PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
PENSAMENTO PRÉ-SOCRÁTICO
QUESTIONAMENTOS INICIAIS
O que significa o Sol para você?
Faz sentido saudar o nascer do Sol?
Pesquise sobre ritos ou rituais.
Pitagóricos saudando o nascer do Sol (1869) – Fyodor Bronnikov, óleo sobre tela. rituais de comunhão com a natureza eram comuns em distintas culturas da antiguidade. e ainda persistem nas culturas de diversos povos.
PENSAMENTO PRÉ-SOCRÁTICO
Iniciemos esta viagem pelo tempo investigando como a consciência racional começou a suplantar a consciência mítica na Grécia antiga e engendrou essa aventura do pensa mento, a filosofia, da qual derivaram todas as ciências.
Quem foram os principais atores desse processo inaugural? O que buscavam? O que encontraram?
É o que veremos em seguida.
QUESTÕES FILOSÓFICAS
Qual é o fundamento de todas as coisas (a arché)?
A realidade essencial é dinâmica ou estável?
As coisas são por acaso ou por necessidade?
CONCEITOS-CHAVE
Arché, mito, complexo de Édipo, logos, razão, pólis, monismo, dualismo, pluralismo, água, ar, fogo, terra, quatro elementos, ápeiron, número, devir, aforismo, mobilismo, agonístico, pensamento dialético, ser, átomo, vazio, acaso, necessidade, mecanicismo, ontologia, lógica, paradoxo, falácia
PÓLIS E FILOSOFIA - A PASSAGEM DO MITO AO LOGOS
Na história do pensamento ocidental, a filosofia nasceu na Grécia entre os séculos vII e vI a.c., promovendo a passagem do saber mítico (alegórico) ao pensamento racional (logos). essa passagem ocorreu durante longo processo histórico, sem um rompimento brusco e imediato com as formas de conhecimento utilizadas no passado. como vimos no capítulo 6, durante muito tempo os primeiros filósofos gregos compartilharam de crenças míticas, enquanto desenvolviam o conhecimento racional que caracterizaria a filosofia. essa transição do mito à razão “significa precisamente que já havia, de um lado, uma lógica do mito e que, de outro lado, na realidade filosófica ainda está incluído o poder do lendário” (Châtelet, História da filosofia: ideias, doutrinas, v. 1, p. 21).
Conforme analisa o historiador francês Pierre Grimal (1912-1996) em A mitologia grega:
O mito se opõe ao logos como a fantasia à razão, como a palavra que narra à palavra que demonstra. Logos e mito são as duas metades da linguagem, duas funções igualmente fundamentais da vida do espírito. O logos, sendo uma argumentação, pretende convencer. O logos é verdadeiro, no caso de ser justo e conforme à “lógica”; é falso quando dissimula alguma burla secreta (sofisma). Mas o mito tem por finalidade apenas a si mesmo. Acredita-se ou não nele, conforme a própria vontade, mediante um ato de fé, caso pareça “belo” ou verossímil, ou simplesmente porque se quer acreditar. O mito, assim, atrai em torno de si toda a parcela do irracional existente no pensamento humano; por sua própria natureza, é aparentado à arte, em todas as suas criações. (p. 89.)
A força da mensagem dos mitos reside, portanto, na capacidade que eles têm de sensibilizar estruturas profundas, inconscientes, do psiquismo humano. então vamos conhecer um pouco da mitologia grega.
MITOLOGIA GREGA
Os gregos cultuavam uma série de deuses (Zeus, Hera, Ares, Atena etc.), além de heróis ou semideuses (Teseu, Hércules, Perseu etc.). relatando a vida desses deuses e heróis e seu envolvimento com os humanos, criaram uma rica mitologia, isto é, um conjunto de lendas e crenças que, de modo simbólico, fornecem explicações para a realidade universal. a mitologia grega é formada por grande número de “relatos maravilhosos” ou lendas que inspiraram e ainda inspiram diversas obras artísticas ocidentais.
De acordo com a mitologia greco-romana, Saturno era filho de Urano (rei dos deuses), a quem destronou, assumindo o lugar dele. Depois passou a comer seus filhos recém-nascidos, do sexo masculino, para que não tomassem seu trono.
Que significados pode ter esse mito?
O mito de Édipo, rico em significados, é um exemplo disso. Na antiguidade, foi utilizado pelo dramaturgo Sófocles (496-406 a.c.), na tragédia Édipo rei, para uma reflexão sobre as questões da culpa e da responsabilidade dos indivíduos perante as normas e os tabus.
Tabu – comportamento que, dentro dos costumes de uma comunidade, é considerado nocivo e perigoso, sendo por isso proibido a seus membros.
A SAGA DE ÉDIPO
Laio, rei da cidade de Tebas e casado com Jocasta, foi advertido pelo oráculo de que não poderia gerar filhos. Se esse aviso fosse desobedecido, seria morto pelo próprio filho e muitas outras desgraças surgiriam. Laio não acreditou no oráculo e teve um filho com Jocasta. Quando a criança nasceu, porém, arrependido e com medo da profecia, ordenou que o recém-nascido fosse abandonado em uma montanha, com os tornozelos furados, amarrados por uma corda (o edema provocado pela ferida é a origem do nome Édipo, que significa “pés inchados”).
