PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
O TRABALHO
As respigadeiras (1857) – Jean-François Millet, óleo sobre tela. Em uma ação coordenada, camponesas recolhem os restos da colheita, realizando um objetivo compartilhado.
QUESTIONAMENTO INICIAL
Que ideia do trabalho você forma a partir dessa imagem?
O TRABALHO
Continuando nossa investigação sobre o ser humano e sua relação com o mundo, focalizaremos agora o trabalho – essa atividade básica e essencial, que coloca nossa espécie, de maneira clara e definida, no universo da sociedade e da cultura.
QUESTÕES FILOSÓFICAS
O que é o trabalho?
O que é alienação?
O trabalho dignifica ou escraviza o ser humano?
CONCEITOS-CHAVE
trabalho, natureza, cultura, exploração do trabalhador, alienação, trabalho alienado, consumo alienado, lazer alienado, status, fetiche, neofilia, sociedade do tempo livre, sociedade do desemprego, ócio criativo
TRABALHO: CARACTERÍSTICAS E HISTÓRIA
Todo mundo trabalha, trabalhou ou vai trabalhar um dia. Portanto, o trabalho é mais uma dessas coisas banais que todos conhecemos. Geralmente relacionamos trabalho com emprego e remuneração (dinheiro). Mas você já parou alguma vez para compreender o que é essencialmente o trabalho e qual é a sua função?
Iniciemos nossa investigação a esse respeito buscando uma definição genérica e contemporânea. Podemos dizer que trabalho é toda atividade na qual o ser humano utiliza suas energias para satisfazer uma necessidade ou atingir determinado objetivo, individual ou coletivo. A palavra energia (do grego en, “dentro”, e érgon, “obra, ação”) tem, aqui, o sentido básico de uma capacidade para realizar uma obra, uma ação – enfim, um trabalho. Por intermédio da atividade laboral, o ser humano acrescenta um mundo novo – a cultura – ao mundo natural já existente (como vimos no capítulo 7). Por isso, o trabalho é elemento essencial da relação dialética entre ser humano e natureza, saber e fazer, teoria e prática, conforme ficará mais claro adiante.
Na análise de um dos principais teóricos do tema que estamos examinando, o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), o trabalho é uma atividade tipicamente humana, pois implica a existência de um projeto mental que modela uma conduta a ser desenvolvida para se alcançar um objetivo.
O artista tcheco Radovan Zivny esculpe em areia o personagem Gollum, de O senhor dos anéis.
Como diz Marx, em O capital, o ser humano não apenas transforma o material em que trabalha, mas também realiza, nesse material, o projeto que trazia em sua consciência. será isso o que nos diferencia dos outros animais?
Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um ato fortuito. Além do esforço dos órgãos que trabalham, é mister a vontade adequada que se manifesta através da atenção durante todo o curso do trabalho. (Marx, O capital, seção III, cap. V.)
PAPÉIS DO TRABALHO
Pensemos agora sobre o papel do trabalho. Para que serve o trabalho? Qual é sua função?
Podemos dizer que, em termos individuais, o trabalho permite ao ser humano expandir suas energias, desenvolver sua criatividade e realizar suas potencialidades. assim, pelo trabalho, enquanto o indivíduo molda a realidade, ele também se expressa e transforma a si próprio.
Já em termos sociais, entendido como o esforço conjunto dos membros de uma comunidade, o trabalho cumpre a função última de manutenção e satisfação da vida e de desenvolvimento da coletividade. Assim, em resumo, podemos dizer que o trabalho tem esse poder de promover a realização individual, a edificação da cultura e a concretização da solidariedade entre as pessoas.
Mas não será essa uma visão muito positiva e ideal do trabalho? se você está com essa dúvida, tem toda razão, pois nem sempre a realidade é assim. apesar de se constituir em uma categoria central da existência para a expressão de nossas potencialidades, o trabalho muitas vezes não cumpre sua função libertadora, tornando-se uma verdadeira prisão. é o que observamos com frequência em nosso cotidiano. Por que isso ocorre?
Na interpretação de Marx, ao longo da história, a dominação de uma classe social sobre outra desviou o trabalho de sua função positiva. Em vez de servir ao bem comum, o trabalho passou a ser utilizado para o enriquecimento de alguns. de ato de criação virou rotina de reprodução. de recompensa pela liberdade transformou-se em castigo. Enfim, em vez de constituir um elemento de realização de nossas potencialidades, converteu-se em instrumento de alienação (conceito que estudaremos neste capítulo).
