PÁGINA DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
PENSAMENTO CRISTÃO
Detalhe de Verificação dos estigmas de São Francisco (1300) – Giotto. Grupo de monges e autoridades da igreja Católica buscam no corpo de Francisco de Assis os sinais da revelação e, port anto, de sua santidade.
O que transmitem as expressões dos rostos dessa imagem? O que é estigma e revelação no contexto do catolicismo? Pesquise sobre o tema.
Seguindo em nossa viagem histórica, vamos focalizar a Europa medieval – cenário em que se destacou a grande expansão e predomínio do cristianismo – e investigar como a consciência religiosa (cristã) relacionou-se com a consciência racional (filosófica). Será possível conciliar religião e filosofia, ou mesmo religião e ciência? Essa é uma questão antiga e polêmica que sempre volta à tona, até mesmo nos meios científicos atuais. Por isso, você não pode deixar de participar desse debate.
QUESTÕES FILOSÓFICAS
É possível conciliar a fé com a razão?
Por que o ser humano erra?
Qual é o valor das boas ações?
A alma é superior ao corpo?
Qual é a relação entre as palavras e as coisas?
A vida surgiu ao acaso ou faz parte de um plano maior?
Deus existe?
CONCEITOS-CHAVE
fé, razão, cristianismo, neoplatonismo, verdades reveladas, salvação, patrística, escolástica, maniqueísmo, boas obras, graça, pelagianismo, liberdade, pecado, questão dos universais, realismo, nominalismo, ser, essência, ser em geral, ser pleno
FILOSOFIA E CRISTIANISMO
Iniciemos nossa investigação analisando o contexto histórico. ao longo do século V d.C., o império romano do ocidente sofreu ataques constantes dos denominados povos bárbaros. os sucessivos e violentos confrontos, principalmente nas invasões germânicas, levaram ao esfacelamento do poder de roma. Desenvolveu-se, a partir de então, uma nova estruturação da vida social europeia, que corresponde ao período medieval.
Povos bárbaros – para os romanos, “bárbaros” eram os povos que habitavam fora das fronteiras do império e falavam outras línguas que não o latim, sua língua oficial.
Em meio a todas as mudanças, a Igreja Católica conseguiu manter-se como instituição social. Para isso, consolidou sua organização e difundiu a doutrina católica ao mesmo tempo em que incorporou e preservou muitos elementos da cultura greco-romana.
Apoiada em sua crescente influência religiosa, a igreja passou a exercer importante papel político na sociedade medieval. Desempenhou, às vezes, a função de órgão supranacional, conciliador das elites dominantes, contornando os problemas das rivalidades internas da nobreza feudal. Conquistou também enorme quantidade de bens materiais. Calcula-se que a igreja tenha se tornado dona de aproximadamente um terço das áreas cultiváveis da Europa ocidental, em uma época em que a terra era a principal base da riqueza.
No plano da cultura, a influência da igreja foi tão ampla que configurou um quadro intelectual em que a fé cristã se tornou o pressuposto (isto é, o antecedente necessário) de toda vida espiritual. isso marcou exponencialmente o pensamento filosófico produzido nesse período. Em vista disso, vamos aprofundar nossa investigação deste capítulo conhecendo um pouco mais da fé cristã.
CRISTIANISMO
Historicamente, sabemos que o cristianismo é uma religião que surgiu no interior do império romano, a partir do ano 1 de nossa era, com os seguidores dos ensinamentos de Jesus Cristo. Constituía originalmente uma corrente heterodoxa do judaísmo e, como tal, manteve as escrituras hebraicas – o que os cristãos chamam de Velho Testamento – como parte de seu livro sagrado (a Bíblia). além desse texto, incorporou a seu cânone religioso as escrituras gregas – o chamado Novo Testamento –, conjunto de livros redigidos pelos apóstolos e primeiros cristãos durante o século i d.C.
Abadia de Sainte-Foy, no sul da França. De estilo românico, sua construção iniciou-se por volta de 1041. reúne um grande tesouro em relíquias (objetos de santos ou partes de seus corpos) e obras de arte. Como instituição mais rica e influente da idade média, a igreja Católica – por meio de seus altos mandatários – financiou e inspirou grande parte da produção artística e cultural desse período.
Heterodoxo – que contraria ou não está em consonância com as opiniões predominantes ou com normas ou dogmas estabelecidos dentro de certo contexto. Seu oposto é ortodoxo.
Judaísmo – religião monoteísta do povo judeu (ou hebreu), profundamente ligada às suas tradições e cultura.
O desenvolvimento inicial do cristianismo ocorreu juntamente com a edificação da igreja Católica, instituição que se constituiria como única representante da fé cristã por muitos séculos, até o início da idade moderna. Era uma época de grande penetração da filosofia grega entre as autoridades e as camadas mais cultas da população de Roma e de suas províncias e, posteriormente, da Europa medieval.
