PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
TOTALITARISMO E BIOPOLÍTICA NA SOCIEDADE DE CONTROLE
Lemmy Caution (Eddie Constantine) em cena do filme Alphaville .
ABERTURA – ANÁLISE DO FILME Alphaville
Alphaville é uma cidade controlada pelo computador Alpha 60, que reprime a manifestação de qualquer sentimento de seus habitantes. Todos que descumprem suas ordens são punidos. Lemmy Caution é um agente secreto enviado à cidade com a missão de convencer o professor Von Braun, que criou Alpha 60, a destruí-lo.
Alphaville. Direção de Jean-Luc Godard. França/Itália, 1965. (99 min).
COLOCANDO O PROBLEMA
Alphaville é um filme clássico de ficção científica, lançado em 1965. Descreve uma cidade futurista na qual tudo – inclusive os habitantes – é controlado por um supercomputador, denominado Alpha 60. Um agente é enviado para encontrar o inventor da máquina e convencê-lo a destruí-la, mas as dificuldades que ele enfrenta são imensas, uma vez que o computador aboliu os sentimentos humanos e tem controle sobre tudo. O filme mostra uma sociedade totalitária, com um governo absoluto, que nem sequer é humano. Trata-se claramente de uma metáfora para o problema político que talvez tenha sido o maior do século XX: o totalitarismo.
Após a consolidação das democracias liberais europeias no século XIX, o século seguinte assistiu à emergência desse novo fenômeno político, que teve consequências devastadoras. Segundo alguns especialistas, o termo “totalitarismo” surgiu com o líder fascista italiano Benito Mussolini (1883-1945), que, em oposição ao Estado liberal, propunha que todas as manifestações sociais, políticas, econômicas e culturais se mantivessem sob o poder do Estado. “Tudo pelo Estado – nada contra o Estado” era um de seus lemas. Há controvérsias sobre se o regime fascista instaurado por Mussolini foi de fato totalitário ou apenas autoritário, mas este termo pode ser aplicado com segurança aos regimes de Hitler e Stalin, respectivamente na Alemanha e na União Soviética.
Na Alemanha, o período após o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi marcado pelo descontentamento social e político. Nesse contexto, surgiram algumas ideias políticas baseadas em teorias biológicas racistas. Estas ideias elegiam a raça ariana como superior às demais e se tornaram o centro da ideologia nazista, que se caracterizava por autoritarismo político e o ódio a judeus, homossexuais, ciganos, negros e qualquer opositor político.
Reunidos no Partido Nacional Socialista, os nazistas chegaram ao poder por meios democráticos no início da década de 1930 e, em 1933, instauraram uma ditadura sob o comando de Adolf Hitler (1889-1945), que conduziu a Alemanha a um governo totalitário.
Josef Stalin (1878-1953) se tornou o comandante máximo das nações reunidas na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) depois da morte de Lenin, em 1924. Stalin instaurou uma ditadura que, a partir dos anos 1930, também se tornou um governo totalitário. Stalin não se baseava em teorias racistas, mas em uma suposta teoria da história segundo a qual certas classes sociais deveriam ser eliminadas para que a URSS chegasse a uma sociedade sem classes.
Com o rápido desenvolvimento da tecnologia informática, o final do século XX viu a ficção de Alphaville tornar-se possível em vários aspectos. Os contornos de uma sociedade em que os indivíduos podem ser acompanhados e controlados em tempo real foram ficando cada vez mais nítidos – considerando tudo o que isso representa em termos de avanço tecnológico e social, mas também de ameaça às liberdades.
O pensamento político procurou compreender as razões de todos esses acontecimentos e as condições em que eles surgiram.
RAÇA ARIANA
No século XIX foi proposta a ideia de “raça ariana” para designar os descendentes europeus de um antigo povo (os arianos) que teria migrado da Ásia. A palavra ariano deriva de arya, ‘nobre’, em sânscrito. No contexto racista do nazismo, o termo referia-se especificamente aos nórdicos e germânicos, que supostamente pertenciam a uma linhagem “pura” de arianos e por isso mantinham o tom de pele claro, eram fortes, altos, e seriam mais desenvolvidos e inteligentes. A ideia de “raça” foi posteriormente refutada, pois não há diferenças genéticas que justifiquem essa diferenciação.
ARENDT E A CRITICA AO TOTALITARISMO
Hannah Arendt (1906-1975) viveu o horror da ascensão do nazismo na Alemanha e a crescente perseguição aos judeus. De família judaica, viu-se obrigada a exilar-se nos Estados Unidos. Dedicou-se, então, a refletir sobre o totalitarismo, tomando-o como um problema filosófico e não apenas político e social.
as político e social.