É interessante ressaltar que, segundo grande parte dos etimologistas, o termo trabalho vem do latim tripalium, nome de um instrumento constituído de três paus e que era utilizado antigamente em diversas tarefas no campo e na cidade, mas que também foi usado para sujeitar e torturar pessoas. Como veremos mais adiante, não há exagero em afirmar que, em diversas situações sociais, o trabalho atuou e atua de maneira semelhante, servindo para torturar e triturar o trabalhador.
TRABALHO NA HISTÓRIA
No decorrer da história das diferentes sociedades, houve muitas maneiras de conceber e organizar o trabalho. Vejamos algumas delas.
PRÉ-HISTÓRIA
De acordo com antropólogos, a primeira divisão de trabalho teria se dado entre homens e mulheres. determinadas tarefas, como caçar, guerrear, garantir a proteção do grupo, eram reservadas aos homens, enquanto os trabalhos domésticos e os cuidados com os filhos destinavam-se às mulheres. Além do gênero, levava-se em conta também a idade e a força física de cada indivíduo.
Nas comunidades em que a sobrevivência dependia da caça e da coleta, ocorriam migrações quando as reservas naturais de uma região tornavam-se insuficientes para o grupo. Por isso essas comunidades eram nômades (sem habitação fixa). Quando os grupos humanos desenvolveram a criação de animais e a agricultura, no período neolítico, surgiram as comunidades sedentárias (com habitações fixas). sua capacidade de produzir alimentos em quantidade maior do que a necessária para o consumo imediato possibilitava a troca de produtos com as aldeias vizinhas. Vemos, portanto, como a organização desses primeiros grupos humanos se modificava conforme mudavam suas habilidades produtivas e suas forças de trabalho.
ANTIGUIDADE
Durante a antiguidade, o trabalho manual passou a ser considerado, em várias sociedades, como uma atividade menor, desprezível, que pouco se diferenciava da atividade animal. Valorizava-se o trabalho intelectual, próprio dos homens que podiam se dedicar à cidadania, ao ócio, à contemplação e à teoria. nesse sentido, o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) dizia:
A utilidade do escravo é semelhante à do animal. Ambos prestam serviços corporais para atender às necessidades da vida. A natureza faz o corpo do escravo e do homem livre de forma diferente. O escravo tem corpo forte, adaptado naturalmente ao trabalho servil. Já o homem livre tem corpo ereto, inadequado ao trabalho braçal, porém apto para a vida do cidadão. [...] Os cidadãos não devem viver uma vida de trabalho trivial ou de negócios (estes tipos de vida são ignóbeis e incompatíveis com as qualidades morais); tampouco devem ser agricultores os aspirantes à cidadania, pois o lazer (ócio) é indispensável ao desenvolvimento das qualidades morais e à prática das atividades políticas. (arIstÓteLes, Política, cap. II, 12546b, e cap. VIII, 1329a.)
Placa, feita em mármore, de uma oficina de metalurgia do cobre da cidade de Pompeia, na Roma antiga (c. século i). desde a antiguidade, já havia nas sociedades uma divisão do trabalho baseada na especialização de funções: metalúrgicos, ceramistas, vidraceiros, agricultores, pastores, sacerdotes, soldados etc. (Museo arqueológico nacional, Nápoles, Itália.)
IDADE MÉDIA
Em muitas sociedades da Europa ocidental, a concepção anterior de trabalho não se alterou substancialmente durante a idade Média. O trabalho intelectual ainda era o mais valorizado.
A novidade estava em que, de acordo com o cristianismo medieval, o trabalho passou a ser visto como uma forma de sofrimento que serviria de provação e fortalecimento do espírito para alcançar o reino celestial. Assim, Santo Tomás de Aquino (1221-1274), teólogo e filósofo cristão, referia-se ao trabalho como um “bem árduo”, por meio do qual cada indivíduo se tornaria um ser humano melhor.
Calendário com doze cenas das atividades laborais que se realizavam mês a mês ao longo do ano durante a idade Média (c. 1460) – Pietro de Crescenzi, Escola Francesa. relacionado com a vida rural, esse calendário revela como a organização do trabalho estava vinculada aos ciclos naturais e às estações do ano no hemisfério norte.