Mas o menino não morreu. Pastores o encontraram e o levaram ao rei de corinto, Polibo, que o criou como se fosse seu próprio filho. Já adulto, ao ouvir rumores de que era filho ilegítimo, procura o oráculo de Delfos em busca da verdade. O oráculo não responde à sua dúvida, mas revela seu trágico destino: matar o pai e se casar com a mãe. Para evitar que a profecia aconteça, foge de corinto em direção a Tebas. No decorrer da viagem, porém, encontra-se por acaso com o rei de Tebas, Laio. arrogante, o rei ordena-lhe que deixe o caminho livre para sua passagem. Édipo desobedece às ordens do desconhecido e uma luta se trava entre ambos, na qual Édipo mata Laio. Sem saber que havia matado o próprio pai, prosseguiu sua viagem. No caminho, deparou-se com a esfinge, um monstro metade leão, metade mulher, que lançava enigmas aos viajantes e devorava quem não os decifrasse, atormentando os moradores de Tebas.
A esfinge apresenta a Édipo este enigma: “Qual é o animal que de manhã tem quatro pés, dois ao meio -dia e três à tarde?”. Édipo responde: “É o homem. Pois na manhã da vida (infância) engatinha com pés e mãos; ao meio-dia (na fase adulta) anda sobre dois pés; e à tarde (velhice) necessita das duas pernas e do apoio de uma bengala”. Furiosa por ver o enigma decifrado, a esfinge se mata. como recompensa por ter salvado tebas desse flagelo, Édipo é proclamado rei e casa-se com a viú va de laio, Jocasta, sua mãe verdadeira. uma nova maldição, a peste, cai sobre a cidade. consultado, o oráculo responde que a peste não findaria até que o assassino de laio fosse castigado. ao longo das investigações para descobrir o criminoso, a verdade é esclarecida. Inconformado com seu destino, Édipo cega-se e Jocasta enforca- -se. Édipo deixa Tebas, partindo para um exílio na cidade de colona.
O COMPLEXO DE ÉDIPO
Como todo mito, a saga de Édipo apresentaria, em linguagem simbólica e criativa, a descrição de uma realidade universal da alma humana, de acordo com as interpretações desenvolvidas por Freud e Jung na passagem do século XIX para o século XX (conforme estudamos no capítulo 4). elaborando uma reinterpretação psicológica desse mito grego, Freud transformou-o em elemento fundamental da teoria psicanalítica, sob o nome de complexo de Édipo.
Édipo e a Esfinge (1864) – Gustave Moreau
Oráculo – resposta que os deuses davam a quem os consultava.
O complexo de Édipo pode ser entendido como: Conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança experimenta relativamente aos pais. Sob a sua chamada forma positiva, o complexo apresenta-se como na história de Édipo rei: desejo da morte do rival, que é a personagem do mesmo sexo, e desejo sexual pela personagem do sexo oposto. Sob sua forma negativa, apresenta-se inversamente: amor pelo progenitor do mesmo sexo e ódio ciumento ao progenitor do sexo oposto. Na realidade, estas duas formas encontram-se em graus diversos na chamada forma completa do complexo de Édipo. Segundo Freud, o complexo de Édipo é vivido no seu período máximo entre os três e cinco anos [...]. O complexo de Édipo desempenha um papel fundamental na estruturação da personalidade e na orientação do desejo humano. (LapLanche e pontaLis, Vocabulário da psicanálise, p. 116.)
PÓLIS E RAZÃO
Retornemos a nosso tema: o nascimento da filosofia. Segundo análise do historiador e filósofo francês Jean-Pierre Vernant (1914-2007), o momento histórico da Grécia antiga em que se afirma a utilização do logos (a razão) para resolver os problemas da vida estaria vinculado ao surgimento da pólis, cidade-estado grega.
A pólis foi uma nova forma de organização social e política, desenvolvida entre os séculos vIII e vI a.c., na qual os cidadãos passaram a dirigir os destinos da cidade. entendida como criação dos próprios cidadãos, e não dos deuses, a pólis podia ser explicada e organizada de forma racional, isto é, de acordo com a razão.
DEBATE EM PRAÇA PÚBLICA
Uma das características das cidades-estado gregas – especialmente Atenas – era a prática constante da discussão política em praça pública pelos cidadãos. Isso contribuiu para que o raciocínio bem formulado e convincente se tornasse, com o tempo, o modo adotado para refletir sobre todas as coisas, não só as questões políticas. Por isso, para Vernant, a razão grega é filha da pólis, e o nascimento da filosofia relaciona-se de maneira direta com o universo espiritual que então surgiu:
O que implica o sistema da pólis é primeiramente uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos de poder. [...] A palavra não é mais o termo ritual, a fórmula justa, mas o debate contraditório, a discussão, a argumentação [...]. A arte política é essencialmente exercício da linguagem; e o logos, na origem, toma consciência de si mesmo, de suas regras, de sua eficácia, através de sua função política. [...] Uma segunda característica da pólis é o cunho de plena publicidade dada às manifestações mais importantes da vida social. [...] A cultura grega constitui-se, dando a um círculo sempre mais amplo – finalmente ao demos [povo] todo – o acesso ao mundo espiritual, reservado no início a uma aristocracia [...]. Tornando-se elementos de uma cultura comum, os conhecimentos, os valores, as técnicas mentais são levadas à praça pública, sujeitos à crítica e à controvérsia. [...] Doravante, a discussão, a argumentação, a polêmica tornam-se as regras do jogo intelectual, assim como do jogo político. Era a palavra que formava, no quadro da cidade, o instrumento da vida pública; é a escrita que vai fornecer, no plano propriamente intelectual, o meio de uma cultura comum e permitir uma completa divulgação de conhecimentos previamente reservados ou interditos. (Vernant, As origens do pensamento grego, p. 34-36.)
