PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
A DÚVIDA
A incredulidade de São Tomé (1601-1602) — Caravaggio, óleo sobre tela.
Você já ouviu o ditado “Ver para crer”? Sabe sua origem? O que ocorre intimamente quando se tem uma dúvida?
QUESTÕES FILOSÓFICAS
Qual a importância de perguntar?
As coisas são exatamente como as percebemos e entendemos?
Podem os sentidos e a razão nos enganar?
Vamos concentrar agora nossa atenção sobre uma atitude importante no processo de filosofar: a dúvida. Ela sintetiza os dois primeiros passos da experiência filosófica – o estranhamento seguido do questionamento. Veremos adiante que o ato de duvidar nos abre, com frequência, a possibilidade de desenvolver uma percepção mais profunda, clara e abrangente sobre diversos elementos que compõem nossa existência.
CONCEITOS-CHAVE
Ação, reflexão, atitude filosófica, dúvida filosófica, dúvida metódica, dúvida hiperbólica, método, razão, critério de verdade, evidência
SITUAÇÃO FILOSÓFICA
O SOLDADO E O FILÓSOFO
Em uma manhã ensolarada da antiga Atenas, a população desenvolvia tranquilamente seus afazeres. De repente, um homem cruza a praça correndo, e logo se ouvem gritos desesperados: – Pega ladrão! Pega ladrão! um soldado imediatamente se lança em disparada atrás do sujeito. Sócrates, por sua vez, pergunta: – o que é um ladrão?
ANALISANDO A SITUAÇÃO
Onde e quando ocorre o episódio relatado? Quais são seus personagens? ocorre em Atenas, cidade-Estado da antiguidade grega, em algum momento da vida de Sócrates (c. 469-399 a.C.), filósofo que é um dos personagens dessa cena. os outros dois personagens são um soldado e um ladrão. A historieta pode ser dividida em dois momentos. Quais são eles? Veja que há um antes e um depois na narrativa. Primeiramente, temos a vida nesse local de Atenas seguindo seu fluxo normal, cotidiano, automático e transparente. Então entra em cena o ladrão e se produz uma quebra, que dá origem às reações do soldado e de Sócrates. Como reage o soldado? E Sócrates? o soldado tem uma atitude totalmente distinta da de Sócrates. Ele não coloca em dúvida o sentido do que vê e ouve, nem a conduta que deve ter. Sua atitude é a de partir imediatamente para a ação. o mesmo não ocorre com Sócrates: a quebra gera nele a dúvida. E, com a pergunta “o que é um ladrão?”, ele entra em reflexão. O que essa historieta pretende ilustrar? Podemos dizer que a historieta ilustra, de maneira caricatural, as funções sociais do soldado e do filósofo. o soldado deve manter a ordem e proteger a cidade e sua população. assim, ele reagiu conforme seu dever e sua função (ou “natureza”, como entendiam os gregos). o filósofo, por sua vez, é aquele que busca a sabedoria e, para tanto, não pode simplesmente seguir o que pensa e diz a maioria das pessoas (no caso, criticar e repudiar irrefletidamente o ladrão) e o que faz o soldado (persegui-lo e prendê-lo). Por isso, a reação de Sócrates é cautelosa, ponderada, e ilustra a maneira de proceder do filósofo: questionando, procura “des-cobrir” algo que seja importante para maior compreensão das coisas. Que objeções podemos fazer às atitudes de cada um? talvez possamos dizer que o filósofo não pode duvidar o tempo todo: ele precisa alcançar algumas certezas que lhe permitam também agir ou propor ações. De modo semelhante, o soldado não pode somente obedecer a ordens, comandos: ele também precisa refletir antes de agir, senão é capaz de realizar ações injustas. assim, podemos concluir que ação e reflexão se complementam. Praticadas no momento oportuno e de forma equilibrada, contribuem para o bem-estar do indivíduo e da sociedade. Atitude – maneira de se comportar que reflete uma disposição ou tendência interior. Reflexão – estado da consciência em que a pessoa se volta para seu interior, concentrando seu espírito na busca de uma compreensão das ideias e dos sentimentos que tem sobre si própria ou sobre as coisas e os assuntos do mundo exterior. Objeção – argumentação ou raciocínio que se opõe a algo (como uma opinião, tese ou ação).
INDAGAÇÃO: O PENSAMENTO QUE BUSCA NOVOS HORIZONTES
Demóstenes pratica a arte da oratória (1870) – Jean-Jules-Antoine Lecomte Du nouÿ.
Se você se sente inibido para fazer uma pergunta, saiba que toda dificuldade pode ser superada com trabalho e persistência. Exemplo disso encontramos no político ateniense Demóstenes (384-322 a.C.). Ele era gago e sentia dificuldades para falar em público. Decidido a superar suas limitações, passou a exercitar-se no uso da palavra. Conta-se que falava contra o vento e com pequenas pedras na boca. assim venceu a gagueira e tornou-se um dos maiores oradores gregos.