Você consegue identificar cada tarefa com o mês correspondente e justificá-la?
IDADE MODERNA
A concepção católica sobre o trabalho sofreu contestação significativa desde a ascensão social da burguesia, na Europa ocidental, a partir do século XVi. nesse período desenvolveu-se, no campo religioso, o protestantismo. O trabalho foi revalorizado, passando a enfatizar-se o sucesso econômico (interpretado agora como um sinal da bênção de deus). de acordo com certa ética protestante (as vertentes calvinistas), o ser humano deveria viver uma vida ativa e lucrativa, pautada pelo trabalho.
Como analisou o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) em sua obra A ética protestante e o “espírito” do capitalismo, haveria inclusive uma relação entre essa ética – que valoriza o trabalho e a busca da riqueza – e o desenvolvimento do capitalismo nos países onde predominava o protestantismo. Mas esse sentido do trabalho ficou restrito às classes que conseguiram acumular capital e investir nas atividades produtivas.
O cambista e sua mulher (1514) – Quentin Metsys, óleo sobre madeira. Casal compartilha momento juntos, cada qual em sua tarefa. Ela, com a mão sobre o livro de orações, interrompe sua leitura para observar o marido negociante, que examina o fiel da balança. Como podemos interpretar: contraposição ou união entre o sagrado (a fé) e o profano (o comércio)?
IDADE CONTEMPORÂNEA
Já no século XIX, o filósofo alemão Friedrich Hegel definiu o trabalho como elemento de autoconstrução do ser humano. Ele destaca, assim, o aspecto positivo do trabalho que mencionamos antes, isto é, o fato de o indivíduo não apenas se formar e se aperfeiçoar por meio do trabalho, mas também se libertar pelo domínio que exerce sobre a natureza.
Karl Marx, por sua vez, embora igualmente enfatize esse aspecto fundamental do trabalho, analisou o papel negativo que ele adquiriu nas sociedades capitalistas. Para Marx, a suposta liberdade do trabalhador se viu abalada quando ele foi destituído dos meios de produção e, sem outra opção para sobreviver, encontrou-se obrigado a vender sua força de trabalho para quem detém os meios de explorá-la.
Marx destacou também as condições degradantes a que os trabalhadores tiveram de se submeter no sistema da produção capitalista, apontando seus efeitos danosos sobre os indivíduos. Entre outros, distingue-se o processo de alienação, nosso tópico seguinte.
Tecelagem em Hjula (1887-1888) – Wilhelm Peters, óleo sobre tela. Observe que o trabalho dessas tecelãs norueguesas, na localidade de Oslo, ainda era bastante manufatureiro (manual e pouco mecanizado) no final do século XIX. Três gerações femininas, provavelmente de uma mesma família, se apoiam nas tarefas.
2. ALIENAÇÃO: A PESSOA ALHEITA A SI MESMA
A palavra alienação vem do latim alienare, “tornar algo alheio a alguém”, isto é, “tornar algo pertencente a outro”. Hoje, esse termo é usado em diferentes contextos com significações distintas:
• em direito – designa a transferência da propriedade de um bem a outra pessoa. nesse sentido, costuma-se dizer que “os bens do devedor foram alienados”;
• em psicologia – refere-se ao estado patológico do indivíduo que se tornou alheio a si próprio, sentindo-se como um estranho, sem contato consigo mesmo ou com o meio social em que vive;
• na linguagem filosófica contemporânea – corresponde ao processo pelo qual os atos de uma pessoa são dirigidos ou influenciados por outros e se transformam em uma força estranha colocada em posição superior e contrária a quem a produziu. nesta acepção, a palavra deve muito de seu uso a Karl Marx.
O termo alienação foi utilizado inicialmente por Hegel para designar o processo pelo qual os indivíduos colocam suas potencialidades nos objetos por eles criados. significaria, assim, uma exteriorização da criatividade humana, de sua capacidade de construir obras no mundo. nesse sentido, o mundo da cultura seria uma alienação do espírito humano, uma criação do indivíduo, que nela se reconheceria.