Em seu livro As origens do totalitarismo, publicado em 1951, Arendt propôs uma explicação por meio de um amplo estudo histórico e político dessa nova forma de governo. As duas primeiras partes do livro tratam de antissemitismo e imperialismo, e destacam alguns dos elementos que permitiram a ascensão do totalitarismo alemão. A terceira parte do livro analisa os elementos que constituem os governos totalitários de Hitler, na Alemanha, e de Stalin, na União Soviética. Em ambos os casos, esse tipo de regime se fundamenta na imposição de uma ideologia, na mobilização das massas e no terror.
ANTISSEMITISMO
O termo semita era usado para se referir aos povos que, segundo a Bíblia, descenderiam de Sem, um dos filhos de Noé. Esses povos têm em comum o fato de falarem idiomas da mesma família: é o caso de judeus e de árabes. O termo antissemita foi difundido a partir do século XIX, na Europa, e posteriormente incorporado à ideologia nazista, designando especificamente a discriminação ao povo judeu. É importante ressaltar que, para Arendt, o antissemitismo nazista não era apenas discriminação religiosa contra o judaísmo, mas tinha relação com o fato de que a comunidade judaica alemã tinha grande influência econômica e política na época.
Hannah Arendt, uma das principais pensadoras do século XX, revolucionou nossa compreensão da política e desenvolveu uma das melhores interpretações do totalitarismo. Foto de 1949.
O totalitarismo é uma negação radical das liberdades individuais. A questão filosófica que ele suscita é: como podem as pessoas consentir com a negação de sua própria liberdade, suportando e até apoiando esse tipo de regime político?
Arendt retomou a análise de Montesquieu para afirmar que o totalitarismo escapa ao sistema da política clássica. No esquema analítico de Montesquieu, há certos princípios de ação que são seguidos pelos indivíduos em cada regime político, bem como por seus governantes. Numa monarquia, esse princípio é a honra; numa república, é a virtude; numa tirania, é o medo. Em outras palavras: numa república, tanto cidadãos como governantes sentem orgulho em não dominar os demais, a menos naquilo que diz respeito aos assuntos públicos; numa monarquia, as pessoas agem visando à honra pública, isto é, cada um quer ser reconhecido como alguém que obedece ou que é obedecido em conformidade com a posição que ocupa na sociedade; numa tirania, o que move as ações é o medo – o medo dos súditos em relação ao tirano, mas também o medo do tirano em relação aos súditos. Todo esse esquema se baseia em uma separação das esferas privada e pública da vida. As relações políticas dizem respeito à esfera pública, e aquilo que o indivíduo faz em sua vida privada não é necessariamente controlado pelas regras de relação pública.
Segundo Arendt, o totalitarismo escapa a esse esquema exatamente porque visa à dominação total do ser humano, apagando a distinção entre as esferas pública e privada. Um governo totalitário não quer dominar apenas o cidadão (esfera pública); ele quer dominar também o indivíduo (esfera privada). Sendo assim, é evidente que o princípio de ação do governo totalitário não é a virtude nem a honra. Seria o medo? Será que as pessoas aderem ao totalitarismo por medo? Arendt afirmou que não. O totalitarismo não é uma tirania como aquelas classicamente conhecidas. Os indivíduos até podem sentir medo do governo, mas os governantes totalitários não agem por medo dos governados. Para Arendt, o princípio político do totalitarismo é o terror, que torna desnecessário qualquer daqueles princípios de ação expostos por Montesquieu.
A questão central do governo totalitário é que ele se coloca fora da divisão tradicional entre poder legal, de direito, ou ilegal, arbitrário. A dominação totalitária não segue nenhuma lei já conhecida: no caso de Stalin, segue uma razão que considera a existência de uma “lei da História”; no caso de Hitler, uma “lei da Natureza”. Ambas as leis estão além das convenções humanas e não podem ser debatidas ou humanamente controladas. Por exemplo: nenhum regime político pode matar os cidadãos, pois a lei garante o respeito à vida; mas o totalitarismo nazista matou “legalmente” milhões de judeus, pois, segundo suas ideias, estava seguindo uma “lei da Natureza” de purificação da raça. Os governantes nazistas consideravam um “bem à humanidade” matar os judeus, o faziam segundo a sua lei, e não de modo arbitrário e ilegal. Esta é a base do terror totalitário: atribuir legalidade a ações abomináveis dos governantes.
