PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
Conversando com a Educação Física
“Profe, é queima e volte?”
Joanna de Ângelis Lima Roberto
Segundo Kishimoto (2010)1, “tentar definir jogo não é tarefa fácil. Quando se pronuncia a palavra jogo cada um pode entendê-la de modo diferente. Pode-se estar falando de jogos políticos, de adultos, de crianças, animais ou amarelinhas, xadrez, adivinhas, contar estórias, brincar de ‘mamãe e filhinha’, futebol (...) e uma infi nidade de outros..” Sendo que cada um com uma especificidade diferente. O jogo possui um caráter polissêmico, ou seja, tem vários conceitos. E esses nos fazem viajar em diversas possibilidades de sentidos, acreditando no “jogo da vida”.
A pergunta que dá título a esse texto, é uma pergunta frequente a professoras e professores, quando jogamos o queimado, jogo tão comum nas escolas, parques e ruas. Sim, as crianças gostam de jogar. Mas, antes precisam saber o que está valendo ou não para aí sim entrar no jogo. Sabem que existem regras, convivem com elas o tempo todo e em todos os lugares, em casa, na escola, na instituição religiosa que seus pais frequentam, e aprendem que elas não podem mudar no meio do jogo.
Como vimos nesse capítulo, existem instituições e são essas instituições que fazem as regras, de acordo com seus interesses.
Então, o que faz o JOGO ser diferente do ESPORTE? E eles são diferentes? Não é tudo a mesma coisa?
Não. O ESPORTE é um jogo, mas nem sempre o JOGO é um esporte.
A principal diferença entre os dois é que o Esporte é um Jogo que foi institucionalizado, através das ligas, federações e confederações, que o organiza, fazendo com que suas regras sejam universais, permitindo as competições entre pessoas de lugares, línguas e culturas tão diferentes, uma comunicação através das regras. Durante muito tempo e principalmente no final da década de 60, os grupos políticos dominantes viram na Educação Física e principalmente no Esporte um grande instrumento a ser utilizado na Instituição escolar, com função de selecionar os estudantes com mais aptidões para que se pudesse formar um Exército Forte e saudável desmobilizando possíveis forças oposicionistas ao sistema, surgindo uma identificação entre Esporte e o Nacionalismo, “uma Paixão Nacional!”
É importante ressaltar que ambos possuem regras, mas as regras do esporte são OFICIAIS, e as regras do jogo não podem ser modificadas conforme os interesses e necessidades do grupo que o joga. É isso, seja qual for o Jogo, seguimos conforme os interesses e necessidades de nós mesmos, daquilo que vai nos favorecer, e muitas das vezes, essas regras mudam durante a partida do jogo.
Como nos fala Bregolato (2008)2 no jogo da vida nem todos têm as mesmas oportunidades. “O time da sociedade na maioria das vezes é desunido, é ‘cada um joga por si’ e não pela coletividade. As oportunidades não são para todos ‘só se passa a bola’ para os melhores, os mais bonitos, os mais ricos, os mais hábeis.” E será que estamos aprendendo isso onde? Na Escola de uma forma em geral ou apenas nas aulas de Educação Física? Em casa? Quando nossos pais dizem que não podemos perder, por que a vida é competição e que o mundo é dos mais fortes? De que lado queremos estar? De que queremos fazer parte? Queremos mudar o atual sistema ou queremos fazer parte dele? Então, já sabe responder quem faz a REGRA DO JOGO?
Joanna de Ângelis Lima Roberto é professora de Educação Física das redes estadual do Rio de Janeiro e municipal de Macaé/RJ. É mestre em Educação pelo PPGEDUC/UFRRJ.
(1) KISHIMOTO. Tizuco Morchida (Org.) Jogo, Brinquedo, brincadeira
e a Educação. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2010.
(2) BREGOLATO. Roseli Aparecida. Cultura Corporal do Jogo. São
Paulo: Ícone,2008. V.4. Coleção Educação Física Escolar: no princípio
de totalidade e na concepção histórico-crítica-social.