Diferentemente de Hegel, Marx identificou dois momentos distintos nesse processo de exteriorização da criatividade:
• objetivação – primeiro momento, que se refere especificamente à capacidade da pessoa de se objetivar, de se exteriorizar nos objetos e nas coisas que cria, o que é algo próprio do saber-fazer humano;
• alienação – segundo momento, aquele em que o indivíduo, principalmente no capitalismo, após transferir suas potencialidades para seus produtos, deixa de identificá-los como obra sua. Os produtos “não pertencem” mais a quem os produziu. Com isso, são “estranhos” a ele, seja no plano psicológico, econômico ou social.
Na sociedade contemporânea, o processo de alienação atinge múltiplos campos da vida humana, impregnando as relações das pessoas com o trabalho, o consumo, o lazer, seus semelhantes e consigo mesmas. Vejamos alguns aspectos dessas relações alienadas, seguindo, em linhas gerais, a análise do psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980) em Psicanálise da sociedade contemporânea (p. 128-147).
Velho homem com a cabeça em suas mãos (No limiar da eternidade) (1890) – Vincent van Gogh, óleo sobre tela. na alienação, a pessoa perde contato consigo mesma, com sua identidade e seu valor. só lhe resta a sensação de vazio existencial.
TRABALHO ALIENADO
Nas sociedades atuais observa-se que a produção econômica transformou-se no objetivo imposto às pessoas, isto é, não são as pessoas o objetivo da produção, mas a produção em si. nas palavras do filósofo francês contemporâneo Luc Ferry (1951-):
[…] a economia moderna funciona como a seleção natural em Darwin: de acordo com uma lógica de competição globalizada, uma empresa que não progrida todos os dias é uma empresa simplesmente destinada à morte. Mas o progresso não tem outro fim além de si mesmo, ele não visa a nada além de se manter no páreo com outros concorrentes. (Ferry, Aprender a viver – filosofia para os novos tempos, p. 247.)
Essa mentalidade desenvolveu-se desde o século XVIII, quando teve início a industrialização da economia. Esse processo significou não apenas a introdução de máquinas na produção econômica, mas também estabeleceu novas formas de organizar o trabalho seguindo a lógica de lucro, de tal maneira que as relações sociais passaram a ser regidas pela economia, e não o contrário.
Essa tendência acentuou-se a partir do século XIX, quando o trabalho na maioria das indústrias tornou-se cada vez mais rotineiro, mecânico, automatizado e especializado, subdividido em múltiplas operações. Os empresários industriais visavam, com isso, economizar tempo e aumentar a produtividade.
Como exemplificou o economista escocês Adam Smith (1723-1790), na fabricação de alfinetes, um operário puxava o arame, outro o endireitava, um terceiro o cortava, um quarto o afiava, um quinto o esmerilhava na outra extremidade para a colocação da cabeça, um sexto colocava a cabeça e um sétimo dava o polimento final.
Essa forma de organização do trabalho em linhas de operação e montagem foi, posteriormente, aperfeiçoada pelo engenheiro e economista estadunidense Frederick Taylor (1856-1915), cujo método ficou conhecido como taylorismo. a principal consequência do taylorismo é que a fragmentação do trabalho conduz a uma fragmentação do saber, pois o trabalhador perde a noção de conjunto do processo produtivo.
Essa forma de organização do trabalho – que conduz ao trabalho alienado – ainda pode ser observada em muitas empresas, onde o funcionário se restringe ao cumprimento de ordens relativas à qualidade e à quantidade da produção. sempre repetindo as mesmas operações mecânicas, ele produz bens estranhos à sua pessoa, a seus desejos e suas necessidades.
Além disso, ao executar a rotina do trabalho alienado, o trabalhador submete-se a um sistema que, em grande parte, não lhe permite desfrutar financeiramente os benefícios de sua própria atividade, pois a meta é produzir para satisfazer as necessidades do mercado e não propriamente do trabalhador. Fabricam-se, por exemplo, coisas maravilhosas para uma elite econômica, enquanto aqueles que as produzem mantêm-se modesta ou miseravelmente. Produz-se “inteligência”, mas também a estupidez e o bitolamento nos trabalhadores. Enfim, o trabalho alienado costuma ser marcado pelo desprazer, pelo embrutecimento e pela exploração do trabalhador. Vejamos como Marx, em Manuscritos econômico-filosóficos, descreveu esse processo:
Primeiramente, o trabalho alienado se apresenta como algo externo ao trabalhador, algo que não faz parte de sua personalidade. Assim, o trabalhador não se realiza em seu trabalho, mas nega-se a si mesmo. Permanece no local de trabalho com uma sensação de sofrimento em vez de bem-estar, com um sentimento de bloqueio de suas energias físicas e mentais que provoca cansaço físico e depressão. Nessa situação, o trabalhador só se sente feliz em seus dias de folga enquanto no trabalho permanece aborrecido. Seu trabalho não é voluntário, mas imposto e forçado. O caráter alienado desse trabalho é facilmente atestado pelo fato de ser evitado como uma praga; só é realizado à base de imposição. Afinal, o trabalho alienado é um trabalho de sacrifício, de mortificação. É um trabalho que não pertence ao trabalhador, mas sim à outra pessoa que dirige a produção. (Primeiro manuscrito, XXIII.)