Ampliando a perspectiva de sua análise, Arendt afirmou que o totalitarismo é capaz de obter a adesão dos indivíduos porque eles se encontram totalmente isolados, sem laços sociais. É o que ela chamou de uma “sociedade atomizada”. Isolamento seria diferente de solidão: na solidão a pessoa está “consigo mesma”, enquanto no isolamento nem consigo ela dialoga. Para Arendt, o terror totalitário consegue unir esses indivíduos na mesma medida em que os mantém isolados. O totalitarismo amplia seu isolamento porque só indivíduos isolados podem ser dominados por completo, sem opor resistência. O terror totalitário não forma uma comunidade política de fato, em que as pessoas participam de uma vida comum. O totalitarismo transforma o povo em “massa”, em multidão, aquilo que Hobbes dizia ser algo anterior ao pacto político.
Outro aspecto importante do totalitarismo é que seu governo só existe enquanto se mantém em movimento. É essa a razão do expansionismo totalitário, que precisa conquistar outros países, outros territórios. Seu limite é o mundo todo. Sua proposta é fundir todos os indivíduos em uma única humanidade, sob um mesmo governo totalitário, mesmo que estejam todos isolados uns dos outros.
Ainda segundo Arendt, o totalitarismo prepara os indivíduos para serem, ao mesmo tempo, carrascos e vítimas. É assim que funciona o terror totalitário: ninguém está a salvo. Até aqueles que ocupam postos de poder no governo podem, de uma hora para outra, cair em desgraça e tornar-se vítimas, sofrendo o mesmo destino que impunham a outros. Isso é garantido por meio da ideologia e sua propaganda.
O totalitarismo constrói uma ideologia, um sistema explicativo do mundo e da vida, que não tem, necessariamente, relação com a experiência concreta, mas explica tudo – o passado, o presente e o futuro. A ideologia amplifica sua ação por meio da propaganda. O poema do alemão Bertolt Brecht (1898-1956), reproduzido nas páginas seguintes, foi escrito na década de 1930, em pleno regime hitlerista, e mostra claramente o mecanismo da propaganda nos regimes totalitários.
Conduzidos pelo exército nazista, judeus húngaros chegam ao campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, em junho de 1944.
NECESSIDADE DA PROPAGANDA
1
É possível que em nosso país nem tudo ande como deveria andar. Mas ninguém pode negar que a propaganda é boa. Mesmo os famintos devem admitir Que o Ministro da Alimentação fala bem.
2
Quando o regime liquidou mil homens Num único dia, sem investigação nem processo O Ministro da Propaganda louvou a paciência infinita do Führer Que havia esperado tanto para ter a matança E havia acumulado os patifes de bens e distinções Fazendo-o num discurso tão magistral, que Naquele dia não só os parentes das vítimas Mas também os próprios algozes choraram.
3
E quando em um outro dia o maior dirigível do Reich Se desfez em chamas, porque o haviam enchido de gás inflamável Poupando o gás não inflamável para fins de guerra O Ministro da Aeronáutica prometeu diante dos caixões dos mortos Que não se deixaria desencorajar, o que ocasionou Uma grande ovação. Dizem que houve aplausos Até mesmo de dentro dos caixões.
4
E como é exemplar a propaganda Do lixo e do livro do Führer! Todo mundo é levado a recolher o lixo do Führer Onde quer que esteja jogado. Para propagar o hábito de juntar trapos, o poderoso Göring Declarou-se o maior “juntador de crápulas” de todos os tempos E para acomodar os crápulas fez construir No centro da capital do Reich Um palácio ele mesmo do tamanho de uma cidade.
5
Um bom propagandista Transforma um monte de esterco em local de veraneio. Quando não há manteiga, ele demonstra Como um talhe esguio faz um homem esbelto. Milhares de pessoas que o ouvem discorrer sobre as autoestradas Alegram-se como se tivessem carros. Nos túmulos dos que morreram de fome ou em combate Ele planta louros. Mas já bem antes disso Falava de paz enquanto os canhões passavam.
6
Somente através de propaganda perfeita Pôde-se convencer milhões de pessoas Que o crescimento do Exército constitui obra de paz Que cada novo tanque é uma pomba da paz E cada novo regimento uma prova de Amor à paz.
7 Mesmo assim: bons discursos podem conseguir muito Mas não conseguem tudo. Muitas pessoas Já se ouve dizerem: pena Que a palavra “carne” apenas não satisfaça, e Pena que a palavra “roupa” aqueça tão pouco. Quando o Ministro do Planejamento faz um discurso de louvor à nova impostura Não pode chover, pois seus ouvintes Não têm com que se proteger.