ANÁLISE E ENTENDIMENTO
1. “Logos e mito são as duas metades da linguagem, duas funções igualmente fundamentais da vida do espírito.” explique essa afirmação de Pierre Grimal.
2. Por que se pode dizer, baseado no estudo do helenista Jean-Pierre Vernant, que o surgimento da filosofia foi engendrado em “praça pública”?
CONVERSA FILOSÓFICA
1. Mitos do mundo atual Acredita-se ou não nele [o mito], conforme a própria vontade, mediante um ato de fé, caso pareça “belo” ou verossímil, ou simplesmente porque se quer acreditar. (GrimaL, A mitologia grega, p. 89.) reflita sobre essa afirmação, procurando relacioná-la com alguns mitos do mundo atual. Depois, compartilhe com a classe suas reflexões e descobertas e escute as de seus colegas.
2. PRÉ-SOCRÁTICOS - OS PRIMEIROS FILÓSOFOS GREGOS
De acordo com a tradição histórica, a fase inaugural da filosofia grega é conhecida como período pré-socrático (isto é, anterior a Sócrates ou à sua filosofia). assim, esse período abrange o conjunto das reflexões filosóficas desenvolvidas desde tales de Mileto, no século VII a.c., até o século v a.c.
Cabe ressaltar, porém, que alguns filósofos chamados “pré-socráticos” foram contemporâneos de Sócrates, sendo assim designados porque mantiveram o tipo de investigação de seus predecessores, centrado na natureza. Sócrates, por sua vez, inaugurou outro tipo de reflexão, voltado ao ser humano, dando início à tradição clássica da filosofia grega.
É difícil conhecer o pensamento do período pré-socrático em toda a sua dimensão, pois são poucos os escritos encontrados de seus pensadores, e até mesmo suas datas de nascimento e morte são incertas.
Elaborado com base em: Albuquerque, Manoel Mauricio de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. rio de Janeiro: Fae, 1991. p. 87.
A BUSCA DA ARCHÉ
Dentre os objetivos desses primeiros filósofos, destaca-se a construção de uma cosmologia – explicação racional e sistemática das características do universo – que substituísse a antiga cosmogonia – explicação sobre a origem do universo baseada nos mitos.
Assim, com base na razão e não na mitologia, os primeiros filósofos gregos tentaram encontrar o princípio substancial ou substância primordial (a arché, em grego) existente em todos os seres, a “matéria-prima” de que são feitas todas as coisas (reveja o trecho sobre a busca da arché no capítulo 6).
PENSADORES DE MILETO
Quando afirmamos que a filosofia nasceu na Grécia, devemos tornar essa afirmação mais precisa. afinal, nunca houve na antiguidade um estado grego unificado. O que chamamos de Grécia nada mais era que o conjunto de muitas cidades-estado (pólis), independentes umas das outras e muitas vezes rivais (veja o mapa do mundo grego no século vI a.c.).
Portanto, no vasto mundo grego, a filosofia teve como berço mais precisamente a cidade de Mileto, situada na Jônia, litoral ocidental da Ásia Menor (região hoje pertencente ao território da Turquia). caracterizada por múltiplas influências culturais e por um rico comércio, Mileto abrigou os três primeiros pensadores da história ocidental a quem atribuímos a denominação filósofos. São eles: Tales, Anaximandro e Anaxímenes.
TALES: A ÁGUA
Tales de Mileto (c. 623-546 a.c.) é tido como o pensador que deu início à indagação racional sobre o universo. Inspirando-se provavelmente em concepções egípcias, acrescidas de suas próprias observações de corpos hídricos – como rios e mares –, bem como da vida animal e vegetal, ele dizia: “tudo é água”.
Considerado o primeiro pensador grego, “o pai da filosofia” e o mais antigo dos sete sábios da Grécia, tales pesquisou em diversos campos do conhecimento, como a astronomia e a geometria. acredita-se que teria aprendido boa parte do que sabia com egípcios e babilônios.
Assim para Tales, a água – por permanecer basicamente a mesma em todas as transformações dos corpos, apesar de assumir diferentes estados (sólido, líquido e gasoso) – seria a arché, a substância primordial, a origem única de todas as coisas, presente em tudo o que existe.
Como princípio vital, a água penetraria todos os seres, de tal maneira que tudo seria animado por ela. Isso quer dizer que tudo teria alma (isto é, anima ou psyché) e, ao mesmo tempo, tudo seria também divino (ou “cheio de deuses”), pois não haveria separação entre o sagrado e o mundano. O universo seria uno e homogêneo.
Apesar da simplicidade da afirmação de tales a respeito da água – e considerando que a água não representava para ele o mesmo que representa hoje para nós –, pela primeira vez tentava-se explicar a multiplicidade da realidade de maneira sintética e simples, empregando um elemento natural e concreto, visível para todos.