Devido a essa relação, boa parte da doutrina cristã – que foi elaborada nesse período – integra elementos de diversas correntes do pensamento grego. A tarefa de construir essa doutrina foi realizada pelos padres da Igreja e outros expoentes eclesiásticos, com o propósito de explicar e justificar diversos aspectos de sua fé. nesse processo, porém, não se poderia, de modo algum, contrariar as verdades reveladas por Deus aos humanos ou as interpretações das escrituras sagradas que foram sendo estabelecidas pela igreja.
Padres da Igreja – denominação dada aos primeiros pensadores e escritores da igreja Católica, especialmente aqueles que viveram entre os séculos IV e VIII. a palavra padre aqui significa “pai”, no sentido de que foram eles que formularam os primeiros conceitos da fé e da tradição católicas.
Nos primeiros séculos de nossa era, as obras de Platão e de Aristóteles haviam desaparecido. assim, as principais concepções gregas absorvidas pelo cristianismo nesse período vieram de escolas filosóficas helenísticas e greco-romanas, com destaque para o estoicismo e o neoplatonismo. Este surgiu por volta do século III, realizando uma síntese entre a filosofia de Platão e certos elementos místicos, como a metafísica hindu. Propunha como realidade suprema o uno, do qual emanariam todas as outras realidades, sendo a primeira delas o logos. Seu principal expoente foi Plotino (c. 205-270).
DOUTRINAS DO ORIENTE
Séculos antes do surgimento da religião cristã, também se produziram, no oriente e no oriente médio, grandes reformas no pensamento filosófico-religioso de algumas das civilizações mais antigas do planeta, com impacto comparável ao do cristianismo no ocidente.
É que nesse período viveram homens considerados sábios ou profetas, que se tornaram grandes líderes espirituais de seus povos. Eles criticaram, reformularam ou reinterpretaram os livros sagrados, os mitos, os ídolos e muitas das crenças arcaicas de suas civilizações. Citemos alguns: na Pérsia (atual irã), o quase mítico Zoroastro (c. século VII a.C.); na Palestina, os profetas Isaías, Jeremias e Ezequiel (entre os séculos VIII e Vi a.C.); na China, Confúcio e Lao-Tsé (séculos VI-V a.C.); na Índia, Buda (c. 563-483 a.C.).
Observe que foi mais ou menos nessa mesma época que nasceu e floresceu a filosofia na Grécia. Por isso, o filósofo alemão Karl Jaspers (1883-1969) batizou esse período de era axial (relativo a eixo), pois quase ao mesmo tempo foram “plantados” novos eixos conceituais e morais em culturas tão distintas do oriente e do ocidente.
Da esquerda para a direita: Zoroastro ou Zaratustra, mítico fundador da corrente filosófico-religiosa denominada zoroastrismo; Confúcio, sábio chinês criador de uma doutrina ético-religiosa conhecida como confucionismo; Buda (ou Sidarta Gautama), sábio de origem indiana ou nepalesa, cujos ensinamentos deram origem ao budismo.
FÉ VERSUS RAZÃO
O cristianismo, como a maioria das religiões, baseia-se na fé, ou seja, na crença irrestrita ou adesão incondicional às verdades reveladas por Deus a alguns intermediários – relatadas nas Sagradas Escrituras (Bíblia) e interpretadas segundo a autoridade da igreja.
De acordo com a doutrina católica, a fé em si mesma seria a fonte mais elevada das verdades reveladas, especialmente aquelas consideradas essenciais ao ser humano e que dizem respeito à sua salvação. Nesse sentido, Santo Ambrósio (c. 340-397) – teólogo e bispo de Milão, uma das figuras eclesiásticas mais influentes do século IV – teria afirmado: “toda verdade, dita por quem quer que seja, é do Espírito Santo”.
Isso significa que toda investigação filosófica ou científica não poderia, de modo algum, contrariar as verdades estabelecidas pela fé católica. Em outras palavras, os filósofos não precisavam mais se dedicar à busca da verdade, pois ela já teria sido revelada por Deus aos seres humanos. restava-lhes apenas demonstrar racionalmente as verdades da fé.
Não foram poucos, porém, aqueles que dispensaram até mesmo essa comprovação racional da fé. Foi o caso de religiosos que desprezavam a filosofia grega, sobretudo porque viam nessa forma pagã de pensamento uma porta aberta para o pecado, a dúvida, o descaminho e a heresia.
Salvação – no contexto do cristianismo, libertação do castigo eterno, imposto por Deus a todo ser humano, pelo pecado original e os pecados cometidos durante a vida. Essa libertação seria uma concessão divina, conduzindo a um estado de felicidade eterna da alma.
Heresia – qualquer ação, palavra ou doutrina contrária ao que foi estabelecido pela igreja, em termos de fé. Em sua origem grega, heresia significava “escolha, opção, uma preferência por uma doutrina (e não outra)”. Herege era a pessoa que escolheu uma determinada heresia.
Mas houve também aqueles que defenderam o conhecimento da filosofia grega, percebendo a possibilidade de utilizá-la como instrumento a serviço do cristianismo. Conciliado com a fé cristã, esse estudo permitiria à igreja enfrentar os descrentes e derrotar os hereges empregando as armas da argumentação lógica. o objetivo seria convencê-los, tanto quanto possível, pela razão, para depois fazê-los aceitar a imensidão dos mistérios divinos, somente acessíveis pela fé.
