PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
EMPIRISMO E ILUMINISMO
Experimento com um pássaro em uma bomba de ar (1768) – Joseph Wright. Uma cacatua se debate asfixiada dentro de um globo de vidro, sob a ação de um filósofo natural (ou cientista).
IMAGEM DE ABERTURA
Qual é o principal recurso pictórico utilizado na pintura ao lado?
Que experimento ela retrata? Como reagem as pessoas? Qual poderia ser sua mensagem
(ou problema)?
Vamos agora cruzar o canal da Mancha para estudar o pensamento desenvolvido por filósofos britânicos que se opuseram ao grande racionalismo dos filósofos continentais, defendendo concepções empiristas. Depois abordaremos pensadores do século XVIII, o “século das Luzes”, quando a confiança nos poderes da razão continuou em alta e a investigação filosófica se expandiu para todos os campos da atividade humana, sendo exercida também “nas ruas e nos salões”.
QUESTÕES FILOSÓFICAS
Como conhecemos?
Existem ideias inatas?
Como chegamos a conclusões gerais a partir do particular?
O que é o bem e o mal?
Por que o ser humano vive em sociedade?
O que legitima o poder político?
PALAVRAS-CHAVE
Racionalismo, empirismo, apriorismo, ideias inatas, corpos naturais, corpos artificiais, tábula rasa, experiência, sensação, reflexão, contratualismo, livre-iniciativa, idealismo subjetivo imaterialista, indução, dedução, Iluminismo, progresso, tolerância, igualdade jurídica, propriedade privada, separação dos poderes, liberdade, bom selvagem, estado de natureza, perfectibilidade, vontade geral, liberalismo econômico, trabalho, autonomia, juízos analíticos e sintéticos a priori e a posteriori, formas a priori da sensibilidade e do entendimento
EMPIRISMO BRITÂNICO - O CONHECIMENTO PARTE DA EXPERIÊNCIA
Comecemos nosso estudo pelo contexto histórico-filosófico. Vimos no capítulo anterior que o desenvolvimento da ciência moderna nos séculos XVI e XVII inseriu-se em um contexto de questionamento sobre os critérios e os métodos para a elaboração de um conhecimento verdadeiro.
Por essa razão, o próprio processo de conhecer passou a ser investigado e discutido intensamente por boa parte dos principais filósofos. essa discussão concentrou-se entre os séculos XVII e XVIII. em consequência, foi na Idade Moderna que se formularam algumas das principais gnosiologias – teorias a respeito do conhecimento – da história da filosofia.
PROCESSO DE CONHECER
Recordemos que as duas principais vertentes que se destacaram no início dessa discussão filosófica foram:
• a racionalista – que defendia basicamente a tese de que o conhecimento obtido pela razão (e fundamentalmente em seu uso lógico-dedutivo) é mais confiável do que aquele que se obtém pela experiência sensível, desqualificando o valor da experiência no processo de conhecer a verdade;
• a empirista – que considerava um erro desqualificar totalmente a experiência, com base na tese de que qualquer conhecimento se origina, em última análise, da experiência. algum tempo depois, em pleno Iluminismo, o filósofo alemão Immanuel Kant entraria nesse debate, realizando uma espécie de síntese das duas correntes em sua doutrina apriorista. Veremos com mais detalhe como foi o processo dessa discussão ao longo deste capítulo.
IDEIAS INATAS
O início do debate esteve vinculado ao pensamento de René Descartes, o primeiro e principal expoente do racionalismo moderno. No capítulo anterior, vimos que o filósofo francês dizia que o verdadeiro conhecimento das coisas externas devia ser conseguido por meio do trabalho lógico-dedutivo da mente, ou seja, a partir de uma ideia evidente e certa poderiam ser deduzidas outras sucessivamente.
A menina com chapéu vermelho (1666-1667) – Jan Vermeer.
Valorização da percepção dos sentidos.
O pintor teria traçado a imagem projetada na câmara escura e depois copiado o padrão de luzes e sombras, de forma a alcançar uma imagem “fotográfica”, fiel à impressão fornecida pela visão do próprio objeto.
Um dos principais argumentos de Descartes para justificar essa concepção era sua suposição a respeito da existência de ideias fundadoras do conhecimento, as chamadas ideias inatas.
Trata-se de ideias que teriam nascido com o sujeito pensante e que, por isso, dispensariam a percepção de um objeto exterior para se formarem no pensamento. os conceitos matemáticos e a noção de Deus seriam exemplos de ideias inatas, segundo Descartes.
Entre os principais defensores do inatismo no processo de conhecimento encontram-se Platão, na antiguidade, e santo agostinho, na Idade Média, além do próprio Descartes, na filosofia moderna.
REAÇÃO EMPIRISTA
A filosofia cartesiana, principalmente a tese da existência de ideias inatas, provocou forte reação de vários pensadores. alguns deles passaram a defender justamente a tese oposta, isto é, de que o processo de conhecimento depende sempre da experiência e dos sentidos, pelo menos como ponto de partida, em sua origem última, e que consequentemente não existiriam ideias inatas.
Assim surgiram diversas doutrinas modernas empiristas (recorde que essa palavra vem do grego empeiria, que significa “experiência”). entre os principais defensores de gnosiologias empiristas encontram-se aristóteles, na antiguidade, e santo tomás de aquino, na Idade Média, além dos pensadores que estudaremos em seguida.
O palco inicial do empirismo moderno ocorreu durante o século XVII nas ilhas britânicas, notadamente na Inglaterra, onde a filosofia se afasta do padrão especulativo (cartesiano) e se lança cada vez mais ao concreto, à experiência, à ciência.
Carlos I da Inglaterra – anthony van Dyck, óleo sobre tela.
A revolução Gloriosa (1688-1689), última etapa da revolução liberal inglesa, instituiu a monarquia parlamentarista na Inglaterra. estabeleceu-se, assim, a superioridade das leis sobre a vontade do rei (dizia-se na época que “o rei reina, mas não governa”). o processo revolucionário iniciou-se em 1642, com uma guerra civil na qual o rei Carlos I acabou sendo preso e decapitado. Na pintura, vemos o monarca em uma cena de caça.
Paralelamente, no plano social, grande parte da burguesia conquistava não apenas poder econômico, mas também poder político e ideológico, impondo o fim do absolutismo monárquico durante a Revolução Gloriosa.
