PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
“TODO MUNDO COME NO MC DONALD'S E COMPARTILHA NO FACEBOOK?”
GLOBALIZAÇÃO E NEOLIBERALISMO
Em 1848, na Europa, as pessoas não sabiam o que era globalização. O mundo à sua volta, na visão da maioria, estava bem confuso, com revoluções e guerras acontecendo, algumas nações ainda se formando. Leia o texto de Marx e Engels escrito naquele ano:
A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção e, por conseguinte todas as relações sociais. (...) A necessidade de mercados sempre crescentes para seus produtos impele a burguesia a conquistar todo o globo terrestre. Ela precisa estabelecer-se, explorar e criar vínculos em todos os lugares.
Pela exploração do mercado mundial, a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. Para grande pesar dos reacionários, ela retirou a base nacional da indústria. As indústrias nacionais tradicionais foram, e ainda são, a cada dia destruídas. São substituídas por novas indústrias, cuja introdução se tornou essencial para todas as nações civilizadas. Essas indústrias não utilizam mais matérias-primas locais, mas matérias-primas provenientes das regiões mais distantes, e seus produtos não se destinam apenas ao mercado nacional, mas também a todos os cantos da Terra. Ao invés das necessidades antigas, satisfeitas por produtos do próprio país, temos novas demandas supridas por produtos dos países mais distantes, de climas os mais diversos. No lugar da tradicional autossuficiência e do isolamento das nações surge uma circulação universal, uma interdependência geral entre os
países. E isso tanto na produção material quanto na intelectual.
Os produtos intelectuais das nações passam a ser de domínio geral. [...] Os preços
baratos de suas mercadorias são a artilharia pesada com a qual ela derruba todas as muralhas da China [...]. Sob a ameaça da ruína, ela obriga todas as nações a adotarem o modo burguês de produção; força-as a introduzir a assim chamada civilização, quer dizer, a se tornar burguesas. Em suma, ela cria um mundo à sua imagem e semelhança.
A burguesia submeteu o campo à cidade. Criou cidades enormes, aumentou prodigiosamente a população urbana em comparação com a rural e, dessa forma, arrancou uma grande parte da população do embrutecimento da vida do campo. Assim como colocou o campo sob o domínio da cidade, [...], as nações agrárias sob o jugo das burguesas, o Oriente sob o Ocidente.
(MARX; ENGELS, 1998, p. 11-12 – os grifos não constam do original)
Reparou que destacamos em negrito algumas frases? Pois é, na época em que Marx e Engels escreveram esse texto (1848), o mundo não era como o nosso hoje, em que marcas famosas, por exemplo, invadem todo o globo, imprimem um caráter cosmopolita à sua produção e consumo, empregam matérias-primas de muitos lugares ou entram na China e contribuem para fortalecer e crescer grandes centros urbanos. Calma! Karl Marx não era um bruxo e nem fazia exercícios de futurologia. Mas, a partir de sua análise sobre a lógica de funcionamento do capitalismo, ele acreditava em algumas tendências de desenvolvimento desse sistema econômico que, como veremos neste capítulo, desembocou naquilo que chamamos hoje de globalização, sob o ponto de vista econômico, social, cultural e político. Neste último aspecto, temos também o chamado neoliberalismo.
Na globalização atual, os satélites artificiais revolucionaram a comunicação em todo o planeta.
O QUE É O MUNDO GLOBALIZADO E NEOLIBERAL?
A palavra globalização tem sido frequentemente utilizada para definir a imensa interligação comercial e cultural que vem ocorrendo de forma acelerada entre os diversos países do planeta, determinada principalmente pela “terceira revolução tecnológica”: processamento, difusão e transmissão de informações e, inclusive, de bilhões de dólares em poucos segundos. Portanto, podemos entender que a globalização teria se iniciado no começo dos anos 1980, quando a tecnologia de informática associou-se à de telecomunicações.
Mas, antes de continuarmos a desenvolver este tema, vamos refletir sobre alguns dados estatísticos, publicados por um jornal diário brasileiro, exatamente na época em que a mídia ressaltava, o tempo todo, os benefícios da globalização. Por causa disso, as informações a seguir deixam de ser até surpreendentes.