A IMPORTÂNCIA DE PERGUNTAR
Nossa análise da historieta anterior nos deu uma pequena ideia de que ter dúvidas, mesmo que provisoriamente, é algo desejável para alcançar um conhecimento maior. Por que será, então, que as pessoas tendem a expressar poucas dúvidas, a fazer tão poucas perguntas umas às outras em seu dia a dia? isso pode ser observado, por exemplo, na sala de aula. Quando uma professora ou um professor pergunta à classe se alguém tem alguma dúvida sobre o que acabou de expor, qual é a reação mais comum? Silêncio ou algumas perguntas tímidas. a maioria tem alguma dúvida – ou muitas dúvidas –, mas não ousa expressá-la. Essa postura ocorre também em universidades, empresas, encontros culturais, almoços e jantares, mesas de bar etc. Por que isso é tão frequente? uma explicação pode estar na dificuldade de expressão, isto é, na dificuldade de encontrar as palavras certas para expressar a dúvida que se tem, o que é muito comum. outra razão possível seria que grande parte das pessoas não ousa expressar sua dúvida por medo de falar em público. Esse temor também é bastante comum. o desenvolvimento de maiores habilidades de expressão linguística e de comunicação oral poderia mudar esse cenário. Pode haver, porém, outro motivo que nos parece ainda mais fundamental: muita gente acredita, mesmo sem estar consciente disso, que ter dúvidas e perguntar é expor uma fragilidade, um sinal de dificuldade intelectual ou de falta de “conhecimentos”. Como nossa cultura valoriza muito a inteligência e a informação (ou, pelo menos, o parecer inteligente e bem-informado sobre tudo), poucos se arriscam a ser interpretados como tolos, ignorantes ou confusos ao fazer uma simples pergunta (foi essa a impressão inicial que passou Sócrates na anedota, não foi?). assim, a conversação entre as pessoas costuma ser, com frequência, uma sucessão de monólogos ou de enfrentamentos, em que cada um dos interlocutores está mais preocupado em dar o contra ou exibir seus “conhecimentos”, suas certezas, do que em entender o outro ou aprender com ele – ou junto com ele. Em resumo, o que está em jogo é mais o amor-próprio, a vaidade pessoal do que a aprendizagem. E, quando não entram nessa disputa, as pessoas “optam” pelo silêncio. o silêncio de quem não apenas não fala, mas também não ouve. isso tudo nos parece um grande equívoco. não há nada mais inteligente do que perguntar. Perguntas são, no mínimo, a expressão do desejo de avançar continuamente no conhecimento sobre o mundo e as pessoas, até o final de nossas vidas. Quanto mais se vive, mais se aprende, desde que haja abertura para isso.
Fazer perguntas pode revelar também um interesse por nossos semelhantes – pelo que o outro pensa, sente e é. assim, o gosto pela indagação costuma vir aliado ao gosto pela escuta, pois apenas quando nos dispomos a escutar, dando a devida atenção ao que o outro questiona ou propõe, é que nos abrimos verdadeiramente para uma troca de percepções e reflexões e para o aprendizado. Daí a importância do diálogo (que será nosso tema no próximo capítulo). nesse processo, podemos descobrir que a outra pessoa – que observa o mundo a partir de uma perspectiva diferente da nossa – percebeu coisas que não tínhamos percebido ainda, notou problemas nos quais não havíamos pensado até então e vice-versa. isso amplia nossa maneira de ver as coisas e a nós mesmos – nossos horizontes –, alargando também nossas possibilidades de escolha para a construção – individual e coletiva – de uma vida mais justa, sábia, generosa e feliz.
Atitude filosófica Como você já deve ter percebido, a filosofia é uma atividade profundamente vinculada à dúvida e às perguntas. Portanto, para aprender a filosofar, é fundamental adotar uma atitude indagadora. Como afirmou o pensador alemão karl Jaspers (1883-1969), “as perguntas em filosofia são mais essenciais que as respostas e cada resposta transforma-se numa nova pergunta” (Introdução ao pensamento filosófico, p. 140). isso ocorre justamente porque a filosofia busca essa ampliação da paisagem e seus horizontes: cada resposta (cada paisagem e horizonte conquistados) gera um novo terreno para dúvidas e perguntas (uma nova paisagem, com mais um horizonte a ser explorado). assim, mesmo que você não tenha nenhuma intenção de se tornar um filósofo ou uma filósofa, desenvolver uma atitude indagadora e “escutadora”, isto é, filosófica, pode ser de grande utilidade em muitos momentos de sua existência.
A CONDIÇÃO HUMANA (1935)
René Magritte. nessa pintura, vê-se um quadro que, colocado contra a janela, “esconde” exatamente a parte da paisagem que ele busca retratar. Como podemos interpretar essa metáfora sobre a percepção humana da realidade construída pelo artista?
