PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
TEXTO -1
(1) Conhecendo um pouco mais a Sociologia e os sociólogos
METRÓPOLES NA PERIFERIA:
COMO GOVERNAR A URBS SEM CIVITAS?
Luiz César Queiroz Ribeiro
Em menos de 50 anos, sob o impulso da industrialização e da desruralização produtiva do campo, o Brasil transformou-se em grande território articulado por um complexo sistema urbano-metropolitano. Hoje atravessamos nas metrópoles brasileiras um período de transição no qual as consequências da ausência de um sistema de governabilidade urbana e a desestruturação do regime de bem-estar social podem aprofundar os riscos na descoesão nacional. Os efeitos da combinação entre a expansão do trabalho informal, habitat precário e segregação urbana tornam nebulosa a conquista nas metrópoles brasileiras do Direito à Cidade prometida pelo programa de reforma urbana contida no Estatuto da Cidade.
O destino das grandes cidades está no centro dos dilemas contemporâneos das sociedades. As transformações socioeconômicas em curso desde a segunda metade dos anos 70 do século XX, em especial as decorrentes da globalização e da reestruturação socioprodutiva, aprofundam a dissociação engendrada pelo capitalismo industrial entre progresso material e urbanização, economia e território, Nação e Estado. Segundo previsões de vários organismos internacionais, em 2015 teremos 33 aglomerados urbanos do porte de megalópoles, entre as quais 27 estarão localizadas em países em desenvolvimento, sendo que apenas Tóquio será a grande cidade do mundo rico. Por outro lado, enquanto metrópoles do hemisfério sul continuarão a conhecer taxas explosivas de crescimento demográfico, dissociadas do necessário progresso material, aquelas que concentram as funções de direção, comando e coordenação dos fluxos econômicos mundiais encolherão relativamente de tamanho. Teremos então duas condições urbanas: a gerada pela vertiginosa concentração da população nos países que estão conhecendo o processo de des-ruralização induzido pela incorporação do campo à expansão das fronteiras mundiais do espaço de circulação do capital, e a condição urbana decorrente da concentração do capital, do poder e dos recursos de bem-estar social. Mas a linha demarcatória não é apenas norte-sul. A nova relação entre economia e território reproduz na escala intraurbana aquela dissociação. Mesmo nas cidades do mundo desenvolvido estão surgindo territórios excluídos dos benefícios do crescimento, na forma de guetos e periferias onde a precariedade do habitat, o isolamento do mainstream da sociedade, a violência e a desertificação cívica são as suas principais marcas. São os espaços onde se concentram a miséria do mundo (BOURDIEU, 1997).
Para muitos autores ingressamos no mundo da urbanização generalizada, caracterizado pela ausência de cidades delimitadas e com fronteiras nítidas, dissociada da produção da riqueza e dos efeitos socioculturais emancipadores e civilizatórios gerados pela condição urbana constituída nas cidades europeias da Renascença e da revolução industrial. M. Davis (2006) nos propôs a imagem “O Planeta em Favelas”, consequência da explosão demográfica provocada pela desruralização que faz crescer cidades precárias em termos de condições de vida próximas às megalópoles. Este urbano seria um ambiente físico caracterizado pela intensificação da interação de todos os pontos dispostos em um contínuo sócio-territorial que unifica o rural e o urbano, regional e o urbano, fruto das consequências da passagem da dinâmica da expansão do capitalismo internacional que organizou uma rede de cidades à cidade em rede gerada pelo capitalismo mundializado. Na Indonésia este padrão de urbanização vem sendo chamado de desakotas – cidades aldeias. [...]
A principal consequência de tal constatação é política: nas escalas macro e micro o fenômeno urbano está atravessado pela dissociação entre urbs – a forma espacial e arquitetural da cidade – e civitas – as relações humanas e políticas. Foram estas duas dimensões da condição urbana que emanciparam os indivíduos, tanto pela ruptura com os laços de dependência pessoal que os ligava aos senhores – da terra, da guerra ou do Estado – quanto pelo surgimento de novos padrões de interações sociais baseadas na tolerância e no reconhecimento das diferenças.
Luiz César Queiroz Ribeiro é Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela USP – Universidade de São Paulo. Atualmente é professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Observatório das Metrópoles.