Era também a primeira concepção monista da filosofia, pois considera que tudo o que existe pode ser reduzido a um princípio único ou realidade fundamental. Muitas outras concepções monistas surgiriam depois.
ATIVIDADE - CONEXÃO
Pesquise a quantidade de água que há no planeta e no corpo humano. relacione a informação que você encontrar com a cosmologia de tales de Mileto.
ANAXIMANDRO: O INDETERMINADO
Outro filósofo de Mileto, Anaximandro (c. 610- -547 a.c.), discípulo de tales, procurou aprofundar as concepções do mestre sobre a origem única de todas as coisas e resolver os problemas que tales lançara.
Anaximandro teria desenvolvido diversos estudos e trabalhos nas áreas de geometria, geografia e astronomia. a ele são atribuídas, por exemplo, a confecção de um mapa celeste e de um mapa terrestre das regiões habitadas, a introdução do gnômon (relógio de sol, ilustrado no mosaico acima) na Grécia e a tese de que a terra é cilíndrica e estaria no centro do universo.
Ele buscou em meio aos diversos elementos observáveis e determinados no mundo natural – especialmente os tradicionais pares de contrários que se “devoram entre si” (água, terra, ar e fogo) –, mas não lhe foi possível identificar entre eles o princípio único e primordial de todos os seres.
Anaximandro pensou, então, que deveria haver alguma substância diferente, ilimitada, e que dela nascessem o céu e todos os mundos nele contidos. Foi assim que o filósofo chegou à conclusão de que a arché é algo que transcende os limites do observável, ou seja, que não se situa em uma realidade ao alcance dos sentidos, como a água. Por isso, denominou-a ápeiron, termo grego que significa “o indeterminado”, “o infinito” no tempo.
O ápeiron seria a “massa geradora” dos seres e do cosmo, contendo em si todos os elementos opostos. Segundo sua explicação, por diversos processos naturais de diferenciação entre contrários (por exemplo, frio e calor) e de evaporação teriam surgido o céu e a terra, bem como os animais, em uma sucessão evolutiva que faz lembrar a bem posterior teoria da evolução das espécies (do século XIX).
O cosmo, para Anaximandro, se manteria por compensações cíclicas entre os contrários (as sucessivas estações do ano) até ser reabsorvido no ápeiron e recriado novamente a partir deste. Isso significa que ele concebeu um cosmo dinâmico, mas limitado no tempo (que é cíclico), e que tem sua origem e seu fim no ápeiron, o qual é infinito. Desse modo, temos certo retorno a algumas concepções relativas aos deuses primordiais (ao caos mítico, por exemplo), porém sem voltar diretamente a eles e com maior grau de abstração conceitual e justificação lógica (CF. berNhArDt, O pensamento pré‑socrático: de tales aos sofistas, em Châtelet, História da filosofia: ideias, doutrinas, v. 1, p. 30).
ANAXÍMENES: O AR
Anaxímenes nasceu em Mileto e foi discípulo e sucessor de Anaximandro. teria defendido teses astronômicas acertadas e equivocadas, como as de que a terra é plana e estaria assentada sobre o ar, a luz da lua é reflexo da luz do Sol e seus eclipses são consequência de terem sido obstruídos por outro corpo celeste.
A discussão sobre o problema da arché prosseguiu com um terceiro milésio, Anaxímenes (c. 588 -524 a.c.), discípulo de Anaximandro. ele concordava que a origem de todas as coisas era indeterminada, mas recusou-se a atribuir a essa indeterminação o caráter de arché. Para Anaxímenes, a substância primordial não poderia ser um elemento situa do fora dos limites da observação e da experiência sensível, como o ápeiron de Anaximandro.
Em discordância com aspectos do pensamento dos dois mestres anteriores, mas buscando uma síntese entre eles, Anaxímenes incorporou argumentos de ambos e propôs o ar como princípio de todas as coisas: “como nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantêm” (ANAXÍMeNeS, em SouzA, Pré‑socráticos, p. 51).
Ele considerou o fato de que o ar, quase inobservável, é um elemento mais sutil que a água, mas que ao mesmo tempo nos anima, nos dá vida, como testemunha nossa respiração. Infinito e ilimitado, penetrando todos os vazios do universo, o ar constituiria uma arché menos indeterminada que o ápeiron. também seria um princípio ativo, gerador de movimento, como nos ventos. Segundo Anaxímenes, pelos processos de rarefação e condensação se formariam os outros elementos – que para os antigos eram a terra, a água e o fogo, além do próprio ar – e, a partir destes, todos os demais. a terra, por exemplo, seria o estado mais condensado (isto é, de menor volume) do ar, enquanto o fogo seria o mais rarefeito (de maior volume). Nascido do ar e movido por ele, o cosmo seria uma espécie de respiração gigante.
PITÁGORAS: OS NÚMEROS
Conta-se que Pitágoras sofreu perseguição política em sua terra natal, a ilha de Samos (situada na costa jônica, não distante de Mileto), sendo obrigado a exilar- -se em Crotona, na Magna Grécia (sul da península Itálica), onde fundou uma sociedade secreta de caráter místico-filosófico. Por seu projeto político, foi expulso também de Crotona. as principais contribuições da escola pitagórica podem ser encontradas nos campos da matemática (como o célebre teorema de Pitágoras), da música e da astronomia.