Na infância, principalmente nos primeiros anos, essa atitude é bastante comum ou natural. A maioria das crianças vive mergulhada no encantamento da surpresa, da novidade, da descoberta, que se desdobra em interrogações intermináveis: “o que é isso?”, “o que é aquilo?”, “por que isso é assim?”, “como você sabe?” e assim por diante. Desse modo, junto com outras experiências, elas vão formando imagens, ideias, conceitos dos diversos elementos que compõem a realidade. Por exemplo: – mãe, o que é tulipa? – É uma flor, filha. – uma flor como? – uma flor muito delicada e bonita, com a forma de um sino, só que invertido, com a boca para cima. – Que cor tem? – tem tulipa de tudo quanto é cor: vermelha, amarela, branca, lilás. – E por que a gente não tem tulipa no nosso jardim? – Porque é preciso saber cultivar essa planta, ela vem de regiões de clima frio, como a holanda... – holanda? onde fica a holanda?
E assim por diante. Às vezes, as crianças dão uma reviravolta nas questões que abordam, fazendo perguntas insistentes e até geniais, verdadeiras torturas para os adultos, que se veem obrigados a parar e pensar sobre as coisas. Com o passar dos anos, porém, a vida vai deixando de ser novidade: elas mergulham no cotidiano das respostas prontas e “acabadas” e, de modo geral, esquecem aquelas questões para as quais nunca conseguiram explicação. a atitude filosófica constitui, portanto, uma espécie de retorno a essa primeira infância, a essa maneira de ver, escutar e sentir as coisas. É como começar de novo na compreensão do mundo por meio da dúvida e de sucessivas indagações. É claro que esse “começar de novo” não é possível no sentido literal da expressão, porque você já conhece, sente e imagina muitas coisas a respeito do mundo, das pessoas e de si mesmo ou si mesma, e não é possível apagar toda essa vivência. Você já tem um “repertório” de conceitos, imagens e sentimentos sobre tudo o que foi fundamental para sua existência até este instante, mesmo sem ter consciência disso. Então, é normal que você se mova pela vida orientado ou orientada por esse “mapa”, sem precisar fazer tantas perguntas quanto uma criança, que ainda não montou seu próprio “repertório”. há momentos, porém, em que o “repertório” que uma pessoa tem não serve para enfrentar determinada situação: não é completamente satisfatório, amplo, renovador ou “criativo”. É então que surge a quebra, o estranhamento (que mencionamos anteriormente) em relação ao fluxo normal do cotidiano. trata-se de uma oportunidade para começar a pensar na vida de uma maneira filosófica, isto é, para começar a indagar e duvidar.
ABRIR-SE AO MUNDO COMO UMA CRIANÇA
Para abordar a filosofia, para entrar no território da filosofia, é absolutamente indispensável uma primeira disposição de ânimo. É absolutamente indispensável que o aspirante a filósofo sinta a necessidade de levar a seu estudo uma disposição infantil. Em que sentido faço esta paradoxal afirmação de que convém que o filósofo se puerilize? Faço-a no sentido de que a disposição de ânimo para filosofar deve consistir essencialmente em perceber e sentir por toda a parte [...] problemas, mistérios; admirar-se de tudo, sentir profundamente o arcano [enigmático] e misterioso de tudo isso; colocar-se ante o universo e o próprio ser humano com um sentimento de admiração, de curiosidade infantil como a criança que não entende nada e para quem tudo é problema. Aquele para quem tudo resulta muito natural, para quem tudo resulta muito fácil de entender, para quem tudo resulta muito óbvio, nunca poderá ser filósofo.
Voltar a ver o mundo como uma criança exige a humildade de admitir que o que você vê ou pensa pode ser apenas uma construção subjetiva ou cultural, até mesmo um engano ou ilusão. Como nas ilusões de ótica. Discuta com seus colegas o que se vê na imagem acima.
DÚVIDA FILOSÓFICA
É nos momentos críticos de quebra e estranhamento do cotidiano que costumam surgir dúvidas sobre temas fundamentais e permanentes da existência humana, dos quais trata a filosofia. isso significa que nem todo tipo de dúvida é filosófico. Por exemplo: “Quem será o campeão brasileiro de futebol deste ano?” não é uma dúvida filosófica, e sim uma simples especulação sobre algo que está para acontecer, por mais angustiado que se sinta o torcedor com essa questão. Pode ser um bom exercício teórico discutir com colegas ou especialistas as possibilidades de seu time do coração em comparação com as de outros times, para saber suas opiniões. mas a resposta a esse tipo de dúvida virá da própria sucessão dos acontecimentos (ou jogos) ao longo do tempo (ou do campeonato), tornando- -se um fato inquestionável. a dúvida filosófica propriamente dita surge de uma necessidade inquietante de explicação racional para algo da existência humana que se tornou incompreensível ou cuja compreensão existente não satisfaz. geralmente são temas que não têm resposta única e para os quais a mente humana sempre retorna. Por exemplo, quem já não se fez, mesmo que intimamente, a pergunta “Por que tanta maldade?” ao saber de mais uma das atrocidades, aparentemente inexplicáveis, de que são capazes alguns seres humanos (ou desumanos)? tal questão conduz a outras, mais básicas e fundamentais, como “o que é o mal?”, “o que é o ser humano?”, “É da essência do ser humano ser mau ou ser bom?”. Portanto, a dúvida verdadeiramente filosófica é aquela que favorece o exercício fecundo da inteligência, do espírito, da razão sobre questões teóricas importantes para todos nós (e que costumam ter uma enorme incidência prática em nossas vidas, sem nos darmos conta disso, conforme veremos ao longo do livro).
