PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
TÍTULOS
1. “Chegou o caveirão!” E agora? Violência e desigualdades sociais
2. A Sociologia da Violência
3. Me pedem para comprar, mas não posso... Me pedem para trabalhar, mas não consigo
4. E ainda sou culpado por tudo
5. Drogas: brancos que produzem, brancos que consomem... negros que consomem e morrem
O caveirão é um veículo usado pela Polícia Militar, do
Rio de Janeiro, no combate à criminalidade urbana. Na foto, operação na favela Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro, em 2007.
Quando o carro blindado entra numa favela carioca todo mundo corre, pois as frases entoadas pelos policiais através dos alto-falantes acoplados ao veículo são bem explícitas:
“Sai da frente, vim buscar sua alma!” “Trabalhador nós batemos na cara, bandido a gente mata com fuzil!”
“Tá indo pra escola para quê, semente do mal?”
Ele é o “Caveirão”, carro blindado construído para fins militares, semelhante a um tanque de guerra, e que é utilizado nas incursões nas favelas por parte do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), da Polícia Militar do Rio de Janeiro. A Polícia Civil do estado tem também o seu blindado de mesmo tipo, mas que recebe a alcunha oficial de “Pacificador”. A população chama ambos os veículos de “Caveirão”. No caso do blindado do BOPE, esse nome é utilizado pelos próprios policiais.
As informações apresentadas ao lado fazem parte da rotina de milhares de moradores das favelas do Rio de Janeiro e se tornaram conhecidas de toda a população por intermédio de diversas notícias veiculadas pela imprensa. Durante o XIII Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado entre 29 de maio e 01 de junho de 2007, em Recife, Pernambuco, dois pesquisadores, Viviane Rocha e Luiz Kleber Rodrigues, apresentaram o resultado parcial do trabalho que estavam desenvolvendo, confirmando as informações que eram divulgadas pela mídia. No artigo “O Caveirão como representação da polícia em favelas cariocas”, os dois pesquisadores não só confirmaram as frases ditas na abertura do texto, como acrescentaram outras, ditas por “policiais distorcendo a voz”, que “proferem maldições e ameaças”. Por vezes, os policiais utilizam “um tom mais polido”, pedindo àqueles que se encontram nas ruas que voltem para suas casas, pois “vai haver tiroteio”. Os moradores entrevistados nessa pesquisa relataram a correria e o nervosismo que sempre se instaura na favela com a chegada do blindado, que ocorria quase sempre no horário de entrada e saída das escolas. Descrevem os pesquisadores:
(...) Os empregados do tráfico devidamente armados, via de regra, são os primeiros a saberem da entrada do Caveirão, e o aviso é repassado aos demais traficantes por meio de fogos de artifício ou do disparo de tiros. (...) A sequência de acontecimentos rápidos instaura o pânico naquela área residencial onde a grande maioria de seus moradores não está envolvida no narcotráfico. Adultos e crianças correm para se esconder do tiroteio que se segue entre os policiais em seu veículo blindado e os traficantes da favela. De acordo com um informante, a instrução dada pelos próprios policiais para que os moradores se retirem das ruas rapidamente é interpretada pelo avesso por eles mesmos, como ressalta um entrevistado: “quando vem o Caveirão todo mundo corre. E aí, todo mundo corre, todo mundo é bandido.
(ROCHA; RODRIGUES, 2007, p. 7)
Não há como qualquer pessoa não ficar impactada e sensibilizada com um cenário de tanta violência, que parece reproduzir a rotina de um país em estado de guerra civil, você não acha? Quando a polícia, civil ou militar, entra na favela da forma como estamos reproduzindo aqui, passa-se a ideia de que todos os moradores podem estar envolvidos com o tráfico de drogas, ou seja, de que as comunidades pobres e negras – a grande maioria daqueles que residem nas favelas – devam ser criminalizadas, pois é ali que se encontram todos os males da violência, que envolvem também o comércio varejista de drogas. Mas se procurarmos mais informações, veremos que muita coisa está por trás disso tudo. Em reportagem, da revista Caros Amigos sobre o crime organizado, publicada em janeiro de 2003, três promotores de justiça afirmaram que não há organização criminosa que sobreviva sem a participação do Estado.
Nessa reportagem eles fazem revelações surpreendentes, como o fato de o PCC (Primeiro Comando da Capital – organização que atua principalmente no estado de São Paulo), ser constituído por líderes que, há pouco tempo, não eram considerados criminosos perigosos. Mas que, por intermédio de um sistema carcerário administrado pelo Estado, com suas torturas e maus-tratos, teriam sido levados ao mundo do crime organizado.
Entretanto, muitas vezes, no senso comum, não percebemos que a violência e a criminalidade urbanas têm as mais diversas origens possíveis. Quem nunca ouviu estas frases?
“Bandido bom é bandido morto.”
“O pobre é um fracassado que não luta pelos seus direitos.”
“Os meninos do tráfico estão nessa vida porque querem.”
Para você perceber melhor o enorme significado de frases assim, vale a pena pensar em algumas situações que ocorrem em nosso país. A primeira reflexão diz respeito ao motivo por que vem crescendo a quantidade de “linchamentos” no Brasil nesta segunda década do século XXI. De vez em quando surgem notícias de que um determinado grupo ou uma multidão decidiu “fazer justiça com as próprias mãos”, executando (assassinando) uma pessoa acusada de ter praticado um assalto ou algum outro tipo de crime. Isto ocorreu em São Luís, capital do Maranhão, no início de julho de 2015, e alguns dias depois, na Zona Oeste do Rio de Janeiro – esta última, contudo, sem ter resultado em morte. Cerca de um ano antes teve enorme repercussão o caso de um jovem de 15 anos que foi amarrado a um poste no Aterro do Flamengo, também na cidade do Rio, por um grupo de 15 homens que se autointitulavam como “justiceiros”. Outro caso de grande impacto, em maio de 2014, foi a execução de uma dona de casa na periferia de Guarulhos, litoral de São Paulo, tendo como base uma acusação falsa espalhada pela internet. Ela foi espancada e morta por dezenas de moradores que acreditaram num boato. Outra reflexão necessária, relacionada ao que observamos acima, se refere ao debate sobre a adoção da redução da maioridade penal para dezesseis anos de idade. Ou seja, devido ao fato de muitos adolescentes, menores de dezoito anos, estarem matando pessoas de bem por causa de drogas, por que, então, não diminuir a maioridade penal para, por exemplo, catorze anos? Afinal, como se diz no senso comum: “os menores de idade já tiram carteira de identidade, podem votar e por que, quando matam pessoas, não podem ir para a cadeia?” Ou ainda: “essas pessoas que cometem crime, sejam menores ou adultos, não têm caráter, são monstros que promovem a violência e se houvesse a pena de morte no Brasil isso diminuiria.”
Essas afirmações e conclusões do senso comum precisam ser discutidas. Devemos estudar o fenômeno da violência urbana para que possamos ter um conhecimento preciso, além de identificar as razões que levam certos indivíduos à prática do ato criminoso. Neste capítulo veremos que a violência urbana é um fenômeno social resultado da carência de cidadania e de acesso às condições de vida dignas. Resulta também da desigualdade social decorrente de um modelo econômico dominante que impede parcelas significativas de indivíduos de terem outra possibilidade de existência, senão a da violência, ou como vítimas ou como atores principais.
A SOCIOLOGIA DA VIOLÊNCIA
A palavra “violência” tem origem no latim violentia, que quer dizer “impetuosidade”, “veemência”, derivando da raiz vis, que significa “força”, “vigor”. O dicionário Aurélio apresenta, entre outras definições atuais para o termo, a ideia de constrangimento físico ou moral exercido sobre alguém. O que existe de diferente, portanto, entre a sua raiz latina e a sua definição moderna, é que a violência pode ser entendida não somente como física, mas também como psicológica.
A Organização Mundial da Saúde – OMS – propõe a seguinte definição:
O uso intencional da força física ou do poder, real ou potencial, contra si próprio, contra outras pessoas ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação.