Resposta bastante distinta na busca da arché veio de Pitágoras de Samos (c. 570-490 a.c.). Profundo estudioso da matemática, Pitágoras defendeu a tese de que todas as coisas são números.
Conta-se que, para chegar a essa tese, primeiro teria percebido que à harmonia dos acordes musicais correspondiam certas proporções aritméticas. Supôs, então, que as mesmas relações se encontrariam na natureza. unindo essa suposição aos seus conhecimentos de astronomia – com os quais podia, por exemplo, calcular antecipadamente o deslocamento dos astros –, concebeu a ideia de um cosmo harmônico, regido por relações matemáticas (teoria da harmonia das esferas).
Se para Pitágoras “tudo é número”, isso quer dizer que o princípio fundamental (a arché) seria a estrutura numérica, matemática, da realidade. a diferença entre as coisas resultaria, em última instância, de uma questão de números. Os pitagóricos entendiam, por exemplo, que os corpos eram constituídos por pontos e a quantidade de pontos de um corpo definiria suas propriedades.
O mundo teria surgido da fixação de limites para o ilimitado (o ápeiron), da imposição de formas numéricas sobre o espaço. e da estrutura numérica da realidade derivariam problemas como finito e infinito, par e ímpar, unidade e multiplicidade, reta e curva, círculo e quadrado etc.
Observe que, com Pitágoras, pela primeira vez na história da filosofia ocidental se introduzia, na explicação da realidade, um elemento mais formal, fundado na ordem e na medida. (como vimos no capítulo 5, um elemento formal é aquele que considera as relações entre os termos de uma operação do entendimento independentemente da matéria ou conteúdo dessa operação.)
Há, portanto, um monismo em Pitágoras quando ele diz que tudo é número. No entanto, sua doutrina sobre a origem do mundo nos leva a pensar em uma concepção dualista da realidade, pois afirma que o mundo surgiu de um ápeiron (o indeterminado) determinado pelo limite – princípio este que instaura o múltiplo, mas mantém a unidade e a ordem universal. O limite operaria como um deus, ou seria o próprio Deus (cf. berNhArDt, O pensamento pré‑socrático: de tales aos sofistas, em Châtelet, História da filosofia: ideias, doutrinas, v. 1, p. 34).
Apaixonados pela matemática, os pitagóricos aliaram aos números concepções não apenas filosóficas, mas também místicas, desenvolvendo uma visão espiritual da existência. Por isso, propuseram e praticaram um estilo de vida baseado na crença de que a alma é prisioneira do corpo e que dele se libera com a morte. Poderia, então, reencarnar-se em uma forma de existência mais elevada, dependendo do grau de crescimento e de virtude que a pessoa tivesse alcançado. Assim, para os pitagóricos, o principal propósito da existência humana seria o de purificar a alma e elevar suas virtudes.
As doutrinas pitagóricas tiveram grande influência sobre Platão e o platonismo. recordemos, por último, que se atribui a Pitágoras o uso da palavra filosofia pela primeira vez.
ATIVIDADE - CONEXÃO
Em sua opinião, seria possível estabelecer alguma relação entre o pensamento de Pitágoras e a ciência moderna? Por quê?
HERÁCLITO: FOGO E DEVIR
Heráclito nasceu no seio da nobreza governante de Éfeso. também conhecido como “o Obscuro”, desenvolveu um pensamento assistemático e polêmico. escreveu sob a forma de aforismos, isto é, frases curtas e marcantes, muitas vezes de sentido simbólico. (coleção particular.)
Em Éfeso, outra cidade jônica, desenvolveu-se um pensamento distinto e original. Isso se deveu a Heráclito (c. 535-475 a.c.), estudioso da natureza e preocupado com a arché.
Assim como os pensadores de Mileto, Heráclito observava que a realidade é dinâmica e que a vida está em constante transformação. Mas, diferentemente dos milésios – que buscavam na mudança aquilo que permanece –, decidiu concentrar sua reflexão sobre o que muda. Assim, o filósofo dizia que tudo flui, nada persiste nem permanece o mesmo. O ser não é mais que o vir a ser. “tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sobre ti” (citado em SouzA, Pré‑socráticos, p. XXXI).
Heráclito também observou, como seus predecessores, a atuação dos opostos na natureza (frio e calor, seco e úmido etc.), mas radicalizou essa observação, conferindo papel essencial ao conflito em sua cosmologia. Desenvolveu, assim, uma visão da realidade profundamente agonística (do grego agonistikós, “relativo à luta”), pois para ele o fluxo constante da vida seria impulsionado justamente pela luta de forças contrárias: a ordem e a desordem, o bem e o mal, o belo e o feio, a construção e a destruição, a justiça e a injustiça, o racional e o irracional, a alegria e a tristeza etc.
Daí sua famosa afirmação de que “a luta (guerra) é a mãe, rainha e princípio de todas as coisas”. É pela luta das forças opostas que o mundo se modifica e evolui. Por essa razão, Heráclito imaginou que, se devia haver um elemento primordial da natureza, este teria que ser o fogo, governando o constante movimento dos seres com chamas vivas e eternas. em suas palavras:
Este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida (Citado em souza, Pré-socráticos, p. XXVIII).