8
Ainda algo mais desperta dúvidas
Quanto à finalidade da propaganda: quanto mais propaganda há em nosso país
Tanto menos há em outros países.
SIGNIFICADOS
Algoz: assassino, carrasco.
Führer: ‘condutor’ ou ‘líder’, em alemão; trata-se do título que Hitler atribuiu a si mesmo.
Reich: ‘reinado’, em alemão. Quando pôs fim à república democrática na Alemanha, o regime nazista passou a ser chamado de Terceiro Reich.
Talhe: porte, forma física.
BREcHT, Bertolt. Necessidade da propaganda. Sátiras alemãs. In: Poemas 1913-1956. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1990. p. 197-199.
Segundo Arendt, a grande lição do totalitarismo em relação ao perigo que ele representa é o isolamento dos seres humanos. Ainda que esse isolamento seja o sintoma de uma sociedade de massas, ele é contrário à condição humana, segundo a qual os seres humanos habitam o planeta como coletividade, e não como seres isolados. O modo de evitar novos regimes de terror, portanto, é resgatar os laços sociais e políticos entre os indivíduos.
2. FOUCAULT, DISCIPLINA E BIOPODER
Vimos que Michel Foucault desenvolveu a ideia de uma “microfísica do poder”, uma nova forma de compreender o poder nas relações sociais. O filósofo afirmou que, nas sociedades ocidentais, predominaram três tecnologias de poder distintas, por meio das quais o poder é exercido: poder de soberania, poder disciplinar e biopoder.
SOBERANIA: PODER DE VIDA E MORTE
O poder de soberania predominou nas sociedades pré-capitalistas, em geral com governos monárquicos. É a tecnologia de poder que caracterizava a sociedade analisada por Hobbes e Maquiavel, por exemplo. Foucault afirmou que o princípio dessa tecnologia de poder era o direito do soberano sobre a vida e a morte de seus súditos. O governante soberano tinha o poder de estabelecer leis que se aplicavam a todos os seus súditos, mas não a ele mesmo. A lei determinava que um indivíduo não devia matar o outro (pois o soberano deveria ser capaz de manter a vida, a segurança e a integridade física de seus súditos), mas não se aplicava ao soberano: ele era o único que poderia tirar a vida de alguém sem descumprir a lei. Por isso, seria possível enunciar o princípio básico desse tipo de poder da seguinte maneira: “fazer morrer e deixar viver”. O soberano era aquele que tinha o poder de fazer morrer qualquer um de seus súditos, por isso era também aquele que tinha o poder de deixá-los viver. A vida dos súditos era uma concessão do soberano.
Henrique VIII (1491-1547), retratado por Hans Holbein por volta de 1540. Henrique VIII é considerado um dos soberanos mais absolutos da história. Foi rei da Inglaterra de 1509 até sua morte. Promulgou o Ato de Traição, que determinava a morte de todo aquele que não reconhecesse sua autoridade.
Na análise do poder de soberania, Foucault distanciou-se da afirmação de Hobbes de que a instituição da sociedade põe fim à guerra entre os indivíduos. Para Foucault, a sociedade é um prolongamento da guerra. As relações políticas no meio social nada mais são que uma maneira de gerir os conflitos entre os indivíduos, isto é, trata-se da guerra entre os indivíduos organizada de outro modo. Além disso, Foucault não considerava que o pacto social desloca todo o poder para o governante, como sustentava Hobbes. Para Foucault, é apenas aparentemente que o poder emana do governante: como vimos, segundo esse autor, na realidade há toda uma rede de poder distribuída entre as pessoas que sustenta a posição do soberano.
DISCIPLINA PARA A SUBMISSÃO
Segundo Foucault, o crescimento do capitalismo se sustentou graças à disciplina – invenção burguesa do século XVII consolidada no século XVIII. É um tipo de poder que se exerce sobre os corpos dos indivíduos. Para que essa tecnologia de poder funcione com todo seu potencial, foram criadas “instituições disciplinares” nas quais os indivíduos são confinados: a fábrica, o exército, a prisão, o hospital, a escola. Nessas instituições, as pessoas são individualizadas. cada indivíduo tem um prontuário, no qual se anota tudo o que lhe acontece. Por meio da disciplina o indivíduo pode ser conhecido, controlado e explorado, tirando- -se dele tudo o que pode oferecer.