FILOSOFIA MEDIEVAL CRISTÃ
Nesse contexto, desenvolveu-se uma produção filosófico-teológica que pode ser dividida em quatro momentos principais:
• dos padres apostólicos (séculos i e ii) – relativa ao início do cristianismo, quando os apóstolos e seus discípulos disseminaram a palavra de Cristo, sobretudo em relação a temas morais. Entre eles destacou-se Paulo de Tarso (ou São Paulo), pelo volume e valor literário de suas epístolas (cartas dirigidas às primeiras comunidades cristãs, escritas pelos apóstolos);
• dos padres apologistas (séculos iii e iV) – relativa à apologia, isto é, à defesa e ao elogio do cristianismo contra a filosofia pagã, realizada por padres e escritores eclesiásticos. Entre os apologistas destacaram-se Orígenes, Justino e Tertuliano (este último o mais intransigente na defesa da fé contra a filosofia grega);
• da patrística (de meados do século iV ao século Viii) – que pretendeu uma conciliação entre a razão e a fé, com destaque para Agostinho (ou Santo Agostinho) e a influência da filosofia platônica;
• da escolástica (do século IX ao XVI) – que buscou uma sistematização da filosofia cristã, sobretudo a partir da interpretação da filosofia de Aristóteles, com destaque para Tomás de Aquino (ou Santo Tomás de Aquino).
Com ênfase nas questões teológicas, essa produção filosófica centrou-se em temas como o dogma da trindade, a encarnação de Deus-filho, a liberdade e a salvação, a relação entre fé e razão, entre outros. Vamos estudar neste livro os dois momentos mais importantes da filosofia medieval no contexto da cristandade: a patrística e a escolástica.
OBSERVAÇÃO
Há também uma produção filosófica medieval que progressivamente se desvinculou da tradição cristã (Roger Bacon, Guilherme de Ockham, entre outros), bem como uma filosofia não europeia e não cristã (Avicena, Averróis, Maimônides, entre outros).
2. PATRÍSTICA: A MATRIZ PLATÔNICA DE APOIO À FÉ
Como acabamos de ver, a partir do século iV os primeiros padres da igreja empenharam-se na elaboração de diversos textos sobre a revelação e a fé cristãs, cujo conjunto ficou conhecido como patrística (por terem sido escritos principalmente por esses grandes padres da igreja). uma das principais correntes da filosofia patrística, inspirada na filosofia greco-romana, tentou munir a fé de argumentos racionais, ou seja, buscou a conciliação entre o cristianismo e o pensamento pagão. Seu principal expoente foi Agostinho, posteriormente consagrado santo pela igreja Católica.
SANTO AGOTINHO
Aureliano Agostinho (354-430) nasceu em Tagaste e faleceu em Hipona, ambas cidades da província romana da numídia, na África, e que hoje pertencem à Argélia. nessa última cidade viria a ocupar o cargo de bispo da igreja Católica. Professor de retórica em escolas romanas, agostinho despertou para a filosofia com a leitura de Cícero (106-43 a.C.), orador e político romano que se caracterizou por seu ecletismo, tendência filosófica que buscava um acordo entre os ensinamentos de distintas escolas (platônica, aristotélica, hedonista etc.).
Santo Agostinho (1480) – Sandro Botticelli, afresco. além dos muitos escritos que produziu, o filósofo presidia o culto público diariamente e dedicava-se a pregações. Exerceu grande influência no pensamento cristão ocidental e polemizou com aqueles que contrariavam a ortodoxia da doutrina cristã de sua época.
Posteriormente, deixou-se influenciar pelo maniqueísmo, doutrina persa que afirmava ser o universo dominado por dois grandes princípios opostos, o bem e o mal, em uma incessante luta entre si. mais tarde, já insatisfeito com o maniqueísmo, agostinho passou a lecionar em Roma e posteriormente em Milão. nesse período entrou em contato com o ceticismo e, depois, com o neoplatonismo. Então cresceu e aprofundou-se nele uma grande crise existencial. Foi nesse período crítico que se sentiu atraído pelas pregações de Santo Ambrósio, bispo de Milão. Pouco tempo depois, converteu-se ao cristianismo e tornou-se seu grande defensor pelo resto da vida.
SUPERIORIDADE DA ALMA
Em sua obra, agostinho argumenta em favor da supremacia do espírito sobre o corpo (a matéria). Para ele, a alma teria sido criada por Deus para reinar sobre o corpo, dirigindo-o para a prática do bem. o pecador, entretanto, utilizando-se do livre-arbítrio (conceito que veremos adiante), costumaria inverter essa relação, fazendo o corpo assumir o governo da alma. Provocaria, com isso, a submissão do espírito à matéria, o que seria, para agostinho, equivalente à subordinação do eterno ao transitório, da essência à aparência. a verdadeira liberdade, para agostinho, estaria na harmonia das ações humanas com a vontade de Deus e seria obtida pelo caminho ascendente, que vai do mundo exterior dos sentidos ao mundo interior do espírito. Ser livre é servir a Deus, diz o filósofo, pois o prazer de pecar é a escravidão. Ser livre é fazer o que se deve, inspirado no amor verdadeiro a Deus.