A medida desse acender e apagar do fogo seria determinada pelo logos – o pensamento, a razão –, que para Heráclito era a razão criadora e unificadora das tensões opostas, a razão-discurso do filósofo: “É sábio escutar não a mim, mas a meu discurso” (citado em SouzA, Pré‑socráticos, p. XXX). Dessa forma ele resgatava a unidade, mas uma unidade descortinada pela mente atenta, desperta, em vigília.
Pela importância que deu ao movimento, a escola heraclitiana de pensamento é chamada de mobilista. apesar de não ter sido muito bem-visto entre seus contemporâneos e estudiosos posteriores, Heráclito é considerado um dos mais destacados filósofos pré-socráticos e o primeiro grande representante do pensamento dialético. teria inspirado filósofos como Hegel, Nietzsche e Heidegger, entre outros.
ATIVIDADE - CONEXÕES
Reflita sobre a afirmação de Heráclito de que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. Observando a vida, você consegue perceber que nossa experiência cotidiana, o que vemos, ouvimos, sentimos, seja um fluxo permanente de impressões que nunca são totalmente iguais?
PENSADORES DE ELEIA
As diversas cosmologias que acabamos de estudar despertaram, na época, uma nova questão. Por que tanta divergência? Por que tantas opiniões contrárias? Foi assim que surgiu na cidade de Eleia outra forma de reflexão sobre a realidade, a qual se oporia tanto à preponderância fisicista dos pensadores de Mileto como ao mobilismo de Heráclito. trata-se da chamada escola eleática, da qual Parmênides foi o principal expoente.
PARMÊNIDES: O SER
Parmênides nasceu em Eleia, na Magna Grécia, no seio de uma família nobre. Para muitos, foi o principal filósofo pré-socrático, exercendo grande impacto no pensamento de Platão, que o chamava de Grande Parmênides. Suas reflexões sobre o ser constituíram os primeiros passos da ontologia e da lógica. (coleção particular.)
Parmênides (c. 510-470 a.c.) entendia que o equívoco das pessoas e dos demais pensadores era conceder demasiada importância aos dados fornecidos pelos sentidos (recorde-se que, conforme vimos no capítulo 2, Descartes diria algo parecido mais de dois mil anos depois). embora também percebesse pela via sensorial a mudança e o movimento no mundo, Parmênides achava contraditório buscar a essência (a arché) naquilo que não é essencial, buscar a permanência naquilo que não permanece (a mudança, o movimento), ou supor que aquilo que é permanente pudesse converter-se em algo impermanente.
Assim, Parmênides optou por escutar o que lhe dizia a razão – e não os sentidos, que o faziam sentir a mudança – e proclamou que existe o ser e não é concebível sua não existência. em suas palavras: “O ser é e o não ser não é”. tentemos compreender melhor essa frase, aparentemente óbvia:
• “o ser é”– a primeira oração expressa a ideia de que o ser (ou aquilo que é) é eternamente, pois o ser constitui, para ele, a substância permanente das coisas. Portanto, o ser é de maneira imutável e imóvel, e é o único que existe. O ser é a arché de Parmênides, não identificada com nenhum elemento natural, sensível, mas, ao mesmo tempo, equivalente a toda corporeidade, com tudo o que existe, pois o ser é uno, pleno, contínuo e absoluto;
• “o não ser não é” – a segunda oração traz a ideia de que o não ser (a negação do ser) não é, não tem ser, substância, essência. Portanto é nada, não existe. essa é uma conclusão lógica, pois, se o ser é tudo, o não ser só pode não existir. Para Parmênides, o não ser se identificaria com a mudança (o devir), pois mudar é justamente não ser mais aquilo que era, nem ser ainda algo que é.
Em vista dessa formulação, Parmênides é considerado o primeiro filósofo a expor o princípio de identidade (a = a) e de não contradição (se a = a, é impossível, ao mesmo tempo e na mesma relação, a = não a), cuja argumentação seria depois mais bem desenvolvida por Aristóteles (reveja a explicação desses princípios lógicos no capítulo 5).
Em seu poema filosófico Sobre a natureza (nessa época, a maioria dos pensadores ainda escrevia sob a forma de poemas), Parmênides expôs que dois caminhos para a compreensão da realidade têm sido trilhados. O primeiro é o da verdade, da razão, da essência. O segundo é o da opinião, da aparência enganosa, que ele considerava a via de Heráclito.
Quando a realidade é pensada pelo caminho da aparência, tudo se confunde em movimento, pluralidade e devir. De acordo com Parmênides, essa via precisaria ser evitada para não termos de concluir que “o ser e o não ser são e não são a mesma coisa”, o que seria um contrassenso, uma formulação ilógica.
Considera-se que foi a partir dessa discussão sobre os contrários, sobre o ser e o não ser, que se iniciaram as reflexões da lógica e da ontologia, quando esses dois campos de investigação filosófica ainda estavam intimamente relacionados.
ZENÃO
Discípulo de Parmênides, Zenão de Eleia (c. 488- -430 a.c.) elaborou argumentos para defender a doutrina de seu mestre. Pretendia demonstrar com eles que a própria noção de movimento era inviável e contraditória.