SUSPENSÃO DO JUÍZO
Uma condição importante para começar a duvidar de maneira filosófica é praticar a suspensão do juízo – assim se denomina a interrupção temporária do fluxo de ideias prontas que uma pessoa possui sobre determinado assunto. É uma espécie de duvidar das próprias crenças. Por exemplo: tenho o seguinte juízo: “Ele é mau”. Suspensão do juízo: “Ele é mau?”, “o que é ser mau?”, “Como ele é?” e assim por diante.
A traição das imagens (1928-1929) – rené magritte. a obra de magritte é um convite constante à dúvida e à reflexão sobre as palavras e as representações que fazemos das coisas mais cotidianas. a frase escrita em francês nesse quadro significa “isto não é um cachimbo”. o que o autor pode estar querendo dizer com isso? Para que ele chama nossa atenção?
Para que serve suspender temporariamente os juízos? Para escapar dos limites impostos por nossos preconceitos e permitir que outras percepções e reflexões afluam à nossa mente. novamente aqui a disposição para escutar revela-se muito importante, pois é somente dessa forma que nos abrimos à possibilidade de reunir um número maior de antecedentes ou conhecimentos fundamentais sobre o assunto que estamos investigando. Somente depois de cumprir esses passos é que podemos voltar a formular um juízo, isto é, nossa opinião a respeito do tema investigado, agora de maneira mais estruturada e justificada: sob a forma de um raciocínio ou argumento (assunto que estudaremos em detalhe no capítulo 5). a dúvida filosófica não é, portanto, ociosa, não é uma especulação vazia ou fútil, nem constitui uma prática meramente destrutiva, um questionar por questionar, uma chatice de quem não tem o que fazer (o chamado “espírito de porco”). a pessoa que a pratica visa se articular racionalmente no sentido de construir uma explicação sólida e bem fundamentada, um conhecimento claro e confiável sobre o tema que é objeto de sua preocupação.
REGRA DA RAZÃO
Para construir explicações sólidas e bem fundamentadas sobre as coisas é preciso ter método, isto é, uma forma sistemática e organizada de realizar a investigação sobre o assunto em questão, geralmente seguindo um conjunto de regras ou princípios reguladores. Veremos neste livro que a filosofia não tem um método exclusivo de investigação, pois ele varia conforme a tradição filosófica à qual pertence o pensador. Existe, porém, um princípio ou regra básica que você, e todo aquele que pretende filosofar, deve seguir: tudo o que se afirma ou nega deve ser demonstrado, isto é, explicado por meio de uma argumentação sólida (como veremos no capítulo 5). Por enquanto, lembre-se de que, para filosofar, é importantíssima a regra da razão: você tem de dar razões, isto é, justificativas racionais para suas opiniões. Essas razões devem estar articuladas de maneira coerente, não contraditória, e, se houver alguma que seja duvidosa, a explicação cai por terra – você não conseguiu demonstrar sua opinião
DÚVIDA METÓDICA
O EXERCÍCIO DA DÚVIDA POR DESCARTES
Para que você entenda de maneira mais concreta o que acabamos de estudar, vamos analisar agora um exemplo de reflexão filosófica que enfatiza ao extremo o ato de duvidar: a chamada dúvida metódica, do filósofo francês René Descartes (1596-1650).
APRENDENDO A DUVIDAR
A dúvida metódica tornou-se uma referência importantíssima e um clássico da filosofia moderna. trata-se de um exercício da dúvida em relação a tudo o que ele, Descartes, conhecia ou pensava até então ser verdadeiro. tal exercício foi conduzido pelo filósofo de duas maneiras:
• metódica, porque a dúvida vai se ampliando passo a passo, de modo ordenado e lógico; e
• radical, porque a dúvida vai atingindo tudo e chega a um ponto extremo em que não é possível ter certeza de nada, nem mesmo de que o mundo existe. Como em um jogo ou uma brincadeira, Descartes tentou duvidar até da própria existência. Por isso, a dúvida metódica costuma ser chamada também de dúvida hiperbólica, isto é, maior do que o normal ou o esperado, exagerada. note que é um exercício bastante difícil, pois não é nada natural duvidar de tanta coisa. Experimente.