(cf. KRUG, 2002)
Como se pode perceber, a OMS amplia bastante a definição de violência, que passa a abarcar a prática do suicídio e das relações de poder, incluindo a possibilidade de ameaças e intimidações, que se inserem nas mais variadas formas de opressão. Nesse sentido, podemos citar como exemplo um determinado tipo de violência que ocorre com certa frequência nas escolas e que tem sido divulgado recentemente pelos meios de comunicação através do termo em inglês bullying (bully = “valentão”, “brigão”). São formas agressivas e repetitivas de intimidação e discriminação em relação a determinados alunos, por parte de um grupo ou até mesmo de um professor.
Pesquisas indicam que essa prática envolve entre 25% e 36% dos estudantes brasileiros, seja no papel de agressores, seja no papel de vítimas (cf. IBGE, 2009. Para maiores informações sobre a prática do bullying, consultar SILVA, 2010). Outra modalidade desse tipo de violência – que tem crescido a cada ano em razão das maiores possibilidades de acesso à Internet – é o cyberbullying, ou seja, utilizar o espaço do mundo virtual para intimidar, insultar, difamar, discriminar ou hostilizar alguma pessoa, que pode ser algum colega de escola, professor, vizinho, ou mesmo alguém desconhecido. Esse tipo de violência tem ficado cada vez mais comum entre grupos de jovens, resultando até em casos de suicídios – a esse respeito, vale muito a pena ler e refletir sobre a reportagem intitulada “Como um sonho ruim – Adolescentes falam sobre internet e cyberbullying (ver DIP; AFIUNE, 2013).
Certas “brincadeiras” comuns nas escolas têm sido
definidas atualmente como bullying. Alguns sociólogos e pedagogos identificam a prática do bullying como uma forma de violência. E você, o que acha?
O fenômeno da violência, como uma questão historicamente presente em todas as sociedades humanas, é objeto frequente de diversos estudos antropológicos. Um exemplo clássico que podemos citar é a obra Arqueologia da violência, escrita por Pierre Clastres (2004, publicada originalmente em 1977). Pesquisando em sociedades ameríndias, Clastres procura mostrar que estas poderiam ser entendidas como “sociedades-para-a-guerra”, onde aquelas que são diferentes podem ser vistas como inimigas, podendo ser negadas e, consequentemente, destruídas ou submetidas, como uma afirmação da identidade da sua própria sociedade (segundo Clastres, não existiria apenas a possibilidade da guerra, mas também a existência de alianças entre sociedades diferentes). A violência, então, não deveria ser entendida como uma negação das relações sociais (como interpretavam outros antropólogos), mas sim, ao contrário, como um elemento fundamental para a preservação e a conservação da autonomia desses grupos locais e das relações sociais vigentes.
Dados sobre a violência que a definem como um problema mundial: segundo o Relatório Mundial de Saúde, de 2000, aconteceram 520 mil homicídios em todo o mundo, em 1999, estabelecendo um índice geral de 8,8 homicídios para cada 100 mil habitantes do planeta. Deste total, os homens foram responsáveis por 77% – três vezes mais que o número de mulheres. A distribuição das vítimas da violência é desigual também em relação a outros aspectos, pois atingia mais jovens do sexo masculino, entre 10 e 29 anos de idade, com uma média de 565 jovens por dia.
A apuração de dados mundiais mais recentes sobre a violência, efetuada por distintas organizações de atuação global, confirmam a magnitude desse problema. O documento Relatório Global sobre Homicídios 2013, por exemplo, divulgado pela ONU em 10 de abril de 2014, apontou um total de 437 mil homicídios ocorridos em todo o mundo em 2012. Esse relatório teve como foco a ocorrência de homicídios dolosos – ou seja, quando houve a intenção de matar –, vinculados a problemas de relações interpessoais, sociais ou políticas, não considerando, portanto, as mortes causadas por guerras e outros conflitos armados. Outro dado reafirmado pelo documento se refere ao perfil das vítimas: 43% têm entre 15 e 29 anos, e “pelo menos uma em cada sete do total de homicídios no mundo é um homem jovem [...] vivendo nas Américas” (PIMENTEL, 2014).
O Brasil também se destaca em relação a esses números, pois ocorriam em nosso país 10% do total de homicídios de jovens do planeta em 1999. Dados do citado Relatório Mundial de Saúde, de 2000, alçava-nos então à terceira posição mundial dentre as taxas de homicídios nessa faixa etária. Em relação a todos os homicídios, o Brasil passava para o segundo lugar, numa relação de 60 países – o primeiro lugar, em 1999, era da Colômbia, que enfrentava naquele momento um estado de “guerra civil” (cf. PINHEIRO; ALMEIDA, 2003, p. 17-18).
Segundo a ONU, em 2012 dez por cento (10%) do total de homicídios do planeta ocorreram no Brasil. Na foto, grupo de jovens da Zona Sul da cidade de São Paulo faz manifestação denunciando a violência policial na periferia, em 2001.
Perguntamos: será que, depois desses anos, esses números se modificaram de alguma forma?
“Não” – esta foi a resposta do Relatório Sobre a Situação Mundial da Prevenção à Violência 2014, também da ONU (parceria OMS – Organização Mundial de Saúde/PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento/ UNODC – Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), assim como do já citado Relatório Global sobre Homicídios 2013, da ONU, sob responsabilidade da UNODC. Os documentos da ONU confirmam que no Brasil, onde vivem menos que 3% da população mundial, foram registrados cerca de 10% dos homicídios do planeta, ou seja, 50.108 de um total de 437 mil assassinatos (cf. UNODC, 2013). O percentual apontado, neste caso, foi apurado levando-se em conta todas as faixas etárias. Já o cálculo efetuado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, para esse mesmo ano de 2012, contabilizou 53.054 assassinatos em todo o país (cf. MONTEIRO; TUROLLO JR., 2014).
Já o relatório da OMS/PNUD/UNODC (2014), também tomando como referência o ano de 2012, foi ainda mais abrangente, por inserir em sua metodologia casos de latrocínios (roubos seguidos de morte da vítima) e de lesões corporais que resultaram em morte (cf. MONTEIRO; TUROLLO JR., 2014). Dessa forma o número de homicídios no Brasil se elevou para 64.357 pessoas em 2012, colocando o país como aquele com maior número de mortes, em termos absolutos, num total de 194 países. Só para você ter uma ideia, a Índia, que apresenta uma população com um 1 bilhão de habitantes a mais do que o Brasil, aparece nessa estatística somente em segundo lugar, com 53 mil mortes (Idem, ibidem). Em termos percentuais, o Brasil apresenta a 11ª maior taxa de homicídios do mundo, com um índice de 32,4 mortes/100 mil habitantes. O recordista, em 2012, foi Honduras, com 103,9, seguido pela Venezuela, com 57,6. Com exceção de Lesoto e África do Sul, 8º e 9º colocados nesse ranking (com 37,5 e 35,7, respectivamente), os demais países com taxa superior à brasileira são todos da América Latina (Idem, ibidem). Para efeito de comparação, veja a seguir outros índices de homicídios por 100 mil habitantes, apurados pela OMS nesse mesmo ano: México (22,0), Rússia (13,1), Uganda (12,0), Argentina (6,0), Estados Unidos (5,4), Cuba (5,0), Índia (4,3), China (1,1) e Itália (0,9). Fecham o ranking o Japão, com 0,4 (na posição 193º), e Luxemburgo, com 0,2 (194º).
Você deve reparar que muitas vezes esses números destoam na quantidade total de ocorrências de homicídios, mesmo quando referente ao mesmo ano – como vimos acima. Essas diferenças acontecem porque se relacionam sempre com a metodologia utilizada por cada órgão que faz o levantamento. No resultado final, entretanto, os números são aproximados e mantêm os países citados nas mesmas posições, em termos de classificação nas ocorrências de mortes violentas.
