivíduo em razão da distribuição desigual de oportunidades e do acúmulo de vantagens por determinado grupo ou classe social.
De acordo com a teoria marxista, em todos os momentos históricos, a classe que controla o sistema econômico desenvolve um conjunto de ideias que legitima seu controle. Produz, assim, representações da realidade que atendem a seus interesses e lhe permitem continuar a exercer domínio sobre as demais classes sociais. Dessa forma, as ideologias da classe dominante tendem a tornar-se a representação da realidade de todas as classes.
IDEOLOGIA COMO VISÃO DE MUNDO (PÁGINA 64)
Outra abordagem teórica sobre a ideologia é a do filósofo e político italiano Antonio Gramsci, que procurou valorizar em seus estudos o papel da cultura no desenvolvimento da luta de classes.
Para Gramsci, a ideologia pode ser compreendida como visão de mundo, isto é, um conjunto de perspectivas produzidas por diferentes classes sociais. Tais perspectivas se materializam nas práticas sociais ao mesmo tempo que são influenciadas por elas, formando um sistema de valores culturais. A ideologia representa, portanto, o modo pelo qual cada grupo ou classe social atribui sentido a suas experiências.
Duas consequências importantes derivam dessa visão: a primeira é a valorização da cultura na análise das relações sociais; a segunda é o papel que as classes dominadas podem ter no processo de transformação da sociedade.
Na visão de Gramsci, as ideologias são expressões das experiências sociais e estão profundamente vinculadas às práticas culturais de sujeitos coletivos. Sendo assim, a classe dominante procura difundir sua forma de explicar o mundo, de modo que possa condicionar o comportamento cultural das classes dominadas. Quando isso ocorre, configura-se uma hegemonia, que pode ser entendida como o domínio moral ou político de um Estado ou segmento da sociedade sobre outros.
Charge de Toni D'Agostinho, 2020.
ATIVIDADES (PÁGINA 64)
1. Explique a crítica feita pelo chargista à meritocracia.
2. Você considera que a meritocracia perpetua as desigualdades sociais e raciais em nossa sociedade?
Explique.
GRAMSCI, HEGEMONIA E CONTROLE IDEOLÓGICO (PÁGINA 65)
Em qualquer sociedade, o exercício do poder envolve alternância entre a coerção e o consenso. No exercício da hegemonia de uma classe sobre as demais, o domínio é baseado no consenso, e não na força, o que pode ocorrer pela difusão da ideologia da classe dirigente para todas as esferas da vida, de maneira que se torne a concepção de mundo de toda a sociedade.
A classe dominante, ao difundir a ideia de meritocracia em uma situação de desemprego, por exemplo, influencia o comportamento dos trabalhadores. Portanto, a dominação ocorre também no âmbito das relações culturais.
Para Antonio Gramsci, no entanto, as classes dominadas não precisam ser passivas nesse processo, construindo sua visão de mundo, que pode contrapor-se à ideologia dominante, em um processo de contra-hegemonia (denominação atribuída por estudiosos de inspiração gramsciana).
PAULO FREIRE E O LUGAR DA IDEOLOGIA NO PROCESSO EDUCACIONAL (PÁGINA 65)
O educador e filósofo Paulo Freire elaborou uma reflexão sobre o papel da ideologia que se vale dos dois aspectos apontados anteriormente. Para ele, a ideologia dominante é incutida na mente e na prática dos indivíduos por meio do processo educacional. A pedagogia tradicional associa-se ao modo de ver e agir da classe dominante e falseia a realidade, apresentando o ponto de vista dessa classe como o único possível.
De acordo com Freire, a escola reproduz a ideologia dominante e a ensina aos estudantes, principalmente quando adota o modelo que ele denomina educação bancária, que considera o estudante um recipiente vazio no qual serão depositados conhecimentos e informações interessantes às classes dirigentes. Ele afirma que esse modelo de educação, adotado em grande parte das instituições educacionais, produz exclusão, desigualdade e miséria, além de manter as classes populares submissas à elite.
A educação pode, no entanto, cumprir outro propósito social, de caráter emancipatório. Como Antonio Gramsci, Paulo Freire considera que a educação pode ser utilizada como ação contra-hegemônica. De acordo com o educador e filósofo brasileiro, uma ação pedagógica que parta da realidade do estudante, valorize seus saberes prévios e rejeite os valores pelos quais a ideologia dominante reproduz injustiças permitirá aos indivíduos das classes populares produzir seu próprio discurso sobre o mundo, libertando-se do controle ideológico e tornando-se sujeitos ativos na transformação da sociedade.