Alguns estudiosos relacionam essa ascensão da burguesia, no plano epistemológico, ao empirismo (valorização da experiência concreta, da investigação natural) e, no plano sociopolítico, ao liberalismo (respeito à liberdade individual; fim do arbítrio dos monarcas, impondo-se limites constitucionais aos seus poderes).
Entre os principais representantes do empirismo britânico destacam-se Francis Bacon (que já estudamos no capítulo anterior), Thomas Hobbes, John Locke e David Hume.
THOMAS HOBBES
Detalhe de Thomas Hobbes (1669) – John Michael Wright.
O pensamento de hobbes ficou mais conhecido nos âmbitos da ética e da filosofia política, notadamente pelo debate sobre sua doutrina a respeito da maldade natural humana (“o homem é o lobo do próprio homem”) e sua defesa do absolutismo.
Thomas Hobbes (1588-1679) nasceu em Westport, Inglaterra. No período da revolução liberal inglesa, apoiou o rei Carlos I, que acabou derrotado e decapitado, o que obrigou o filósofo a exilar-se na França, onde entrou em contato com a filosofia de Descartes.
O pensamento de Hobbes foi muito influenciado pelas ideias de Bacon e Galileu. Como estes, ele abandonou as grandes pretensões metafísicas (a busca da essência do ser) e procurou investigar as causas e propriedades das coisas. Para Hobbes, a filosofia seria a ciência dos corpos, isto é, de tudo que tem existência material. os corpos naturais seriam estudados pela filosofia da natureza; os corpos artificiais ou Estado, pela filosofia política. e o que não é corpóreo deveria ser excluí do da reflexão filosófica.
MATERIALISMO E EMPIRISMO
Como vimos antes, para o filósofo inglês, toda a realidade poderia ser explicada a partir de dois elementos: o corpo, entendido como o elemento material que existe independentemente do nosso pensamento, e o movimento, que pode ser determinado matemática e geometricamente. trata-se, portanto, de uma concepção materialista e mecanicista da realidade.
As ideias ou pensamentos não seriam nada mais que imagens das coisas impressas na “fantasia corporal”. Isso quer dizer que, para Hobbes, o processo de conhecimento inicia-se pela sensação – uma concepção empirista, como podemos perceber.
Uma consequência dessa doutrina é que, no pensamento de Hobbes, não há lugar para o acaso e a liberdade (mudanças não condicionadas), porque os movimentos resultam necessariamente dos nexos causais que lhes dão origem. (reveja as concepções de Hobbes estudadas no capítulo 6, que ampliam esta exposição.)
ÉTICA E POLÍTICA
No plano ético, Hobbes defende que o que chamamos de bem é tão somente o que desejamos alcançar, enquanto o mal é apenas aquilo de que fugimos. Isso se explicaria pelo fato de que, no entendimento desse pensador, o valor fundamental para cada indivíduo é a conservação da vida, ou seja, a afirmação e o crescimento de si mesmo. assim, cada pessoa sempre tenderá a considerar como bem o que lhe agrada e como mal o que lhe desagrada ou ameaça.
Portanto, na filosofia hobbesiana não há espaço para o bem e o mal como valores universais a serem introjetados nas pessoas. a pergunta que pode surgir então é a seguinte: se o bem e o mal são relativos, isto é, são determinados pelos indivíduos, como será possível a convivência entre as pessoas?
Hobbes responde a essa questão nos livros Leviatã e Do cidadão, nos quais defende a necessidade de um poder absoluto que mantenha os indivíduos em sociedade e impeça que se destruam mutuamente. (estudaremos com mais detalhe o pensamento político de Hobbes no capítulo 19.)
JOHN LOCKE
Um dos maiores representantes do empirismo britânico, Locke manifestou interesse por diversos campos de estudo, como química, teologia, filosofia, mas formou-se em medicina. seu pensamento empirista e liberal inspirou diversos filósofos do Iluminismo, como Montesquieu e Voltaire.
O filósofo John Locke (1632-1704) nasceu em Wrington, Inglaterra. Durante os tempos de universidade, decepcionou-se com o aristotelismo e com a escolástica medieval, enquanto tomava contato com o pensamento de Francis Bacon e René Descartes. Problemas políticos obrigaram -no a sair de seu país, em 1675, e exilar-se na França e, posteriormente, na Holanda. regressou à Inglaterra somente em 1688, durante a revolução Gloriosa, que levou Guilherme de Orange ao trono da Inglaterra. a partir de então, pôde dedicar-se livremente às atividades intelectuais.
TÁBULA RASA
Com o Ensaio acerca do entendimento humano, Locke tornou-se o principal representante do empirismo britânico e uma referência nos estudos gnosiológicos. Nessa obra, combateu duramente a doutrina cartesiana segundo a qual o ser humano possui ideias inatas. ao contrário de Descartes, o filósofo inglês defendia que nossa mente, no instante do nascimento, é como uma tábula rasa.
O substantivo tábula significa “tábua” ou “placa de madeira” ou de outro material; o adjetivo rasa quer dizer “plana, lisa”. assim, a expressão tábula rasa usada por Locke tem o significado de “tábua lisa”, na qual nada foi escrito nem gravado. ao nascer, nossa mente seria como um papel em branco, sem nenhuma ideia previamente escrita.
Assim, Locke retomava a tese empirista segundo a qual nada existe em nossa mente que não tenha sua origem nos sentidos. Para ele, as ideias que possuímos são adquiridas ao longo da vida mediante a experiência sensível imediata e seu processamento interno. Desse modo, o conhecimento seria constituído basicamente por dois tipos de ideias:
Ideias da sensação – são nossas primeiras ideias, aquelas que chegam à mente através dos sentidos, isto é, quando temos uma experiência sensorial, constituindo as sensações. essas ideias seriam moldadas pelas qualidades próprias dos objetos externos, como podemos observar nas ideias de amarelo, branco, quente, frio, mole, duro, amargo, doce etc.
Ideias da reflexão – são aquelas que resultam da combinação e associação das sensações por um processo de reflexão, de tal maneira que a mente vai desenvolvendo outra série de ideias que não poderiam ser obtidas das coisas externas. seriam ideias como “a percepção, o pensamento, o duvidar, o crer, o raciocinar” (LOCKE, Ensaio acerca do entendimento humano, p. 160).
Assim, a reflexão seria nosso “sentido interno”, que se desenvolve quando a mente se debruça sobre si mesma, analisando suas próprias operações. Das ideias simples, a mente avança em direção a ideias cada vez mais complexas. Porém, para Locke, de qualquer maneira a mente sempre tem “as coisas materiais externas, como objeto de sensação, e as operações de nossas próprias mentes, como objeto da reflexão” (Ensaio acerca do entendimento humano, p. 160).