Apesar dessas diferenças, os índices de homicídio continuam reportando, invariavelmente, ao mesmo perfil apontado nos diversos documentos e estatísticas sobre o tema: 90% das vítimas brasileiras são homens, em sua maioria jovens e negros, residentes nas periferias urbanas. Em relação às mulheres assassinadas, os homicídios ocorridos no país confirmam o que ocorre globalmente: quase a metade das mulheres mortas em 2012 foram vítimas de violência doméstica, atacadas pelos parceiros ou por outros membros da sua família (cf. PIMENTEL, 2014).
Não é sem motivo, portanto, que os chamados estudos sobre a violência estão presentes em centros de pesquisa de diversas universidades brasileiras, como, entre outros, o Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU), criado em 1999, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, pelo sociólogo, professor e especialista brasileiro no tema Michel Misse. Em 2002, foi criado na UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o Laboratório de Análises da Violência, coordenado em 2015 pelos sociólogos Ignacio Cano e João Trajano Sento-Sé. O centro de estudos mais antigo sobre o tema, porém, é o Núcleo de Estudos da Violência (NEV), da Universidade de São Paulo (USP), criado em 1987, ao qual pertencem sociólogos como Paulo Sérgio Pinheiro, Sérgio Adorno e Nancy Cardia.
Mas podemos dizer que os estudos sociológicos sobre a violência tiveram origem com a própria constituição da Sociologia como ciência, afinal, basta recorrer aos autores considerados clássicos para atestar isso. O suicídio foi um dos principais estudos desenvolvidos por Durkheim, e o papel do Estado como detentor do monopólio legítimo da força foi uma das questões debatidas por Max Weber. Já Karl Marx pode ser citado aqui por sua percepção e descrição da violência presente nas lutas de classes existentes em diferentes sociedades através da História, com especial atenção para a sociedade capitalista e seus mecanismos de exploração dos trabalhadores e reprodução das desigualdades sociais.
Sociólogos contemporâneos conhecidos, além dos brasileiros citados, também se dedicaram ao estudo da violência, tornando-se referências sobre o tema. Um exemplo importante foi o francês Pierre Bourdieu (1930-2002) e o seu conceito de violência simbólica, que ele elaborou para definir uma forma de violência que é aparentemente consentida por aquele que é a vítima, mas que não se percebe como tal – pelo contrário, trata as relações de dominação como “naturais” e “inevitáveis”. Assim, para Bourdieu, a violência simbólica é um mecanismo que reproduz socialmente e legitima a dominação de uma classe sobre outra. Um exemplo clássico estudado por Bourdieu é a educação que inculca nos estudantes uma determinada forma de pensar, de se ver o mundo, que é exatamente a visão de mundo da classe dominante, com os seus valores, ideias, enfim, a sua cultura. Tal mecanismo arbitrário é essencial para se entender a manutenção das estruturas de poder e do pensamento conservador em uma determinada sociedade (BOURDIEU; PASSERON, 1975). Um dos sociólogos contemporâneos mais importantes que desenvolve estudos nessa área é um ex-aluno de Bourdieu, Loïc Wacquant.
Então, podemos perceber como a Sociologia pode contribuir para entender os mecanismos que produzem e reproduzem a violência em nossas sociedades, em todas as suas modalidades, seja ela representada pelas diversas formas de violência simbólica¸ seja ela motivada por disputas políticas de qualquer tipo; sob a forma da criminalidade urbana ou como aquela que caracteriza a luta pela terra no Brasil e em outros países; como uma forma de opressão, de abusos sexuais ou as mais distintas tentativas de submissão da mulher diante dos homens ou como discriminação, intimidação e maus-tratos contra idosos e crianças. No limite, qualquer uma das formas de violência que citamos aqui como exemplo pode resultar na morte daquelas que são as suas vítimas. Tratamos neste livro destes temas, de acordo com a abordagem de cada capítulo. Neste, especificamente, nos deteremos sobre a versão urbana da violência, com atenção para os índices de criminalidade e para as desigualdades sociais que afl oram em nosso país.
ME PEDEM PARA COMPRAR, MAS NÃO POSSO... ME PEDEM PARA TRABALHAR, MAS NÃO CONSIGO
Antes de apresentar alguns dados e discutir as características do fenômeno da violência no Brasil, devemos analisar uma das principais questões do novo milênio nos países dependentes como o nosso: a questão da desigualdade social.
O capitalismo, como vimos, é essencialmente excludente, como demonstrado por Karl Marx, no século XIX. Assim, a desigualdade e a exclusão social não são fenômenos novos. Pelo contrário, elas são inerentes ao processo de concentração de capital.
Ora, se não são novidades, na história do capitalismo, por que, então, se fala tanto hoje em “exclusão social”?
A novidade é motivada pelo fato, como afirma Virginia Fontes (1999), de que a nova forma de organização da produção capitalista produz seres descartáveis em todas as áreas da vida social, trabalhadores que não encontram mais empregos em suas profissões devido à automação e à robotização. São trabalhadores com pouca qualificação profissional condenados para sempre à informalidade, são mulheres discriminadas, jovens impossibilitados de ter educação básica e um primeiro emprego, semterras que não têm direito de plantar em terras improdutivas etc.
Karl Marx (1980) assinala que a transformação de parte da classe trabalhadora em “supérflua” é parte inerente ao processo de produção do capital. Esses trabalhadores se transformam em definitivamente “excluídos”, com o destino traçado diretamente para a morte física – cabe aqui a pergunta aos que ainda defendem a eficácia das políticas neoliberais: poderíamos falar em alguma “exclusão” ainda maior do que esta?
Marx complementa a ideia anterior ao afirmar que a máquina não é apenas o “concorrente todo-poderoso”, que torna o trabalhador assalariado “supérfluo”. Na verdade, mesmo considerando a impossibilidade de sua supressão enquanto classe, as seguidas invenções de novas máquinas assumem o papel, atribuído pelo capital, de o poder inimigo do trabalhador, uma arma eficaz de repressão de greves e revoltas (cf. MARX, 1980, p. 499).
Em outra passagem, no capítulo XV da sua obra O Capital, Marx destaca que o crescente estado de pobreza do proletariado na Inglaterra era determinado não só pelo rápido desenvolvimento tecnológico, como também pela mais-valia absoluta, com o prolongamento desmedido da jornada de trabalho, e a exploração do trabalho das mulheres e das crianças. Esses elementos, naquela conjuntura marcada pelo fim do monopólio inglês nos mercados mundiais – que era o contexto em que Marx escrevia, no século XIX – tornou supérflua grande parte da classe trabalhadora (MARX, 2006, p. 600-601, nota 15. Para maiores detalhes, ver COSTA, 2008).
Voltando para o Brasil atual, muitas pesquisas socioeconômicas demonstravam que, durante a década de 1990, cerca de 60% da PEA (População Economicamente Ativa) estava fora do mercado formal de trabalho. Em nosso país, a desigual distribuição de renda e de riqueza é historicamente assustadora.
O Gráfico 1 demonstra que, apesar dos 10% mais ricos terem diminuído a sua participação na renda nacional entre 1990 e 2012 - de cerca de 50% para pouco mais de 40% -, a participação dos 10% mais pobres ficou praticamente inalterada, contribuindo para que a concentração de renda continuasse elevadíssima, e sem possibilidades de comparação com os países considerados com “boas distribuições de renda”, mesmo com a crise econômica vivida pelo capitalismo a partir de 2008 – como é o caso principalmente da Holanda e do Japão, destacados na Tabela 1.
Fonte: Gráfico reproduzido de Helene (2015), que compilou os dados com base no IBGE e no Banco Mundial (respectivamente, http://www.ibge.gov.br e - http://data.worldbank.org/indicator)
Gráfico 1
Participação na renda nacional (%) dos 10% mais ricos (barras à esquerda) e dos 10% mais pobres (barras da direita) no Brasil e em países com boa distribuição de renda.