Manifestação contra a reforma da previdência e a reforma trabalhista na Avenida Paulista, na capital do estado de São Paulo. Fotografia de 2017. A organização e os movimentos dos trabalhadores são formas de lutar contra a hegemonia da classe dominante.
INDÚSTRIA CULTURAL E MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA (PÁGINA 65)
Uma temática relevante para as ciências sociais é a discussão sobre cultura de massa, indústria cultural e meios de comunicação de massa.
Diferentemente das culturas erudita e popular, produzidas, respectivamente, pela elite e pelas classes populares, a cultura de massa não é produzida pelas massas, mas para as massas. Ela é gerada no interior da indústria cultural: o conjunto de empresas vinculadas à classe dominante que tem como função produzir cultura com base na padronização verificada em qualquer outra produção industrial, transformando bens culturais em mercadorias. Tal conceito foi elaborado, em meados dos anos 1940, pelos teóricos Theodor Adorno e Max Horkheimer.
Mas como produzir industrialmente algo que se forma por meio das práticas cotidianas dos diferentes grupos e classes sociais? Isso ocorre pela massificação de saberes e padrões de comportamento promovida por parte da indústria ligada à produção de bens culturais (produtoras, editoras e gravadoras, por exemplo) por meio da disseminação de seus produtos (vídeos, filmes, novelas, livros etc.).
Quando uma notícia é apresentada, por exemplo, em um programa jornalístico, o modo como são narrados os fatos ou apresentadas as entrevistas não é neutro: procura-se construir uma versão da realidade que represente a visão dos donos desses veículos de comunicação.
CULTURA DE MASSA (PÁGINA 66)
Com o advento e a consolidação do capitalismo, constituiu-se uma forma de expressão cultural – a cultura de massa – que se caracteriza por transformar as práticas, os saberes e os costumes das diferentes classes em mercadorias. Como você estudará adiante, uma das consequências da difusão desses produtos é a indeterminação das diferenças entre as culturas popular e erudita, que, ao serem incorporadas à cultura de massa, perdem sua especificidade e sua originalidade no cenário social contemporâneo.
É importante ressaltar que a cultura de massa também apresenta caráter ideológico. Seu atrelamento aos interesses financeiros a transforma em expressão da visão de mundo da classe dominante, estabelecendo a padronização da produção
e do consumo de bens culturais e homogeneizando comportamentos de uma coletividade.
A cultura de massa, como produto da indústria cultural, sustenta-se oferecendo divertimento e produzindo conformismo ao instigar a aceitação acrítica da realidade social tal como apresentada pelos meios de comunicação. Segundo essa perspectiva, a diversão propiciada pelos produtos da indústria cultural promove a padronização dos gostos e muitas vezes mascara os conflitos existentes na sociedade.
Atualmente, o desenvolvimento de mídias alternativas, acelerado pela facilidade de acesso à rede mundial de computadores, tem trazido elementos novos para o entendimento da relação entre técnica e crítica.
A câmera de vídeo de um celular pode registrar de forma mais crítica ou mais profunda o mesmo evento retratado pela grande mídia, e as imagens captadas por esse aparelho podem ser compartilhadas rapidamente pelas redes sociais. Diferentes blogs e canais mantidos por pessoas das mais diversas regiões, culturas e classes sociais têm sido fonte de informação e de conhecimento para diferentes públicos que buscam escapar do controle dos grandes grupos de comunicação.
Nesse contexto, a lógica da relação entre poucos emissores e muitos receptores de mensagens, ainda que não deixe de existir, passa a conviver com um novo universo de trocas. Assim, é possível que uma jovem da periferia de uma grande cidade publique e divulgue seus poemas, de forma escrita ou falada, sem precisar do apoio de uma editora. Da mesma forma, um vídeo produzido por indígenas de alguma etnia do interior do Brasil relatando situações vividas em seu cotidiano pode ser amplamente divulgado. Essas possibilidades certamente não anulam o poder dos grandes polos difusores da cultura de massa; no entanto, revelam a emergência de novas questões a serem discutidas por especialistas das diferentes áreas do conhecimento que abordam a comunicação humana e as relações de poder.
SUGESTÃO DE FILME (PÁGINA 66)
O show de Truman: o show da vida
Direção: Peter Weir. Estados Unidos, 1998. 107 minutos.
Truman é um vendedor de seguros que leva uma vida simples com a esposa em uma pacata cidade. Aos poucos, algumas situações o levam a estranhar o meio em que vive, os amigos e a esposa, até descobrir que toda a sua vida não passa de uma mentira transmitida em rede nacional para o entretenimento de todo o país.
