PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
TEXTO-1
O MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA
Afrânio Mendes Catani
Maurice Dobb, tentando conceituar o capitalismo da maneira mais simples possível, afirma que ele é um sistema em que os utensílios e as ferramentas, edifícios e matérias-primas com que é obtida a produção – capital, numa palavra – são predominantemente de propriedade privada ou individual. Em linguagem um pouco mais técnica, Karl Marx o havia definido como um modo de produção cujos meios estão nas mãos dos capitalistas, que constituem uma classe distinta da sociedade.
Segundo Marx, propriedade privada, divisão social do trabalho e troca são características fundamentais da sociedade produtora de mercadorias. E à produção de mercadorias dedicam-se os produtores independentes privados que possuem a sua força de trabalho, os seus meios de produção e os produtos resultantes do seu trabalho.
A divisão social do trabalho é outra condição prévia, característica de uma sociedade capitalista. Como nessa sociedade o indivíduo não tem todas as profissões necessárias para satisfazer as suas múltiplas necessidades (de alimentação, de vestuário, de habitação, de meios de produção etc.), uma vez que ele possui apenas uma profissão, só consegue subsistir se puder, simultaneamente, adquirir os produtos do trabalho de outrem. Como nessa sociedade cada pessoa tem uma profissão particular, todos dependem uns dos outros, e isto decorre da divisão do trabalho no seio da produção mercantil.
Os produtos dos diferentes trabalhos privados têm de ser, na sociedade capitalista, trocados. A troca é condição necessária para a subsistência de todos na sociedade, e esse produto a ser trocado, resultado do trabalho, denominase mercadoria. Assim, um produto do trabalho só se torna mercadoria num quadro de condições sociais em que imperem a propriedade privada, a divisão social do trabalho e a troca, não podendo ser considerado como tal, caso não se verifiquem essas três condições.
Afrânio Mendes Catani é Mestre e Doutor em Sociologia e Professor da Faculdade de Educação da USP – Universidade de São Paulo. O trecho destacado foi retirado da sua obra O que é capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 16-17.
ATIVIDADES SOBRE O TEXTO - 1
Após a leitura, destacar as definições que o autor enumera para “modo de produção capitalista” e “mercadoria”. Em relação a esta última, devem apresentar as três condições para que o produto do trabalho seja entendido dessa forma.
Debatendo uma questão atual
TEXTO-2
OS ALEMÃES TORNARAM-SE CÉTICOS
EM RELAÇÃO AO CAPITALISMO
Por João Alexandrino Fernandes,
de Tübingen, Alemanha, para o Esquerda.net.
Artigo | 23 Agosto, 2010
[...]
Têm vindo a surgir nos meios de comunicação social notícias sobre a recuperação econômica da Alemanha: a Alemanha está a sair da crise, prevendo-se já uma taxa de crescimento de 3% em 2010. A Alemanha, o “motor” da Europa, está de regresso – assim se pensa, pelo menos.
Porém, o mais interessante é que estas notícias, que parecem convencer todos, não convencem a população alemã! Neste momento, diz-se que a economia da Alemanha cresce. Os comentadores rejubilam com as exportações e os políticos anunciam o fim da crise e o regresso à normalidade. E, no entanto, segundo uma sondagem agora divulgada, efetuada pelo instituto de pesquisa de opinião Emnid, por incumbência da Fundação Bertelsmann, esta euforia não se reflete no estado de espírito da população [...]: dois terços da população não esperam sequer que a recuperação econômica faça aumentar automaticamente a sua qualidade de vida. Segundo a sondagem, a convicção da população alemã mudou [...]. De fato, 88% dos alemães tornaram-se céticos em relação ao capitalismo e aspiram a uma nova ordem econômica:
acreditam que o capitalismo não toma suficientemente em consideração quer o equilíbrio social, quer a proteção do ambiente, quer a necessidade de uma relação cuidadosa com os recursos naturais. Significa esta atitude que os alemães pretendem uma revolução? Atendendo aos resultados da sondagem, não. Significa que os alemães estão pensativos e que veem a responsabilidade pela atual situação econômica e social não só nos políticos e nos dirigentes da economia, mas também em si próprios: quatro em cada cinco alemães são da opinião de que cada um deveria refletir sobre a sua própria forma de vida, sobre se, para si, o crescimento econômico é tudo.
Hoje em dia valores como a justiça social ou a proteção ambiental são para a maioria dos alemães tão importantes que influenciam de forma crescente a sua posição relativamente ao sistema econômico. Para a grande maioria dos cidadãos as fontes de qualidade de vida pessoal são de natureza imaterial: relações sociais, saúde e condições ambientais são mais importantes do que ter mais dinheiro e propriedade. Importante também é que esta nova escala de valores recolhe um consenso fora do vulgar em todos os escalões sociais e mostra-se independente dos níveis de educação. Uma afirmação da pesquisa: “a prosperidade social é, para mim, menos importante do que a proteção ambiental e a redução das dívidas do Estado” mereceu não só a concordância de 75% das pessoas com formação liceal, a forma mais elevada do ensino secundário e que permite o acesso ao ensino superior, mas também a concordância de 69% das pessoas com a formação da chamada “Hauptschule”, que é a forma mais elementar do ensino secundário alemão. [...]
Fontes: “Umfrage: Neun von zehn Deutschen fordern neue Wirtschaftsordnung“, in Spiegel Online, 18. August 2010, www.spiegel.de. “Umfrage-Wachstumsskeptisch“ em Zeit Online, 18.08.2010,www.zeit.de. http://bit.ly/17Kcz9h Acesso: janeiro/2016
ATIVIDADES SOBRE O TEXTO - 2
O artigo, como se pode observar pelo fragmento acima, é um comentário de uma pesquisa desenvolvida na Alemanha, em 2010, e foi redigido para um site português. Com base na leitura:
– Pesquise na internet a respeito da situação econômica atual da Europa, em geral, destacando nesse levantamento o cenário vivido pela Alemanha, em comparação com outros países.
– Debatam o texto e o resultado da pesquisa com os colegas de turma, fazendo as necessárias relações com o conteúdo da matéria estudada neste capítulo. Ao final, deverão responder se, na sua avaliação, os alemães tinham razão em seu ceticismo com o sistema econômico capitalista.