Tabela 1
Participação na renda nacional (renda familiar)
Razão entre a proporção da renda nacional apropriada pelos 10% mais ricos e pelos 40% mais pobres em países selecionados, segundo a renda familiar. Na primeira coluna de números, a proporção em % de renda apropriada pelos 40% mais pobres; na segunda, pelos 10% mais ricos; na terceira, a razão entre os dois grupos. Fonte: Psacharopoulos (1991). Citado em URANI, André; BARROS, Ricardo Paes de (Org.). Pobreza e desigualdade de renda no Brasil, mimeo. In: BENJAMIN (1998), p. 191.
Segundo o cadastro do INCRA –Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, de 1996, existia nesse ano um total de 35.083 latifúndios improdutivos (cada um com mais de 1.000 hectares) espalhados pelo Brasil, com 44% (15.567 propriedades) situados na Região Centro-Oeste. Essas terras brasileiras improdutivas correspondiam a uma área total de 153 milhões de hectares, equivalente às áreas somadas dos territórios da França, Alemanha, Espanha, Suíça e Áustria (cf. BENJAMIN, 1998, p. 184).
Esse quadro se alterou, mas no sentido do aumento gradativo da concentração de latifúndios improdutivos, que passaram a representar 58.331 propriedades em 2003 e, depois, 69.233 imóveis em 2010 (cf. PELLEGRINI, 2015). Esses dados podem ser conferidos na Tabela 2 – construída também com base no cadastro do INCRA – revelando que no Brasil a concentração de terras em uma pequena parcela da sociedade é uma das mais altas do mundo. Outro registro importante é que o total da área improdutiva (ou seja, que não é utilizada para a produção de alimentos ou para a pecuária) cresceu de 153 milhões de hectares, em 1996, conforme citamos anteriormente, para mais de 228 milhões, em 2010 (Tabela 2), passando então a representar 40% do total das áreas ocupadas pelas propriedades.
A Tabela 1 e o Gráfico 1 demonstram: primeiro, que a concentração de renda se limita a poucas pessoas, gerando uma desigualdade social muito grande, a tal ponto que no Brasil 10% das pessoas mais ricas, em 1990, possuíam renda sete vezes maior que 40% dos mais pobres. Em 2012, por sua vez, os 10% mais ricos tinham uma renda 42 vezes maior do que os 10% mais pobres – a terceira pior concentração de renda do planeta, perdendo somente para Honduras e África do Sul, que apresentavam à época, respectivamente, diferenças da ordem de 57 e 49 vezes (ver HELENE, 2015).
Tabela 2
Evolução da Concentração da Propriedade da Terra no Brasil Medida pelos Imóveis – 2003/2010
Fonte: cadastro do INCRA – Classificação segundo dados declarados pelo proprietário – e de acordo com a Lei Agrária/93. Reproduzida de Pellegrini (2015)
Você se lembra que esses dois países, exatamente no ano citado, foram apontados como aqueles que contabilizavam o maior número de homicídios do mundo (em 1º e em 9º lugar, respectivamente), com índices superiores ao apurado no Brasil? Coincidência?
O que anotamos acima tem como significado que milhões de pessoas não têm acesso a bens materiais básicos para sua sobrevivência. No caso do nosso país, a situação de concentração de renda é dramática, se comparada a todos os países capitalistas relacionados na Tabela 1, desde a Holanda e o Japão – os que apresentam menor concentração de renda –, até Botswana e Peru – países com Produto Interno Bruto – PIB bem inferiores ao nosso, mas com menor concentração de renda.
Segundo, bastou consultarmos o cadastro do INCRA para constatar que no máximo 35.083 proprietários brasileiros possuíam terras improdutivas em 1996, do tamanho de cinco países da Europa, impedindo milhões de pessoas, no campo e na cidade, de trabalharem para comer. Já a Tabela 2 mostra que essa concentração de terras improdutivas, depois de um breve decréscimo, em 2003 (em relação à área ocupada, em hectares, em 1996), aumentou bastante ao longo dos anos, até apresentar os números significativos apurados em 2010.
Terceiro, nos questionamos: qual a alternativa para essas pessoas “excluídas” do acesso à riqueza, à renda e às terras?
Outro aspecto identificador da extrema desigualdade social que atinge a classe trabalhadora é em relação à política econômica dominante – determinada pelo ideário neoliberal – que impede o acesso da população aos serviços públicos básicos, como saúde, educação, habitação e infraestrutura urbana, oferecendo-lhe o chamado “Estado mínimo”.
Segundo o neoliberalismo, o Estado deveria encolher para que o mercado regulasse sozinho a economia e equilibrasse as desigualdades entre ricos e pobres. Entretanto, no Brasil, de acordo com o IBGE, o peso dos impostos no Produto Interno Bruto (PIB) passou de 28,44%, em 1995, para 31,67%, em 1999. Desde então, esse percentual continuou crescendo cada vez mais, alcançando 38,45% nos primeiros meses de 2009 (cf. GUSMÃO, 2009), para depois sofrer uma redução para 35,7%, apurado em 2013 – apesar disto, este último percentual confirmou o país como detentor da maior carga tributária da América Latina (cf.MOREIRA, 2015).
O que aconteceu para o Estado encolher e as despesas aumentarem? O mesmo IBGE responde, revelando que de cerca de R$ 304,3 bilhões recolhidos em impostos, em 1999, R$ 84 bilhões foram pagos, em juros, ao Fundo Monetário Internacional – FMI. Dez anos depois, o “vilão” não é mais o FMI e nem a dívida externa do país, mas o enorme montante das dívidas públicas internas que o Estado brasileiro vem acumulando, seguidamente, para sustentar a chamada “estabilidade da economia”, iniciada com a implantação do Plano Real, pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1995. Essa dívida significa tudo aquilo que o Estado deve, incluindo o Governo Federal, estados e municípios, assim como as empresas estatais. Em 2009, somente até o dia 21 de setembro, o governo Lula já havia pago R$ 173 bilhões – somente de juros – da dívida interna do país. Quem recebeu esse dinheiro? O mercado financeiro – principalmente bancos nacionais e estrangeiros, que ficaram com a metade de tudo! (ÁVILA, 2006, p. 5). Para se ter uma ideia do significado de tanto dinheiro, basta utilizarmos uma simples operação de multiplicação: esses R$ 173 bilhões, em 2009, poderiam representar seis vezes tudo que o governo gastava na época com saúde, ou dez vezes o que se investia em educação, ou ainda em 147 vezes os recursos que o governo ofereceu para a reforma agrária!
(Dados apresentados pela equipe da Auditoria Cidadã da Dívida: http://www.auditoriacidada.org.br/ Acesso em: dezembro/2015). Conseguiu imaginar isso?
Os valores citados acima foram se multiplicando – e muito! Você pode pesquisar a respeito e/ou conversar com seu professor. Mas, diante de números tão grandiosos, talvez fosse o caso de você “escolher quais devem ser as perguntas principais”... Duas sugestões:
1) Quanto a dívida interna pública brasileira tem representado em relação ao valor total do Orçamento da União?
2) De que forma todo esse valor poderia ser investido socialmente, ao invés de enriquecer o sistema financeiro?
Seguem as respostas dadas por dois especialistas e pesquisadores sobre o assunto, a ex-auditora fiscal Maria Lucia Fattorelli e o economista Rodrigo Ávila, tomando como base o orçamento federal de 2014:
Para a pergunta 1: “Em 2014, o governo federal gastou R$ 978 bilhões com juros e amortizações da dívida pública, o que representou 45,11% de todo o orçamento efetivamente executado no ano.”
Para a pergunta 2: “Essa quantia corresponde a 12 vezes o que foi destinado à educação, 11 vezes aos gastos com saúde, ou mais que o dobro dos gastos com a Previdência Social [...]” (FATTORELLI; ÁVILA, 2015).
Para ter uma visão mais completa do que estamos falando, analise com atenção o gráfico abaixo, organizado pelos especialistas citados.
Gráfico 2
Orçamento Geral da União (Executado em 2014) – Total = R$ 2,168 trilhão
Fonte: Auditoria Cidadão da Dívida:http://www. auditoriacidada.org.br/ Acesso em: dezembro/2015 (FATTORELLI; ÁVILA, 2015)
Os números apresentados neste capítulo mostram que o Estado se tornou mínimo para os pobres; para os ricos, entretanto, é máximo. Diminuindo os gastos sociais a cada ano, o Estado neoliberal agrava ainda mais a situação daqueles que estão fora do mercado de trabalho.
