PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
Neste texto, Umberto Eco aponta importantes aspectos do papel cultural de Tomás de Aquino, empenhado em conciliar o cristianismo com uma visão mais racional do mundo. leia-o e responda às questões.
O papel de santo Tomás de Aquino
a oposição Céu e terra
Platão e Agostinho tinham dito tudo o que era necessário para compreender os problemas da alma, mas quando se tratava de saber o que seja uma flor ou o nó nas tripas que os médicos de Salerno exploravam na barriga de um doente, e por que era saudável respirar ar fresco numa noite de primavera, as coisas se tornavam obscuras. Tanto que era melhor conhecer as flores nas iluminuras dos visionários, ignorar que existiam tripas, e considerar as noites de primavera uma perigosa tentação. Desse modo dividia-se a cultura europeia, quando se entendia o céu, não se entendia a terra. Se alguém ainda quisesse entender a terra deixando de lado o céu, a coisa ia mal. [...]
Cristianizar Aristóteles
A essa altura os homens da razão aprendem dos árabes que há um antigo mestre (um grego) que poderia fornecer uma chave para unificar esses membros esparsos da cultura: Aristóteles. Aristóteles sabia falar de Deus, mas classificava os animais e as pedras, e se ocupava com o movimento dos astros. Aristóteles sabia lógica, preocupava-se com psicologia, falava de física, classificava os sistemas políticos. [...]
Tomás não era nem herege nem revolucionário. Tem sido chamado de “concordista”. Para ele tratava-se de afinar aquela que era a nova ciência com a ciência da revelação, e de mudar tudo para que nada mudasse.
Mas nesse plano ele aplica um extraordinário bom senso e (mestre em sutilezas teológicas) uma grande aderência à realidade natural e ao equilíbrio terreno. Fique claro que Tomás não aristoteliza o cristianismo, mas cristianiza Aristóteles. Fique claro que nunca pensou que com a razão se pudesse entender tudo, mas que tudo se compreende pela fé: só quis dizer que a fé não estava em desacordo com a razão, e que, portanto, era até possível dar-se ao luxo de raciocinar, saindo do universo da alucinação. E assim compreende-se por que na arquitetura de suas obras os capítulos principais falam apenas de Deus, dos anjos, da alma, da virtude, da vida eterna: mas no interior desses capítulos tudo encontra um lugar, mais que racional, “razoável”. [...]
A fé guiava o caminho da razão
Não se esqueça de que antes dele, quando se estudava o texto de um autor antigo, o comentador ou o copista, quando encontravam algo que não concordava com a religião revelada, ou apagavam as frases “errôneas” ou as assinalavam em sentido dubitativo, para pôr em guarda o leitor, ou as deslocavam para a margem. O que faz Tomás, por sua vez? Alinha as opiniões divergentes, esclarece o sentido de cada uma, questiona tudo, até o dado da revelação, enumera as objeções possíveis, tenta a mediação final. Tudo deve ser feito em público, como pública era justamente a disputatio na sua época: entra em função o tribunal da razão.
Que depois, lendo com atenção, se descubra que em cada caso o dado de fé acabava prevalecendo sobre qualquer outra coisa e guiava o deslindar da questão, ou seja, que Deus e a verdade revelada precediam e guiavam o movimento da razão laica, isso foi esclarecido pelos mais agudos e aficionados estudiosos tomistas, como Gilson. Nunca ninguém disse que Tomás era um Galileu. Tomás simplesmente fornece à Igreja um sistema doutrinário que a concilia com o mundo natural. [...] Antes dele se afirmava que “o espírito de Cristo não reina onde vive o espírito de Aristóteles”, em 1210 estão ainda proibidos os livros de filosofia natural do filósofo grego, e as proibições continuam nas décadas seguintes enquanto Tomás manda traduzir esses textos por seus colaboradores e os comenta. Mas em 1255 toda a obra de Aristóteles está liberada.
Eco, Viagem na irrealidade cotidiana, p. 335-336 e 339-340; intertítulos nossos.
ATIVIDADE SOBRE O TEXTO
1. Segundo o escritor, linguista e filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016), na cultura medieval europeia, antes dos estudos aristotélicos, “quando se entendia o céu, não se entendia a terra”. interprete o significado dessa afirmação.
2. Qual foi a importância da redescoberta da filosofia de Aristóteles para o pensamento medieval, segundo Eco? Justifique.
3. Enumere os méritos de Tomás de Aquino apontados pelo autor do texto. Depois destaque aquele que você considera o de maior valor. Justifique sua escolha.
I. RESPONDA EM SEU CADERNO:
Leia com atenção este texto do bispo São Gregório de tours (século Vi), que se dispôs a escrever uma história dos francos: Os povos se enfureceram selvagemente; a fúria dos reis cresceu; igrejas foram assaltadas pelos heréticos e defendidas pelos católicos. No entanto, nesses tempos em que o estudo das letras declinou e desapareceu nas cidades da Gália, não mais se encontram estudiosos da literatura para descrever os acontecimentos dessa época. Por isso, procurei escrever para as gerações futuras a memória do passado.” (História dos francos, prefácio; tradução nossa.) agora, responda:
a) A quais acontecimentos históricos o texto se refere?
b) Nesse contexto histórico, qual o papel desempenhado pela igreja no plano cultural?
Disserte sobre as origens e a construção da doutrina cristã.
“toda verdade, dita por quem quer que seja, é do Espírito Santo.” interprete essa frase de Santo Ambrósio. Em que contexto ela surgiu e como essa concepção afetou a investigação filosófica? 4. Karl Jaspers batizou a época em que surgiu a filosofia de era axial. que razões o levaram a isso?
II. RESPONDA EM SEU CADERNO:
CRER E ENTENDER
Os pensadores cristãos confrontaram frequentemente fé e razão, cada um à sua maneira. Santo Anselmo (1035-1109), por exemplo, dizia: “não busco compreender para crer, mas creio para compreender. Por isso creio, porque, se não cresse, jamais compreenderia”. Santo agostinho, por sua vez, foi mais enfático: “É necessário crer para compreender”.
Como é para você? Você precisa primeiro acreditar em alguma coisa ou ideia para conseguir entendê-la ou necessita compreendê-la antes para poder acreditar nela? reflita primeiro sobre a diferença entre crer e entender. Depois discuta com colegas sobre as conclusões a que chegaram.
III. RESPONDA EM SEU CADERNO:
DEUS E FILOSOFIA
Um filósofo não cristão, o britânico Bertrand Russell (1872-1970), questionou os méritos de Tomás de Aquino, considerando-os insuficientes para justificar sua imensa reputação. Para Russell: Há pouco do verdadeiro espírito filosófico em Aquino [...]. Não está empenhado numa pesquisa cujo resultado não possa ser conhecido de antemão. Antes de começar a filosofar, ele já conhece a verdade; está declarada na fé católica. Se, aparentemente, consegue encontrar argumentos racionais para algumas partes da fé, tanto melhor; se não, basta-lhe voltar de novo à revelação. A descoberta de argumentos para uma conclusão dada de antemão não é filosofia, mas uma alegação especial. Não posso, portanto, admitir que mereça ser colocado no mesmo nível que os melhores filósofos da Grécia ou dos tempos modernos. (História da filosofia ocidental, v. 2, p. 174.)
Discuta a crítica de Bertrand Russell a Tomás de Aquino. Para você, ela é válida? Justifique.