O filósofo admitia, no entanto, que nem todo conhecimento se limita exclusivamente à experiência sensível. Considerava, por exemplo, o conhecimento matemático válido em termos lógicos, embora não tivesse como base a experiência sensível. Nesse sentido, Locke não era um empirista radical.
CRÍTICA AO ABSOLUTISMO
Analisando o filósofo e o homem político, podemos dizer que Locke, de certa maneira, “transportou” suas teorias sobre o conhecimento humano para o campo sociopolítico. Para ele, assim como não existem ideias inatas, também não deveria existir poder inato (ou de origem divina), como defendiam os adeptos do absolutismo monárquico.
Revelando sua preocupação em proteger a liberdade do cidadão, defendia que o poder social deveria nascer de um pacto entre as pessoas. Por sua vez, as leis deveriam expressar as normas estabelecidas pela própria comunidade, que escolheria, através do mútuo consentimento dos indivíduos, a forma de governo considerada mais conveniente ao bem comum.
A única maneira pela qual uma pessoa qualquer renuncia à liberdade natural e se reveste dos laços da sociedade civil consiste em concordar com outras pessoas em juntar-se e unir-se numa comunidade para viverem com segurança, conforto e paz. (LocKe, Segundo tratado sobre o governo, p. 71.)
Em razão das suas ideias políticas – pois foi um adversário ferrenho da tirania e do abuso do poder –, Locke é apontado por muitos historiadores como o “pai do Iluminismo” (tema que trataremos mais adiante neste capítulo). seu pensamento exerceu profunda influência na fundamentação ideológica da democracia liberal burguesa, contribuindo para a difusão de valores iluministas como a tolerância religiosa, o respeito pela liberdade individual, a expansão do sistema educacional e a livre-iniciativa econômica. (Voltaremos ao pensamento político de Locke no capítulo 19.)
DAVID HUME
Apesar de viver em um ambiente caracterizado pela religiosidade, Hume era ateu. E, curiosamente, talvez por seu acentuado ceticismo e espírito investigador, escreveu História natural da religião (1757), considerada por estudiosos a primeira obra científica sobre a sociologia da religião
Por último, vejamos algumas das principais concepções de David Hume (1711-1776), filósofo de grande impacto em pensadores posteriores. Nascido em Edimburgo, Escócia, Hume ocupou importante posição na diplomacia inglesa. realizou diversas viagens a países europeus, como França e Áustria, estabelecendo contato com pensadores destacados da época, entre eles Adam Smith e Jean-Jacques Rousseau.
Crítico do racionalismo dogmático do século XVII e do inatismo cartesiano, em sua obra Investigação acerca do entendimento humano, Hume defendeu outra tese segundo a qual todo conhecimento deriva da experiência sensível. ele dizia que tudo o que há em nossa vida psíquica são percepções, as quais dividiu em duas categorias:
· impressões – referem-se aos dados fornecidos pelos sentidos, como as impressões visuais, auditivas, táteis;
· ideias – referem-se às representações mentais (memória, imaginação etc.) derivadas das impressões sensoriais.
Assim, toda ideia é uma re(a)presentação de alguma impressão. essa representação pode possuir diferentes graus de fidelidade. e alguém que nunca teve uma impressão visual – um cego de nascença, por exemplo – jamais poderá ter uma ideia de cor, nem mesmo uma ideia pouco fiel.
Hume entendia também que as impressões e ideias se sucedem continuamente na vida psíquica do ser humano, combinando-se por semelhança ou contiguidade. esse processo de associação de ideias explicaria, enfim, todas as operações mentais.
CRÍTICA A INDUÇÃO
Como vimos anteriormente, a indução ou raciocínio indutivo vai do particular para o geral. assim, as conclusões indutivas são produzidas pelo seguinte processo mental: partindo de percepções repetidas que nos chegam da experiência sensorial, saltamos para uma conclusão geral, da qual não temos experiência sensorial
Hume chamou a atenção para o fato de que a conclusão indutiva, por maior que seja o número de percepções repetidas do mesmo fato, não possui fundamento lógico – ou seja, sempre será um salto do raciocínio. Para o filósofo, esse “salto” seria impulsionado pela crença ou hábito. este surge com as reiteradas percepções de um fato, as quais nos levam a confiar em que aquilo que se repetiu até hoje se repetirá amanhã e sempre. assim, por exemplo, cremos que o sol nascerá amanhã porque até hoje ele sempre nasceu. Mas, em termos lógicos, nada pode garantir essa certeza.
Como explicou Hume, somente o raciocínio dedutivo, utilizado na matemática, fundamenta-se em uma lógica racional:
As proposições deste gênero podem descobrir-se pela simples operação do pensamento e não dependem de algo existente em alguma parte do universo. Em bora nunca tenha havido na natureza um círculo ou um triângulo, as verdades demonstradas por Euclides conservarão sempre sua certeza e evidência. (Investigação acerca do entendimento humano, p. 77.)
LEGADO EPISTEMOLÓGICO
Ao questionar a validade lógica do raciocínio indutivo, a obra de Hume legou um importante problema para os teóricos do conhecimento (os epistemologistas). afinal, é principalmente a partir de experiências particulares que se chega às conclusões gerais representadas pelas leis científicas.
Revelando um ceticismo teórico, como vimos, Hume concluiu que o conhecimento científico – que ostenta a bandeira da mais pura racionalidade – também está ancorado em bases não racionais, como a crença e o hábito intelectual.
Isso significa que, desconfiando das posições arraigadas pela força do hábito, o cientista deveria – de acordo com Hume – nunca renunciar ao estudo da natureza, mas sempre apresentar suas teses como probabilidades, não como certezas irrefutáveis. tal atitude epistemológica, estendida ao convívio social, tornaria os indivíduos mais tolerantes, democráticos e abertos.
ANÁLISE E ENTENDIMENTO
1. sintetize em que discordavam racionalistas e empiristas na discussão sobre o processo de conhecimento.
2. Comente a relação estabelecida entre a ascensão da burguesia e o empirismo.
3. No pensamento de Hobbes não há lugar para a liberdade. Justifique essa afirmação. 4. explique a tese epistemológica da seguinte afirmação e contra quem ela é dirigida: “a mente humana, no instante do nascimento, é uma tábula rasa”. 5. Como se pode relacionar o empirismo de Locke com suas concepções políticas?