A desigualdade social, que atinge milhões de pessoas no Brasil, está relacionada também à falta de cidadania. Estamos falando de indivíduos que não têm direitos sociais, civis e políticos, mesmo que estes sejam plenamente garantidos pela Constituição brasileira.
O sociólogo Pierre Bourdieu (1998) diz que o mundo globalizado não produz riqueza para todos. Pelo contrário, para a classe trabalhadora, ele estabelece um mundo de precariedade, ou seja, o trabalho se tornou uma coisa rara, desejável a qualquer preço, e aqueles que têm trabalho, fazem qualquer coisa para mantê-lo. Isto leva à competição generalizada, à luta de todos contra todos, destruindo-se aos poucos os valores de solidariedade humana. A precariedade afeta homens e mulheres, tornando o futuro incerto, impedindo a crença em algo melhor, ou podendo gerar a resignação de que tudo “é assim mesmo e não tem mais jeito”.
Segundo o geógrafo brasileiro Milton Santos (2002), a competitividade atual tem “a guerra como norma” – há, a todo custo, que vencer o outro, esmagando-o. Isto se reflete nos individualismos na vida econômica, na ordem política, na vida social e cotidiana – ou seja, nos comportamentos que significam o desrespeito às pessoas e que se tornam a base e a justificativa de grande parte das relações sociais atuais.
A partir desse entendimento, o que resta à classe trabalhadora para tentar sobreviver, conseguir comida, roupa, remédios, educação, saúde, uma casa para morar etc.? E se aparecer uma forma de ganhar “dinheiro fácil”, que não exija qualificação técnica ou escolar, fornecido por cursos em que, pelas suas condições objetivas de vida, ele dificilmente terá a chance de ingressar?
Já que não se pode contar muito com os serviços do Estado (hospitais públicos, escolas, saneamento etc.) e como só se conseguem empregos sem qualificação, resta, então, ou ganhar no máximo um salário mínimo, que mal paga o aluguel de uma casa, ou se integrar ao chamado capitalismo de pilhagem (WACQUANT, 1999), qual seja, o mundo da criminalidade e do narcotráfico.
Claro que nem todos escolhem este caminho. Felizmente, existe uma grande maioria de pessoas honestas e batalhadoras que procuram, incansavelmente, outros caminhos, muitas vezes com sacrifício – trabalhando de dia e estudando à noite – e não o “mais fácil” que, na verdade, trata-se de uma grande ilusão, pois praticamente a totalidade desses adolescentes e jovens acaba morrendo antes de amadurecer na vida.
Mas, para entender o submundo da criminalidade, da violência, das balas perdidas e do tráfico de drogas, é necessário entender a estrutura social que está por trás disso tudo, pois a maioria das pessoas não escolhe por gosto o pior para suas vidas.
Vista geral do distrito de Anhanguera, Zona Norte de São Paulo, região considerada, segundo pesquisas estatísticas realizadas em 2002, como “uma das mais excluídas da capital paulista”. Como as residências encontravam-se em área de ocupação irregular, o poder público não podia, por lei, implementar condições básicas de infraestrutura – como: asfalto, água encanada, coletas de esgoto e lixo, escolas, unidades de saúde etc. Você conhece, em sua cidade, alguma localidade que apresente essas mesmas características? Acha que podemos estabelecer algum tipo de relação entre a ausência de serviços públicos e o aumento da violência urbana
nessas regiões?
E AINDA SOU CULPADO POR TUDO...
Falar em violência, na atualidade, requer alguns cuidados. Toda forma de violência deve ser repudiada. Entretanto, será que existem somente aquelas formas de violência que lemos nos jornais e vemos na televisão? Alguns aspectos da violência que analisaremos servirão de exemplos para percebermos a sua relação com o capitalismo, com a ausência de cidadania e com as políticas do Estado neoliberal.
Poderíamos iniciar afirmando que a violência em si significa cometer danos a uma pessoa pelo uso da força (matar, ferir, prender, roubar, humilhar, explorar trabalho alheio etc.). Além disso, a desconsideração pelo outro e a transgressão de uma norma social também caracterizam violência. Entretanto, não vamos transformar este capítulo em mais uma página policial de jornal.
Os motivos que levam a uma atitude violenta, por parte de um indivíduo, podem variar muito, porém nos interessa também estudar a violência que causa danos a milhões de pessoas cotidianamente e que, no senso comum, não é percebida como violência direta à pessoa.
O ato violento é condenado pelo Código Penal brasileiro sob diversas formas e aquele que o comete, dependendo da gravidade do ato, pode sofrer pena de reclusão ou multa.
Ora, está escrito na Constituição brasileira que todo cidadão tem direito a uma vida digna, mas isso não ocorre. Isto é violência. Mas quem é o culpado de cometer esse crime? O Estado? O político? Note-se que esta “entidade” não se encontra no Código Penal, que fala apenas em pessoas concretas que diretamente cometem violência.
Vejamos um caso ocorrido em São Paulo, em 2002: o promotor de justiça José Carlos Blat se perguntava por que existiam tantos ferros-velhos em São Paulo. Será que aconteciam tantas batidas de carro para justificar tamanho comércio? O promotor de justiça, então, junto com seus colegas de gabinete, ficou quarenta e cinco dias na Avenida Rio das Pedras, onde se concentram os ferros-velhos.
Eles conseguiram fechar três estabeleci estabelecimentos e, ao contrário da polícia, apreenderam todas as peças roubadas. Depois, fizeram um levantamento na Secretaria de Fazenda e observaram que, apenas em um deles, havia mil carros importados.
Foram necessários noventa e cinco caminhões para levar o material apreendido no valor de mais de vinte e cinco milhões de reais em peças de carros importados. Um fenômeno interessante: os quarenta ferros-velhos resolveram fechar nessa época.
Posteriormente, foi feito um levantamento sobre se a ação teria alguma repercussão sobre o número de roubos e furtos de veículos na metrópole de São Paulo. Os sindicatos das seguradoras informaram que a incidência daqueles delitos caiu em 25% naquele período (cf. REVISTA CAROS AMIGOS, nº 70, 2003, p. 31-37).
Conclusão: roubo e furto são crimes, previstos no Código Penal, mas e o ferro-velho que incentiva essas ações (o que fica evidente neste caso, porém não explícito) não é condenado?
Qual o papel dos “desmanches” nos índices de roubos de carros nas grandes cidades? Na foto, policial do Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado) vistoria o maior “desmanche “ de carros do estado de SP, localizado no ferro-velho Tancredão Autopeças, em Campinas, em 2002.
Penitenciárias de São Paulo e do Rio de Janeiro são locais de concentração de organizações criminosas. Assaltantes perigosos, traficantes pequenos e grandes, “ladrões de galinha” e assaltantes de bolsas de velhinhas ficam todos juntos, em celas superlotadas e insalubres, ociosos, comendo precariamente, sem assistência médica ou psicológica. O que esperar desse “ladrão de galinhas” ou do assaltante de velhinhas – negros, em sua maioria –, quando são maltratados e torturados? Será que não é mais fácil para eles se submeterem ao grande traficante, que lhes oferece fuga e um “salário” se estiverem a seu serviço?
Tabela 3
Vagas e presos no sistema prisional e na polícia – Dezembro 2009
FONTE: Órgãos estaduais responsáveis pelo sistema penitenciário – 2009. LEGENDA: V: vagas P: número de presos V-P: Déficit de vagas. OBSERVAÇÃO: No déficit de vagas (V-P) foram considerados apenas os valores negativos. Tabela adaptada de BRASIL. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2009, p. 46.
Vejam na tabela acima a relação entre o número de vagas e o número de presos no Brasil.