Cena do filme Tempos modernos (1936).
Nela vemos o trabalhador participando das engrenagens da fábrica e, aos poucos, sendo “engolido” por elas.
Pessoas trabalham em linha de produção de frigorífico em são Paulo.
A rotina e a taylorização podem empobrecer o envolvimento afetivo e intelectual do indivíduo com seu trabalho.
MERCADO DE PERSONALIDADES
Atingido pela alienação, o ser humano perde contato com seu eu genuíno, com sua individualidade. Transformado em mercadoria, como observou Fromm, o trabalhador sente-se como uma “coisa” que precisa alcançar sucesso no “mercado de personalidades” – sucesso financeiro, profissional, intelectual, social, sexual, político, esportivo etc. O tipo de sucesso perseguido depende do mercado no qual a pessoa quer “vender” sua personalidade.
Como o homem moderno se sente ao mesmo tempo como o vendedor e a mercadoria a ser vendida no mercado, sua autoestima depende de condições que escapam a seu controle. Se ele tiver sucesso, será “valioso”; se não, imprestável. O grau de insegurança daí resultante dificilmente poderá ser exagerado. (FroMM, Análise do homem, p. 73.)
Dominado por essa orientação mercantil alienante, conforme definição de Fromm, o indivíduo não mais se identifica com o que é, sabe ou faz. Para ele, não conta sua realização íntima e pessoal, apenas o sucesso em vender socialmente suas qualidades.
Tanto suas forças quanto o que elas criam se afastam, tornam-se algo diferente de si, algo para os outros julgarem e usarem; assim, sua sensação de identidade torna-se tão frágil quanto sua autoestima, sendo constituída do total de papéis que ele pode desempenhar: “Eu sou como você quer que eu seja”. (Análise do homem, p. 74.)
As relações sociais também ficam seriamente comprometidas. Cada pessoa vê a outra segundo critérios e valores definidos pelo “mercado de personalidades”. O outro passa a valer também como um objeto, uma mercadoria.
Um dos princípios que orientam as relações alienadas nas sociedades contemporâneas pode ser traduzido nestas palavras: “não se envolva com a vida interior de ninguém”. Esse não envolvimento pode levar a situações extremas de ausência de solidariedade social.
CONSUMO ALIENADO
Como podemos definir o termo consumo? Consumir significa utilizar, gastar, dar fim a algo, para alcançar determinado objetivo.
O ser humano necessita de objetos exteriores para a sua sobrevivência e realização. Por isso, os indivíduos produzem, em sociedade, os objetos para seu consumo.
E o que seria consumo alienado? antes de refletirmos sobre esse conceito, consideremos o brutal abismo socioeconômico que separa ricos e pobres no mundo inteiro.
Os 2,5 bilhões de indivíduos mais pobres – ou seja, 40% da população mundial – detêm 5% da renda global, ao passo que os 10% mais ricos controlam 54%. Um a cada dois indivíduos vive com menos de 2 dólares por dia (patamar de pobreza) e um a cada cinco, com menos de 1 dólar por dia (patamar de pobreza absoluta). (DuranD e outros, Atlas da mundialização, p. 32.)
Essa informação nos mostra que, enquanto boa parte da humanidade enfrenta o drama agudo da fome, da falta de moradia, do desamparo à saúde e à educação, sem o mínimo necessário para sobreviver, uma minoria pode se dar ao luxo de consumir quase tudo e esbanjar o supérfluo. É aí que entra, como veremos, o conceito de consumo alienado, fenômeno que ocorre principalmente entre a parcela da população de bom poder aquisitivo, já que não tem muito sentido falarmos em consumo alienado entre a multidão de famintos, esmagada pela miséria.