Foucault debruçou-se sobre uma dessas instituições e escreveu o livro Vigiar e punir: história da violência nas prisões, em que mostra como a punição aos criminosos no Ocidente foi se transformando – dos castigos físicos ao encarceramento. Essas formas de punição impõem ao condenado uma disciplina que lhe permita ser ressocializado. Embora a instituição pesquisada seja a prisão, a análise sobre a disciplina é válida para qualquer instituição disciplinar. Tanto que a terceira parte do livro, na qual ele analisa o desenvolvimento das tecnologias disciplinares, foca a escola.
A função da disciplina é produzir corpos dóceis, que possam ser moldados, configurados segundo as necessidades sociais. Assim são produzidos os corpos dos estudantes, dos soldados e policiais, e também dos trabalhadores. Os corpos disciplinados são corpos exercitados e submissos. Segundo Foucault, a disciplina aumenta a força dos corpos orientada para a produção, mas diminui a força dos corpos em sentido político, tornando-os obedientes. A obediência e a conformação dos corpos os tornam mais produtivos.
A disciplina é uma “arte das distribuições”. Sua primeira operação é a distribuição dos indivíduos no espaço. É necessário, portanto, delimitar esse espaço. Não é por acaso que a arquitetura das escolas é muito semelhante, assim como a das fábricas ou dos quartéis: trata-se da organização de um espaço disciplinar. Nesse espaço, os indivíduos são distribuídos segundo uma lógica organizacional.
Como exemplo, basta pensar em como os estudantes são distribuídos na escola, organizados por séries ou anos, por classes e grupos. Essa ação, segundo o filósofo, transforma uma “multidão confusa” em uma “multiplicidade organizada”
O segundo aspecto da tecnologia disciplinar é sua ação de controle das atividades. Numa instituição disciplinar, toda atividade é controlada, e esse controle começa pelo tempo: há o momento certo para fazer cada coisa. cada indivíduo aprende a controlar seu corpo, de modo, por exemplo, a ir ao banheiro no horário estabelecido, e não quando tiver vontade; almoçar no horário estipulado pela instituição, e não quando sentir fome. Um corpo assim disciplinado é um corpo muito mais eficiente e produtivo, seja para o estudo, seja para o trabalho.
A disciplina, por meio do adestramento dos corpos, produz indivíduos que são vigiados e controlados o tempo todo. Quando se desviam do comportamento esperado, são punidos. A punição tem a função de normalizar sua ação, fazendo com que voltem a agir conforme o esperado.
BIOPODER: BEM-ESTAR SOCIAL
Foucault afirmou que, uma vez consolidada a tecnologia de poder disciplinar, por volta do fim do século XVIII começou a se constituir uma nova tecnologia. É o que ele denominou biopoder, um poder sobre a vida. Mas o biopoder não deve ser confundido com o poder soberano.
O poder soberano é aquele que decide sobre a vida ou a morte dos súditos, ao passo que o biopoder é aquele que procura administrar a vida de uma população. O biopoder é complementar ao poder disciplinar, mas apresenta diferenças. Vimos que o poder disciplinar se exerce sobre indivíduos adequando-os à norma. O biopoder, por sua vez, se exerce sobre os grandes grupos de indivíduos já disciplinados que formam as populações. O poder disciplinar é, portanto, uma condição para que o biopoder se exerça e, enquanto a tecnologia centrada no corpo é individualizante, a tecnologia centrada na vida é massificante.
A tecnologia do biopoder está voltada para a manutenção da vida das populações organizadas pelo Estado como corpo político. Ela é a base do chamado “Estado de bem-estar social”, que se preocupa em oferecer condições mínimas de vida digna para toda a população. É por meio do biopoder que os programas de previdência social são criados para garantir a saúde e a aposentadoria dos trabalhadores, bem como sistemas públicos de saúde, que atendem à população, por exemplo, em campanhas de vacinação em massa, como forma de prevenir doenças.
No século XVIII, o filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1832) idealizou um modelo de penitenciária chamado panóptico, composto por uma torre central de vigilância em torno da qual se distribuíam as celas. Da torre, funcionários podem vigiar os presos, mas estes não sabem se estão sendo vigiados ou não. Na primeira foto, de 1954, interior de penitenciária em Illinois, nos Estados Unidos, que reproduz esse modelo prisional. Na segunda, operários na fila do almoço, em canteiro de obras no Rio de Janeiro (RJ), em 2013. Segundo Foucault, o poder disciplinar está presente tanto em prisões como também em escolas, hospitais e manicômios
O biopoder constitui o que Foucault denomina “sociedades de segurança”, em que as ações dos governos já não estão voltadas para a disciplina (já estão todos disciplinados e individualizados), mas para a segurança da população em múltiplos sentidos. E a garantia da segurança é feita pelo controle populacional.