Em 2015, um levantamento efetuado junto ao sistema prisional brasileiro revelava um déficit bem superior ao apresentado na Tabela 3, da ordem de 244 mil vagas, para um total de 615.933 presos (VELASCO et al., 2015). O país apresentava, naquele ano, a quarta população carcerária do mundo, atrás apenas, pela ordem, dos Estados Unidos, da China e da Rússia (cf., entre outros, MOURA; RIBEIRO, 2015).
Segundo outro promotor de justiça de São Paulo, Roberto Porto, nenhum dos líderes do PCC entrou nas penitenciárias como homicida e traficante. Eram presos comuns, que deveriam estar fora do sistema carcerário em, no máximo, três anos. Eles se tornaram criminosos “pesados” dentro do sistema carcerário, sob a proteção do Estado.
Para o promotor, a responsabilidade disto é do Estado. Não é para menos que o ministro da Justiça do primeiro governo Lula (2003-2006), Márcio Thomaz Bastos, tenha dito, numa entrevista ao programa do Jô Soares, que o preso comum faz mestrado, doutorado e pós-doutorado em criminalidade violenta nos presídios brasileiros. Pense a respeito dessa ideia e a relacione com a proposta de redução da maioridade penal.
Mas, então, devemos continuar culpando somente os criminosos de rua, menores, “pretos, ou quase pretos, ou quase brancos” de serem responsáveis pela violência nas grandes cidades?
DROGAS: BRANCOS QUE PRODUZEM, BRANCOS QUE CONSOMEM... NEGROS QUE CONSOMEM E MORREM
Os sociólogos Manuel Castells (1996) e Loïc Wacquant (1999), estudiosos da globalização e da criminalidade urbana, respectivamente, afirmam que é necessária uma análise global deste fenômeno para não cairmos no erro de responsabilizar quem, na verdade, muitas vezes, é vítima de um sistema econômico e social maior.
Castells afirma que a criminalidade, instituída como organizações criminosas e seus associados, é um fenômeno novo que afeta a economia, as relações sociais e principalmente os jovens.
A cosa nostra italiana, a máfia americana, os cartéis colombianos e mexicanos, as redes criminosas nigerianas, a yakuza japonesa, as máfias russas, os piratas somalis, os traficantes de heroína afegãos, entre outros, formam uma rede de organizações criminosas que ultrapassam fronteiras. Realizam comércio de drogas, armas, crianças, órgãos humanos, prostituição, falsificação de mercadorias, cartões de crédito, identidades, mercadorias roubadas etc.
O poder econômico que essas redes possuem ultrapassa, inclusive, o peso de determinados países como EUA, Brasil, México, movimentando bilhões de dólares anualmente. A conferência promovida pela ONU, em 1994, sobre o Crime Global Organizado, estimou que o comércio mundial de drogas, por exemplo, atingiu a cifra de 500 bilhões de dólares por ano, o que significa uma cifra maior que o valor das transações globais envolvendo petróleo. Dados divulgados em 2012, porém, sobre o crime organizado transnacional (além do tráfico de drogas, contabilizando tráfico de pessoas, contrabando de migrantes, tráfico de armas, crimes contra o meio ambiente, entre outros), informavam que ele gerava um montante de 870 bilhões de dólares por ano – valor equivalente a 7% das exportações mundiais de mercadorias, segundo dados de 2009 (cf. ONU-BR, 2012).
Em 1994, a conferência da ONU sobre o Crime Global Organizado calculou o comércio mundial de drogas em 500 bilhões de dólares por ano.
Segundo dados da Força-Tarefa de Finanças do G-7, de 1990, US$ 120 bilhões anuais do sistema financeiro mundial (as bolsas de valores) foram provenientes do tráfico internacional de drogas. São
conhecidas as conexões da máfia siciliana com as redes bancárias da Itália e com toda a elite política e empresarial daquele país (cf. CASTELLS, 1996). Em anos mais recentes, escândalos envolvendo vazamento de informações sobre depósitos em contas bancárias vinculadas a bancos suíços revelaram, em 2015, quantias da ordem de US$ 400 bilhões de dólares do tráfico internacional de drogas
circulando por essas e outras agências bancárias legais (cf. DRUMMOND, 2015).
Em relação ao narcotráfico na América Latina, Castells afirma que ele depende da demanda e da exportação de seu principal mercado: os Estados Unidos. Além disso, a
indústria do tráfico é totalmente internacionalizada, com divisão de trabalho e produção. O componente essencial de toda indústria da droga, ou seja, sua sobrevivência, é o sistema de lavagem de dinheiro. Isso sem falar da necessidade de corrupção e de penetração no meio institucional (o Estado, os políticos e burocratas) para poder funcionar em todas as etapas do sistema. Em suma, o crime organizado só é capaz de sobreviver através de corrupção e intimidação dos funcionários do Estado e o cumprimento de todo o conjunto de transações é assegurado por meio do uso de violência em um nível
extraordinário.
Paulo Lins, carioca, autor da obra Cidade de Deus, que inspirou o filme com o mesmo nome, afirmou, no documentário “Notícias de uma guerra particular” (1999), que quem consome a grande quantidade de drogas no Brasil não são as pessoas do morro. Essas servem apenas como mão de obra barata entre os grandes traficantes e os consumidores do asfalto.
No diagrama a seguir, podemos ver, por exemplo, a estrutura de uma quadrilha e sua hierarquia nos morros do Rio de Janeiro.
Fonte: Folha de São Paulo, Folhateen, 10/03/2003 p.6
Nesta estrutura hierárquica, vemos claramente os princípios organizativos do tráfico de drogas. Entretanto, várias questões ficam em aberto: de onde vêm as drogas, ou melhor, quais são os fornecedores (atacadistas), já que em nosso país não se produz cocaína? E esses fornecedores, sendo de fora do país, têm alguma ajuda para que essas mercadorias entrem no Brasil? E quem são os consumidores do “vapor”, já que se sabe que o custo das drogas vendidas é alto para o poder aquisitivo dos moradores das favelas? Se os governantes têm conhecimento dessa rede, por que não atuam na fonte fornecedora das drogas e no consumo delas?
O mais grave, porém, é o fornecimento de armas. De onde elas vêm? Segundo o ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Hélio Luz, grande parte das armas em mãos dos traficantes são produzidas nos EUA e na Suíça, mas também na Alemanha, na Rússia e em Israel. Existem até submetralhadoras, pistolas e fuzis, que a própria polícia militar e o exército brasileiro não possuem.
A conclusão que se pode chegar é que, do “gerente geral” ao “olheiro”, a mão de obra do tráfico é constituída de moradores dos morros cariocas, filhos de trabalhadores, ex-trabalhadores, desempregados, meninos e meninas entre 10 e 16 anos, “pretos”, “ou quase pretos”, “ou quase brancos” que ou não têm condições de ter um trabalho digno ou, quando têm, são seduzidos a ganhar mais no tráfico.
Diversos estudos, dossiês e Comissões Parlamentares de Inquéritos (CPIs) já concluíram que o crime organizado, como afirma o promotor José Carlos Blat, não sobrevive sem a participação do Estado. Portanto, o que se configura é que o problema da violência nas grandes cidades diz respeito, essencialmente, àquilo que Loïc Wacquant (1999) denomina de capitalismo de pilhagem. Ou seja, um grande negócio capitalista internacional que se utiliza de mão de obra barata (jovens da periferia, na sua maioria negros), não institucionalizada oficialmente e que, por sua vez, traz consequências catastróficas para a população das grandes cidades (balas perdidas nas disputas entre bandos ou durante ações policiais em bairros localizados nas periferias, insegurança nas ruas, a morte de milhares de jovens antes de completarem dezoito anos, entre outras coisas).
Mas, se o Estado e suas instituições (polícia, exército) não são eficientes no combate à criminalidade, como se caracteriza sua atuação diante desta barbárie? Ou melhor, quais as soluções apresentadas pelos dirigentes de Estado e Governo para diminuir e combater a criminalidade urbana e o narcotráfico?
