PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
1. ABERTURA (COLOCANDO O PROBLEMA) (PÁGINA 226)
- Exemplo inicial do filme ALPHAVILLE (Controle de tudo por um computador).
- O filme mostra uma sociedade totalitária (governo absoluto).
- Totalitarismo: problema político que talvez tenha sido o maior do século XX
- Fenômeno político que trouxe consequências devastadoras.
- Conceito de totalitarismo: surgiu com o líder fascista italiano Benito Mussoline (1883-1945) em oposição ao Estado liberal.
- Propunha que todas as manifestações sociais, políticas, econômicas e culturais se mantivessem sob o poder do Estado.
- Lema: “Tudo pelo Estado – nada contra o Estado”
- O termo pode ser aplicado aos regimes de Hitler (Alemanha) e Stalin (União Soviética)
1.1 - REGIME DE HITLER (1889- 1945)
- A partir do descontentamento social e político ocorrido no final da primeira guerra mundial (1914-18) surgiram na Alemanha ideias politicas baseadas em teorias biológicas racistas.
- Essas teorias elegiam a raça ariana como superior às demais.
- Tornou-se o centro da ideologia nazista.
- Caracterizava-se por autoritarismo político e ódio aos judeus, homossexuais, ciganos, negros e qualquer opositor.
- Os nazistas (Partido Nacional Socialista) chegaram ao poder por meios democráticos e em 1933 instauraram uma ditadura sob o comando de Adolf Hitler.
1.2 - REGIME DE JOSEF STALIN (1878-1953)
- Stalin tornou-se o comandante máximo das nações reunidas na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) depois da morte de Lenin (1924).
- Instaurou uma ditadura a partir dos anos 1930 (governo totalitário).
- Stalin não se baseava em teorias racistas.
- Defendia uma teoria da história segundo a qual certas classes sociais deveriam ser eliminadas para que a URSS chegasse a uma sociedade sem classes.
1.3 - FINAL DO SÉCULO XX
- A partir do rápido desenvolvimento da tecnologia da informática modelos como os do filme ALPHAVILLE (máquinas que tem o controle de tudo) tornaram-se possíveis.
- Indivíduos que podem ser acompanhados e controlados em tempo real foram ficando cada vez mais nítidos.
- Consideramos os avanços em termos tecnológicos e sociais, mas também precisamos reconhecer as ameaças às liberdades humanas que esses modelos representam.
2. ARENDT E A CRÍTICA AO TOTALITARISMO (PÁG. 227)
- Hannah Arendt foi uma das principais pensadoras do século XX e revolucionou nossa compreensão política e desenvolveu uma das melhores interpretações do totalitarismo.
- Viveu o horror do nazismo e a perseguição aos judeus.
- De família judaica exilou-se no EUA.
- Refletiu sobre o totalitarismo como problema filosófico (não apenas político e social)
- Referencia ao livro de Hannah Arendt “As origens do totalitarismo” (1951)
- O livro propôs uma explicação por meio de um amplo estudo histórico e político dessa forma de governo.
PARTES DO LIVRO
1ª PARTE e 2ª PARTE
3ª PARTE
- Trata de antissemitismo (descriminação ao povo judeu) e imperialismo.
- Destaca alguns dos elementos que permitiram a ascensão do totalitarismo alemão.
Analisa os elementos que constituíam os governos de Hitler e de Stalin
- Ao se referir aos regimes totalitários Arendt afirmou que eles se fundamentam:
· Na imposição de uma ideologia.
· Na mobilização das massas
· No terror.
- O totalitarismo é uma negação radical das liberdades individuais.
- Questão filosófica levantada por Hanna Arendt:
Como podem as pessoas consentirem com a negação de sua própria liberdade, suportando e até apoiando esse tipo de regime político?
- Arendt retornou a análise política de Montesquieu (Barão de Montesquieu: político, filósofo e escritor francês) para afirmar que o totalitarismo escapa ao sistema da politica clássica.
- Esquema de Montesquieu: há certos princípios de ação que são seguidos pelos indivíduos em cada regime político, bem como por seus governantes.
ESQUEMA DE MONTESQUIEU
MONARQUIA
(forma de governo em que o chefe de Estado tem o título de rei ou rainha).
Honra
As pessoas agem visando à honra pública, isto é, cada um quer ser reconhecido como alguém que obedece ou que é obedecido em conformidade com a posição que ocupa na sociedade.
República
(Forma de governo na qual o chefe do Estado é eleito pelo povo ou seus representantes, tendo a sua chefia uma duração limitada)
Virtude
Tanto cidadãos como governantes sentem orgulho em não dominar os demais, a menos que diz respeito a assuntos públicos.
Tirania
(Forma de governo em que o chefe (tirano) governa com poderes ilimitados)
Medo
O que move as ações é o medo. O medo dos súditos em relação ao tirano, mas também do tirano em relação aos súditos.
- Todo esse esquema se baseia em uma separação das esferas públicas e privadas da vida.
- As relações políticas dizem respeito à esfera pública, e aquilo que o indivíduo faz em sua vida privada, não é controlado pelas regras de relação pública.