• Em 1960, os estratos mais ricos da população mundial ganhavam 30 vezes mais que os estratos mais pobres. Em 1994, os primeiros 20% mais ricos acumulavam uma renda 78 vezes superior aos 20% mais pobres, abocanhando 86% de tudo o que foi produzido no mundo.
• O patrimônio conjunto dos 447 bilionários existentes no mundo em 1994 equivalia à renda somada da metade mais pobre da população mundial (cerca de 2,8 bilhões de pessoas).
• Desde o fim da II Guerra Mundial, em 1945, o comércio mundial cresceu 12 vezes, chegando a US$ 4 trilhões por ano na década de 1990. Mas com 10% da população do planeta, os países mais pobres detêm apenas 0,3% do comércio mundial. Esse percentual equivale à metade do que detinham há 20 anos.
• Nesse mesmo período, o preço dos produtos agrícolas (a principal exportação dos países mais pobres) caiu 45%. Mas os países ricos gastaram US$ 182 bilhões em subsídios à agricultura (a metade de tudo o que colheram). Se esses subsídios fossem diminuídos em 30%, os países ditos “em desenvolvimento” ganhariam US$ 45 bilhões por ano.
• Um terço dos habitantes desses países em desenvolvimento (1,3 bilhão de pessoas) vive com menos de US$ 1 por dia.
• Mais de 90% dos investimentos estrangeiros são efetuados nos EUA, Europa, Japão e oito províncias da China – que, juntos, reúnem um total de 30% da população mundial.
• Das 100 maiores economias do mundo, 50 são megaempresas. A General Motors, por exemplo, possui faturamento superior ao PIB (Produto Interno Bruto) de países como Turquia, Dinamarca e África do Sul.
(cf. Folha de São Paulo: Caderno Especial
Globalização, 02 de novembro de 1997)
Você prestou bastante atenção nas informações que acabou de ler? Conseguiu identificar o porquê dos meios de comunicação sempre apresentarem a globalização como positiva para toda a população? “Pois é, mas hoje é diferente”, você poderia dizer! Afinal, estes dados se referem a um mundo que ficou no século passado, certo?
Então, vamos atualizar essas informações! Esses dados estão sendo apresentados aqui somente para que você tenha uma ideia de que, no mesmo momento em que a Grande Mídia – ou seja, as megaempresas de comunicação que controlam as informações que circulam na maior parte do mundo – comemorava de forma exaltada a chamada “era da globalização”, uma simples análise de alguns números demonstrariam que não havia qualquer motivo para isso...
Segundo estudo divulgado pela Organização das Nações Unidas – ONU, em 2006, mais da metade da riqueza mundial estava nas mãos de apenas 2% dos adultos do planeta, enquanto os 50% mais pobres têm só 1%, com 90% da riqueza concentrada pela população dos países mais ricos (O Globo, 06/12/06, p. 31).
Nesta segunda década do século XXI, no entanto, praticamente não se fala mais em globalização. Apesar da constatação de que, de fato, vivemos em um “mundo globalizado”, principalmente em função da rede mundial de comunicações comandada pela Internet, esse termo não aparece com frequência nos noticiários. Pelo contrário, desde 2008 a economia mundial entrou em mais uma crise, de grandes proporções – e, desde então, somente se fala sobre isso, ou seja, sobre a crise e seus efeitos, como, por exemplo, a queda na produção industrial e o aumento do desemprego, principalmente nos países mais pobres.
De acordo com dados apurados pela instituição financeira Credit Suisse, em seu Informe sobre a Riqueza Global, “2015 será lembrado como o primeiro ano da série histórica no qual a riqueza de 1% da população mundial alcançou a metade do valor total de ativos” (FARIZE, 2015). Isto significa dizer que, no ano citado, 1% da população mundial (ou seja, os habitantes que têm bens patrimoniais avaliados em cerca de 760.000 dólares), possuem tanto dinheiro quanto os demais 99% restantes do planeta. Essa diferença enorme só faz aumentar desde 2008, a ponto do Credit Suisse concluir que, se a crise for interrompida, os ricos sairão dela ainda mais ricos, “tanto em termos absolutos como relativos, e os pobres, relativamente mais pobres” (Idem, ibidem). Para ilustrar, confira a seguir um gráfico bastante esclarecedor, baseado no estudo citado acima, publicado no jornal espanhol El País
Atualizando alguns dados do final do século XX, ficamos sabendo, portanto, que:
· Um de cada 100 habitantes do mundo tem tanto quanto os 99 restantes;
· 0,7% da população mundial monopoliza 45,2% da riqueza total e os 10% mais ricos têm 88% do total de bens;
· O número dos muito ricos (patrimônio igual ou superior aos 50 milhões de dólares) diminuiu cerca de 800 pessoas desde 2014, mas o dos considerados “ultrarricos” (patrimônio de 500 milhões de dólares) cresceu para quase 124.000 pessoas.