6. Para Hume, um cego de nascimento jamais poderia ter uma ideia de cor. explique essa impossibilidade a partir da teoria humeana do conhecimento.
7.Hume entendia que o hábito fundamenta muitas ideias consideradas verdadeiras sobre a realidade e os fatos. Justifique essa tese e dê um exemplo.
CONVERSA FILOSÓFICA
Limite das teses científicas
Considerando a recomendação de Hume de que os cientistas apresentem suas teses como probabilidades e não como certezas irrefutáveis:
a) qual é a diferença entre probabilidade e certeza?
b) você concorda com essa recomendação? Justifique com exemplos concretos. Depois, reúna-se com colegas para debater sobre esse tema.
2. ILUMINISMO: A RAZÃO EM BUSCA DE LIBERDADE
Para entendermos o que foi o Iluminismo e sua produção filosófica, devemos recorrer à história e considerar, mesmo que brevemente, o contexto socioeconômico, político e cultural em que ele surgiu.
Nos séculos XVII e XVIII houve uma grande expansão do sistema capitalista em diversos países europeus, que foi acompanhada pela crescente ascensão social da burguesia e por sua tomada de consciência como classe social.
Apesar disso, no plano sociopolítico, em diversos países europeus subsistia o Antigo Regime, isto é, um conjunto básico de elementos e instituições que caracterizaram essas sociedades, como a organização em estamentos (basicamente três: clero, nobreza e demais grupos sociais, com mobilidade quase nula), a desigualdade jurídica entre eles (ou seja, a lei não era igual para todos) e o absolutismo monárquico.
Paralelamente, o racionalismo conseguia cada vez mais adeptos no mundo cultural, transmitindo a confiança na razão como principal instrumento do ser humano para enfrentar os desafios da vida e equacionar os problemas que o rodeavam. reforçavam essa convicção o desenvolvimento da Revolução Industrial, com seus avanços técnicos, e o sucesso da ciência em campos como a química, a física e a matemática, inspirando filósofos de todas as partes. Como observou o filósofo brasileiro Luiz roberto salinas fortes (1937-1987):
Novos domínios, novos territórios vão sendo descobertos no mapa do saber. A atenção do sábio se volta para este mundo, a transcendência cede lugar à imanência. Um novo objeto de estudos começa a se desenhar no horizonte: o próprio homem. Uma nova “ciência” começa a se impor: a História. Os homens percebem, através do estudo do seu passado, que a massa de conhecimentos adquiridos pode ser utilizada e posta a serviço do seu próprio bem-estar. Surge, por conseguinte, como um corolário necessário de todas estas descobertas, um novo mito, um novo ideal, uma nova ideia reguladora, ou seja, a ideia de Progresso. Se o universo é inteiramente racional não é absolutamente legítimo esperar que o acúmulo e a multiplicação dos conhecimentos permitirá ao homem cada vez mais dominar ou domesticar a Natureza, racionalizando e melhorando indefinidamente suas condições de vida? (O Iluminismo e os reis filósofos, p. 20-21.)
Revolução Industrial – complexo de transformações socioeconômicas que alterou a vida de sociedades da europa ocidental e outras regiões do mundo a partir de meados do século XVIII e ao longo do século XIX.
Aquarela de Carmontelle
Durante o século XVIII, as ciências experimentais eram uma das paixões de nobres e burgueses franceses.
Foi nesse contexto e, em grande parte, com esse espírito que se desenvolveu o movimento cultural do século XVIII denominado Iluminismo, Ilustração ou Filosofia das Luzes. embora suas primeiras manifestações tenham ocorrido na Inglaterra, o principal centro produtor e irradiador das ideias iluministas foi a cidade de Paris, na França – nessa época considerada a maior referência cultural do mundo ocidental –, de onde se expandiu a outros países da Europa, especialmente Alemanha.
CARACTERÍSTICAS DO ILUMINISMO
Os pensadores do Iluminismo procuraram exaltar e defender, dentre outros valores, a liberdade e a igualdade entre as pessoas, a tolerância entre distintas religiões ou formas de pensamento e o direito à propriedade privada.
De acordo com a análise do filósofo e sociólogo Lucien Goldmann (1913-1979), a preocupação por esses temas estaria vinculada, em boa medida, com a atividade econômica desenvolvida pela burguesia – o comércio –, de modo que os valores iluministas constituiriam também valores burgueses. em outras palavras, os pensadores iluministas teriam sido ideólogos da burguesia (veja quadro adiante).
o Iluminismo não foi, porém, um movimento coeso e uniforme, embora tenha tido como uma de suas principais características a crítica social. Por isso, não podemos definir todos os pensadores iluministas como “ideólogos da burguesia”, apesar da significativa produção filosófica nesse sentido surgida no contexto desse movimento. Muitos dentre eles, por exemplo, defenderam a aristocracia e seus valores.
ILUSTRAÇÃO E A IDEOLOGIA BURGUESA
Vejamos, em seguida, alguns tópicos da interpretação de Lucien Goldmann (na obra La Ilustración y la sociedad actual), que vincula o pensamento iluminista com valores burgueses de sua época.
Igualdade jurídica
Quando consideramos qualquer ato de comércio, como o processo de compra e venda, vemos que todas as eventuais desigualdades sociais entre compradores e vendedores não são essenciais. Na compra e venda, o que efetivamente importa é a igualdade dos participantes do ato comercial. Portanto, grande parte da burguesia dessa época defendeu a igualdade jurídica de todos perante a lei. todos seriam cidadãos com direitos básicos, embora com diferentes situações socioeconômicas.
Tolerância religiosa ou filosófica
Para a realização de qualquer ato comercial, as convicções religiosas ou filosóficas das pessoas não têm a menor importância. assim, do ponto de vista econômico, seria irracional ou absurdo o processo de compra e venda somente entre pessoas da mesma religião ou filosofia. seja o indivíduo muçulmano, judeu, cristão ou ateu, sua capacidade econômica não depende de suas crenças religiosas ou filosóficas. Nesse entendimento, os representantes da burguesia assumiram, na época, a defesa da tolerância em relação à diversidade de crenças.
Liberdade pessoal e social
O comércio só pode se desenvolver em uma sociedade onde as pessoas estejam livres para realizar seus negócios, pois sem indivíduos livres, recebendo salários, não pode haver mercado comercial. assim, a burguesia posicionou-se contra a escravidão da pessoa humana.