- Segundo Arendt o totalitarismo não é uma tirania como aquelas classificamente conhecidas.
- O principio político para Arendt é o terror (estratégia de controle politico).
- Terror como um elemento do projeto de regime totalitário como meio de disseminação do medo e dor.
- De acordo com Hannah Arendt, o terror não poderia ser apenas considerado uma disseminação do medo, mas um instrumento político, que determinava a forma e governo dos que mandavam aos que obedeciam, ou seja, com aprovação das massas. Dessa forma, o medo, como principal ferramenta do totalitarismo, anulava a participação e a crítica, bem como a ação politica dos homens.
- A dominação totalitária não segue nenhuma lei.
- No caso de Stalin “lei da história” e de Hitler “lei da natureza”.
- Ambas as leis estão além das convenções humanas e não podem ser debatidas ou humanamente controladas.
- Os governantes nazistas consideram um “bem a humanidade” matar os judeus.
- Base do terror totalitário: atribui legalidade as ações abomináveis dos governantes.
- Arendt afirmou que o totalitarismo é capaz de obter a adesão dos indivíduos porque eles se encontram isolados, sem laços sociais.
- Só indivíduos isolados podem ser dominados por completo, sem opor resistência.
- O totalitarismo só existe enquanto se mantém em movimento (expansionismo totalitário)
- O totalitarismo prepara os indivíduos para serem, ao mesmo tempo, carrascos e vítimas.
- O totalitarismo constrói-se por uma ideologia (sistema explicativo do mundo e da vida) e amplia-se por meio da propaganda.
- Poema “Necessidade da propaganda” de Bertolt Brecht mostra o mecanismo da propaganda nos regimes totalitários.
- A grande lição do totalitarismo em relação ao perigo que ele representa é o isolamento dos seres humanos.
- O modo de evitar novos regimes de terror, é resgatar os laços sociais e políticos entre os indivíduos.
3. FOUCAULT, DISCIPLINA E BIOPODER
- Microfísica do poder: o poder nas relações sociais.
- Tecnologias de poder por meio das quais o poder é exercido:
Tecnologias de poder para Foucault
De soberania
Disciplinar
Biopoder
3.1 – SOBERANIA: PODER DE VIDA E MORTE
- Predominou nas sociedades pré-capitalistas (governos monárquicos)
- O princípio dessa tecnologia de poder era o direito do soberano sobre a vida e a morte dos seus súditos.
- O soberano era aquele que tinha o poder de fazer morrer qualquer um de seus súditos (ou deixa-los viver)
- O governante soberano tinha o poder de estabelecer
- Para Foucault é toda uma rede de poder distribuída entre as pessoas que sustenta a posição do soberano.
3.2 – DISCIPLINA PARA A SUBMISSÃO
- Invenção burguesa (XVII e XVIII).
- Tipo de poder que se exerce sobre os corpos dos indivíduos.
- Instituições disciplinares (fábricas, escolas, etc) foram criadas para que essas tecnologias de poder funcionassem.
- Nessas instituições, as pessoas são individualizadas.
- Por meio da disciplina o indivíduo pode ser conhecido, controlado e explorado.
- Um exemplo dessa instituição disciplinar foi o relato do livro de Foucault. “Vigiar e punir: história da violência nas prisões” que mostra como a punição aos criminosos no Ocidente foi se transformando – dos castigos físicos aos encarceramentos.
- A função da disciplina é produzir corpos dóceis que possam ser moldados, configurados segundo as necessidades sociais.
- Os corpos disciplinados são corpos exercitados e submissos.
- A disciplina é “arte das distribuições”
- Primeira operação: distribuição dos indivíduos no espaço.
- Exemplo da escola: os estudantes são distribuídos segundo uma lógica organizacional.
- Segundo aspecto da tecnologia disciplinar: ação de controle das atividades.
- Numa instituição disciplinar, toda atividade é controlada, e esse controle começa pelo tempo; há um momento certo para fazer cada coisa.
- A disciplina por meio do adestramento dos corpos, produz indivíduos que são vigiados e controlados o tempo todo.
- Quando se desviam do comportamento esperado, são punidos.
- A punição tem a função de normalizar sua ação, fazendo com que voltem agir conforme o esperado.
3.3 – BIOPODER: BEM ESTAR SOCIAL
- Uma vez consolidada a tecnologia de poder disciplinar (século XVIII) começou a se constituir uma nova tecnologia: o biopoder.
- Biopoder: poder sobre a vida.
- É aquele que procura administrar a vida de uma população.
- Se exerce sobre os grandes grupos de indivíduos já disciplinados que formam as populações.
- O poder disciplinar é uma condição para que o biopoder se exerça
- Enquanto a tecnologia centrada no corpo é individualizante, a tecnologia centrada na vida é massificante.
- A tecnologia do biopoder está voltada para a manutenção da vida das populações organizadas pelo Estado como corpo político.
- “Estado de bem-estar social”
- Exemplo: campanhas de vacinação para prevenir doenças.