O texto é a parte inicial de seu artigo para a revista Nueva Sociedad, n. 212, noviembre-diciembre, 2007.
Referências citadas no texto:
BOURDIEU, Pierre. A miséria do mundo. Petrópolis/RJ: Vozes, 1997.
DAVIS, Mike. Planeta favela. São Paulo: Boitempo, 2006.
O texto apresenta termos desconhecidos para muitos estudantes. A sugestão ao é a de organizar/ selecionar um glossário e, reler o artigo após encontrados os significados das palavras listadas.
Identificar os problemas trazidos pelas mudanças aceleradas pelas quais atravessam as cidades brasileiras, explicando o que entenderam no texto a respeito.
Debatendo uma questão atual
TEXTO-2
LONDRES 2012 PROÍBE O USO DE CAMISETAS DE “CHE” GUEVARA
ENQUANTO ESPECTADORES ENCONTRAM LONGA LISTA DE RESTRIÇÕES, PATROCINADORES DO EVENTO GANHAM OPORTUNIDADES.
Os espectadores das Olimpíadas de Londres não poderão entrar nos estádios com diversos tipos de itens e até mesmo roupas, informou nesta quarta-feira (11/07) o Locog (o Comitê Organizador das Olímpiadas na sigla em inglês) por meio de uma lista de restrições de duas páginas.
A aplicação das regras será assegurada por um sistema de segurança que conta com câmeras, aparelhos de raio-X e mais de 23 mil seguranças, incluindo soldados do exército britânico e funcionários da empresa privada G4S. Objetos e roupas que ostentam declarações políticas ou remetem a outras identificações comerciais que não a dos patrocinadores do evento estão proibidas. Dessa forma, o comitê evita que camisetas estampadas com Che Guevara ou críticas politizadas a empresas financiadoras das Olimpíadas estejam presentes na plateia. As bandeiras, tão utilizadas nas comemorações de disputas, também foram alvo das restrições do comitê. Flâmulas de países que não estão participando dos jogos também não são permitidas, mas a regra não se aplica às bandeiras individuais da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. Mesmo assim, apenas bandeiras com até 1 metro por 2 metros entrarão nos estádios.
Outros itens utilizados para torcer pelas equipes, como vuvuzelas, tambores, apitos e cornetas também foram vetados dos Jogos Olímpicos deste ano. Assim como nos aeroportos internacionais, líquidos com mais de 100 ml e mochilas com mais de 25 litros de capacidade não poderão entrar. O porte de alimentos também sofreu restrições de modo que os espectadores não poderão trazer ao evento uma “quantidade excessiva de comida”, segundo o documento oficial. Se os visitantes desejarem se alimentar, terão que arcar com os elevados custos das cantinas e restaurantes oficiais do evento, onde o almoço sairá por 40 libras, o hot-dog por 6 libras, uma garrafa de água por 1,60 libras e um refrigerante 2,80 libras. Até os fornecedores oficiais de alimentos sofrerão restrições do comitê. “Por conta de obrigações com nosso financiador, o McDonalds, o Locog instruiu a equipe de catering a não vender batatas fritas no Parque Olímpico a não ser que façam parte do tradicional prato inglês ‘fish and chips’”, explicou em nota a organização do evento. O McDonalds, um dos maiores financiadores do evento, deve lucrar com as decisões. A empresa estabeleceu sua maior filial do mundo no Parque Olímpico com 1,5 mil lugares disponíveis.
Reportagem publicada em 2012, durante a realização das Olimpíadas de Londres. Escrito por “Articulação Nacional”, em 14/07/2012. Fonte: Site UOL. Disponível em: http://bit. ly/23irC6B / Acesso: janeiro 2016.
A sugestão aos alunos:
listarem as três proibições que considerem mais relevantes, determinadas pelo Comitê Organizador das Olimpíadas de Londres.
Com base no texto acima, e nos demais do capítulo, e pensando na realização das Olimpíadas de 2016, pedir que os alunos elaborem uma redação sobre um dos temas:
(a) “Imagine as Olimpíadas do Rio!”;
(b) “Como foi a Olimpíada do Rio”.