Propriedade privada
O comércio também só é possível entre pessoas que detenham a propriedade de bens ou de capitais, pois a propriedade privada confere ao proprietário o direito de usar e dispor livremente do que lhe pertence. Portanto, os representantes da burguesia passaram a defender o direito à propriedade privada, elemento essencial à sociedade capitalista.
Carga e descarga de mercadorias no Porto de Marselha, frança (século XVIII) – Claude Joseph Vemet.
Em um país cuja economia ainda estava muito centrada nas atividades agrícola e artesanal, o comércio exterior francês intensificou-se durante o século XVIII. observe na imagem como aristocratas e burgueses, com suas famílias, dividem o espaço com trabalhadores portuários.
FILOSOFIA NAS RUAS E SALÕES
Outra característica importante dos pensadores do Iluminismo foi o fato de eles modificarem a postura tradicional dos filósofos até então. abandonando os círculos fechados de seus antecessores, os iluministas circulavam pelas ruas e salões, exibindo e exercitando a razão. Para esses filósofos propagandistas, como escreveu o pensador alemão ernst Cassirer (1874-1945), “a razão não era o cofre da alma onde se guardavam verdades eternas, mas era a força espiritual, a energia, capaz de nos conduzir ao caminho da verdade” (Filosofía de la Ilustración, p. 21).
Assim, eles enfatizaram a capacidade humana de, pelo uso da razão, conhecer a realidade e intervir nela, no sentido de organizá-la racionalmente de modo a assegurar uma vida melhor para as pessoas. eles defendiam que o processo de ilustração (isto é, de esclarecer-se, de adquirir conhecimento, de instruir-se) trazia embutida a proposta de libertar o ser humano dos medos irracionais, superstições e crendices do “tempo das sombras”, levando-o a questionar as tradições vulgares e a construir, de maneira autônoma, uma nova ordem racional para a sociedade.
Podemos dizer, enfim, que os iluministas se destacaram nesse esforço de generalizar e aplicar as doutrinas críticas e analíticas aos diversos campos da atividade humana, ampliando os ideais de conhecimento forjados no grande racionalismo (o racionalismo do século XVII). Não se tratava mais de uma racionalidade abstrata, mas de uma razão concreta, “empirista”, voltada para as questões práticas da existência.
O ENCICLOPEDISMO
Um marco importante do Iluminismo foi a publicação de uma obra de 33 volumes – denominada Enciclopédia (do grego enkyklos paideía, “ensino circular, panorâmico”) – que pretendia reunir e resumir os principais conhecimentos da época nos campos científico e filosófico. organizada pelos pensadores franceses Denis Diderot (1713-1784) e Jean le Rond D’Alembert (1717-1783), a obra contou com a colaboração de muitos autores, os quais ficaram conhecidos como enciclopedistas. entre eles destacaram-se Buffon, Montesquieu, turgot, Condorcet, Voltaire, holbach e rousseau.
A Enciclopédia exerceu grande influência sobre o pensamento da época, constituindo-se também em uma importante vitrine para o pensamento político burguês. em linhas gerais, seus artigos caracterizaram-se por um espírito crítico, muitas vezes irônico, defendendo o racionalismo, a independência do Estado em relação à Igreja e a confiança no progresso humano por meio das realizações científicas e tecnológicas.
Capa da Enciclopédia (1750-1772)
O editor chefe da obra, Denis Diderot, foi um crítico mordaz da teologia e da metafísica tradicional, assumindo um ceticismo e um materialismo ateu, como revela o tom irônico do trecho seguinte, extraído de sua obra A entrevista do filósofo com a marechala de...: “se é que podemos acreditar que veremos quando não tivermos olhos; que ouviremos quando não tivermos mais ouvidos; que pensaremos quando não tivermos mais cabeça; que sentiremos quando não tivermos mais coração; que existiremos quando não estivermos em parte alguma, que seremos algo sem extensão e sem lugar, então consinto”. ou seja, se é possível acreditar em tamanhos absurdos, então consinto que há algo além da matéria. tudo é matéria, pensa Diderot, e a matéria é a existência do real. (fortes, O Iluminismo e os reis filósofos, p. 56.)
O enciclopedismo foi, portanto, uma expressão essencial do espírito iluminista, de sua multiplicidade de doutrinas e, fundamentalmente, de sua aversão aos grandes sistemas filosóficos, como os construídos pelos pensadores da antiguidade ou por Descartes e Espinosa no século anterior.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Jean-Jacques Rousseau – Quentin de La tour (Coleção particular)
Por suas concepções político- -filosóficas, rousseau foi objeto de verdadeira veneração por parte dos participantes da revolução francesa (1789). “Do ponto de vista estritamente prático, é certo que a revolução de 1789 deve o essencial de seus princípios de organização política a rousseau [...]. Mas a influência dessa obra [Do contrato social] não cessa aí. Não resta dúvida alguma de que o princípio mesmo de nossas instituições democráticas republicanas é de inspiração rousseauniana.” (HUISMAN, Dicionário de obras filosóficas, p. 88.)
Vejamos agora um pouco do pensamento de um dos principais nomes do Iluminismo: o filósofo e escritor Jean-Jacques rousseau (1712-1778). embora tenha nascido em Genebra, na suíça, no seio de uma família calvinista de origem francesa, foi na frança – país para o qual se transferiu em 1742 – onde escreveu suas grandes obras, contribuindo também com o enciclopedismo.
O conjunto de sua produção filosófica, no entanto, não se enquadra totalmente nas características do movimento iluminista. apesar de defender a liberdade e combater os vícios sociais, não renegou sua formação cristã e criticou os excessos racionalistas de sua época, motivo pelo qual costuma ser considerado uma figura de transição do Iluminismo e um precursor do Romantismo.
Rousseau elaborou reflexões sobre diversos temas, como ciências, artes, educação e línguas. Mas, na história da filosofia, seu nome encontra-se especialmente vinculado a suas investigações acerca das instituições sociais e políticas, reunidas nas obras Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1755) e Do contrato social (1762).
O ESTADO NATURAL
No primeiro texto, Rousseau aborda um tema clássico, o ser humano em estado de natureza – isto é, antes de viver em sociedade –, e critica seus predecessores – como Hobbes e Locke – por imaginarem um estado natural que lhes convinha para justificar seus modelos prediletos de governo: a monarquia absolutista, no caso do primeiro; o estado liberal, no caso do segundo. assim, para Rousseau, propuseram um estado de guerra ou de proprietários, respectivamente, pintando o “homem natural” com as cores da sociedade desigual e injusta que todos conhecemos. (Veja mais detalhes sobre essas concepções de Hobbes e Locke nos capítulos 7 e 19.)