Antes de tudo, vejamos por que esse filósofo decidiu empreender tal esforço. o que o teria motivado? a explicação está no início de suas Meditações:
Há já algum tempo que eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados não podia ser senão mui duvidoso e incerto; de modo que me era necessário tentar seriamente, uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente desde os fundamentos, se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências (p. 17).
Em outras palavras, Descartes estava desiludido com o que aprendera até então nos estudos e na vida, depois de perceber que havia muito engano. aí se tornou uma pessoa meio desconfiada, mas que não ficou só nisso: ele resolveu construir algo diferente, uma nova ciência que garantisse um conhecimento sólido e verdadeiro. Essa era sua ambição.
Descartes em sua mesa de trabalho. O filósofo buscou o isolamento fora de Paris e, depois, na Holanda, para dedicar-se totalmente aos estudos. Conta-se que ficava dias em seu quarto, imerso em suas reflexões e na elaboração de suas obras.
AS PRIMEIRAS DETERMINAÇÕES
Para cumprir tal propósito, no entanto, percebeu que era necessário destruir primeiro todas as suas antigas ideias que fossem duvidosas. isso quer dizer que ele já tinha experimentado diversos estranhamentos em sua vida, como qualquer pessoa. a diferença é que ele decidiu, então, viver esse processo de estranhar e duvidar de maneira voluntária e planejada, aplicando-o a todas as suas antigas opiniões. Você também pode fazê-lo, e é isso que queremos lhe mostrar. observe o caminho seguido por Descartes e procure pensar, sentir e vivenciar com ele cada passo de suas meditações.
[...] não é necessário que examine cada uma [opinião] em particular, o que seria um trabalho infinito; mas, visto que a ruína dos alicerces carrega necessariamente consigo todo o resto do edifício, dedicar-me-ei inicialmente aos princípios sobre os quais todas as minhas opiniões antigas estavam apoiadas. (Descartes, Meditações, p. 17.)
Essa foi a primeira determinação de Descartes na construção da dúvida metódica. Em outras palavras, para tornar sua tarefa mais fácil, o filósofo decidiu analisar as ideias ou crenças básicas que fundamentavam suas opiniões. Se esses princípios ou fundamentos eram duvidosos, as outras ideias que deles dependiam também eram duvidosas.
Esse é um procedimento básico tanto em filosofia como nas ciências em geral: uma ideia falsa ou incerta não pode ser o fundamento de uma boa explicação, assim como alicerces de gelo ou de gesso não podem sustentar uma boa construção.
Neste ponto você pode estar se perguntando: “mas como Descartes distinguia entre o certo e o duvidoso? Que critério ele utilizava?”. A resposta pode ser encontrada na obra Discurso do método, na qual o filósofo explicita a seguinte norma de conduta para si mesmo:
[...] jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida (p. 37; destaques nossos).
Trata-se do critério da evidência: uma ideia é evidente quando se apresenta com tamanho grau de clareza e distinção ao intelecto – como define Descartes – que não suscita qualquer dúvida. Duvidosa, portanto, é toda ideia que não pode ser demonstrada com essa mesma clareza, que não passa totalmente pelo crivo da razão. Descartes decidiu que não acolheria como verdadeira nenhuma ideia como essa.
Critério – princípio(s) ou norma(s) que se estabelece(m) para orientar alguma tarefa, conduzir algum tipo de estudo ou estabelecer certas diferenciações de natureza mais abstrata (por exemplo: lógicas, éticas etc.)
Distinção – maneira com que uma ideia ou percepção se distingue e se diferencia de outra; diferenciação.
A DÚVIDA SOBRE AS IDEIAS QUE NASCEM DOS SENTIDOS
Retornemos à meditação inicial. Descartes começa seu exercício da dúvida questionando os sentidos como fonte segura de conhecimento.
Tudo o que recebi, até presentemente, como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos ou pelos sentidos; ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez. (Meditações, p. 17-18.)
Vemos que aqui ele vai contra o senso comum, pois a maioria das pessoas quase sempre confia naquilo que vê, ouve e sente, pois os cinco sentidos (visão, audição, tato, paladar e olfato) seriam a primeira e fundamental fonte de informação sobre o mundo que nos cerca. Descartes argumenta, no entanto, que o conhecimento originado das percepções sensoriais não é confiável, pois muitas vezes elas nos enganam. É o argumento do erro dos sentidos.
A subjetividade das percepções sensoriais, bem como seus enganos, é um tema recorrente na história da filosofia. As coisas são realmente como os nossos sentidos as percebem? na imagem acima, por exemplo, qual é a percepção imediata trazida por seu sentido da visão a respeito dessas pessoas? observando melhor, o que deve estar ocorrendo realmente? o que fez você chegar a essa conclusão: sua visão ou seu pensamento?