· Levando-se em conta a distribuição dos muito ricos pelos países do mundo, quase
a metade (59.000 pessoas) vive nos EUA, 10.000 vivem na China e 5.400 no Reino Unido (FARIZE, 2015).
A dimensão dessa desigualdade foi constatada também pelos estudos desenvolvidos pelo ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2001, Joseph E. Stiglitz. Em sua obra O preço da desigualdade (2013), ele afirma que “um ônibus que por ventura transporta 85 dos maiores multimilionários mundiais contém tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população mundial” (cf. FARIZE, 2015).
Mas, vamos procurar entender melhor do que estamos falando. Neste capítulo, pretendemos debater exatamente de que forma todos esses dados estatísticos – que representam tanto o período de auge da globalização, nos anos de 1990, quanto à última crise da economia neste século XXI – nos ajudam a entender esse fenômeno da desigualdade sob o ponto de vista sociológico.
Bem, além da ideia de uma interligação acelerada dos mercados nacionais, proporcionada pela Terceira Revolução Tecnológica, a chamada globalização também pode ser identificada com a queda das barreiras comerciais entre os países, provocada pela OMC – Organização Mundial do Comércio.
Esta última ideia aproxima-se daquela que é defendida pelo professor Paul Singer, da USP – Universidade de São Paulo. Para ele, a globalização:
(...) resulta da superação de barreiras à circulação internacional de mercadorias e de capitais. Trata-se de uma expansão dos mercados, antes contidos em fronteiras nacionais ou dentro de blocos regionais de comércio. Essa abertura dos mercados pode resultar de avanços técnicos no transporte e na comunicação e/ ou de mudanças institucionais que consistem, em geral, na remoção de barreiras políticas ao intercâmbio.
(SINGER, 1997, p. 2)
Refletindo sobre esta definição apresentada pelo professor Singer, podemos dizer que a globalização somente pôde ocorrer com o fim de obstáculos legais e territoriais à expansão do comércio, associado à descoberta de novas tecnologias. Se pensarmos dessa forma, podemos inserir na “pré-história” da globalização os grandes descobrimentos que inauguraram a Era Moderna, na Europa, possibilitados pela adoção da bússola e do astrolábio, aliada aos
seus progressos na navegação à vela. É claro
que essas mudanças somente puderam ocorrer a partir da unificação de reinos europeus, iniciada com Portugal (século XIV) e Espanha (século XV), que resultou na eliminação das barreiras que dificultavam o comércio entre os feudos.
Em 1780, a Primeira Revolução Industrial, na Inglaterra, trouxe como produtos: a ferrovia, a navegação a vapor e o telégrafo (revoluções no transporte e nas comunicações).
Já a Segunda Revolução Industrial –ocorrida na segunda metade do século XIX e
caracterizada pela expansão da industrialização para outros países capitalistas como EUA, Alemanha e Japão – foi marcada por uma violenta expansão colonialista em busca de novos mercados e de fontes de matérias-primas, resultando, por exemplo, na partilha do território africano. Essa expansão capitalista ficou conhecida com o nome de Imperialismo e foi a principal causa para a eclosão da Primeira Guerra Mundial.
De fato, em todas essas fases da História, nós tivemos interesses que foram favorecidos e outros que foram contrariados, resultando em diferentes lutas políticas. Mas o que de fato acabou ocorrendo durante todo esse período – desde as navegações iniciadas no século XV – foi a expansão do capitalismo, em suas diferentes formas, para além da sua fronteira europeia original. A continuidade dessa expansão até os dias atuais, na forma de um capitalismo financeiro, é que passou a receber o nome de globalização – fenômeno que também é chamado por alguns estudiosos, como François Chesnais (1998), de mundialização financeira.