Segundo Foucault, essa tecnologia inverte o princípio do poder de soberania; trata-se agora de “fazer viver e deixar morrer”. O Estado é responsável por fazer com que os cidadãos vivam mais e melhor, evitando as mortes que considerar desnecessárias. A morte se torna um “problema de Estado”: só uma autoridade legalmente constituída pode atestar que alguém morreu, emitindo uma certidão de óbito, assim como é o Estado que emite uma certidão de nascimento
Na visão de Foucault, as sociedades contemporâneas atuam com as duas tecnologias de poder simultaneamente: a disciplina e o biopoder. O cidadão legalmente constituído vive em uma situação de permanente controle por parte dos vários mecanismos estatais, e essa disciplina lhe garante segurança e bem-estar.
Cartaz de campanha de vacinação do governo federal, de 2014. Segundo a Constituição Federal, é competência do Estado cuidar da saúde e assistência pública.
3. DELEUZE E GUATTARI E A REVOLUÇÃO MOLECULAR
Gilles Deleuze (1925-1995) denominou sociedade de controle a conformação social que opera segundo o biopoder. Sua principal característica é a abertura: enquanto a sociedade disciplinar precisava confinar os indivíduos em instituições para que o poder pudesse ser exercido sobre eles, agora isso já não é necessário. Deleuze mostrou que as instituições disciplinares estão sendo desgastadas. Pouco a pouco, a escola parece ser substituída pela noção de “formação permanente”. Nenhum nível escolar é mais terminal; há sempre algo novo a aprender, e a formação nunca cessa. Nesse contexto, as tecnologias de ensino a distância ganham cada vez mais adeptos. Já não é necessário sair de casa nem ter um horário determinado para estudar.
Também a área da saúde tem passado por mudanças. Prioriza-se a prevenção, para evitar que se fique doente; em vez de serem internados, alguns pacientes são tratados em hospitais-dia, nos quais não precisam permanecer por longos períodos. Nas empresas e fábricas, a palavra de ordem tem sido “flexibilidade”, e é cada vez mais comum que os funcionários possam organizar seu próprio tempo, muitas vezes trabalhando em casa. Por fim, mesmo o confinamento nas prisões tem-se reduzido. Investe-se em penas alternativas, como prestação de serviços sociais, para reduzir ou substituir o encarceramento. Além disso, as pulseiras ou tornozeleiras eletrônicas, que monitoram os prisioneiros, têm permitido ampliar o cumprimento de penas fora das prisões.
Entretanto, essa aparente liberdade também permite que sejamos controlados. Podemos fazer quase todas as operações financeiras pela internet, por exemplo, sem precisar ir a uma agência bancária. Isso nos dá uma sensação de liberdade; podemos pagar uma conta em qualquer horário, e não apenas quando a agência bancária está aberta. Mas, para que isso seja possível, todos os nossos dados financeiros ficam a um clique de distância para um funcionário do banco.
Deleuze pensou no exemplo da construção de autoestradas. cortar o país com extensas rodovias parece muito interessante, pois facilita a mobilidade da população. Mas, ao mesmo tempo, a autoestrada permite que se controle esse deslocamento. Antes das autoestradas, as pessoas podiam escolher seus trajetos, seguindo por pequenas estradas locais, por exemplo. Para ir de uma cidade a outra, havia várias possibilidades, e cada um era livre para escolher qual caminho seguir. com a existência de uma autoestrada, sabe-se exatamente o percurso que uma pessoa fará, já que não há outras opções. Hoje, com a popularização do GPS, saber a localização de uma pessoa se tornou ainda mais simples, chegando a uma dimensão que Deleuze não poderia imaginar.
O avanço da tecnologia eletrônica levou às últimas consequências a sociedade de controle descrita por Deleuze. A internet e o uso de computadores e telefones celulares nos tornam objeto de controle por meio de telefonemas, sites e aplicativos que armazenam nossos dados e mensagens, além de ferramentas que indicam em um mapa o local exato em que nos encontramos.