RELAÇÃO PRODUÇÃO-CONSUMO
Karl Marx observou que produção é ao mesmo tempo consumo, pois, quando o trabalhador produz algo, além de consumir matéria-prima e os próprios instrumentos de produção, que se desgastam ao serem utilizados, ele também consome suas forças vitais nesse trabalho.
Por outro lado, completa Marx, consumo é também produção, pois os homens se produzem através do consumo. isso se verifica de forma mais imediata na nutrição, processo vital pelo qual consumimos alimentos para “produzir” nosso corpo. Porém, o consumo nos produz não apenas no plano físico, mas também nos aspectos intelectual e emocional, como ser total.
Há, portanto, uma relação dialética entre consumo e produção. isso fica ainda mais evidente quando se considera que a produção cria não só bens materiais e não materiais, mas também o consumidor para esses bens. Ou seja, quando se produz algo, é preciso que alguém consuma essa produção. Temos, então, a tríade produção-consumo-consumidor.
Por isso, a publicidade (divulgação de produtos nas diversas mídias, como jornal, TV, internet, volantes etc.) é elemento fundamental das sociedades capitalistas, uma vez que é por meio dela que se impulsiona nos indivíduos a necessidade de consumir mercadorias. E aí começa uma “roda- -viva”: a produção abre a possibilidade do consumo, o consumo cria a necessidade de mais produção, e assim por diante. Essa dupla criação de necessidades (a produção criando o consumo e o consumo criando a produção) gera a “reprodução” do sistema capitalista.
Às 5 horas da manhã em pleno inverno nova-iorquino, consumidores acotovelam-se às portas de uma loja de departamentos para entrar na frente dos outros e aproveitar as ofertas antes que acabem. no universo do consumismo, possuir a coleção de roupas recém-lançada, as inovações em informática, os eletrodomésticos de última geração e o mais novo modelo de carro constitui um sinal infalível de status. O desejo de ter substitui o vazio do ser. assim, multidões lotam os grandes shopping centers das cidades. E uma grande angústia surge quando comprar não é possível.
CONSUMO E STATUS
Mas onde está a alienação no consumo? ainda precisamos dar mais alguns passos. se entendemos que os indivíduos se formam interagindo com o mundo objetivo, consumir significa participar de um patrimônio construído pela sociedade. assim, além de atender às necessidades individuais, o consumo expressaria também a forma pela qual o indivíduo está integrado à sociedade.
No entanto, nas sociedades contemporâneas, observamos a exclusão da maior parte das pessoas do consumo efetivo do patrimônio produzido, em vista das desigualdades econômicas e sociais. Isso quer dizer que o circuito produção-consumo não visa atender prioritariamente às necessidades das pessoas, mas sim às necessidades internas do sistema capitalista, em busca permanente de lucratividade, o que leva à mercantilização de todas as coisas.
Nesse sistema, como aponta o sociólogo contemporâneo Immanuel Wallerstein (1930-) em O capitalismo histórico, há algo de absurdo na “lógica capitalista”:
[...] acumula-se capital a fim de se acumular mais capital. Os capitalistas são como camundongos numa roda, correndo sempre mais depressa a fim de correrem ainda mais depressa. Nesse processo, algumas pessoas sem dúvida vivem bem, mas outras vivem miseravelmente, e mesmo as que vivem bem pagam um preço por isso. (p. 34.)
De forma aparentemente contraditória, esses dois aspectos – a exclusão da maior parte das pessoas da possibilidade de consumir e a permanente busca por mais lucro – estão entrelaçados a tal ponto que o filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007) considera que a lógica do consumo no mundo capitalista se baseia exatamente na impossibilidade de que todos consumam.
De acordo com sua análise, o consumo funciona como uma forma de afirmar a diferença de status entre os indivíduos. Veja um exemplo simples: o fato de que alguém possua um automóvel de luxo só tem sentido se poucos indivíduos puderem tê-lo. assim, o objeto adquirido funciona como um signo de status. Nas palavras do filósofo, “o prazer de mudar de vestuário, de objetos, de carro, vem sancionar psicologicamente constrangimentos de diferenciação social e de prestígio” (Para uma crítica da economia política do signo, p. 38).