Desses argumentos, talvez o mais célebre seja o paradoxo de Zenão, que se refere à corrida de Aquiles (herói grego que, segundo a mitologia, era muito veloz) com uma tartaruga. ele pode ser narrado da seguinte maneira:
Junto com Parmênides e Xenófanes, Zenão de Eleia é considerado um dos principais filósofos da escola eleática.
a) Se à tartaruga fosse dada uma vantagem, por sua lentidão, e ela saísse à frente de Aquiles – digamos 10 m –, ele rapidamente cobriria esse trecho. Nesse ínterim, porém, a tartaruga também teria se deslocado e já estaria um pouco adiante (calculemos 1/10 m).
b) Quando Aquiles percorresse essa nova distância entre ele e a tartaruga, ela, que continuaria se movendo, já estaria um pouco mais à frente (cerca de 1/100 m). Quando ele outra vez cobrisse essa diferença, ela estaria 1/1 000 m adiante, e assim sucessivamente.
c) Por esse raciocínio, a tarefa de Aquiles se repetiria ao infinito, tendo por base a hipótese de que o espaço pode ser dividido infinitamente, ou seja, ele nunca ultrapassaria a tartaruga e ela venceria a corrida.
Os paradoxos de Zenão foram debatidos durante séculos por filósofos, físicos e matemáticos. Hoje já existe um cálculo que demonstra que Aquiles alcançou a tartaruga.
Ora, na observação que fazemos do mundo por meio de nossos sentidos é evidente que o argumento de Zenão não corresponde à realidade. Por isso, é chamado de paradoxo, isto é, um raciocínio que parece correto e bem fundamentado, mas cujo resultado entra em contradição com a experiência do mundo real (conforme estudamos no capítulo 5).
Geralmente isso ocorre porque se trata, na verdade, de uma falácia, ou seja, um raciocínio logicamente equivocado que leva a uma conclusão errônea, com aparência de verdadeira. Mas enquanto não se sabe se existe e onde está a falácia, o que temos é um paradoxo.
Os argumentos usados por Zenão demonstram as dificuldades pelas quais o pensamento racional passou para compreender conceitos como movimento, espaço, tempo e infinito, entre tantos outros.
EMPÉDOCLES: OS QUATRO ELEMENTOS
O filósofo, médico, professor, místico e poeta Empédocles nasceu em Aeragas, na Magna Grécia, hoje Agrigento (Itália). além de defensor da democracia, foi um teórico da evolução dos seres vivos e é considerado o primeiro sanitarista da história.
Empédocles (c. 490-430 a.c.) esforçou-se por conciliar as concepções de Parmênides e Heráclito. aceitava de Parmênides a racionalidade que afirma a existência e permanência do ser (“o ser é”), mas procurava encontrar uma maneira de tornar racionais também os dados captados por nossos sentidos.
Defendeu, assim, a existência de quatro elementos primordiais, que constituem as raízes de todas as coisas percebidas: o fogo, a terra, a água e o ar. esses elementos seriam movidos e misturados de diferentes maneiras em função de dois princípios universais opostos:
• amor (philia, em grego) – responsável pela força de atração e união e pelo movimento de crescente harmonização das coisas;
• ódio (neikos, em grego) – responsável pela força de repulsão e desagregação e pelo movimento de decadência, dissolução e separação das coisas.
Para Empédocles, todas as coisas existentes na realidade estão submetidas às forças cíclicas desses dois princípios.
DEMÓCRITO: O ÁTOMO
Demócrito nasceu em abdera, cidade situada no litoral mediterrâneo, entre a Macedônia e a trácia (região que hoje pertence ao nordeste da Grécia). teria sido discípulo de Leucipo, supostamente o verdadeiro fundador do pensamento atomista. No entanto, a existência real de leucipo ainda é discutível para alguns estudiosos (coleção particular).
Finalmente, destacou-se na busca pela arché a resposta concebida por Demócrito (c. 460-370 a.c.), um contemporâneo de Sócrates de Atenas. apesar de ser até mais novo que este, sua reflexão inscreveu-se principalmente dentro da tradição pré-socrática. ele foi o responsável – junto com seu mestre, Leucipo – pelo desenvolvimento de uma doutrina que ficou conhecida pelo nome de atomismo.
Demócrito concordava com a necessidade de plenitude e unidade do ser (como havia afirmado Parmênides), mas não aceitava que o não ser (o movimento, a multiplicidade) fosse uma ilusão. Para ele, a experiência do movimento era justamente a prova da existência de um não ser, que em sua concepção seria, como veremos, o vazio.
Aproximando-se da concepção físico-química e moderna da realidade, sua doutrina dizia que todas as coisas que formam a realidade são constituídas por partículas invisíveis (por serem muito minúsculas) e indivisíveis. Demócrito denominou-as, portanto, átomos – palavra de origem grega que significa “não divisível” (a, negação; tomo, parte, divisão). como o ser parmenídico, o átomo democrítico seria uno, pleno e eterno.
No entanto, para o filósofo, toda a realidade é composta também do vazio, que representa a ausência de ser (o não ser). É o vazio que, segundo ele, torna possível o movimento do ser – que é o movimento dos átomos, segundo a teoria atomista. Sem espaço vazio, nenhuma coisa poderia se mover, argumentava o filósofo.