Quantas vezes você viu ou ouviu uma coisa e depois se deu conta de que havia se enganado? Por exemplo, assistindo a uma competição esportiva, no estádio ou pela televisão, com frequência as pessoas enxergam coisas distintas em um mesmo lance e acreditam terem tido a visão mais real e certeira possível. o mesmo ocorre com os outros sentidos: seja na audição, no olfato, no paladar ou no tato, há muita discordância nas percepções individuais e é difícil o consenso.
Portanto, voltando a Descartes, ele acreditava que não seria possível fundar uma ciência universal, aplicável a tudo o que existe – que era sua pretensão –, baseando-se nas percepções sensoriais. Só que ignorá-las não é algo assim tão fácil, como ele mesmo reconhece:
Mas, ainda que os sentidos nos enganem às vezes no que se refere às coisas pouco sensíveis e pouco distantes, encontramos talvez muitas outras das quais não se pode razoavelmente duvidar, embora as conhecêssemos por intermédio deles: por exemplo, que eu esteja aqui, sentado junto ao fogo, vestido com um chambre, tendo este papel entre as mãos e outras coisas desta natureza. E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo sejam meus? (Meditações, p. 18.)
Aqui Descartes confessa sua dificuldade em continuar duvidando dos sentidos quando se trata de algo muito próximo, de toda a circunstância que está vivenciando. Você provavelmente concordará com ele, pois é bastante difícil duvidar de que você tem este livro em suas mãos neste momento e que está lendo estas palavras, não é? isso parece evidente e verdadeiro. o que poderia abalar essa impressão tão natural?
O sonho. De repente, Descartes considera a hipótese de que poderia estar sonhando:
Quantas vezes ocorreu-me sonhar, durante a noite, que estava neste lugar, que estava vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse inteiramente nu dentro de meu leito? [...] pensando cuidadosamente nisso, lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões. (Meditações, p. 18; destaque nosso.)
Sonho nº 32: Sem título (1949) – grete Stern, fotomontagem (Coleção particular). Você já sentiu alguma vez que caía de grande altura para, de repente, despertar assustado em sua cama?
Em outras palavras, com o argumento do sonho o filósofo volta à estaca zero em sua busca de certeza, pois não encontra nada que lhe possa garantir que o que percebe ao seu redor não seja uma ilusão onírica. Às vezes, os sonhos também parecem muito reais, não é mesmo?
A DÚVIDA DAS IDEIAS QUE NASCEM DA RAZÃO
Descartes decide então deixar de lado sua investigação sobre as ideias que nascem dos sentidos para dirigir seu foco sobre aquelas que vêm de outra fonte: a razão. É o caso das ideias matemáticas:
[...] a Aritmética, a Geometria [...], que não tratam senão de coisas muito simples e muito gerais, sem cuidarem muito em se elas existem ou não na natureza, contêm alguma coisa de certo e indubitável. Pois quer eu esteja acordado, quer eu esteja dormindo, dois mais três formarão sempre o número cinco e o quadrado nunca terá mais do que quatro lados; e não parece possível que verdades tão patentes possam ser suspeitas de alguma falsidade ou incerteza. (Meditações, p. 19.)
Parece, enfim, que Descartes encontra um tipo de ideia que não lhe desperta dúvidas, pois o conhecimento matemático não dependeria de objetos externos, apenas da razão, e preencheria o critério de verdade por ele estabelecido: a evidência, o conhecimento claro e distinto. Quem pode contestar o resultado considerado correto de uma soma ou equação matemática, ou a clareza dos postulados geométricos?
Aparentemente, ninguém. O filósofo sabia disso. No entanto, tendo meditado muito sobre o assunto, ele queria preparar-se para enfrentar qualquer objeção. E estava certo de que elas viriam. assim, Descartes avança mais um passo e eleva o grau de exigência, buscando admitir outra dúvida ainda mais radical:
Todavia, há muito que tenho no meu espírito certa opinião de que há um Deus que tudo pode e por quem fui criado e produzido tal como sou. Ora, quem me poderá assegurar que esse Deus não tenha feito com que não haja nenhuma terra, nenhum céu, nenhum corpo extenso, nenhuma figura, nenhuma grandeza, nenhum lugar e que, não obstante, eu tenha os sentimentos de todas essas coisas e que tudo isso não me pareça existir de maneira diferente daquela que eu vejo? E, mesmo, como julgo que algumas vezes os outros se enganam até nas coisas que eles acreditam saber com maior certeza, pode ocorrer que Deus tenha desejado que eu me engane todas as vezes em que faço a adição de dois mais três, ou em que enumero os lados de um quadrado, ou em que julgo alguma coisa ainda mais fácil, se é que se pode imaginar algo mais fácil do que isso. (Meditações, p. 19; destaques nossos.)