O filósofo franco-suíço afirma, em contrapartida, que é possível conjecturar sobre um estado de natureza totalmente distinto, adotando, para isso, outro método de descoberta: uma meditação interior nas profundezas da floresta. Por meio dela, Rousseau chega a uma imagem do estado de natureza que reconhece ser apenas uma hipótese, não um fato histórico, mas uma hipótese plausível e não menos verossímil do que as outras existentes.
De acordo com sua descrição, o ser humano em estado natural vivia isolado, livre e feliz, guiado por bons sentimentos e em harmonia com seu hábitat. Ligado a sua natureza animal, tinha os sentidos mais desenvolvidos que o intelecto, e suas únicas paixões eram o amor de si (entendido como uma paixão inata que leva cada animal à autopreservação) e a piedade (definida como uma repugnância inata por ver o sofrimento alheio). Rousseau revivia, assim, o mito do bom selvagem, presente em vários relatos de viagem de exploradores daquela época e que seria tema de várias obras literárias.
Apesar de sua proximidade dos outros animais, o ser humano se distinguiria destes, segundo o filósofo, por ser um pouco mais livre em relação aos instintos e por apresentar uma característica fundamental: a capacidade ou potencialidade de mudar seu estado ou condição para melhor (aperfeiçoar-se) ou pior (como foi o caso da vida em sociedade), o que não ocorre com os outros animais, pois estes se mantêm sempre iguais. trata-se da chamada perfectibilidade humana.
A PRIMEIRA DESIGUALDADE
Como se desenvolveu, então, a desigualdade entre os seres humanos? segundo o filósofo, a desigualdade surgiu por um encadeamento de circunstâncias funestas, iniciadas no momento em que alguém cercou um terreno e disse que era seu, dando origem à propriedade privada. Era a primeira desigualdade, a desigualdade de posses ou fortuna. Daí surgiram disputas e guerras. os ricos, buscando garantir suas posses, e os demais, acreditando estar mais seguros assim, chegaram a um acordo para formar a sociedade civil e estabelecer leis de convivência (o chamado contrato social). foi aí que despontaram todos os tipos de desigualdade social. eleitos inicialmente, os primeiros dirigentes impuseram-se como governantes hereditários, acumulando cada vez mais privilégios, poder e fortuna. e o resto da história já conhecemos.
Portanto, podemos dizer resumidamente que, com o surgimento da sociedade e de todas as suas instituições, desapareceu a bondade natural, própria dos selvagens, bem como sua liberdade. e que a tese de Rousseau é a de que o estado social não é natural no ser humano e o corrompe, mas se tornou indispensável a partir de certo momento.
O CONTRATO SOCIAL
Reconhecendo que não é possível uma volta atrás, o problema para Rousseau tornou-se, então, o seguinte: que tipo de convenção ou forma de organização política pode conservar a liberdade característica do estado de natureza?
No livro Do contrato social, Rousseau empenhou- -se em fornecer uma resposta a essa questão. Nele sua tarefa não era mais, como no Discurso, a de fornecer conjecturas sobre eventos históricos, e sim apresentar uma tese normativa, isto é, que argumentasse sobre como deveria ser o estado para que fosse legítimo. em outras palavras, procurou estabelecer instrumentos pelos quais o indivíduo “natural” se transformasse no cidadão do “convívio social”.
Rousseau defendeu, então, a ideia de que o soberano deve conduzir o estado segundo a vontade geral de seu povo, sempre tendo em vista o atendimento do bem comum. somente esse estado, de bases democráticas, teria condições de oferecer a todos os cidadãos um regime de igualdade jurídica. Por essa e outras ideias, Rousseau tornou-se célebre como defensor da pequena burguesia e inspirador dos ideais presentes na revolução francesa, ocorrida onze anos após a sua morte.
ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES ILUMINISTAS
Montesquieu e a separação dos três poderes
O jurista francês Charles-Louis de Secondat, mais conhecido como barão de Montesquieu (1689- -1755), escreveu O espírito das leis. Nessa obra, formula a teoria da separação dos poderes do estado em Legislativo, executivo e Judiciário, como forma de evitar abusos dos governantes e de proteger as liberdades individuais. Para ele, todo indivíduo investido de poder é tentado a abusar dele. e haveria grandes riscos de tirania “se uma mesma pessoa – ou uma mesma instituição do estado – exercesse os três poderes: o de fazer as leis, o de ordenar a sua execução e o de julgar os conflitos entre os cidadãos” (O espírito das leis, p. 168).
Voltaire e a defesa da tolerância
O poeta, dramaturgo e filósofo francês françois-Marie Arouet, conhecido pelo pseudônimo Voltaire (1694-1778), foi talvez o mais característico e famoso pensador do Iluminismo e uma referência para os demais. Com seu estilo literário irônico e vibrante, destacou-se pelas críticas que fez à prepotência dos poderosos, ao clero católico e à intolerância religiosa. Concordava, entretanto, com certa necessidade social da crença em Deus, chegando a dizer que se Deus não existisse seria preciso inventá-lo.
Em termos políticos, não foi propriamente um democrata, mas sim defensor de uma monarquia respeitadora das liberdades individuais, governada por um soberano esclarecido. sua defesa da liberdade de pensamento tornou-se célebre por meio da frase “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las”, a qual teria sido escrita por sua biógrafa Evelyn Beatrice hall com o intuito de ilustrar a força das convicções do filósofo.
Adam Smith e o livre mercado
O economista e filósofo escocês Adam Smith (1723-1790) foi um dos maiores expoentes da economia clássica e o principal teórico do liberalismo econômico. em sua obra Ensaio sobre a riqueza das nações, criticou a política mercantilista, baseada na intervenção e regulamentação excessiva do estado na vida econômica. Para ele, a economia deveria ser dirigida pelo jogo livre da oferta e da procura de mercado. o mercado se autorregularia, dando conta das necessidades sociais, desde que deixado em paz consigo mesmo, sem intervenções dos governantes. Adam Smith também defendeu a tese de que o trabalho em geral representa a verdadeira fonte de riqueza para as nações, devendo ser conduzido pela livre-iniciativa dos particulares.
Reunião de intelectuais na casa de Voltaire (sentado ao centro, de mão levantada). apaixonado pela literatura, o filósofo francês foi um assíduo frequentador dos lugares onde se encontravam os mais destacados pensadores e artistas da época.