Os átomos seriam homogêneos entre si, isto é, teriam o mesmo ser, a mesma natureza fundamental. No entanto, seriam infinitos em número por sua figura ou configuração (conceito explicado adiante). Nesse sentido, seriam heterogêneos e nunca se converteriam uns nos outros, razão pela qual o atomismo pode ser considerado uma doutrina pluralista.
Há também um dualismo em sua concepção, pelo fato de afirmar que toda a realidade é composta de átomos e de vazio. Mas sabemos que o vazio era entendido por Demócrito como não ser, de modo que não era uma substância, não constituindo, portanto, uma arché em seu sentido pleno.
Demócrito também entendeu que os átomos estão em constante movimento espiralado (de vórtices), chocando-se uns com os outros ao acaso. Nesses entrechoques, podem atrair-se e aglomerar-se ou repelir-se e separar-se. Quando os átomos se aglomeram (sempre com certo vazio entre eles para que realizem sua movimentação eterna), formam-se os distintos corpos, com suas qualidades específicas, que nossos sentidos percebem.
As distintas e infinitas composições dos átomos eram explicadas por Demócrito de acordo com três fatores básicos:
• figura – a forma geométrica de cada átomo que compõe o corpo, bem como sua grandeza e seu peso. assim, átomo de figura A # átomo de figura B. O fogo, por exemplo, seria um aglomerado de átomos de mesma figura, todos redondos, pequenos e leves, de acordo com Demócrito;
• ordem – a sequência espacial dos átomos de mesma figura que compõem um corpo. assim, aB # Ba;
• posição – a situação de cada átomo em relação às coordenadas espaciais. assim, B # Ღ
Os pensamentos e a alma eram explicados de maneira semelhante, pela aglomeração de átomos mais leves e sutis. e o nascimento e a morte não existiriam, no sentido de uma geração ou corrupção da matéria (isto é, transformações qualitativas); seriam apenas o resultado da união ou separação de átomos, e estes se manteriam sempre os mesmos, eternos. Daí a afirmação de Demócrito de que “nada nasce do nada, nada retorna ao nada”. tudo tem uma causa. e os átomos seriam a causa última do mundo.
Por essa razão, o atomismo passou à história como uma teoria mecanicista, pois explica tudo a partir dos átomos (matéria) e seus movimentos. No mecanicismo, a sucessão dos acontecimentos é necessária – no sentido de que segue uma lei natural que a determina –, mas ocorre ao acaso – no sentido de que não tem um projeto ou finalidade (não que não tenha uma causa). É como o mecanismo de uma máquina, que não define nada, apenas funciona de acordo com as leis físicas. assim devia pensar Demócrito quando disse que tudo o que existe no universo nasce do acaso ou da necessidade
Observação com exceção das escolas eleática e pitagórica de pensamento (que propuseram uma arché mais abstrata), as concepções dos pré-socráticos costumam ser consideradas fisicalistas ou materialistas, seja porque seu enfoque se deu principalmente sobre a physis, seja porque tenderam a identificar entidades físicas como princípios explicativos de toda a realidade. Isso não quer dizer que esses filósofos negassem a existência da alma ou dos deuses. O enfrentamento entre matéria e espírito ou corpo e mente não havia surgido ainda na história das ideias. Para eles, tanto a alma como os deuses participavam dos mesmos princípios, da mesma arché que concebiam para tudo, como fica claro no atomismo. essa noção começaria a mudar com o dualismo platônico (tema do próximo capítulo).
ANÁLISE E ENTENDIMENTO
3. Qual era a preocupação central dos filósofos de Mileto e o que cada um encontrou em sua busca?
4. O pensamento de Pitágoras introduziu, pela primeira vez na história da filosofia ocidental, um aspecto mais formal na explicação da realidade. Que aspecto é esse? Por que é mais formal? em comparação a quê? Justifique sua resposta com exemplos.
5. Qual é a concepção de realidade contida nesta frase de Heráclito: “a luta é a mãe, rainha e princípio de todas as coisas”?
6. comente as divergências fundamentais entre Parmênides e Heráclito sobre a realidade do ser.
7. Qual o objetivo de Zenão de Eleia ao criar o célebre argumento da corrida de Aquiles com uma tartaruga?
8. Empédocles tentou conciliar as concepções de Parmênides e Heráclito. como essa tentativa de conciliação se expressa em sua teoria?
9. De que maneira o pensamento de Demócrito também formula uma solução que concilia a imobilidade do ser com o movimento do mundo?
CONVERSA FILOSÓFICA
Filosofia pré-socrática e mito
A filosofia nasceu promovendo a passagem do saber mítico ao saber racional, sem, entretanto, romper com todas as estruturas explicativas do mito.
Que elementos míticos você pode identificar no pensamento dos filósofos pré-socráticos?
Pesquise e reflita sobre o assunto.
Filosofia e cidadania
Segundo Jean-Pierre Vernant, a filosofia grega é filha da pólis. Por isso, para o grego, o Homo sapiens é Homo politicus, aquele que decide os destinos da sociedade em que vive. Hoje a filosofia está distanciada de suas origens, isto é, não mais constitui uma prática comum entre os cidadãos, que pouco debatem e quase nada decidem sobre as grandes questões da vida pública.
· Seria possível cada cidadão, como um filósofo, voltar a expressar e a discutir suas opiniões em espaço público?
· O que precisaria mudar?