GPS
Global positioning system (GPS) é um sistema de posicionamento por satélite capaz de enviar para um aparelho receptor dados exatos de localização em qualquer parte do globo terrestre. Atualmente há dois sistemas em funcionamento: o norte-americano GPS, controlado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, e o russo GLONASS, subordinado à Força Espacial Russa. Os sistemas de posicionamento foram desenvolvidos para fins militares, mas hoje estão abertos ao uso civil e são amplamente explorados. A União Europeia trabalha no desenvolvimento do Galileo, um sistema de origem civil. A china também possui um sistema de navegação, o BeiDou, que ainda não atingiu cobertura global.
As câmeras de vigilância urbana e o sistema de armazenamento e circulação ilegal de dados pessoais na internet são alguns elementos que compõem a rede de poder e controle na sociedade contemporânea. Na foto, policial do departamento de vigilância de Nova York (Estados Unidos) monitora em tempo real acontecimentos de diferentes pontos da cidade, em 2010.
A frase “Sorria, você está sendo filmado!” é a síntese da sociedade de controle, que espalha câmeras de vigilância por todo lado. Sabendo que há controle, deixamos de fazer coisas que talvez fizéssemos se não estivéssemos sob vigilância. Muitas vezes nos apropriamos desses mecanismos, sendo nós mesmos instrumentos de controle do outro. A letra da canção reproduzida abaixo, da banda Maneva, fala sobre isso.
Sorria, você está sendo filmado
Sorria, sorria, sorria você está sendo filmado
Não faça nada errado Celulares me tornaram
Uma espécie de soldado
Que espera sempre o caos pra usar como cenário
Vadias, vadias, vadias eu filmo
A sua dança minha lente sempre alcança
A marca do biquíni, a calça agarrada
Depois botar na rede e mostrar pra rapaziada
As brigas, as brigas, as brigas elas
Eu nunca aparto, adoro vias de fato
Espero pelo sangue minhas lentes querem a chance
De botar lá no Datena um vídeo que seja chocante
Não, não uso olhos para ver
A minha consciência perdi na adolescência
Bombardeado por novelas que mataram minha inocência
A violência foi vendida, a nudez oferecida
Agora é minha vez de fazer filme com a minha vida
Filme de supermercado mostra uma execução
Dez tiros no sujeito sem tempo de reação
A câmera no prédio flagrou aquela menina
Recebendo de um rapaz que pede a alma feminina
Violência banalizada e oferecida sem restrição
Nutrem os calos da alma que já não se importam com esta visão
Banda podre do mundo mostrada sem cortes e sem figurino
Se torna o passatempo de muitos meninos
POLLI, Tales de. Sorria, você está sendo filmado. In: MANEVA. Teu chão. 2012.
sorria-voce-esta-sendo-filmado>. Acesso em: 27 fev. 2016.
Em termos políticos, a sociedade de controle se aproxima dos totalitarismos analisados por Hannah Arendt. Uma sociedade de controle é uma sociedade atomizada, que tende a isolar as pessoas, ao mesmo tempo que fornece os meios para que elas sejam controladas todo o tempo. Você poderia perguntar: por que isolamento, se hoje nos comunicamos o tempo todo pelas redes sociais, torpedos e mensagens instantâneas? Estas novas formas de comunicação pretendem aproximar as pessoas e criam a ilusão de que é possível estar em contato com um número quase infinito delas. Entretanto, ao ampliarmos de maneira indefinida o contato com as pessoas por meio dos recursos eletrônicos, a tendência é que esse contato seja cada vez mais superficial e ligeiro. Assim, ainda que aumentem a quantidade de contatos, essas novas tecnologias podem diminuir a profundidade das relações.
Che Guevara (1928-1967), grande militante anticapitalista, também se transformou em produto.
Na foto, camisetas com a estampa de seu rosto são expostas para venda a turistas em Cuba
Outra consequência desta forma de sociabilidade é o distanciamento cada vez maior da esfera da política. Ao ter de lidar com um número excessivo de demandas da vida privada, nossas energias e interesses são inteiramente canalizados para dentro dela, de maneira que nos afastamos cada vez mais da esfera pública.
Claro que isso não precisa ser assim. Os mesmos meios de controle podem ser também meios de ação política. Quanto a isto, Deleuze afirma: não se trata de “temer ou esperar, mas de buscar novas armas”. Hoje não podemos lutar politicamente com as armas do passado, pois elas já não servem; precisamos buscar novas armas, inventar formas de ação para resistir ao potencial totalitário da sociedade de controle.