ATIVIDADE - CONEXÕES
Voltaire refere-se a certa necessidade social da crença em Deus. também é bastante conhecida a frase do romancista russo fiódor Dostoiévski (1821-1881): “sem Deus tudo seria permitido”. reflita sobre essa concepção das religiões como fontes doadoras de normas e coesão social.
IMMANUEL KANT
Immanuel Kant (c. 1768) – Becker (Coleção particular)
Parece que o filósofo alemão foi em sua vida prática um homem tão metódico como em sua vida intelectual. Conta- -se que se deitava e se levantava rigorosamente no mesmo horário, além de seguir sempre o mesmo itinerário entre sua casa e a universidade. Immanuel Kant Becker (Coleção particular). no mesmo horário, além de seguir sempre o mesmo itinerário entre sua casa e a universidade.
Vejamos, por último, aquele que é considerado o maior filósofo do Iluminismo alemão e um dos principais pensadores de todos os tempos. trata-se de Immanuel Kant (1724-1804), nascido em Königsberg, pequena cidade da alemanha. homem metódico e de hábitos arraigados, lecionou durante 40 anos na Universidade de Königsberg. Morreu aos 80 anos, sem nunca ter se afastado das imediações de sua pequena cidade natal.
Para Kant, a filosofia deveria responder a quatro questões fundamentais: o que posso saber? Como devo agir? o que posso esperar? e, por fim, o que é o ser humano? esta última questão estaria implícita nas três anteriores.
Os estudos de Kant partiram da investigação sobre as condições nas quais se dá o conhecimento (o que posso saber), realizando um exame crítico da razão em sua obra mais célebre: Crítica da razão pura. Nela, confessa que Hume o havia despertado, pela primeira vez, de seu “sonho dogmático” (a ilusão de que a razão pode conhecer como são as coisas em si), levando-o a instituir o que ficou conhecido como “tribunal da razão”.
Seu exame do agir humano (isto é, sobre a ética, que corresponde a sua segunda pergunta) deu origem basicamente à Crítica da razão prática e à Fundamentação da metafísica dos costumes (como será estudado no capítulo 18). a terceira pergunta remetia ao futuro e à religião, e Kant, fiel ao espírito das Luzes, subordina a religião à razão e à lei moral, o que ele expôs em vários textos, como no Religião nos limites da simples razão. outro aspecto importante da obra de Kant são suas reflexões a respeito da estética, presentes na Crítica do juízo (como será estudado no capítulo 21).
MAIORIDADE HUMANA
Em seu texto O que é ilustração, Kant sintetiza seu otimismo em relação à possibilidade de o ser humano guiar-se por sua própria razão, sem se deixar enganar pelas crenças, tradições e opiniões alheias. Nele, descreve o processo de ilustração como a saída do ser humano de sua “menoridade”, ou seja, um momento em que o indivíduo, como uma criança que cresce e amadurece, torna-se consciente da força e da independência (autonomia) de sua inteligência para fundamentar sua própria maneira de agir, sem a tutela ou doutrinação de outrem.
TIPOS DE CONHECIMENTO
Uma das questões mais importantes do pensamento de Kant é, portanto, o problema do conhecimento, a questão do saber. Na Crítica da razão pura, ele distingue duas formas básicas do ato de conhecer:
• conhecimento empírico (a posteriori) – aquele que se refere aos dados fornecidos pelos sentidos, ou seja, que é posterior à experiência. Por exemplo, para fazer a afirmação (ou juízo) “este livro tem a capa verde”, foi necessário ter primeiro a experiência de ver o livro e assim conhecer a sua cor; portanto, trata-se de um conhecimento posterior à experiência;
• conhecimento puro (a priori) – aquele que não depende de quaisquer dados dos sentidos, ou seja, que é anterior à experiência, nascendo puramente de uma operação racional da mente. exemplo: a afirmação “Duas linhas paralelas jamais se encontram no espaço” não se refere a esta ou àquela linha paralela, mas a todas, pois sempre que duas linhas forem paralelas elas necessariamente não se encontrarão no espaço (se elas se encontrassem, não seriam paralelas). trata-se, portanto, de um conhecimento necessário e universal. além disso, é uma afirmação que, para ser válida, não depende de nenhuma condição específica ou experiência anterior. o conhecimento puro, por conseguinte, conduz a juízos universais e necessários, enquanto o conhecimento empírico não apresenta essa característica.
TIPOS DE JUÍZO
Os juízos, por sua vez, são classificados por Kant em dois tipos:
• juízo analítico – aquele em que o predicado já está contido no conceito do sujeito. ou seja, basta analisar o sujeito para deduzir o predicado. tomemos, por exemplo, a afirmação “o quadrado tem quatro lados”. analisando o sujeito dessa afirmação – quadrado –, deduzimos necessariamente o predicado: tem quatro lados. Kant também chamava os juízos analíticos de juízos de elucidação, pois o predicado simplesmente elucida algo que já estava contido no conceito do sujeito;
• juízo sintético – aquele em que o predicado não está contido no conceito do sujeito. Nesses juízos, acrescenta-se ao sujeito algo de novo, que é o predicado (produzindo-se uma síntese entre eles). assim, os juízos sintéticos enriquecem nossas informações e ampliam o conhecimento. Por isso, Kant também os denominava juízos de ampliação. Por exemplo, na afirmação “os corpos se movimentam”, por mais que analisemos o conceito corpo (sujeito), não extrairemos dele a informação representada pelo predicado se movimentam.
VALOR DOS JUÍZOS
Por fim, analisando o valor de cada juízo, Kant distingue três categorias:
• juízo analítico – como no exemplo da afirmação “o quadrado tem quatro lados”, é um juízo universal e necessário, mas serve apenas para elucidar ou explicitar aquilo que já se conhece do sujeito. ou seja, a rigor, é apenas importante para se chegar à clareza do conceito já existente, mas não conduz a conhecimentos novos;
• juízo sintético a posteriori – como no exemplo da afirmação “este livro tem a capa verde”, amplia o conhecimento sobre o sujeito, mas sua validade está sempre condicionada ao tempo e ao espaço em que se dá a experiência e, portanto, não constitui um juízo universal e necessário;
• juízo sintético a priori – como no exemplo da afirmação “Duas linhas paralelas jamais se encontram no espaço” (e em outras da matemática e da geometria), acrescenta informações novas ao sujeito, possibilitando uma ampliação do conhecimento. e como não está limitado pela experiência, é um juízo universal e necessário. Por isso, Kant conclui que se trata do juízo mais importante para a ciência, razão pela qual a matemática e a física, por trabalharem com juízos sintéticos a priori, se constituiriam em disciplinas científicas por excelência.