BOAS OBRAS OU GRAÇA DIVINA
Segundo o filósofo, o ser humano que trilha a via do pecado só consegue retornar aos caminhos de Deus e da salvação mediante a combinação de seu esforço pessoal de vontade e a concessão, imprescindível, da graça divina. Sem a graça de Deus, o ser humano nada pode conseguir. Essa graça, no entanto, seria concedida apenas aos predestinados à salvação.
A questão da graça, como é colocada pelo filósofo, marcou profundamente o pensamento medieval cristão. E a doutrina da predestinação à salvação foi posteriormente adotada por alguns ramos da teologia protestante (reforma Protestante). na mesma época de agostinho, outro teólogo – Pelágio –, afirmava que a boa vontade e as boas obras humanas seriam suficientes para a salvação individual. Seus ensinamentos constituíram a doutrina do pelagianismo, contra a qual se colocou agostinho. no concílio de Cartago do ano de 417, o papa Zózimo condenou o pelagianismo como heresia e adotou a concepção agostiniana de necessidade da graça divina, doada por Deus aos seus eleitos.
A condenação do pelagianismo explica-se pelo fato de que conservava a noção grega de autonomia da vida moral humana, isto é, a noção de que o indivíduo pode salvar-se por si só (isto é, sendo bom e fazendo boas obras), sem a necessidade da ajuda divina. Essa noção chocava-se com a ideia de submissão total do ser humano ao Deus cristão, defendida pela igreja. “o fato de assim a igreja ter se pronunciado por tal doutrina assinalou o fim da ética pagã e de toda a filosofia helênica.” (Pohlenz, citado em Reale e antiseRi, História da filosofia, v. 1, p. 433.)
Uma consequência dessa posição foi a ênfase que passou a ser dada ao “voltar-se a si mesmo”: seria apenas pelo cultivo da interioridade que se chegaria à visão das verdades essenciais, no entendimento de que é Deus o nosso mestre interior, o Ser que irradia sua luz no mais íntimo da nossa alma.
LIBERDADE E PECADO
Outro aspecto fundamental da filosofia agostiniana é o entendimento de que a vontade não é uma função específica ligada ao intelecto, conforme diziam os gregos: ela é um impulso que nos inclina, desde nosso nascimento, às paixões pecaminosas. agostinho reiterava, assim, as palavras do apóstolo Paulo: “não faço o bem que quero, mas o mal que não quero. ora, se faço o que não quero, não sou quem age, mas o pecado que habita em mim” (romanos, cap. 7, vers. 19-20). Portanto, para o filósofo medieval, a liberdade humana derivaria de uma vontade viciada que alimenta o pecado – não da razão que tende a discernir o que é bom do que é mau.
Adão e Eva no Jardim do Éden (século XVi) – Pere mates. Segundo a tradição bíblica, os primeiros humanos, adão e Eva, cometeram o pecado original ao desobedecer a ordem divina de não comer da árvore proibida, sendo, por isso, expulsos do paraíso. Para Santo agostinho, desde então a humanidade carrega a culpa de ter sucumbido à tentação e aberto as portas para o mal.
Agostinho contrapõe-se, dessa forma, ao intelectualismo moral, que teve sua expressão máxima em Sócrates (recorde que, no pensamento socrático-platônico, há uma hegemonia da alma racional e que a pessoa pode chegar ao bem por meio da ascensão dialética, isto é, pela razão e o conhecimento). Sobre o pecado, o pensador cristão comenta:
O ouro, a prata, os corpos belos e todas as coisas são dotadas dum certo atrativo. O prazer de conveniência que se sente no contato da carne influi vivamente. Cada um dos outros sentidos encontra nos corpos uma modalidade que lhes corresponde. Do mesmo modo a honra temporal e o poder de mandar e dominar encerram também um brilho, donde igualmente nasce a avidez e a vingança. [...] A vida neste mundo seduz por causa duma certa medida de beleza que lhe é própria, e da harmonia que tem com todas as formosuras terrenas. Por todos estes motivos e outros semelhantes, comete-se o pecado, porque, pela propensão imoderada para os bens inferiores, embora sejam bons, se abandonam outros melhores e mais elevados, ou seja, a Vós, meu Deus, à vossa verdade e à vossa lei. (Santo agoStinho, Confissões, p. 33.)
Por isso, para agostinho, o ser humano não pode ser autônomo, isto é, deliberar livremente sobre sua conduta, pois sempre estará inclinado ao mal e a praticar o pecado. Somente com a graça divina ele poderá se salvar.
PRECEDÊNCIA DA FÉ
Agostinho também discutiu a diferença entre fé cristã e razão, afirmando que a fé nos faz crer em coisas que nem sempre entendemos pela razão: “creio tudo o que entendo, mas nem tudo que creio também entendo. tudo o que compreendo conheço, mas nem tudo que creio conheço” (Santo Agostinho, De magistro, p. 319).