Além desse caráter financeiro, a atual
expansão capitalista é global porque atingiu uma série de países que anteriormente se definiam como pertencentes ao modo de produção socialista. Portanto, à queda do Muro de Berlim, em 1989, e à dissolução da URSS, em 1991, aliou-se a rapidez das comunicações provocada pelos avanços da informática para dar a “cara” dessa globalização que vemos acontecer nos dias de hoje.
Percebendo a globalização como mais uma etapa do modo de produção capitalista é que podemos entender os dados listados no quadro anteriormente apresentado. Michel Chossudovsky (1999) inventou inclusive uma
nova expressão: a globalização da pobreza. Ele é bastante claro ao definir a globalização
como sendo o resultado da ação das principais instituições financeiras internacionais – como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BIRD) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) – sobre, principalmente, os países do Terceiro Mundo e do Leste Europeu, forçando-os, em função do peso adquirido pelas suas dívidas externas, a aderir a um programa de “reformas” (ou “ajustes”) que se alimenta da destruição do meio ambiente, que gera apartheid social, estimula o racismo e os conflitos étnicos e ataca os direitos conquistados pelas mulheres nas últimas décadas.
NEOLIBERALISMO: LIBERDADE ILIMITADA PARA OS MERCADOS E OS LUCROS?
Chamamos de neoliberalismo a ideologia que serve de suporte à expansão da atual globalização capitalista. Esse “novo liberalismo” é caracterizado por alguns elementos inspirados no liberalismo clássico dos séculos XVIII e XIX, tais como:
• Maior liberdade de comércio entre as nações (fim de barreiras alfandegárias).
• Redução do aparato do Estado e da sua intervenção na atividade econômica (política orientada para as privatizações de empresas estatais).
• Redução da autonomia e da soberania política e econômica dos países periféricos em favor dos países capitalistas centrais, das suas instituições políticas (como a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte) e econômicas (FMI, BIRD, OMC), das grandes corporações multinacionais/ transnacionais e do capital financeiro internacional.
As duas primeiras características do neoliberalismo são decisões políticas tomadas por governos capitalistas extremamente conservadores, visando a resolver a crise econômica que atingiu o mundo nos anos 1970, agravada pela alta dos preços do petróleo, provocada pelos constantes conflitos no Oriente Médio, entre Israel e os países árabes. Essas políticas de redução de custos se opunham ao chamado Estado de Bem-estar Social (Welfare State), como eram caracterizados os países europeus que apresentavam excelentes padrões de vida, com a população assistida pelo Estado nas suas necessidades básicas de saúde, educação e emprego.
As políticas neoliberais começaram a ser implementadas primeiramente na Inglaterra e nos Estados Unidos, nos governos ultraconservadores de Margareth Thatcher (a partir de 1979) e de Ronald Reagan (a partir de 1980), espraiando-se rapidamente para os principais países capitalistas europeus e, nas décadas seguintes, para os países da periferia (Terceiro Mundo) e do Leste Europeu.
Mil novecentos e oitenta e nove foi um ano que serviu de marco para a consolidação das reformas econômicas com a marca neoliberal. Em um encontro, em Washington (EUA), que reuniu ministros da Fazenda de diversos países e economistas e cientistas políticos vinculados ao FMI, ao Banco Mundial e a algumas universidades, foram traçadas as metas a serem alcançadas por todos os governos dos países capitalistas nos anos seguintes. Essas metas, sistematizadas pelo futuro economista-chefe do Banco Mundial, John Williamson, e rotuladas depois como o Consenso de Washington, seriam basicamente as mesmas políticas que já vinham sendo implementadas em diversos países capitalistas centrais e periféricos:
1. Limitação das despesas do Estado, estimulando o fim de todos os subsídios à agricultura ou à indústria. Isto significa que o Estado deve gastar menos, deixando de financiar, com empréstimos, a produção agrícola e industrial. Mas “gastar menos” também subentende – não está escrito, mas ocorreu na prática – diminuir os investimentos em saúde, educação e outras políticas sociais.