Em outras palavras, por mais certeza que você tenha sobre algo (no caso, o conhecimento matemático), se existe um ser que criou tudo e é onipotente (Deus), esse ser tem poderes para ter criado você de tal maneira que se engane sempre, ou seja, que você (e todo o mundo) pense sempre que 2 + 3 = 5, quando na verdade isso é uma ilusão. trata-se do argumento do Deus enganador. Com ele, qualquer ideia, vinda dos sentidos ou da razão, pode ser enganosa.
Detalhe de O Bem e o Mal (1832) – andre Jacques Victor orsel. imagine tudo o que poderia colocar em dúvida se existisse um ou mais seres (Deus, demônio, cientistas, extraterrestres, sociedades secretas etc.) com o poder de colocar em sua mente todas as ideias e percepções que você tem do mundo e de si.
A DÚVIDA GENERALIZADA
Esse argumento se dirigia às pessoas que acreditam na existência de Deus, seja ele a máxima divindade cristã ou de qualquer outra crença ou religião. o filósofo, porém, logo reconhece que ele perde a força imaginada inicialmente entre os teólogos, pois estes poderiam objetar que Deus é um ser perfeito e supremamente bom e lhe repugnaria enganar alguém. Por outro lado, a ideia de uma divindade enganadora também não serviria entre aqueles para quem a ideia de Deus é uma fábula (os ateus).
Assim, para enfrentar tanto os mais crentes como os mais descrentes, Descartes criou um último e poderoso artifício para colocar tudo em dúvida:
Suporei, pois, que há não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte de verdade, mas certo gênio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos são apenas ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. Considerar-me-ei a mim mesmo absolutamente desprovido de mãos, de olhos, de carne, de sangue, desprovido de quaisquer sentidos, mas dotado da falsa crença de ter todas essas coisas. (Meditações, p. 20; destaques nossos.)
Trata-se do argumento do gênio maligno, um ser que não teria a perfeição e a bondade de Deus, como defendem crentes e teólogos, mas que seria muito poderoso e cheio de estratégias para fazer com que qualquer pessoa se iluda e se engane sobre tudo. Chega-se, assim, à generalização da dúvida: o mundo é colocado entre parênteses.
Não que Descartes de fato acreditasse na existência desse ser. Estudiosos da obra cartesiana costumam interpretar o gênio maligno como um artifício psicológico e metodológico que o filósofo usou para manter seu espírito alerta, para não sucumbir à tentação de aceitar qualquer ideia como verdadeira, enfim, para seguir buscando algum conhecimento evidente e indubitável.
O gênio maligno poderia ser entendido, portanto, como uma figura simbólica de qualquer outra coisa, pessoa ou ideia que seja capaz de nos levar ao erro. Qual seria a vantagem de manter esse estado psicológico? a vantagem de não nos enganarmos facilmente acreditando conhecer com certeza algo que ainda é incerto.
Imagem do filme Matrix (1999), no qual a maioria da humanidade vive de forma inconsciente uma “realidade virtual” criada por máquinas. É possível comparar a história desse filme com o argumento do gênio maligno de Descartes?
A DESCOBERTA DA CERTEZA
Submerso na dúvida hiperbólica, mergulhado no nada, Descartes segue buscando. Como em um jogo de xadrez ou em um enigma, procura uma saída para a exigência autoimposta de um gênio maligno que quisesse enganá-lo sempre. tem então a seguinte intuição com relação a seu próprio ato de duvidar e de pensar:
Eu então, pelo menos, não serei alguma coisa? [...] Mas há algum, não sei qual, enganador mui poderoso e mui ardiloso que emprega toda a sua indústria em enganar-me sempre. Não há, pois, dúvida alguma de que sou, se ele me engana; e, por mais que me engane, não poderá jamais fazer com que eu nada seja, enquanto eu pensar ser alguma coisa. (Medita•›es, p. 23-24; destaques nossos.)
Em outras palavras, o filósofo percebe que, se um ser enganador o enganava, ele, Descartes, tinha de ser algo enquanto era enganado. E, se duvidava, também devia ser algo que existia enquanto duvidava, mesmo que não tivesse corpo. Essa reflexão é resumida de maneira mais clara em sua obra Discurso do método:
[...] enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não se riam capazes de a abalar, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da Filosofia que procurava (p. 46).
Observe que o próprio ato de pensar, sem importar os conteúdos, não pode ser colocado em dúvida por aquele que duvida. tente duvidar que está pensando agora, neste mesmíssimo instante... Você verá que, enquanto duvida que está pensando, está pensando, pois é impossível duvidar sem pensar. Portanto, você pensa, com certeza. ora, se você pensa, deve haver algo (que é você) que produz esse pensamento. Você deve ser, no mínimo, uma coisa que pensa. Daí a conclusão de Descartes, uma das mais célebres frases da história da filosofia: “Penso, logo existo”, que ficou conhecida como cogito (forma reduzida de Cogito, ergo sum, a mesma frase em latim).