Inspirando-se no profeta bíblico Isaías, dizia ser necessário crer para compreender, pois a fé ilumina os caminhos da razão, e a compreensão nos confirma a crença posteriormente. isso significa que, para agostinho, a fé revela verdades ao ser humano de forma direta e intuitiva. Depois vem a razão, desenvolvendo e esclarecendo aquilo que a fé já antecipou. Portanto, há para ele uma precedência da fé sobre a razão.
INFLUÊNCIA HELENÍSTICA
Vemos, assim, que o pensamento agostiniano reflete, em grande medida, os principais passos de sua trajetória intelectual anterior à conversão ao catolicismo, quando sofreu a influência do pensamento helenístico.
Do maniqueísmo, o filósofo herdou uma concepção dualista no âmbito moral, simbolizada pela luta entre o bem e o mal, a luz e as trevas, a alma e o corpo. nesse sentido, dizia que o ser humano tem uma inclinação natural para o mal, para os vícios, para o pecado. insistia em que já nascemos pecadores (pecado original) e somente um esforço consciente pode nos fazer superar essa deficiência “natural”. Considerando o mal como o afastamento de Deus, defendia a necessidade de uma intensa educação religiosa, com a finalidade de reduzir essa distância.
Do ceticismo, ficou a permanente desconfiança nos dados dos sentidos, isto é, no conhecimento sensorial, que nos apresenta uma multidão de seres mutáveis, flutuantes e transitórios. Do platonismo, agostinho assimilou a concepção de que a verdade, como conhecimento eterno, deveria ser buscada intelectualmente no “mundo das ideias”. Por isso defendeu a via do autoconhecimento, o caminho da interioridade, como instrumento legítimo para a busca da verdade. assim, somente o íntimo de nossa alma, iluminada por Deus, poderia atingir a verdade das coisas. Da mesma forma que os olhos do corpo necessitam da luz do sol para enxergar os objetos do mundo sensível, para ele, os “olhos da alma” necessitam da luz divina para visualizar as verdades eternas da sabedoria.
3. ESCOLÁSTICA: A MATRIZ ARISTOTÉLICA ATÉ DEUS
Voltando ao contexto histórico, no século Viii, Carlos magno, rei dos francos coroado imperador do ocidente em 800 pelo papa leão iii, organizou o ensino e fundou escolas ligadas às instituições católicas. Com isso, a cultura greco-romana, em boa parte guardada nos mosteiros, voltou a ser mais divulgada, passando a ter influência marcante nas reflexões da época. Era o período da renascença carolíngia.
Renascença carolíngia: refere-se ao estímulo dado à atividade cultural (letras, arte, educação) que marcou o governo de Carlos magno. a obra realizada nessa época muito contribuiu para a preservação e a transmissão da cultura da antiguidade clássica.
Adotou-se nessas escolas a educação romana como modelo. Começaram a ser ensinadas matérias como o trivium (gramática, retórica e dialética) e o quadrivium (geometria, aritmética, astronomia e música). todas elas, no entanto, estavam submetidas à teologia.
Com o ambiente cultural dessas escolas e o surgimento posterior das primeiras universidades (a partir do século Xi), desenvolveu-se uma produção filosófico-teológica denominada escolástica (palavra derivada de escola).
A escolástica não abandonou, em um primeiro momento, a filosofia platônica, especialmente o neoplatonismo. mas, a partir do século Xiii, o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico, marcando-o definitivamente. isso se deveu à descoberta de muitas obras de Aristóteles, desconhecidas até então, e à tradução para o latim de algumas delas, diretamente do grego.
Alegoria das artes liberais (século XV) – Biagio d’antonio.
De baixo para cima: Donato (ou Prisciano) com a gramática, à esquerda da porta da sabedoria; Cícero com a retórica; Aristóteles com a dialética; Tubalcain com a música; Ptolomeu com a astronomia; Euclides com a geometria; e Pitágoras com a matemática.
OS FILÓSOFOS ARABES
Antes da descoberta das obras de Aristóteles em grego, os europeus só conheciam uma pequena parcela de seu pensamento. E o que conheciam vinha de traduções e comentários feitos por filósofos árabes, como Avicena (980-1037) e Averróis (1126- -1198). Foi por meio deles que suas obras de física, metafísica e ética chegaram à Europa. os árabes entraram em contato com o pensamento aristotélico a partir do século Vi, quando iniciaram uma série de guerras religiosas para difundir o islamismo. Primeiro conquistaram parte do oriente, onde entraram em contato com a cultura grega, que influenciava essas regiões desde as conquistas de Alexandre Magno.
Depois, em 711, dominaram parte da península ibérica e, a partir dessa região, passaram a exercer uma influência notável sobre vários setores da cultura europeia, tanto na arquitetura como na literatura, nas ciências e na filosofia.
Filósofo, médico e cientista, Avicena (esquerda) era persa (Coleção particular). Averróis (ao lado), por sua vez, nasceu e viveu em Córdoba, Espanha, durante a ocupação muçulmana da península ibérica (séculos VIII-XV).