2. Liberalização do mercado financeiro. Ou seja, liberdade para investidores de ações apostarem onde quiserem, em qualquer país.
3. Liberalização do comércio, eliminando aos poucos as taxas alfandegárias. Na prática, a importação e a exportação de produtos e mercadorias ficariam cada vez mais isentas de impostos e burocracia.
4. Favorecimento do investimento estrangeiro. Com isto, toda e qualquer empresa estrangeira estaria livre para investir em qualquer país, sem restrições burocráticas.
5. Privatização das empresas estatais. Com esta medida, empresas petrolíferas, de fornecimento de energia elétrica, de abastecimento de água, correios, universidades públicas deveriam ser vendidas (como muitas foram no Brasil e no Chile) para empresas privadas. Assim, na visão dos neoliberais, o Estado não teria mais despesas com elas em termos de investimentos e salários e benefícios de funcionários públicos. Por outro lado, as riquezas geradas por essas empresas não poderiam mais beneficiar a população, pois seriam apropriadas pelos empresários.
6. Introdução da concorrência nos diversos setores da economia. Ou seja, em todos os setores da economia, sem distinção, teríamos empresas competindo no mercado – esta regra valeria, inclusive, para hospitais e escolas.
7. Garantia legal do direito de propriedade, com respeito às “patentes”. Por exemplo: se uma empresa biotecnológica de ponta, americana ou japonesa, do setor, pesquisando ervas medicinais na Amazônia, encontrar um determinado produto e registrá-lo (patenteá-lo) como “descoberta” sua (mesmo que seja uma erva medicinal cultivada e utilizada há séculos pelos povos indígenas locais), passa a ter exclusividade de produção e direito a receber pagamento pela sua utilização por terceiros.
8. Reforma do sistema tributário. Proposta que significa na prática que os governantes e os
deputados e senadores devem criar leis para diminuir os impostos, principalmente dos empresários.
9. Reforma trabalhista. Significa propor que, para diminuir os custos da produção e as despesas dos empresários, o Estado deve se preocupar em acabar como os direitos trabalhistas, tais como, por exemplo, 13º salário, auxílio-férias, o FGTS etc.
O caminho para o qual apontam todas essas reformas é a “desregulação” da economia, ou seja, a ideia de se diminuir ou de até eliminar todos os obstáculos que ainda oferecessem qualquer resistência à chamada livre-concorrência. Na prática, significa dizer que o Estado não deveria mais interferir na economia (no livre mercado), investindo no crescimento econômico do país. Tratava-se, na verdade, da construção de um mundo “paradisíaco” para aqueles que vivem das rendas do capital, como se pode perceber facilmente nas observações que anotamos anteriormente.
O termo consenso – utilizado para identificar esse conjunto de políticas propostas por aqueles que se reuniram em Washington – significa dizer que, teoricamente, todos concordavam com essas políticas, vistas como “boas”, “racionais”, “lógicas”. Seriam a “única alternativa possível” para governos honestos e bem administrados. Deriva daí o surgimento da expressão ditadura do pensamento único, formulada por alguns críticos a essas políticas – o chamado dissenso. Aos países que estivessem “atrasados” em relação a esses itens (como era o caso do Brasil em 1989), restaria apenas a tarefa urgente de se “fazer o dever de casa”.
A dominação ideológica do neoliberalismo foi tão forte que, mesmo a chegada ao poder, principalmente no final da década de 1990, de partidos mais progressistas, antes defensores das políticas de distribuição de renda – características do Estado de Bem-estar Social – não significou a retomada do crescimento econômico, a ampliação dos direitos dos trabalhadores e a geração de novos empregos.
Vejamos o caso da Inglaterra: apesar da derrota eleitoral dos políticos conservadores vinculados ao partido da “dama de ferro” Thatcher, na década de 1990, o novo primeiro-ministro, Tony Blair, representante do Partido Trabalhista Britânico (o Labour Party, considerado até então como um partido “de esquerda”, legítimo defensor da social-democracia do Welfare State), não só deu continuidade como aprofundou as políticas neoliberais implementadas pelo Partido Conservador. Seu alinhamento com os grandes interesses do capitalismo internacional ficou ainda mais claro com o seu apoio incondicional à invasão militar do Iraque e à deposição de Saddam Hussein, em 2003, com base num pretexto forjado: a necessidade de destruição das armas químicas que o ditador escondia. Revelada a mentira em alguns meses, restou como a única justificativa – esta, sim, comprovada – a ocupação dos riquíssimos campos petrolíferos do país.