ESTRUTURAS DO SENTIR E CONHECER
Como estudamos antes, Kant buscou saber como é o sujeito a priori, isto é, o sujeito antes de qualquer experiência. Concluiu que existem no ser humano certas estruturas que possibilitam a experiência (as formas a priori da sensibilidade) e determinam o entendimento (as formas a priori do entendimento). trata-se do chamado apriorismo. Vejamos:
• formas a priori da sensibilidade – são o tempo e o espaço. Kant dirá que percebemos e representamos a realidade sempre no tempo e no espaço. essas noções constituem “intuições puras”, existem como estruturas básicas na nossa sensibilidade e são elas que permitem a experiência sensorial.
• formas a priori do entendimento – de modo semelhante, os dados captados por nossa sensibilidade são organizados pelo entendimento de acordo com certas categorias. as categorias são “conceitos puros” existentes a priori no entendimento, tais como causa, necessidade, relação e outros, que servirão de base para a emissão de juízos sobre a realidade.
LIMITES DO ENTENDIMENTO
O conhecimento, portanto, seria o resultado de uma interação entre o sujeito que conhece (de acordo com suas próprias estruturas a priori) e o objeto conhecido. Isso significa que não conhecemos as coisas em si mesmas (o ser em si), como elas são de forma independente de nós. só conhecemos as coisas tal como as percebemos (o ser para nós). em outras palavras, as coisas são conhecidas de acordo com nossas próprias estruturas mentais. Desse modo, a filosofia kantiana representou uma superação do impasse criado entre o racionalismo e o empirismo, pois edificou uma teoria segundo a qual o conhecimento seria o resultado desses dois âmbitos: a sensibilidade, que nos oferece dados dos objetos, e o entendimento, que determina as condições pelas quais o objeto é pensado.
NOVA REVOLUÇÃO COPERNICANA
Desse modo, a crítica kantiana representou uma revolução muito especial do pensamento. No prefácio de Crítica da razão pura, o próprio Kant reconhece isso ao comparar seu papel na filosofia ao de Copérnico na astronomia. Vejamos por quê:
• Copérnico – quando a teoria geocêntrica não mais conseguia explicar o conjunto de movimentos dos astros, o astrônomo vislumbrou a necessidade de tirar a terra do centro do Universo e fazer-nos, como espectadores, girar em torno dos astros. assim, lançando o modelo heliocêntrico, resolveu os impasses da astronomia da época;
• Kant – realizou algo semelhante ao inverter a questão tradicional do conhecimento, pois antes se propunha que todo o conhecimento era regulado pelos objetos e, com o filósofo alemão, os objetos passaram a ser regulados pelas formas a priori de nosso conhecimento.
CONEXÕES
Perspicácia (autorretrato, 1936) – René Magritte, óleo sobre tela.
De acordo com a teoria kantiana, as coisas existem para nós não como são, mas como as percebemos. Como essa teoria se expressa metaforicamente no quadro acima?
Interprete livremente, mas de maneira filosófica, a imagem acima, do pintor surrealista belga René Magritte.
ANÁLISE E ENTENDIMENTO
1. Caracterize a filosofia produzida durante o Iluminismo. exemplifique com aspectos do pensamento dos iluministas.
2. Comente a interpretação de Lucien Goldmann de que os pensadores iluministas podem ser considerados “ideólogos da burguesia”. Justifique.
3. Discorra sobre a crítica de Rousseau às teses contratualistas a respeito do surgimento da sociedade formuladas por pensadores como Hobbes e Locke e sobre as conclusões a que ele chegou.
4. o que é a perfectibilidade humana e que papel ela teve no surgimento da vida social?
5. segundo Kant: a) o juízo sintético a posteriori não expressa um conhecimento necessário e universal, e o juízo sintético a priori sim. b) o juízo analítico conduz a conhecimentos novos. essas afirmações estão corretas? Por quê? Crie exemplos de juízos que justifiquem suas respostas.
6. Não podemos conhecer o ser em si, apenas o ser para nós. Justifique essa afirmação.
7. em que sentido a revolução causada por Kant no âmbito da filosofia pode ser comparada à causada por Copérnico na astronomia?
CONVERSA FILOSÓFICA
Progresso como mito
Com o desenvolvimento da revolução Industrial e o sucesso da ciência, surgiu nas sociedades europeias o “mito do progresso”. reflita sobre esse tema individualmente e depois com colegas, considerando as seguintes questões:
a) o que é o progresso?
b) No mundo de hoje, você entende que o progresso é um mito? em que sentido? Por quê?
c) a humanidade tem progredido? em que termos?
Valores democráticos
Dos valores destacados no texto que marcaram o Iluminismo, quais, em sua opinião, são os mais necessários para uma sociedade democrática? Justifique, dê exemplos e apresente-os a seus colegas.
DE OLHO NA UNIVERSIDADE
(Unicamp-sP) “o homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros. o que se crê senhor dos demais não deixa de ser mais escravo do que eles. [...] a ordem social, porém, é um direito sagrado que serve de base a todos os outros. [...] haverá sempre uma grande diferença entre subjugar uma multidão e reger uma sociedade. sejam homens isolados, quantos possam ser submetidos sucessivamente a um só, e não verei nisso senão um senhor e escravos, de modo algum considerando-os um povo e seu chefe. trata-se, caso se queira, de uma agregação, mas não de uma associação; nela não existe bem público, nem corpo político.” (Jean-Jacques Rousseau, Do Contrato Social. [1762]. são Paulo: abril, 1973, p. 28, 36.) sobre Do Contrato Social, publicado em 1762, e seu autor, é correto afirmar que:
a) Rousseau, um dos grandes autores do Iluminismo, defende a necessidade de o estado francês substituir os impostos por contratos comerciais com os cidadãos.
b) a obra inspirou os ideais da revolução francesa, ao explicar o nascimento da sociedade pelo contrato social e pregar a soberania do povo.
c) Rousseau defendia a necessidade de o homem voltar a seu estado natural, para assim garantir a sobrevivência da sociedade.
d) o livro, inspirado pelos acontecimentos da Independência americana, chegou a ser proibido e queimado em solo francês.