RELAÇÃO ENTRE FÉ E RAZÃO
No período escolástico, a busca de harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se como problema básico de especulação filosófica. nesse contexto, a escolástica pode ser dividida em três fases:
• primeira fase (do século IX ao fim do século XII) – confiança na perfeita harmonia entre fé e razão;
• segunda fase (do século XIII ao princípio do século XIV) – elaboração de grandes sistemas filosóficos, merecendo destaque as obras de Tomás de Aquino. nessa fase, considera-se que a harmonização entre fé e razão pode ser parcialmente obtida;
• terceira fase (do século XiV até o século XVi) – declínio da escolástica, marcada por disputas que realçam as diferenças entre fé e razão.
ESTUDO DA LÓGICA
Além de apresentar o traço fundamental da filosofia medieval, que é a referência às questões teológicas, a escolástica promoveu significativos avanços no estudo da lógica.
Um dos filósofos que mais contribuíram para o desenvolvimento dos estudos lógicos nesse período foi o romano Boécio, que, embora tenha vivido de 480 a 524, é considerado o primeiro dos escolásticos. Ele aperfeiçoou o quadrado lógico também foi o primeiro a introduzir a questão dos universais, problema filosófico longamente discutido durante todo o período da escolástica.
QUESTÃO DOS UNIVERSAIS
Essa questão surgiu no contexto em que se desenvolveu o método escolástico de investigação.
Como observou o historiador francês Jacques le Goff, esse método privilegiava o estudo da linguagem (as três matérias que compunham o trivium) para depois passar ao exame das coisas (as quatro matérias do quadrivium). Desse modo, era inevitável que, em algum momento, alguém levantasse a seguinte pergunta: qual a relação entre as palavras e as coisas?
Rosa, por exemplo, é o nome de uma flor. quando a flor morre, a palavra rosa continua existindo. nesse caso, a palavra fala de uma coisa inexistente, de uma ideia geral. mas por que isso acontece? o grande inspirador da questão foi o filósofo neoplatônico Porfírio (234-305, aproximadamente), em sua obra Isagoge:
Não tentarei enunciar se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na pura inteligência, nem, no caso de subsistirem, se são corpóreos ou incorpóreos, nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos, formando parte dos mesmos. (Citado em VaLVERDE et al., Hist—ria do Pensamento, v. 1, p. 161.)
Ou seja, o problema foi colocado de qualquer maneira, gerando muitas disputas. trata-se da discussão sobre a existência ou não das ideias gerais, os chamados termos universais – que correspondem à substância, uma das dez categorias de termos ou predicados de Aristóteles (como vimos no capítulo 5). Por isso, ficou conhecida como a questão dos universais.
Tal debate envolveu não apenas problemas linguísticos, gnoseológicos e metafísicos, mas também teológicos, dando origem a duas posições antagônicas básicas: o realismo e o nominalismo.
REALISMO
Os adeptos do realismo sustentavam a tese de que os universais existem de fato, ou seja, as ideias universais possuem existência própria. Por exemplo: a bondade e a beleza são modelos ou moldes a partir dos quais se criam as coisas boas e as coisas belas. os termos universais seriam, portanto, entidades metafísicas, essências separadas das coisas individuais.
Essa posição foi defendida, por exemplo, pelo abade beneditino e arcebispo de Cantuária (Canterbury, cidade inglesa) Santo Anselmo (1035-1109), que acreditava que as ideias universais existiriam na mente divina.
O filósofo e bispo francês Guilherme de Champeaux (1070-1121) também adotou a interpretação realista ao propor que entre o universo das coisas e o universo dos nomes há uma analogia tal que, quanto mais “universal” for o termo gramatical, maior será seu grau de participação na perfeição original da ideia. assim, por exemplo, o substantivo brancura teria uma perfeição maior do que o adjetivo branco, que se refere a um ente singular. ou seja, na mesma linha de raciocínio de Platão, o universal brancura seria mais perfeito do que qualquer coisa branca existente.
NOMINALISMO
Os defensores do nominalismo, por sua vez, sustentavam a tese de que os termos universais, tais como beleza e bondade, não existem em si mesmos, pois são somente palavras, sem existência real. Para os nominalistas, o que há são apenas os seres singulares, e o universal não passa, portanto, de um nome, uma convenção.
Essa era a posição do filósofo francês Roscelin de Compiègne (1050-1120), para quem só existiria a individualidade – logo, anulam-se os termos universais. Roscelin também negava que Deus pudesse ser uno e trino ao mesmo tempo (a chamada Santíssima trindade, um dos dogmas da igreja Católica), porque para ele cada pessoa da trindade seria uma individualidade separada.
REALISMO MODERADO
Entre essas duas posições contrárias surgiu uma terceira, o realismo moderado, sustentado por Pedro Abelardo (1079-1142). Para esse filósofo francês, só existem as realidades singulares, mas é possível buscar semelhanças entre os seres individuais, por meio da abstração, de maneira tal a gerar os conceitos universais.
Filósofo de grande prestígio, Pedro Abelardo desenvolveu a reflexão no campo da lógica e mostrou-se um humanista no campo da ética. Em relação à teologia, acreditava ser necessário “entender para crer”, cultivando a razão crítica, o que suscitou ásperas polêmicas com os pensadores conservadores de seu tempo.