COMO VÃO A GLOBALIZAÇÃO E O NEOLIBERALISMO NESTE SÉCULO XXI?
A nova realidade social estabelecida pelas mudanças econômicas e pelas políticas inspiradas no pensamento neoliberal fez surgir o que alguns autores chamam de uma nova pobreza urbana e uma nova exclusão social (cf. WANDERLEY, 1999; REIS, 2002; POCHMANN e AMORIM, 2004). Entretanto, deve-se ressaltar que a ideia de exclusão social trata-se de uma característica que sempre acompanhou o capital, desde os seus
tempos mais remotos. Nesse seu novo formato, a exclusão social se configura, enquanto uma característica que não pode ser separada do processo de acumulação capitalista, com a produção em massa de “seres descartáveis” da vida em sociedade. Indivíduos que, segundo Virgínia Fontes, são:
(...) inteiramente desnecessários ao universo da produção econômica. Para eles, aparentemente, não há mais possibilidade de integração ou reintegração no mundo do trabalho e da alta tecnologia. Neste sentido, os novos excluídos parecem seres descartáveis.
(FONTES, 1999, p. 117)
Dados sobre a globalização logo no início do século XXI, divulgados pelo Banco Mundial, confirmaram a afirmação da professora Fontes, demonstrando que, em 2001, de 6 bilhões de habitantes, quase a metade (2,8 bilhões) vivia com menos de dois dólares/dia, enquanto a quinta parte (1,2 bilhão) vivia com menos de um dólar/dia (cf. BANCO MUNDIAL, 2001). Como vimos na análise divulgada pelo banco de investimentos Credit Suisse (2015), no início do capítulo, todos os dados quantitativos sobre a economia global comprovam, sem equívocos, que o atual processo de produção do capital está aumentando a desigualdade e a concentração de renda.
Os ataques ao World Trade Center, em Manhattan, Nova York, em 11 de setembro de 2001, podem ser entendidos como parte da barbárie que se espalha pelo planeta neste século XXI.
Hoje, pode-se tranquilamente usar o termo barbárie como uma referência ao capitalismo do século XXI. Segundo Marildo Menegat, vivemos numa época em que se destaca a natureza cruel das relações sociais, assim como a forte impressão da devastação que vai lentamente transformando as formas das relações humanas e os indivíduos (MENEGAT, 2003, p.19). Eric Hobsbawm assinala, na qualidade de um dos maiores historiadores contemporâneos, que o capitalismo vem perdendo o seu caráter civilizador que havia assumido após as duas Grandes Guerras Mundiais, que trouxeram consequências devastadoras no século XX (HOBSBAWM, 2007, p. 141). Ressalta ainda que a barbárie, na verdade, não diminuiu em intensidade, pois, após o período assinalado, contabilizaram-se, ainda nesse mesmo século, as atrocidades cometidas por regimes militares na América Latina e no Mediterrâneo, com a disseminação da prática (oficial) da tortura física; as guerras religiosas inspiradas por ideias fundamentalistas; confrontos indiretos entre as superpotências mundiais, como foram os casos da Coreia, do Vietnã e do Afeganistão; atos terroristas de origens distintas etc. (cf. HOBSBAWM, 2007, p. 121-137).