VOCÊ PESQUISADOR (PÁGINA 67)
Para refletir sobre a relação entre cultura e gosto estético, você e os colegas realizarão um estudo de recepção de obras de arte e de produtos da indústria cultural. Para isso, organizarão um pequeno evento de exibição de duas obras: um exemplar da cultura popular e outro da cultura de massa. Em seguida, verificarão a opinião dos convidados sobre as obras.
• Escolham dois produtos culturais: um regional, que manifeste a produção da cultura popular local, e outro proveniente da cultura de massa. É importante que as obras sejam do mesmo gênero; por exemplo, duas músicas, dois filmes ou duas obras de artes visuais.
• Elaborem um questionário para avaliar a opinião das pessoas sobre as obras escolhidas. Ele pode ser composto de perguntas abertas (sem respostas predefinidas em alternativas); por exemplo: “Você gostou dessa música? Por quê?”; “Você acha que essa música faria sucesso? Por quê?”; “Que diferenças e semelhanças você percebe entre as duas obras?”.
• Criem um evento para a exibição das obras escolhidas, convidem pessoas da comunidade para prestigiá-lo e apliquem os questionários.
• Com base nos resultados, comparem a recepção da obra da indústria cultural com a da obra da
cultura popular.
• Com a ajuda do professor e com base nas discussões propostas no capítulo, elaborem hipóteses para explicar o sucesso ou o insucesso das obras apresentadas. Nesse momento, pensem nas consequências do processo analisado para a produção cultural local.
Indígenas da etnia Mehinako da aldeia Uyapiyuku registram a luta do huka-huka durante o Kuarup, ritual fúnebre celebrado no Parque Indígena do Xingu, em Gaúcha do Norte, em Mato Grosso. Fotografia de 2022. Na última década, indígenas têm utilizado as redes sociais para compartilhar, em primeira pessoa, práticas, crenças, rituais e momentos cotidianos, dando visibilidade a aspectos muitas vezes desconsiderados na mídia tradicional.
CULTURA, IDEOLOGIA E IDENTIDADE CULTURAL NO SÉCULO XXI (PÁGINA 68)
A partir dos anos 1970, a fusão das telecomunicações analógicas com a informática provocou uma transformação no modo como circulam as informações, desenvolvendo uma comunicação multidirecional, voltada ao que o sociólogo espanhol Manuel Castells denomina sociedade da informação.
Por meio da análise sociológica, busca-se compreender as transformações sofridas pela sociedade da informação em decorrência do impacto da revolução digital. A indústria geradora de serviços e de conteúdos digitais é fundamental para a formação de comportamentos e hábitos de consumo. No entanto, a maneira como essas mudanças ocorrem precisa ser compreendida por meio do estudo da relação da tecnologia com a produção social e a cultura.
As tecnologias, bem como as linguagens e as instituições sociais, são parte das construções humanas. São, portanto, produto da sociedade e da cultura, e tanto sua criação quanto seu uso constituem nossa noção de humanidade. Assim, elas não são neutras, e o desenvolvimento tecnológico se orienta por interesses que podem envolver ou não a consideração das desigualdades sociais e dos abismos digitais.
Sendo assim, é importante considerar os contextos culturais e ideológicos em que essas tecnologias são utilizadas. Por exemplo, os diversos usos das redes sociais on-line são influenciados pelo conjunto de visões de mundo em disputa na sociedade, assim como pelos interesses comerciais e políticos de empresas e governantes. Cada acesso a sites dá origem a dados que são comercializados por empresas, com fins de marketing comercial ou até mesmo eleitoral.
Uma visão otimista da expansão das tecnologias da informação é desenvolvida pelo filósofo e sociólogo Pierre Lévy. Para ele, a propagação das redes sociais on-line pode gerar diferentes modos de exercício da cidadania e da democracia, os quais formam a cibercultura. Dessa maneira, o espaço digital poderá concretizar seu potencial político ao ser habitado por culturas cada vez mais diversas e participativas.
Um exemplo de uso político do ambiente virtual são as manifestações ocorridas no Brasil em junho de 2013, conhecidas como Jornadas de Junho, em que as redes sociais tiveram papel central na organização dos protestos e na mobilização popular. Outro exemplo são os disparos, nas redes sociais, de notícias falsas, as chamadas fake news, estratégia muito utilizada por segmentos políticos conservadores que teve papel fundamental na eleição de governantes em diferentes países nos últimos anos.
Mark Zuckerberg (no centro), cofundador de uma empresa de mídia social, depondo em audiência, após escândalo de violação de privacidade, na Comissão de Justiça e Comércio do Senado, em Washington, nos Estados Unidos. Fotografia de 2018. O caso envolveu a coleta ilegal de dados de milhões de usuários, utilizados por uma empresa de consultoria política para direcionar propaganda personalizada durante a eleição presidencial dos Estados Unidos em 2016.