A propaganda trata de assegurar essa distinção ao associar marcas e grifes a comportamentos e padrões inacessíveis à maioria da população e, mais que isso, impossíveis de ser alcançados em escala mundial, devido ao impacto que isso causaria ao meio ambiente. Essa impossibilidade é, evidentemente, escamoteada, pois não interessa que as pessoas tenham essa informação.
NEOFILISMO
Nesse tipo de consumo alienado, movido pelo desejo do consumidor de sentir-se uma “exceção” em meio à multidão, ocorre algo como se a posse de um objeto satisfizesse a perda da própria identidade.
As empresas e seus departamentos de marketing sabem disso e se empenham em colocar no mercado produtos que se sucedem com uma rapidez impressionante, os quais são consumidos pelos indivíduos como forma de compensar essa insatisfação que sentem em relação a si próprios. Isso se traduz na busca ansiosa por adquirir o que se deseja, ignorando-se a possibilidade de desejar o que já se adquiriu.
Em outras palavras, o consumidor alienado age como se a felicidade consistisse apenas em uma questão de poder sobre as coisas, ignorando o prazer obtido com aquilo que verdadeiramente ama. Como afirmou o filósofo alemão Max Horkheimer (1885-1973), “quanto mais intensa é a preocupação do indivíduo com o poder sobre as coisas, mais as coisas o dominarão, mais lhe faltarão os traços individuais genuínos” (Eclipse da razão, p. 141).
Assim, no consumo alienado não existe uma relação direta e real entre o consumidor e o verdadeiro prazer da coisa conquistada, pois o consumo transforma-se em ato obsessivo movido pelo apetite de novidade e de distinção social. E esse desesperado neofilismo (amor obsessivo pelas novidades) afeta praticamente todas as relações de que o ser humano é capaz com o mundo exterior.
Evidentemente, o neofilismo desenfreado corresponde aos interesses dos grandes produtores econômicos. Produzir objetos que logo se tornam obsoletos é um princípio fundamental da economia capitalista. Escapar a essa armadilha do consumo não é um problema a ser resolvido apenas pela consciência e pela vontade individuais. É uma tarefa ampla que envolve a transformação dos valores dominantes em toda a sociedade.
LAZER ALIENADO
E o que dizer do nosso lazer? será que o processo de alienação na sociedade industrial afeta também a utilização de nosso tempo livre? Vejamos.
Miragem (1998) – Antônio Gaudério.
Muitas vezes, o lazer não passa mesmo de uma miragem, uma ilusão. Que ironia encontramos na imagem acima?
A indústria cultural e de diversão vende peças de teatro, filmes, livros, shows, jornais e revistas como qualquer outra mercadoria. E o consumidor alienado compra seu lazer da mesma maneira como compra sua pasta dental ou seu xampu. Consome os “filmes da moda” e frequenta os “lugares badalados”, sem um envolvimento autêntico com o que faz.
Agindo desse modo, muitos se esforçam e até pensam que estão se divertindo, querem acreditar que estão se divertindo. no entanto, “através da máscara da alegria se esconde uma crescente incapacidade para o verdadeiro prazer” (Lobsenz, citado em Lowen, Prazer, p. 13-14).
Isso quer dizer que a lógica capitalista afeta até mesmo a relação do indivíduo com as obras de arte. reduzidas ao nível de mercadorias, elas passam a obedecer à lei da oferta e da procura. Tornam-se puros “negócios” fabricados pela indústria cultural, expressão criada por Horkheimer e Theodor Adorno (1906-1969), pensadores da Escola de Frankfurt.
Assim, o que era fruto da espontaneidade criativa do sujeito – a arte – transforma-se em produção padronizada de objetos de consumo com vistas à obtenção de lucros econômicos.
3. PERSPECTIVA: TEMPO LIVRE OU DESEMPREGO?
Na análise do processo histórico-social que acabamos de fazer, vimos que o trabalho quase se transformou no oposto daquilo que poderia ser para um indivíduo. Ou seja, de possibilidade de liberdade e realização, tornou-se sinônimo de frustração, submissão e sofrimento.
Essa é a ideia que grande parte das pessoas tem acerca do trabalho, porque, de fato, é dessa forma que ele se apresenta para determinadas classes sociais. O trabalho é tido unicamente como um meio de sobrevivência, como algo penoso pelo qual todos têm de passar, pois “quem não trabalha não come”.
