PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
Conversando com a Química
Droga, que Química!
Fernanda Lima
Neste capítulo, foram abordados os temas sobre a criminalidade urbana e a violência, relacionados também à questão das drogas. Mas, o que vem a ser uma droga? O termo droga, de origem controversa, é a designação no Brasil para substâncias, naturais ou sintéticas, que causam alguma ação sobre o sistema nervoso central, provocando dependência.
Desde os tempos mais remotos, substâncias de efeito alucinógenos, estimulantes, depressivos e envenenatórios têm sido referenciadas na literatura. Poções, unguentos1 e fumigações2 foram utilizados amplamente por milhares de pessoas e levou à desgraça muitas outras. Principalmente, em quase todos os países da Europa, mulheres pobres e idosas eram queimadas na fogueira, enforcadas ou torturadas, acusadas de bruxaria, por uso de seus conhecimentos como herboristas, de meados do século XIV ao XVIII. Essas moléculas, embora possam não ser inteiramente responsáveis por esses séculos de perseguição, tiveram considerável importância. A perseguição às mulheres, a Inquisição e o sistema legislativo da época formatam um contexto que pode explicar a utilização dessas drogas pelo sexo feminino. Lamentavelmente, porém, a fuga temporária da realidade possibilitada por essas drogas era, muitas vezes, fatal, pela overdose ou, surpreendentemente, pela confissão dos “feitos incríveis”. Existe uma excelente explicação química para a crença daqueles que confessavam ter vivenciado fantasiosas aventuras – um grupo de compostos conhecidos como alcaloides.
Os alcaloides são compostos químicos naturais, de origem vegetal, heterocíclicos, que possuem um ou mais nitrogênios em seu esqueleto carbônico. Alguns dos mais conhecidos são: a piperina (da pimenta do reino); a cafeína (do café); a conina ou cicutina (da cicuta); a atropina (da beladona); a codeína e a tebaína (do ópio); a hiosciamina (do meimendro); a escopolamina (da mandrágora); e a ergotamina (da cravagem). A mandrágora, Mandragora offi cinarum, foi citada mais recentemente no filme Harry Potter e a Câmara Secreta. No filme, elas dão um escândalo
quando são retiradas do solo pelos alunos de Hogwarts, mas o grito das mandrágoras já havia sido citado antes por Shakespeare, no clássico Romeu e Julieta, quando, em certo momento Julieta diz: “... com cheiros repugnantes e guinchos como mandrágoras arrancadas da terra/Que mortais, ouvindo-os, enlouquecem.” Acredita-se que o remédio que Julieta tomou para fingir estar morta tenha sido extraído dela.
As drogas podem ser classificadas como: drogas depressoras ou depressores, aquelas que diminuem o nível de atividade cerebral e por isso são muito utilizadas em hospitais, em doses controladas, como sedativos e anestésicos (ex.: álcool, barbitúricos, cloreto de etila, clorofórmio, ópio, morfi na etc.); psicodislépticas ou alucinógenas, aquelas que têm por característica principal a despersonalização em maior ou menor grau (ex.: Δ-9-tetrahidrocanabinol “maconha”, skunk, dietilamida do ácido lisérgico (LSD), psilocibina (princípio ativo de cogumelos), diacetilmorfi na “heroína” etc.) e, as psicoanalépticas ou estimulantes, aquelas que produzem aumento da atividade cerebral, diminuem a fadiga, aumentam a percepção, tornando os demais sentidos ativados – ex.: cocaína, crack (mistura de pasta de cocaína com hidróxido de sódio –NaOH ou bicarbonato de sódio – NaHCO3), cafeína, teobromina (encontrada no chocolate), MDMA “ecstasy”, anfetaminas “bolinha, arrebite” e outras drogas sintéticas conhecidas como “crystal”, “ice”, “keramina”, “shahoo” etc.). Muitas dessas drogas são bases químicas para inúmeras formulações que beneficiam a humanidade há séculos. Infelizmente, muitas dessas moléculas, principalmente alcaloides presentes nas plantas, estimularam o comércio gerando fortunas, promovendo guerras, sustentando governos, financiaram golpes de estado levando à escravidão e à morte bilhões de seres humanos. O abuso e desconhecimento de suas propriedades e a falta de políticas, que levam à extinção de plantas nativas por substituição por outras “mais rentáveis”, pode nos privar da descoberta de novas moléculas com propriedades antitumor, ativas contra o HIV, para o tratamento da esquizofrenia, Alzheimer, Parkinson e, quem sabe, males que ainda desconhecemos.
Fernanda de Melo Lima é professora de Química Analítica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro – IFRJ. Graduada em Química Industrial pela UFF e Doutora em Química na UFF.
(1) Nome que os antigos davam às drogas aromáticas com que perfumavam e embalsamavam os corpos.
(2) Ação de produzir fumaça ou vapor desinfetantes.