Esses conceitos não seriam, de acordo com Abelardo, nem entidades metafísicas (posição do realismo) nem palavras vazias (posição do nominalismo), mas discursos mentais, categorias lógico- -linguísticas que fazem a mediação, a ligação entre o mundo do pensamento e o mundo do ser.
A importância da questão dos universais está não só no avanço que essa discussão possibilitou em relação à investigação sobre o conhecimento e seus vínculos com a realidade, mas também porque, por meio dela, alcançou-se um alto nível de desenvolvimento lógico-linguístico. isso propiciou o fortalecimento de uma razão autônoma em relação à teologia, já por volta do século XII.
SANTO TOMÁS DE AQUINO
Tomás de Aquino nasceu em Nápoles, sul da Itália. Proclamado pela igreja Católica como Doutor angélico e Doutor por Excelência, é considerado um dos maiores filósofos da escolástica e reverenciado nos meios católicos por filósofos e professores de filosofia.
A filosofia de Tomás de Aquino (1226-1274) – o tomismo – também teve o objetivo claro de não contrariar a fé, empenhando-se em organizar um conjunto de argumentos para demonstrar e defender as revelações do cristianismo.
Tomás de Aquino reviveu em grande parte o pensamento aristotélico em busca de argumentos que explicassem os principais aspectos da fé cristã. assim, fez da filosofia de Aristóteles um instrumento a serviço da solução dos problemas teológicos que enfrentava, ao mesmo tempo em que transformou essa filosofia em uma síntese original. Sobre Tomás de Aquino, escreveu o filósofo católico francês Jacques Maritain (1882-1973):
Não só transportou para o domínio do pensamento cristão a filosofia de Aristóteles na sua integridade, para fazer dela o instrumento de uma síntese teológica admirável, como também e ao mesmo tempo superelevou e, por assim dizer, transfigurou essa filosofia. Purificou-a de todo vestígio de erro [...] sistematizou-a poderosa e harmoniosamente, aprofundando-lhe os princípios, destacando as conclusões, alargando os horizontes, e se nada cortou, muito acrescentou, enriquecendo-a com o imenso tesouro da tradição latina e cristã. (Introdução geral à filosofia, p. 65.)
PRINCÍPIOS BÁSICOS
Princípios básicos retomando as ideias de Aristóteles sobre o ser e o saber, Tomás de Aquino enfatizou a importância da realidade sensorial, ressaltando uma série de princípios considerados básicos, dentre os quais se destacam:
• princípio da não contradição – o ser é ou não é. não existe nada que possa ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista;
• princípio da substância – na existência dos seres podemos distinguir a substância (a essência propriamente dita de uma coisa, sem a qual ela não seria aquilo que é) do acidente (a qualidade não essencial, acessória do ser);
• princípio da causa eficiente – todos os seres que captamos pelos sentidos são seres contingentes, isto é, não possuem em si próprios a causa eficiente de suas existências. Portanto, para existir, o ser contingente depende de outro ser que representa sua causa eficiente, chamado de ser necessário;
• princípio da finalidade – todo ser contingente existe em função de uma finalidade, de uma “razão de ser”. Enfim, todo ser contingente possui uma causa final;
• princípio do ato e da potência – todo ser contingente possui duas dimensões: o ato e a potência. o ato representa a existência atual do ser, aquilo que está realizado e determinado. A potência representa a capacidade real do ser, aquilo que não se realizou mas pode se realizar. É a passagem da potência para o ato que explica toda e qualquer mudança.
Vemos, portanto, uma pequena mostra de como o filósofo escolástico empreendeu uma sistematização da doutrina cristã apoiando-se em boa medida na filosofia aristotélica, embora de forma combinada com diversos elementos estranhos ao aristotelismo, como o conceito de criação do mundo, a noção de um deus único e a ideia de que o vir a ser (a passagem da potência ao ato) não é autodeterminado, mas procede de Deus.
SER E ESSÊNCIA
Uma novidade trazida por Tomás de Aquino é a distinção entre o ser (ou a existência) e a essência, o que implicou a divisão da metafísica em duas partes: a do ser em geral e a do ser pleno, que é Deus.
De acordo com o filósofo, em todas as criaturas o ser (ou existir) é diferente de sua essência. Para um ser humano, por exemplo, existir é continuar sendo sua essência (um ser humano); quando ele deixa de existir, sua essência desaparece. o único ser realmente pleno, no qual o ser (ou existir) e a essência se identificam, é Deus. Deus é ato puro. não há o que realizar ou atualizar em Deus, pois ele é completo.
Por isso, Tomás de Aquino dizia que Deus é Ser, e o mundo tem ser. ou seja, Deus é o Ser que existe como fundamento da realidade das outras essências, as quais, uma vez existentes, participam de seu Ser. Já nas outras criaturas, o ser é diferente da essência, pois são seres não necessários. É Deus que permite às essências realizarem-se em entes, em seres existentes.
PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS
Outro aspecto importante da filosofia tomista são suas provas da existência de Deus. Em um de seus mais famosos livros, a Suma teológica, tomás de aquino propõe cinco vias como provas, fundamentadas na existência do mundo e na experiência (ou seja, são provas a posteriori). a ideia básica é a de que, se existe o efeito (o mundo), existe a causa (um ser transcendente, Deus). Vejamos:
• o primeiro motor (1a prova) – tudo aquilo que se move é movido por outro ser. Esse outro ser, por sua vez, para se mover necessita também ser movido por outro ser, e assim sucessivamente. Se não houvesse um primeiro ser movente, cairíamos em um processo indefinido. logo, conclui tomás de aquino, é necessário chegar a um primeiro ser movente que não seja movido por nenhum outro. Esse ser é Deus;
• a causa eficiente (2a prova) – todas as coisas existentes no mundo não possuem em si a causa eficiente de suas existências. Devem ser consideradas efeitos de alguma causa. tomás de aquino afirma ser impossível remontar indefinidamente à procura das causas eficientes. logo, é necessário admitir a existência de uma primeira causa eficiente, responsável pela sucessão de efeitos. Essa causa primeira é Deus;
• ser necessário e ser contingente (3a prova) – esse argumento, uma variante do segundo, afirma que todo ser contingente, do mesmo modo que existe, pode deixar de existir. ora, se todas as coisas que existem podem deixar de ser, então em algum momento nada existiu. mas, se assim fosse, também agora nada existiria, pois aquilo que não existe somente começa a existir em função de algo que já existia. Então é preciso admitir que há um ser que sempre existiu, um ser absolutamente necessário, que não tenha fora de si a causa de sua existência, mas, ao contrário, que seja a causa da necessidade de todos os seres contingentes. Esse ser necessário é Deus;
• os graus de perfeição (4a prova) – em relação à qualidade de todas as coisas existentes, pode-se afirmar que há graus diversos de perfeição. assim, estabelecemos que tal coisa é melhor que outra, ou mais bela, ou mais poderosa, ou mais verdadeira etc. ora, se uma coisa possui “mais” ou “menos” determinada qualidade positiva, isso supõe que deva existir um ser com o máximo dessa qualidade, no nível da perfeição. Devemos admitir, então, que existe um ser com o máximo de bondade, de beleza, de poder, de verdade, sendo, portanto, um ser máximo e pleno. Esse ser é Deus;
• a finalidade do ser (5a prova) – todas as coisas brutas, que não possuem inteligência própria, existem na natureza cumprindo uma função, um objetivo, uma finalidade, tal como a flecha orientada pelo arqueiro. Devemos admitir, então, que existe algum ser inteligente que dirige todas as coisas da natureza para que cumpram seu objetivo. Esse ser é Deus.
O primeiro dia (1794) – William Blake. assim como Tomás de Aquino buscou provar a existência de Deus (o Deus cristão), vários outros pensadores também tentaram demonstrar em suas metafísicas a necessidade racional de haver uma realidade criadora ou fundadora de tudo o que existe. Seria um “Deus dos filósofos”, da ordem ou racionalidade. Séculos depois, o pintor William Blake buscou retratar, de forma crítica, essa concepção de Deus.
A ESCOLÁSTICA PÓS-TOMISTA
Grandes acontecimentos históricos marcaram a Europa nos séculos XIII e XIV, como a Guerra dos Cem anos, entre França e Inglaterra; a epidemia da peste bubônica, que matou cerca de três quartos da população europeia; o cisma definitivo entre as igrejas do ocidente e do oriente, que, entre outros fatores, diminuiu a influência da igreja Católica romana sobre o poder temporal (o Estado) e sobre a população; a criação de novas universidades, que iniciaram o desenvolvimento de questões relativas às ciências naturais e o processo de autonomia da filosofia em relação à teologia.
Esses são alguns dos fatos que marcaram o fim da idade média na periodização tradicional da história, coincidindo com o questionamento do pensamento tomista.
Entre os filósofos mais significativos desse período estão os ingleses Roberto Grosseteste (1168-1243) e Roger Bacon (1214-1292), que iniciaram uma investigação experimental no campo das ciências naturais que abriu caminho para a ciência moderna. outro inglês, Guilherme de Ockham (1280 - -1349), proclamou uma distinção absoluta entre fé e razão. Para Ockham, a filosofia não seria serva da teologia, e a teologia não poderia sequer ser considerada ciência, pois seria tão somente um corpo de proposições mantidas não pela coerência racional, mas pela força da fé.
Pensador empirista e nominalista, Ockham combateu a metafísica tradicional e empenhou-se na construção do método da pesquisa científica moderna. Entre suas contribuições mais conhecidas destaca-se a chamada navalha de Ockham
Detalhe de São Boaventura – Cavazzola. Giovanni Fidanza, mais conhecido como São Boaventura ou Doutor Seráfico, temia que a filosofia suplantasse a teologia e que a razão se tornasse mais importante que a revelação. Por isso, iniciou uma reação contra a filosofia tomista e buscou recuperar a tradição platônica agostiniana. mais tarde essa reação seria desenvolvida pelos filósofos e teólogos franciscanos, sobretudo na universidade de oxford, Inglaterra