Em vista do que vimos até aqui, podemos nos questionar: o trabalho é realmente uma categoria fundamental para o ser humano? Ou seja, é por meio do trabalho que o ser humano se autoconstrói?
Não há como responder negativamente a essa questão. Mas então voltamos à nossa pergunta inicial: o que é o trabalho? será apenas o que uma ordem econômica exploradora reconhece como trabalho? se o que recusamos é a forma como ele se apresenta – o trabalho forçado, aquele que significa privação e não realização das nossas capacidades –, será possível alcançarmos uma forma mais livre de trabalho?
SOCIEDADE DO TEMPO LIVRE
Essas questões nos levam ao tema do desenvolvimento tecnológico atual. Como você deve saber, a mecanização e a automatização da produção vêm suprimindo diversas tarefas rotineiras, que eram antes desempenhadas por trabalhadores. Como resultado dessa automatização, é possível imaginar que um dia viveremos em uma sociedade na qual as pessoas possam dispor de maior tempo livre. é a perspectiva, como diversos teóricos denominam, da sociedade do tempo livre.
Em cerca de um século e meio – de 1850 ao final do século XX –, um trabalhador em países como Inglaterra e França vivia, em média, de 45 a 50 anos e trabalhava, aproximadamente, 120 mil horas ao longo de sua vida.
Hoje, nos países desenvolvidos, o trabalhador vive cerca de 75 a 80 anos e trabalha, aproximadamente, 80 mil horas ao longo da vida. na interpretação do sociólogo italiano Domenico de Masi (1938-), poderemos ter no futuro mais espaço para o ócio criativo:
Tudo leva a crer que o processo tecnológico eliminará cada vez mais o trabalho humano, que todo o esforço físico e intelectual poderão ser delegados a máquinas e que ao homem restará só o monopólio das atividades criativas. (Em busca do ócio, Veja 25 anos, p. 48.)
SOCIEDADE DO DEZEMPREGO
A dificuldade está em que a simples automatização, por si só, não garante esse efeito, pois dela pode surgir uma realidade opressiva e antissocial: uma sociedade do desemprego.
Isso se comprova com o aumento do número de pessoas sem trabalho fixo nesses mesmos países em que a carga horária diminuiu, sem falar naqueles da américa latina nos quais os índices de desemprego são preocupantes e onde ainda subsistem situações de trabalho infantil e escravo.
Para evitar o desemprego em massa, uma alternativa seria a redução do tempo de trabalho, pretendida por organizações de trabalhadores, o que conduziria também à construção de uma sociedade de maior tempo livre. Nela, como propôs o pensador austro-francês André Gorz (1923-2007), há mais de 30 anos,
[...] o trabalho socialmente útil, distribuído entre todos os que desejam trabalhar, deixa de ser a ocupação exclusiva ou principal de cada um: a ocupação principal pode ser uma atividade ou conjunto de atividades autodeterminadas levada a efeito não por dinheiro, mas em razão do interesse, do prazer ou da vantagem que nela se possa encontrar. A maneira de se gerir a abolição do trabalho e o controle social desse processo serão questões políticas fundamentais dos próximos decênios. (Adeus ao proletariado, p. 12.)
De fato, esse continua sendo um problema importante, principalmente se consideramos que – como apontam diversos autores – uma sociedade de tempo livre e sem desemprego não surgirá como fruto automático do modelo econômico atual, globalizado, imposto à maioria das pessoas nos países em desenvolvimento.
As sucessivas crises econômicas que o mundo tem vivido e a crescente insatisfação popular em diversos países são evidências da inadequação desse modelo. O que se observa é que ainda vivemos em um mundo paradoxal, marcado por imensos contrastes. de um lado, desfrutadas por um restrito conjunto de pessoas – os incluídos –, encontramos realidades socioeconômicas homogêneas, padronizadas, globalizadas: os shoppings, os produtos de grife, os aeroportos, os computadores etc. de outro lado, persistem inúmeros problemas e mazelas, que atingem milhões de seres humanos – os excluídos.
Nesse contexto, como na Grécia antiga, o “ócio criativo” parece ser a condição de apenas uns poucos, não a condição da maioria. Que mudanças socioeconômicas e de mentalidade poderiam ser promovidas para que isso se transformasse e o trabalho pudesse cumprir sua função libertadora? Pense nisso.