Deleuze e Guattari (1930-1992) analisaram também o capitalismo sob diversos aspectos e pensaram em uma ação política para sua transformação. Uma das conclusões a que chegaram é que o capitalismo é um sistema “elástico”. Enquanto o marxismo afirma que um modo de produção se transforma quando se esgotam suas possibilidades de exploração e ele chega a seu limite, Deleuze e Guattari sustentam que o capitalismo sempre coloca seus limites mais adiante. Já se anunciaram algumas crises do sistema capitalista, mas ele sempre conseguiu se recompor e ampliar seus limites. A contracultura e o movimento hippie da década de 1960, por exemplo, questionavam o mercado capitalista. Para se opor ao sistema de consumo, os ativistas usavam roupas velhas e desgastadas. Também contrários à cultura de massa, muitas vezes faziam suas próprias roupas, como forma de afirmar sua singularidade. Décadas depois do movimento, entretanto, o capitalismo se apropriou da estética hippie, fabricando, em massa, mercadorias inspiradas naquele estilo. Este movimento de adaptação do sistema, percebido no universo cultural, também está presente no universo econômico.
Embora estejam fisicamente próximos, ou, muitas vezes, no mesmo lugar, jogando os mesmos jogos, participando das mesmas comunidades virtuais, o que indica que existem interesses em comum, os jovens se isolam cada vez mais através do mundo virtual. Na imagem, usuários testam programa de realidade virtual em São Paulo (SP), em 2015.
UMA CRÍTICA CONTEMPORÂNEA AO CAPITALISMO
As obras em que Deleuze e Guattari analisaram o capitalismo e propuseram uma leitura política contemporânea são: O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia, publicado em 1972, e Capitalismo e esquizofrenia: mil platôs, publicado em 1980.
A força do capitalismo, segundo Deleuze e Guattari, reside no fato de que ele captura nossos desejos e nos faz desejar aquilo que o sistema quer que desejemos. Agimos de acordo com nossos desejos, pensando que somos livres, mas estamos sendo controlados e manipulados. Para esses autores, essa é a mesma dinâmica do fascismo, que serviu de base para os governos totalitários. Mas, em vez de um “fascismo de Estado”, trata-se de um “microfascismo”, que é ainda mais eficaz porque passa despercebido e se estende por toda a sociedade.
Se a força desse fascismo reside no desejo, é nessa força individual e subjetiva que também encontramos a possibilidade de fazer resistência. Deleuze e Guattari defendem uma micropolítica que se construa nas relações cotidianas e que possa resistir ao fascismo da sociedade de controle.
Não podemos lutar contra o Estado com suas próprias armas, pois seremos vencidos. Não há como usar as armas do controle contra o controle. É necessário inventar novas armas. Para esses filósofos, não faz muito sentido negar o Estado e achar que é possível destruí-lo; ao contrário, é preciso reconhecê-lo, conhecer sua força, para mantê-lo afastado. Essa é uma luta constante, não uma revolução capaz de transformar o mundo em um outro completamente diferente de uma hora para outra.
Essa é a lição daquilo que eles denominaram revolução molecular: uma revolução que se faz todo dia, nas pequenas coisas, procurando agir de modo não fascista, cada um consigo mesmo e com aqueles que estão próximos. Inventar formas de viver o próprio desejo, não se deixando capturar e controlar. Não uma grande revolução, que porá fim aos problemas e criará uma nova realidade, mas pequenas revoluções permanentes, que vão produzindo novos fluxos de desejo e de ações, novas possibilidades de ser, de sentir, de pensar, de agir. Esse seria um caminho possível para construir laços sociais que não nos deixem no isolamento, presas fáceis para um novo totalitarismo.
O desenvolvimento de sentimentos contrários àqueles predominantes em uma sociedade capitalista pode ser o caminho para a construção de uma nova sociabilidade. Na foto de 2012, grafite em um muro de Cardiff, País de Gales, forma um jogo com as palavras “revolução” e “amor”, em inglês.
ANÁLISE E ENTENDIMENTO
1. O totalitarismo foi um fenômeno político do século XX. como Hannah Arendt o distingue dos sistemas políticos clássicos?
2. Em que sentido o terror é o fundamento do totalitarismo?
3. Relacione o poema “Necessidade da propaganda”, de Bertolt Brecht, reproduzido na página 230, com o sistema totalitário.
4. contextualize e explique cada uma das tecnologias de poder analisadas por Foucault.
5. Podemos dizer que a “sociedade de controle” é um sistema totalitário? Por quê?
6. “Os mesmos meios de controle podem ser meios de ação política.” Levando em consideração essa afirmação de Deleuze e Guattari, dê exemplos de acontecimentos recentes em que os meios de controle foram utilizados de forma política, ou, ainda, sugira você mesmo um uso político para eles.