- O biopoder constitui o que Foucault denomina de “sociedade de segurança” em que as ações do governo estão voltadas para a disciplina
- A garantia da segurança é feita pelo controle populacional
- O Estado é responsável por fazer com que os cidadãos vivam mais e melhor
- Só uma autoridade legalmente constituída pode atestar que alguém morreu (certidão de óbito)
- As sociedades contemporâneas atuam com as duas tecnologias de poder simultaneamente: a disciplina e o biopoder.
- O cidadão legalmente constituído vive em uma situação de permanente controle por parte dos vários mecanismos estatais, e essa disciplina lhe garante segurança e bem-estar.
4. DELEUZE E GUATTARI E A REVOLUÇÃO MOLECULAR
- Deleuze denominou sociedade de controle a conformação social que opera segundo o biopoder.
- Principal característica: abertura.
- Deleuze mostrou que as instituições disciplinares estão sendo desgastadas.
- Exemplo:
1. Ensino a distância: não é necessário sair de casa e nem ter um horário determinado para estudar.
2. Área da saúde: prioriza-se a prevenção para evitar que se fique doente. Pacientes são tratados em hospitais-dia não precisando permanecer por longos períodos.
3. Flexibilidade em empresas e fábricas. É cada vez mais comum que os funcionários possam organizar seu tempo, muitas vezes trabalhando em casa.
- Essa aparente liberdade também permite que sejamos controlados.
- Operações financeiras nos dão uma sensação de liberdade, mas para que tudo isso seja possível, todos nos nossos dados financeiros ficam a um clique de distancia para um funcionário do banco.
- Exemplo para Deleuze na construção de autoestradas. Sabe-se exatamente o percurso que uma pessoa fará.
- O avanço da tecnologia eletrônica levou às últimas consequências a sociedade de controle descrita por Deleuze.
- Ferramentas que indicam em um mapa o local exato em que nos encontramos.
- A frase “Sorria, você está sendo filmado” é a síntese da sociedade de controle, que espalha câmeras por todo lado.
- Sabendo que há controle, deixamos de fazer coisas que talvez fizéssemos se não estivéssemos sob vigilância.
- Muitas veze nós mesmo somos instrumentos de controle do outro.
- Música da banda Maneva “Sorria, você está sendo filmado”. Fala sobre isso.
- A sociedade de controle se aproxima dos totalitarismos analisados por Hanna Arendt.
- Uma sociedade de controle é uma sociedade atomizada, que tende a isolar as pessoas, ao mesmo tempo que fornece os meios para que elas sejam controladas todo o tempo.
- As novas formas de comunicação pretendem aproximar as pessoas, no entanto a tendência é que esse contato seja cada vez mais superficial e ligeiro.
- Ainda que aumente a quantidade de contatos , essas novas tecnologias podem diminuir a profundidade das relações.
- Outra consequência dessa forma de sociabilidade é o distanciamento cada vez maior da esfera política.
- Os mesmos meios de controle podem ser também meios de ação política.
- Deleuze afirma: não se trata de “temer ou esperar, mas de buscar novas armas”.
- Não podemos lutar politicamente com armas do passado, precisamos buscar novas armas, inventar formas de ação para resistir ao potencial totalitário da sociedade de controle.
- Ação politica para a transformação do capitalismo para Deleuze e Guattari.
- O capitalismo é um sistema elástico. Sempre coloca seus limites mais adiante.
- Já se anunciaram algumas crises do sistema capitalista, mas ele sempre conseguiu se romper e ampliar seus limites.
- Exemplo: contracultura e o movimento hippie (1960) questionaram o mercado capitalista.
- Contrários a cultura de massa faziam suas próprias roupas afirmando a sua singularidade.
- Movimento de adaptação do sistema, percebido no universo cultural, também está presente no universo econômico.
- O capitalismo reside no fato de que ele captura nossos desejos e nos faz desejar aquilo que o sistema quer que desejamos.
- Agimos de acordo com os nossos desejos, pensando que somos livres, mas estamos sendo controlados e manipulados.
- Essa é a mesma dinâmica do fascismo que serviu de base para os sistemas totalitários. Em vez de um fascismo de Estado, trata-se de um microfascismo, que é ainda mais eficaz porque passa despercebido e se estende por toda a sociedade.
- Se a força desse fascismo reside no desejo, é nessa força individual e subjetiva que também encontramos a possibilidade de fazer resistência.
- Deleuze e Guattari defendem uma micropolítica que se construa nas relações cotidianas e que possa resistir ao fascismo da sociedade de controle.
- Não faz muito sentido negar o Estado, é preciso reconhecê-lo, conhecer sua força, para mantê-lo afastado.
- Revolução molecular: uma revolução que se faz todo dia, nas pequenas coisas.
- Não uma grande revolução, que porá fim aos problemas e criará uma nova realidade, mas pequenas revoluções permanentes, que vão produzindo novos fluxos de desejos e de ações.
- Esse seria um caminho possível para construir laços sociais que não nos deixem no isolamento, presas fáceis para um novo totalitarismo