Essa foi a primeira certeza de Descartes: a de existir como “coisa que pensa” enquanto pensa. Ele não podia ainda concluir que há uma coisa corporal, mas pôde afirmar que existe uma coisa pensante. a partir dessa certeza, o filósofo trataria de alcançar outras certezas, como a existência de Deus e do mundo material, na sequência de suas meditações.
Como o estudo dessas certezas excede os propósitos deste capítulo, sugerimos que você, se ficou curioso ou curiosa, leia a sequência das reflexões do filósofo na obra Meditações.
MEDITAÇÕES METAFÍSICAS (1641)
Menos conhecidas pelo grande público do que o Discurso do método, para os filósofos, porém, Meditações metafísicas constituem a obra mestra de Descartes, livro em torno do qual se articulam todos os outros textos. E mais: um pilar e um eixo para toda a história da filosofia. As Meditações devem ser lidas por si mesmas, sem referência histórica ou erudita. Não que não tenham história, como qualquer outro texto, mas porque traçam num presente eterno a trajetória de um pensamento que decidiu apoiar-se apenas em si mesmo, contar apenas com suas próprias forças, para ter acesso à verdade.
HuisMan, Dicionário de obras filosóficas, p. 363
Página de abertura de uma edição holandesa das Meditações metafísicas, em latim, como era costume (Coleção particular). a primeira impressão dessa obra ocorreu em 1641. observe que o título original era, em português, Meditações de filosofia primeira em que se demonstra a existência de Deus e a imortalidade da alma. a publicação da obra em francês se deu apenas em 1647, com o título pelo qual ela é mais conhecida atualmente.
APRENDENDO A FILOSOFAR
Depois do estudo da dúvida metódica de Descartes, acreditamos que você tenha compreendido um pouco mais sobre o que é filosofar e como se filosofa.
Você deve ter percebido, entre outras coisas, como é importante aprender a suspender o juízo e a pesquisar mais profundamente um assunto antes de emitir uma opinião sobre ele. tudo o que nos parece mais evidente em determinado instante pode ser percebido como falso ou incerto se analisado em outro instante, em outra perspectiva e com mais rigor.
Nesse processo também se descobre, muitas vezes, o sentido ou as razões profundas de certos fatos, atos ou crenças dos quais tínhamos antes apenas uma compreensão superficial (isso ficará mais claro para você nos próximos capítulos).
Outro aspecto importante que acabamos de trabalhar é a ideia de que a investigação filosófica sobre determinado tema deve ser conduzida com bastante critério, de maneira metódica e ordenada em que tudo o que se diz deve estar bem fundamentado. Como já dissemos, não existe apenas um tipo de método para isso.
No caso de Descartes, aqui vão algumas dicas sobre seu método, seguido em grande parte até nossos dias pelos cientistas:
• sempre que possível, deve-se partir do mais simples (isto é, daqueles conceitos que podem ser compreendidos com mais simplicidade, sem depender da compreensão de outros conceitos) até chegar ao mais complexo (isto é, os conceitos compostos, que pressupõem outros conceitos em seu entendimento). um exemplo bem fácil: para saber fazer uma soma (conceito complexo), você precisa entender primeiro o que é número (conceito simples) e, depois, o conceito de adição (conceito menos simples que número, pois depende deste para ser entendido);
• geralmente se vai do que é básico, dos fundamentos, até o “corpo” completo de determinado assunto. Por exemplo: para entender o tema da violência social, comece por investigar aquele que a pratica, o ser humano, em suas diversas dimensões básicas (mental, emocional e física, por exemplo), bem como em sua interação com o meio ambiente, com outros seres humanos e instituições sociais, e assim progressivamente.
Sabemos, porém, que as conclusões às quais chega um filósofo muitas vezes podem causar frustração naquele que o acompanhou com tanto interesse. Se isso acaba de acontecer com você, podemos dizer que é compreensível. mas tenha paciência. tanto em filosofia como na vida em geral, é importante não ser precipitado nem preconceituoso, como recomendou o próprio Descartes, principalmente quando se trata de aprender. E é isso o que você está fazendo agora: aprendendo a aprender, aprendendo a filosofar.
Assim, considere, primeiramente, que você ainda tem pouca “experiência” filosófica. além disso, você é jovem, e a filosofia é algo para toda a vida. muitos temas ou explicações oferecidas por determinado pensador fazem mais sentido em certas etapas de nossa existência do que em outras. Portanto, vá com calma: se algumas pistas fornecidas por ele não parecem ser úteis ou significativas para você agora, deixe-as guardadinhas em um canto de sua memória até surgir o momento adequado de resgatá-las. Você não vai se arrepender disso.
Ilustração baseada na escultura de Charles Degeorge A juventude de Aristóteles (1875).