Loïc Wacquant (1999) nos fornece a resposta revelando que, com o advento do neoliberalismo, isto é, com a ausência ou diminuição de toda rede de proteção social (hospitais, escolas, saneamento, assistência social etc.), não resta alternativa para o Estado senão aquela de investir na repressão, substituindo sua função de “Estado Previdência” pelo “Estado Penitência”.
O que o autor quer dizer é que o Estado se torna um Estado Penal, deixando de lado seu papel de assistência aos cidadãos e seus direitos. E, ciente da situação caótica que cria (violência, insegurança etc.), tem como única solução aumentar a repressão, a vigilância, o quantitativo de cárceres e o aparato militar. Exemplo desta orientação é a política da “tolerância zero”, praticada na cidade de Nova York nos anos de 1990.
Em Manhattan, na administração do prefeito Rudolph Giuliani (1994-2001), houve um aumento do efetivo policial de 34.000 para 46.000, enquanto que, na área de serviços sociais, houve uma redução de 30%, baixando o número de empregados para 13.400.
A política da “tolerância zero” tem como essência extirpar “a delinquência”, a “violência urbana”, as “incivilidades” que, segundo o Estado, são, simultaneamente, as causas e os resultados da violência, principalmente nas áreas ditas “sensíveis”, isto é, periferias, favelas, guetos negros, bairros pobres e degradados. Além disso, seria necessário afastar das ruas, dos parques e dos trens os pobres ameaçadores à ordem. Ou seja, tal política parte da ideia de que o abandono das ruas favorece a criminalidade.
Há alguma semelhança entre essa ideia e o chamado “choque de ordem”, implantado nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, pela Prefeitura, a partir de 2009? Na verdade, a mesma política, sem esse nome, foi efetivada na capital e no estado por governos anteriores, desde julho de 2003. No bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, por exemplo, vez ou outra, principalmente quando ocorrem eventos internacionais, são retirados das ruas prostitutas, mendigos, crianças, trabalhadores sem-teto etc., com o objetivo de combater as possíveis causas do favorecimento da criminalidade. Trata-se da mesma política de “criminalização da pobreza”, com outro nome.
Há muitas semelhanças entre a política de “tolerância zero” e o chamado “choque de ordem”. Na foto, um policial militar vigia usuários de crack em frente ao Departamento Náutico de São Cristóvão, após ocupação das favelas de Manguinhos e Jacarezinho no Rio de Janeiro (RJ), em 2012.
Ainda na cidade do Rio de Janeiro, por ser uma espécie de “vitrine” turística do Brasil, e em razão da realização dos jogos da Copa do Mundo de futebol 2014 e das Olimpíadas de 2016, o governo estadual iniciou também a política de instalação de Unidades Policiais Pacificadoras (UPPs) em diversas favelas cariocas, deslocando as organizações do tráfico de drogas para outras comunidades e para outras cidades próximas à capital.
Recorrer ao aparato policial e à repressão do Estado como forma de se combater o problema da violência urbana e da criminalidade significa não perceber que a causa principal desse grave problema está associado à própria forma de organização da sociedade como um todo. Além disso, o aparelho repressor oficial, muitas vezes, se encontra tomado pela corrupção e pelos chamados “desvios de conduta” de diversos policiais, que se associam aos grupos e organizações do tráfico, além de políticos eleitos como vereadores e deputados.
Um exemplo do que relatamos pode ser encontrado na capital do estado do Rio de Janeiro e em cidades vizinhas, onde se organizaram as chamadas “milícias”: grupos armados, compostos principalmente por ex-policiais e ex-bombeiros que expulsam o tráfico de determinadas comunidades, mas ocupam o seu lugar, passando a cobrar taxas fixas dos moradores em troca de segurança, além de controlar serviços, como transporte alternativo, transmissão de TV a cabo, redes de distribuição de gás de cozinha etc.
O aumento do fenômeno da violência, no contexto político atual, também apresenta outras características. Uma delas é que, se por um lado há uma diminuição dos gastos sociais do Estado e a degradação das condições de vida dos indivíduos, por outro, o Estado investe no aumento dos recursos penitenciários.
Estatísticas sociais americanas mostram que, para cada cinco crianças americanas menores de seis anos, uma cresce na mie, uma em duas, entre a comunidade negra. Durante o auge da chamada era neoliberal, a população considerada muito pobre dobrou entre 1975 e 1995, atingindo 14 milhões de pessoas. Quarenta e cinco milhões de ame-ricanos (dos quais 12 milhões são crianças) não têm cobertura médica. Trinta milhões sofrem de fome e de desnutrição crônica. Sete milhões de americanos vivem nas ruas, depois que as verbas federais para a questão social foram diminuídas em 80% nos anos de 1980 a 1990. O censo americano informou, em 26 de setembro de 2003, que a taxa de americanos pobres alcançou 12,1%, em 2002, cerca de 34,6 milhões de pobres. Entre 2006 e 2014, o nível de pobreza continuou crescendo nos EUA, passando de 12,3% para 14,5% (PELIANO, 2015). Além disso, a população sem-teto vem aumentando ano após ano nas grandes metrópoles: em 2015, alcançou 58 mil moradores nessas condições em Nova York e 25 mil em Los Angeles. Neste caso, um crescimento de 12% desde 2013 – portanto, em um curto espaço de dois anos (EZABELLA, 2015). Para complementar esses dados, o Censo estadunidense informou, em 2015, que 45 milhões de pessoas viviam “abaixo do nível de pobreza” em todo os EUA – quantidade que equivale a 14,5% da população (cf. PELIANO, 2015).
Sem-tetos dormindo na calçada, em Skid Row, Los Angeles, 2015.
Entretanto, os dados referentes ao número de pessoas encarceradas nos Estados Unidos são inversamente proporcionais aos dados socioeconômicos. Entre 1975 e 1985, os efetivos encarcerados haviam pulado de 380.000 para 740.000 pessoas. Em 1995, saltaram para 1,5 milhão e, em 1998, para quase dois milhões de pessoas (WACQUANT, 1999). No primeiro semestre de 2014, a população carcerária norte-americana atingiu 2,2 milhões de pessoas, segundo dados compilados pelo ICPS – Centro Internacional para Estudos Prisionais, do King’s College, de Londres. Em números absolutos, trata-se da primeira maior população carcerária do mundo, superior à da China, por exemplo, não somente em termos relativos – considerando o tamanho da população chinesa –, mas também em termos absolutos, já que o país asiático possuía nesse período um total de 1,6 milhão de presos. (MOURA; RIBEIRO, 2015, p. 12-13).
Os gastos dos estados americanos com penitenciárias, entre 1979 e 1990, cresceram 325%, enquanto que os gastos com a construção civil, no mesmo período, cresceram 61,2%. O setor penitenciário já contava, em 1993, com 600.000 empregados, ou seja, era o terceiro setor da economia a empregar trabalhadores, atrás apenas da General Motors e da rede de supermercado WalMart. Entre 1979 e 1989, o orçamento dos hospitais estagnou, o dos liceus escolares diminuiu em 2%, o da assistência social diminuiu em 41%, mas o do setor penitenciário cresceu, no mesmo período, em 95% (cf. WACQUANT, 1999).
Por fim, o sistema policial e o sistema judiciário nos EUA priorizam seu foco de detenções entre os negros. Os dados: os negros representam 13% dos consumidores de droga e, no entanto, 33% das pessoas detidas e 75% das pessoas encarceradas por infração à legislação sobre drogas são negras. Em 1995, de cada dez encarcerados, seis foram condenados por portar ou comercializar drogas, e a maioria era proveniente de bairros pobres afro-americanos. Ou seja, “(...) é mais fácil proceder a prisões nos bairros socialmente desorganizados, em contraste com os bairros operários estáveis ou os prósperos subúrbios de colarinhos brancos.” (BRATTON; KNOBLER, 1998. Citados por WACQUANT, 1999, p. 95)
As pesquisas efetuadas por Wacquant apontavam, portanto, que, no final do século XX, entre esses indivíduos, de cada dez presos, seis eram negros ou imigrantes latinos. O jornalista e ativista David A. Love, analisando os dados mais recentes sobre as prisões norte-americanas, mostrou que em 2015 em 16 estados havia mais pessoas presas do que em dormitórios de faculdade. Em estados como o Alabama, por exemplo, apesar da sua população negra ser de 27%, ela representava 63% da sua população carcerária. Na Louisiana, na cidade de New Orleans, estava preso 1 em cada 14 homens negros. Ele completa: “os investimentos em escolas são cortados à medida que mais prisões são construídas, apesar da queda da criminalidade durante as últimas décadas. Quanto mais dinheiro para um, menos para o outro” (LOVE, 2015). Portanto, trata-se da continuidade, neste século XXI, da mesma lógica apontada pelos estudos de Wacquant.
