PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
TEXTO - 1
A HERANÇA INTELECTUAL DA SOCIOLOGIA
Florestan Fernandes
A Sociologia não se limita ao estudo das condições de existência social dos seres humanos. Todavia, essa constitui a porção mais fascinante ou importante de seu objeto e aquela que alimentou a própria preocupação de aplicar o ponto de vista científico à observação e à explicação dos fenômenos sociais. Ora, ao se falar do homem como objeto de indagações específicas do pensamento, é impossível fixar, com exatidão, onde tais indagações se iniciam e quais são os seus limites. Pode-se, no máximo, dizer que essas indagações começam a adquirir consistência científica no mundo moderno, graças à extensão dos princípios e do método da ciência à investigação das condições de existência social dos seres humanos. Sob outros aspectos, já se disse que o homem sempre foi o principal objeto da curiosidade humana. Atrás do mito da Religião ou da Filosofia sempre se acha um agente humano, que se preocupa, fundamental e primariamente, com questões relativas à origem, à vida e ao destino de seus semelhantes.
Por isso, seria em vão e improfícuo separar a Sociologia das condições histórico-sociais de existência, nas quais ela se tornou intelectualmente possível e necessária. A Sociologia não se afirma primeiro como explicação científica e, somente depois, como forma cultural de concepção do mundo. Foi o inverso o que se deu na realidade. Ela nasce e se desenvolve como um dos florescimentos intelectuais mais complicados das situações de existência nas modernas sociedades industriais e de classes. E seu progresso, lento mas contínuo, no sentido do saber científico positivo, também se faz sob a pressão das exigências dessas situações de existência, que impuseram tanto ao pensamento prático quanto ao pensamento teórico, tarefas demasiado complexas para as formas pré-científicas de conhecimento.
Daí a posição peculiar da Sociologia na formação intelectual do mundo moderno. Os pioneiros e fundadores dessa disciplina se caracterizam menos pelo exercício de atividades intelectuais socialmente diferenciadas, que pela participação mais ou menos ativa das grandes correntes de opinião dominantes na época, seja no terreno da reflexão ou da propagação de ideias, seja no terreno da ação.
Florestan Fernandes (1920-1995) foi Professor da Universidade de São Paulo e é considerado um dos maiores sociólogos brasileiros. O texto acima é um fragmento retirado de sua obra Ensaios de Sociologia geral e aplicada. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1960, p. 273.
Com base na leitura, responda:
– Segundo Florestan Fernandes, de que forma o conhecimento sobre as sociedades pôde ser entendido como possível sob o ponto de vista científico?
– Qual é a importância da Sociologia para a formação
intelectual do mundo moderno?
TEXTO - 2
Debatendo uma questão atual
PROIBIDO PELA ANVISA EM 2009, CIGARRO
ELETRÔNICO VOLTA À CENA E GERA
CURIOSIDADE NOS CONSUMIDORES
Viviane Nogueira
Leonardo DiCaprio fuma. Os atores Robert Pattinson e Dennis Quaid também. No Brasil, mesmo com a comercialização proibida pela Anvisa desde 2009, os cigarros eletrônicos voltaram a aparecer. Por aqui usar pode, vender não. Mas na internet a oferta do produto é alta, variada e facilitada. E, sendo assim, o número de usuários vai aumentando, por razões que vão de curiosidade à tentativa de largar o cigarro, mesmo que os médicos especialistas em dependência de tabaco rejeitem esta possibilidade. Somente nos EUA, existem hoje 400 marcas diferentes de cigarros eletrônicos.
– Experimentei para tentar parar de fumar, o gosto é bom e dá um certo prazer. Mas tem que fazer muita força para inalar, a bateria descarrega rápido, achei complicado e voltei para o cigarro – conta a vendedora Núbia Heckert, fumante há mais de 20 anos que já tentou usar o adesivo de nicotina mas teve taquicardia.
Às vezes, quando fica sem cigarro, ela volta a usar o dispositivo chinês, comprado na internet há seis meses.
A proibição da Anvisa, baseada na legislação sanitária que exige comprovação de segurança e eficácia do produto (seja na redução de dano, seja no tratamento do tabagismo), não serve para coibir a venda. [...]
- Temos outras situações como esta, como a venda de complementos alimentares na internet em que atuamos em conjunto com a Polícia Federal, mas não há muito o que possamos fazer – afirma o diretor de monitoramento e controle sanitário da agência, Agenor Álvares.
Do ponto de vista médico não há recomendação. Segundo a pneumologista e psiquiatra Alessandra A. da Costa, do setor de drogas lícitas do Departamento de Psiquiatria da UERJ, os poucos estudos que existem sobre o tema apontam irritação na mucosa pulmonar causada pelo cigarro eletrônico.
A FDA, agência americana que regulamenta alimentos e medicamentos, encontrou nos cartuchos, além da nicotina, as substâncias nitrosamina e dietileno glicol, cancerígenas e causadoras de dependência química.
– A primeira coisa que o médico que trata de dependentes de cigarro faz é quebrar o tripé de dependência: química, psicológica e o hábito – explica. – O e-cigarro não colabora com isso porque induz ao mesmo gestual comportamental. Além disso, tem nicotina, mesmo que se reduza o nível, os cartuchos não são padronizados – diz a médica. [...]
Para o cardiologista Marcelo Montera, coordenador do Centro de Insuficiência Cardiaca do Hospital Pró-Cardiaco, só a proibição da Anvisa e a contraindicação do uso terapêutico recomentado pela FDA e Organização Mundial da Saúde sobre o produto seriam insuficientes para encerrar a questão.
- Você tomaria uma Coca-Cola que não fosse testada? Pois é isso que as pessoas fazem com o cigarro eletrônico. Há indicadores de que o produto estimula o vício e n~]ao há literatura científica sobre a diminuição de caso de câncer ou dependência – adverte. Outro problema, segundo ele, é a falta de comprovação de segurança:
- Não é porque não tem alcatrão e outros elementos que o cigarro eletrônico é mais seguro; se o cigarro normal tem 60 elementos comprovadamente cancerígenos, este tem cinco potencialmente cancerígenos. As pessoas se enganam achando que podem consumir porque são as mesmas substâncias presentes em alimentos. Uma coisa é comer, a outra é inalar – diz.
Ao contrário da maioria dos casos, o produtor Júlio Cunha conseguiu reduzir o nível de nicotina usando o cigarro eletrônico. Há um ano, começou com a carga de 18mg por ml, e hoje está na de 12 mg por ml.
- O meu é americano, garantido pela FDA e para mim é um invento fabuloso. Meu achou ótimo quando me viu trocar dois maços por esse cartucho. A vantagem é que o cigarro eletrônico você pode dar um trago e colocar no bolso, o outro você acende e tem que fumar até o final – diz ele, que comemora a troca do que chama de cigarro analógico, e conta que pretende reduzir a carga para 6mg por ml em três meses.
(Matéria publicada em O Globo, 27/01/2013, p. 43)
– O texto acima, fragmento de uma matéria publicada na imprensa, é uma “atualização” de exemplo citado no Capítulo 1 a respeito da compreensão sobre a importância do conhecimento sociológico para o entendimento da realidade.
A partir da leitura, esclareça de que forma o conhecimento sociológico nos ajuda a compreender o uso do cigarro e o vício que ele provoca.