Assim, trazendo as exemplificações para este novo milênio, pode-se enumerar a observação do atual estado de barbárie em diversos fatos recentes, como nos conflitos entre o Ocidente “civilizado” e o “fundamentalismo islâmico”, tanto nos atentados terroristas em cidades ocidentais como Nova York, Londres, Madrid e Paris, como também em regiões da Nigéria e do Mali, e na capital de Burkina Faso, na África, em janeiro de 2016, quanto nos genocídios praticados pelas ações militares dos EUA e de Israel no Afeganistão, no Iraque, na Palestina e no Líbano; nas guerras apresentadas pela mídia como motivadas por processos de “limpeza étnica”, ocorridas na África e nos Bálcãs, em 2008, assim como na Síria, em 2015; no aumento exponencial do número de famílias vivendo “abaixo da linha de pobreza” em todo o planeta, desde os latinos e negros, vítimas do furacão Katrina, em Nova Orleans – como exemplo dos 37 milhões de miseráveis existentes hoje nos EUA (O Globo, 30/08/06, p. 31) –, aos moradores dos subúrbios franceses e descendentes de imigrantes, na Europa, até grandes contingentes populacionais de países do antigo Terceiro Mundo, na África, na Ásia e na América Latina. A grande leva de imigrantes que se dirigiram para a Europa a partir de 2015, provenientes da África e do Oriente Médio, causada pela fome e pelas guerras, como é o caso da ação do Estado Islâmico na Síria, é um exemplo de acirramento desse quadro de precarização global da vida e de disseminação do estado geral de barbárie.
No caso do Brasil e dos países do antigo Terceiro Mundo, a barbárie pode ser identificada com a aparente ausência de soluções visíveis para problemas, tais como o aumento explosivo do desemprego crônico, da informalidade, da favelização e da violência urbana – todos eles, de alguma forma, intimamente relacionados.
Em relação às políticas neoliberais, citadas anteriormente, ocorreu uma grave crise econômica que se espalhou a partir dos Estados Unidos, a maior potência capitalista do planeta. Essa crise foi identificada pela grande imprensa em julho de 2007 e teve o seu pico em setembro de 2008: uma série de “especulações” provocou a “quebra” do mercado de imóveis, arrastando diversas empresas financeiras, principalmente bancos, seguradoras e imobiliárias. Qual foi a atitude do governo do presidente americano Barack Obama, recém-eleito naquele momento? Simplesmente, interferiu no mercado financeiro através de um plano de socorro aos bancos e outras firmas, com valores que chegaram ao montante de 8 trilhões de dólares (CHESNAIS, 2009, p. 4, nota 12).
Assim como nos EUA, a crise foi amenizada pelo mundo globalizado através de uma série de intervenções dos Estados nas suas economias, evitando a quebradeira geral
que se anunciava – fato ocorrido inclusive no Brasil. Com essas medidas políticas, estava decretado, pelos seus próprios defensores, o fim do neoliberalismo. Dessa forma, o neoliberalismo revelou-se o que sempre tentou esconder: como mais um mito, uma ideia utilizada pelos grandes empresários capitalistas e disseminada pela sua grande mídia para encobrir seus verdadeiros interesses, como a necessidade de aumentar mais e mais os seus já altíssimos lucros.
Mas, infelizmente, quem paga pela crise não são os capitalistas, salvos pela generosa “mão visível” dos governos, mas sempre os trabalhadores. Como alertou o economista francês François Chesnais: dezenas de milhões de trabalhadores serão lançados ao desemprego e centenas de milhões de pessoas consideradas “pobres” verão que a sua pobreza se acentua (CHESNAIS, 2009, p. 14). A previsão do professor Chesnais foi confirmada pela Organização das Nações Unidas – ONU – em fevereiro de 2010. Segundo estudo da instituição, divulgado em um fórum que tinha como objetivo debater os problemas sociais da América Latina, a crise econômica de 2007-2008, nesta parte do continente, produziu mais 9 milhões de pobres e 2,5 milhões de desempregados (cf. CEPAL, 2010, p. 74).
Então, se voltarmos aos dados que descrevemos no início do capítulo, podemos perceber que o fenômeno da globalização não é tão óbvio quanto nos tenta mostrar a grande mídia.
Agora, para terminar nossas reflexões, vamos pensar no que nós comemos em nosso dia a dia. Junto com o seu professor, pesquise sobre os alimentos que você come e quais são as empresas que os produzem. Depois veja se o que vamos dizer agora se confirma. Ou seja, se você entrar num supermercado, corre o risco de comprar pelo menos um produto das dez maiores empresas (aliás, empresas gigantescas) que dominam o mercado mundial.
A sua comida está globalizada! Ah! Mas, você pode tentar escapar comprando uma goiabada feita artesanalmente. Sim, mas se você imaginar que essa goiabada poderá ficar ainda mais deliciosa se acompanhada com biscoitos, certamente estará comprando um produto de uma dessas empresas.