Será esta a única solução para se combater a criminalidade urbana no Brasil?
Depois de revelar esses dados, Loïc Wacquant afirma que não existe vínculo algum comprovado, em pesquisas, entre índice de criminalidade e índice de encarceramento. Ou seja, a violência e o tráfico de drogas, nos EUA, não diminuíram com a política da “tolerância zero”, pois a repressão não teve influência alguma sobre os motores dessa criminalidade que têm como objetivo criar uma economia de pilhagem, justamente nos espaços onde a economia oficial não existe, como, por exemplo, aqui no Brasil, nas favelas e nas periferias das grandes cidades.
Na política da “tolerância zero”, destaca-se o papel das polícias, como já comentamos. Se o alvo destas, nos EUA, são os bairros negros ou “degradáveis”, os imigrantes ou indesejáveis, aqui no Brasil são, por exemplo, a juventude negra e os pobres da periferia.
Loïc Wacquant deixa mais explícito o papel da polícia, na ordem econômica neoliberal, quando diz que ela cumpre a tarefa que a assistência social não faz ou já não faz mais desde que se admite que não há (ou haverá) trabalho para todos. Sua conclusão é de que, do controle da pobreza permanente pelo trabalho assalariado, de alguns anos atrás, passamos ao controle pelas forças da ordem e pelos tribunais, colocando essas pessoas, no que ele chama de campo de concentração para pobres (ou seja, os cárceres). Luiz Eduardo Soares, sociólogo e ex-secretário nacional de segurança pública do Ministério da Justiça (em 2003) afirmou em várias entrevistas que há um processo de eliminação de jovens negros entre 16 e 24 anos de idade, pois o tratamento que a PM dá a essa população se assemelha ao de um grupo de extermínio. Quando a polícia sobe um morro, ou aborda os jovens da periferia e das favelas, todos são considerados suspeitos ou “elementos perigosos”. Os gráficos que apresentamos a seguir, com dados de 2000 e de 2010, comprovam que as suas declarações permanecem atuais. Comparem:
GRÁFICO 3
Fonte: Gráfico reproduzido de W AISELFISZ, 2002, p. 43.
GRÁFICO 4
Fonte: Gráfico reproduzido de W AISELFISZ, 2012, p. 28.
Em nenhum momento, na história do tráfico no Brasil, houve uma ação concreta da parte do Estado para desmantelar as redes do tráfico de drogas, no seu alto comando. As ações da polícia, quando intervém efetivamente nessa rede ou na criminalidade urbana, resultam em chacinas, como a de Acari (1990), a da Candelária (1993) e a de Vigário
Geral (1993), no Rio de Janeiro, sem falar na de Carandiru (SP), em outubro de 1992, onde foram mortos cento e onze presos. Para você ter uma ideia do que estamos falando, durante os oito primeiros meses de 2015, em São Paulo, as chacinas mataram mais que o total de vítimas da Região Metropolitana durante o ano de 2014 (BARRUCHO, 2015).
Um ex-capitão da PM do Rio de Janeiro revelou em entrevista à revista Caros Amigos que:
A polícia ocupa a favela quando há problema nos bairros ricos. Se o tiroteio é num morro da Tijuca, perto da casa de juízes, promotores e médicos, a polícia ocupa no dia seguinte. Se tem tiroteio no Pavãozinho, dá para ouvir no restaurante do hotel Othon, aí a polícia corre pra lá, dá no Jornal Nacional.
Agora, se tiver guerra entre o Juramento e Engenho da Rainha (em Inhaúma, Zona Norte do Rio), a polícia não ocupa nada (…). Não vale a pena combater o tráfico assim. A violência vem da miséria, eles estão vendendo cocaína para levantar dinheiro. Se não tivessem cocaína, iriam assaltar bancos. Se eu ocupar o morro da Providência com duzentos policiais durante um mês, todos aqueles bancos em volta vão ser assaltados, porque eles estão descapitalizados e precisam pagar dívidas.
(Depoimento recolhido por AMARAL, 2000, p. 21)
O sociólogo Luiz Eduardo Soares, em entrevista à mesma revista Caros Amigos, observou:
No morro, o que você tem? O varejo do tráfico. Aqueles meninos que, uma vez mortos, são substituídos como peça de reposição. Se você acha que entrando e invadindo o morro, fuzilando aqueles
meninos, está resolvendo alguma coisa, está completamente enganado. Porque esses meninos não têm poder nenhum: não são eles que falam inglês, que têm computador, que lavam dinheiro, que
negociam com o tráfico internacional. Em geral, o atacado está nas áreas nobres da cidade, se infiltrando cada vez mais nas instituições públicas...
(AMARAL, 2001, p.17)
Conceição Paganele, uma das fundadoras da AMAR – Associação de Mães e Amigos de Crianças e Adolescentes em Risco – e mãe de Cássio, que se tornou viciado em crack aos catorze anos, afirmou numa entrevista:
(...) os traficantes ou a quadrilha organizada, que se organizou justamente porque não tiveram outro meio, porque não lhes foi dada melhor oportunidade de vida, por isso se organizaram no mundo do crime, no mundo do tráfico, como aconteceu com meu jovem, que com 14 anos pegou a carteira profissional dele e foi procurar serviço. Bateu em muitas portas, o sonho dele era ser office-boy, ganhar os três primeiros salários e comprar tudo em roupa no shopping. E, como ele morava na cidade de Tiradentes, que é longe, e a escolaridade era 5ª série, ninguém lhe deu oportunidade, e aí veio a decepção das drogas, de ele ingressar nesse mundo.
(PAGANELE, 2002, p. 32)
Diante desses depoimentos e do que vimos neste capítulo até aqui, será que podemos concluir que “bandido bom é bandido morto”? De que “os meninos do tráfico estão nessa vida porque querem”? Afinal, quem são os verdadeiros responsáveis pela violência? Basta colocar policiamento ostensivo nas ruas para acabar com a criminalidade? Essas medidas podem excluir cada vez mais os pobres? Ou será que, como enfatiza o sociólogo Loïc Wacquant, grande parte da classe trabalhadora, “excluída” pelo neoliberalismo, é entregue ao seu próprio destino, vivendo da economia de pilhagem das ruas, cada vez mais dominadas por atividades criminosas controladas por poderosas redes internacionais?
Na falta de um instrumento de ação para dar voz a uma necessidade de sobrevivência em uma linguagem compreensível aos políticos e dirigentes do Estado, o que resta aos jovens das grandes cidades senão tomar as ruas?
Um jovem amotinado de Bristol (Inglaterra) desabafa:
Não tenho emprego, nunca vou ter. Ninguém quer nos ajudar a sair desta (...). Se o governo pode gastar tanto dinheiro para construir um submarino nuclear, por que não para gastar conosco? Se brigar com a polícia é a única forma de ser ouvido, então vamos brigar com eles.
(WACQUANT, 2001, p. 34)
O problema da violência, como tentamos descrever, não se limita a questões de ordem pessoal (como o “caráter” dos criminosos) ou a falta de maior repressão por parte do Estado. Ela deve ser analisada, do ponto de vista sociológico, na complexa rede de relações sociais existentes nas sociedades, dos interesses de grupos e classes sociais e das desigualdades sociais. E para se combater esta realidade cada vez mais dramática, que alguns autores chamam de barbárie, a Sociologia deve dar uma contribuição fundamental, com seus instrumentos de análise e suas teorias.